“AN NÁSS” (OS HUMANOS)

Revelada em Makka; 6 versículos.
114ª SURATA
Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso.
1 Dize: Amparo-me(1944)
no Senhor dos humanos(1945)
,
2 O Rei dos humanos,
3 O Deus dos humanos,
4 Contra o mal do sussurro do malfeitor,
5 Que sussurra aos corações dos humanos,
6 Entre gênios e humanos!
1. Por consentimento unânime esta surata foi colocada no
princípio do Alcorão, para recapitular em palavras
maravilhosamente sucintas e compreensivas, a relação do
homem com Deus, em contemplação e oração. Em nossa
contemplação espiritual as primeiras palavras devem ser
de louvor. Se isto provier do nosso ser interior, por certo
nos colocará em comunhão com a Vontade Divina. Então,
tudo o que os nossos olhos vislumbrarão será a
benevolência, a paz e a harmonia. Não existirão, para vós,
o mal, a rebeldia e a beligerância, porquanto os nossos
olhos estarão voltados para um ângulo superior, em
contemplação. Por outro lado, Deus não necessita de
encômios, uma vez que está acima de qualquer
panegírico, não necessita de rogos, porquanto avalia as
nossas carências melhor do que nós mesmos; e a Sua
benevolência está à disposição tanto do justo, como do
pecador. A oração será tão-somente para a nossa
educação espiritual, para o nosso consolo e para a nossa
confirmação. Eis a nossa educação espiritual, para o nosso
consolo e para a nossa confirmação. Eis porque as
palavras da surata nos são fornecidas de forma que
possamos exteriorizá-las. À medida que nos tornemos
mais esclarecidos, tanto melhor elas fluirão de nós.
2. As palavras árabes “Rahman” e “Rahim”, que
traduzimos por Clemente e Misericordioso,
respectivamente, são formas intensivas que se referem
aos diferentes aspectos do atribulo da clemência de Deus.
A forma intensiva árabe é mais adequada para expressar
os atributos de Deus do que o grau superlativo português.
Este implica comparação com outros seres ou com outros
tempos e lugares, ao passo que não há ser algum que se
compare a Deus, sendo Ele independente de tempo ou
lugar.
3. A palavra árabe “Rabb”, traduzida por Senhor, também
tem significado de acarinhar, nutrir, fazer amadurecer.
Deus cuida de todo o universo que criou.
4. Note-se que as palavras relacionadas com “a graça”
estão intrinsecamente ligadas a Deus, e que as
relacionadas com a abominação são impessoais. No
primeiro caso, a graça de Deus nos alcança,
independentemente do nosso merecimento, no segundo,
as nossas próprias ações é que são responsáveis pela
abominação.
5. São letras do alfabeto árabe. Deus iniciou com elas esta
surata, para assinalar o mistério do Alcorão Sagrado,
formado de letras idênticas àquelas com que os árabes
formam os seus vocábulos, salientando com isso a
incapacidade deles em produzir algo semelhante ao
Alcorão. São também designativas de sinal de atenção,
para que se ouça a recitação dos versículos.
6. Deparamo-nos agora com uma terceira classe de
pessoas: os hipócritas. São inverossímeis para consigo
mesmos e, por isso, os seus corações são mórbidos
(versículo 10). A morbidez tende a espalhar-se, como tudo
o que é maléfico. Entretanto, isso é suscetível de cura;
porém, se empedernirem os seus corações, logo estarão
na categoria daqueles que deliberadamente rejeitaram a
elucidação.
7. A adoração é um ato de mais alta humildade, reverência
e culto. Quando nos colocamos em comunhão com Deus,
Que é nosso Criador e Guardião, a nossa fé evidencia
obras de retidão, concedendo-nos uma chance; seremos
nós capazes de exercitar o nosso livre-arbítrio e aproveitá-
lo? Se o fizermos, toda a nossa natureza será
transformada.
8. Abundantes provas da benevolência de Deus são
evidenciadas nestes versículos. Toda a nossa vida,
material e espiritual, depende d’Ele. A espiritual é
simbolizada pela abóbada celeste. A verdade foi trazida
abertamente, perante nós. Resistiremos a ela, buscando
falsas divindades, frutos da nossa imaginação? Pode
ocorrer que as falsas divindades sejam ídolos,
superstições, o ego, ou mesmo as grandes e gloriosas
coisas, como a poesia, a arte e a ciência, quando
atribuídas à semelhança de Deus. Pode ser que se trate do
orgulho da raça, do berço, da riqueza, da posição, do
poder, do aprendizado, ou mesmo do orgulho espiritual.
9. Esta é uma antítese do versículo precedente. Se a
labareda é o símbolo do castigo, o jardim é o símbolo da
felicidade.
10. “Mosquito”, alcunha da língua árabe para a mais débil
das criaturas. Na 29ª Surata, que foi revelada antes desta,
foi usada “aranha”, à semelhança de “mosquito”; e na 22ª
Surata, há ainda a mesma semelhança em “mosca”.
11. Os significados literais em árabe, nesta passagem,
são: Todos os nomes dos seres e das coisas”, que muitos
exegetas tomam como significando a natureza intrínseca
dos seres e das coisas; e “coisas”, aqui, incluiriam os
sentimentos.
12. A frase: “Todos se prostram, exceto Lúcifer”, leva-nos a
presumir que Iblis(Lúcifer) seria um dos anjos. Porém, o
termo “anjos caídos” não é comumente aceito pela teologia
muçulmana. No versículo 50 da 18ª Surata, Iblis é descrito
como sendo um Jinn (Gênio).
13. Seria o Paraíso um lugar nesta terra: obviamente não.
Porque, segundo o versículo subseqüente, o 36, foi depois
da Queda que a sentença foi pronunciada: “Na terra tereis
residência a gozo transitórios”. Antes da Queda, é de
supor-se que o homem estivesse em outro plano – de
felicidade, inocência, confiança, enfim, numa existência
espiritual, onde imperava a negação da inimizade,
prevalecia o desejo da fé, e de onde se bania todo o
malefício. Talvez o tempo e o espaço também não
existissem, e o Paraíso fosse algo alegórico, como a
árvore. Esta não era a do conhecimento, porquanto foi
concedido ao homem, naquele perfeito estado, um
conhecimento mais pleno do que o que ele desfruta
atualmente; era a árvore do mal, de cujos frutos ele ficou
proibido, não só de comer, mas também de se aproximar.
14. O decreto de Deus é o re
na 1ª pessoa do plural, “Nós; é o plural de majestade, que
também é aplicado na linguagem profana, em
proclamações e decretos régios. Porém, quando é
estabelecida uma relação especial e pessoal, o singular
“Eu” ou “Me” é empregado.
17. O argumento é dirigido aos judeus; porém tem
aplicação universal, como têm todos os ensinamentos do
Alcorão. A principal característica da adoração judaica
consistia na prostração. Quanto ao zakat, significa
pagamento, purificação e aumento, em vez que, mediante
a pagamento de uma taxa fixa ao Estado, para ser usada
em prol dos pobres e necessitados, o doador purifica a
lama, ao mesmo tempo em que fatalmente terá os seus
bens aumentados, pelas mercês de Deus. Constitui o
terceiro pilar do Islam, e foi explicado pelos jurisprudentes
muçulmanos, que descreveram as pessoas que são
obrigadas a pagá-lo, bem como a quantia a ser paga.
18. Isto ocorreu depois que os Dez Mandamentos, as Leis
e as Ordenações foram instituídos, no Monte Sinai. Moisés
foi chamado ao Monte, e lá esteve durante quarenta dias e
quarenta noites (Êxodo 24:18). O povo, porém, ficou
impaciente com a demora, e fabricou um bezerro de ouro
fundido, dispensado-lhe adoração e sacrifícios(Êxodo
32:8).
19. Pode ser que a alocução de Moisés esteja construída
literalmente, ou seja traduzida, sendo que em ambos os
casos reproduzem perfeitamente o Êxodo 32:27-28, mas
de uma forma branda, porquanto o Velho Testamento diz:
“passai e tornai pelo arraial de porta em porta, que mate
cada um a seu irmão, e cada um a seu amigo, e cada um a
seu próximo…e o número de pessoas, naquele dia, ficou
reduzido de 3.000”. uma versão mais humanitária afirma
que houve uma ordem de escravização, por meio de
julgamento, que foi retirada, porque Deus os perdoou. A
palavra traduzida aqui por Criador (Bári) possui, também,
um toque da raiz que significa “Libertador”, termo este
apropriado, com referência aos israelitas tinham sido
libertados da servidão em terras egípcias.
20. Maná – hebraico Man-hu, árabe Man-na. No Êxodo,
16:14, é descrito como “uma coisa pequena e redonda,
igual a geada espargida pelo chão”. Se deixado para o dia
seguinte, ele geralmente se deteriorava, derretia-se à
soalheira; a quantidade necessária para alimentar um
homem era de aproximadamente um ômer, medida
hebraica de capacidade, igual a cerca de 2,937 litros. Isto,
segundo os hebreus, foi provavelmente distorcido, levados
que são pelo tradicional exagero. O maná verdadeiro,
encontrado presentemente na região do Sinai, é uma
secreção gomosa e sacarina, que se obtém de certas
secreções da tamargueira. É produzida pela punctura de
uma espécie de inseto, igual à cochonilha, assim como a
laca é produzida pela punctura de um inseto em algumas
árvores da Índia. Quanto às codornizes, grandes bandos
delas voam à deriva dos ventos do Mediterrâneo Oriental,
em certas estações do ano.
21. Provavelmente, refere-se a Cetim. Era a “cidade das
acácias”, bem a leste do Jordão, onde os israelitas eram
afeitos à devassidão, à adoração de falsos deuses, bem
como ao sacrifício a eles (Números 25:1-2 e 8-9).
Desencadeou-se sobre eles um terrível castigo, incluindo a
praga, em que morreram 24.000 pessoas. A palavra que
os transgressores mudaram talvez se tratasse da palavra
chave. No texto árabe é Híttatun e compreende a
humildade e a oração pelo perdão, um emblema de luta
para distingui-los dos seus inimigos.
22. O jorro dos doze mananciais, provindos da rocha,
evidentemente se refere à tradição local, próximo ao Monte
Sinai, onde a Lei foi entregue a Moisés, há um enorme
massa de granito vermelho de 3,50 m de altura por cerca
de 15 m de circunferência, da qual brotam mananciais de
água, em números de doze. Isso existia no tempo de
Mohammad e ainda existe nos dias atuais, para que
possamos contradizer qualquer opinião em contrário.
23. A declinação da palavra Missr, no texto árabe, aqui,
mostra que ela é considerada como um substantivo
comum, com o significado de qualquer cidade, mais isto
não é conclusivo, e a referência diz respeito ao Egito do
Faraó,. O Tanwin, que em árabe expressa indefinição,
pode significar “qualquer Egito”, por exemplo, qualquer
país tão fértil quanto o Egito.
24. O Monte Sinai (Turi-sinnin), um destacado monte no
Deserto da Arábia, na península entre os dois braços do
Mar Vermelho. Foi aí que os dez Mandamentos e a Lei
foram entregues a Moisés. Por isso é que se denomina de
a Montanha de Moisés (Jabal Mussa). Os israelitas
acamparam no seu sopé por cerca de um ano.
25. O castigo pela violação do Sabath, aos olhos da lei
mosaica, era a morte. “Guardai o meu Sábado, porque ele
deve ser santo para vós. Aquele que o violar será
castigado com a morte. Se alguém trabalhar neste dia,
será desligado do seio do seu povo” (Êxodo 31:14). Deve
ter havido uma tradição judaica acerca de toda uma
comunidade pesqueira, em uma cidade litorânea, que
persistia em violar o Sabath, sendo, por isso, os seus
habitantes transformados em símios (ver a 7ª Surata,
versículos 163-166). Ou deveríamos traduzir a passagem
por “Sede como símios”, em vez de “Sede símios”? Essa é
a sugestão de Mohammad Áli sobre esta passagem,
baseada na autoridade de Ibn Jarir Attabari. O castigo
existiria, não pela violação do Sábado em si, mas pelo
desafio contumaz por parte deles, à lei.
26. No Deuteronômio 21:1-9, é estabelecido que se o
corpo de um homem assassinado for encontrado no
campo, e se o seu assassino for desconhecido, uma
novilha deverá ser decapitada, e os anciões da cidade
próxima ao domicílio do morto deverão lavar as suas mãos
sobre o corpo dela jacente, jurando que não realizaram tal
feito, nem presenciaram quem o fez, eximindo-se, assim,
da culpa sanguinolenta. A narrativa judaica, baseada
nesse fato, diz que em certos casos dessa espécie, todos
tentavam livrar-se da culpa, atirando-a sobre os seus
vizinhos. Primeiramente eles tratavam de prevaricar e
evitavam que uma novilha fosse sacrificada, como no caso
da última parábola, porque, quando ela fosse sacrificada,
Deus, por milagre, descobriria a pessoa realmente
culpada. Ordenava-se que uma posta de rês fosse
colocada ao lado do cadáver, o qual volvia à vida e
revelava toda história do crime.
27. É um milagre realizado por Deus, por intermédio de
Moisés. Posteriormente, foi permitido a Jesus fazer o
mesmo.
28. A argumentação imediata diz respeito aos judeus de
Madina, mas uma argumentação mais generalizada diz
respeito às pessoas de fé e àquelas sem fé, como veremos
adiante. Caso os muçulmanos de Madina alimentassem a
esperança de que os judeus, em suas cidades, e
unanimemente, acolhessem Mohammad como o Profeta,
preconizado nos seus próprios livros, estariam bem
enganados. No Deuteronômio 18:18, lê-se: “Eu lhes
suscitarei, do meio dos seus irmãos, um profeta
semelhante a ti” (ou seja, semelhante a Moisés), o que foi
interpretado por alguns do seus doutores como referindose
a Mohammad, fazendo com que abraçassem o Islam.
Os árabes constituem um ramo de família semítica, e são
corretamente descritos, em relação aos judeus, como
“seus irmãos”; e está fora de questão o fato de que não
houve outro profeta “semelhante a Moisés” até ao
aparecimento de Mohammad; pois, de fato, a pósescrituração
do Deuteronômio, escrito muitos séculos
depois de Moisés, diz: “Não apareceu profeta algum, em
Israel, desde Moisés, a quem Deus tenha mirado frente a
frente”. Porém, os judeus, como comunidade, estavam
enciumados quanto a Mohammad, e desempenhavam um
papel duplo. Quando a comunidade muçulmana começou
a ficar mais forte, ele engodaram pertencer a ela, tentando,
contudo, esconder dos muçulmanos qualquer
conhecimento que possuíssem da sua própria Escritura,
senão seriam derrotados por suas próprias
argumentações. A interpretação mais generalizada põe-no
bem em destaque, em todas as épocas. A fé e a descrença
compadecem-se mutuamente. A fé tem de lutar contra o
poderio, a organização e o privilégio. Quando ganha
terreno, aparece a descrença, e insinceramente reivindica
o compartilhamento. Mas Deus tudo conhece e, se as
pessoas de fé apenas procurarem sinceramente o
conhecimento onde puderem encontrá-lo, poderão derrotar
a descrença,. Em seu próprio terreno.
29. Bem diferente da espécie de compromisso, sugerido no
versículo 80, o verdadeiro compromisso versa sobre a lei
moral, aqui desenvolvida. Essa lei moral é universal e, se a
transgredirmos, privilégio algum aliviará o nosso castigo,
ou nos auxiliará de alguma maneira (versículo 86). A frase
“Falai ao próximo com doçura” não somente significa que
os líderes devem externar cortesia no trato com as
pessoas mais comuns, mas ainda protegê-las contra a
exploração, o engodo ou o entorpecimento, com qualquer
ardil que lhes empane a inteligência.
30. O Anjo Gabriel.
31. Os judeus, em sua arrogância, poderão dizer: “Seja
qual for o terror do Inferno, para outros povos, os nossos
pecados serão perdoados, porque somos os filhos de
Abraão; na pior das hipóteses, sofreremos uma punição
leve e definida e, então, seremos restabelecidos ao ‘seio
de Abraão’”. E é aqui que o pavio da bomba começa a
arder. Comparar este versículo com os versículos 81 e 82
desta.
32. Depois que os Mandamentos e a Lei foram entregues a
Moisés, no Monte Sinai, e o povo assumiu solenemente o
Compromisso, Moisés subiu ao Monte e, em sua ausência,
o povo fabricou o bezerro de ouro. Quando Moisés voltou,
ficou exacerbado: “Ele pegou o bezerro, que eles haviam
feito, e o queimou no fogo e o reduziu a pó, no chão, e
lançou as suas cinzas à água, e fez com que os israelitas
bebessem dela.” (Êxodo, 32:20)
33. Uma parte do judeus, no tempo de Mohammad,
ridicularizava a crença muçulmana de que o Anjo Gabriel
trouxera as revelações ao Profeta. Miguel era denominado,
em seus livros “o grande príncipe, que veio em defesa dos
filhos do teu povo” (Daniel 12:1). A visão de Gabriel
inspirava temor (Daniel 8:16-171). Porém, esta afirmação –
de que Miguel era amigo deles e Gabriel era inimigo deles
– constitui meramente uma manifestação de sua descrença
nos anjos, nos mensageiros, e no Próprio Senhor. Em todo
caso, constitui insensatez dizer-se que eles acreditavam
em u manjo e não acreditavam nos outros.
34. Este versículo tem sido interpretado
diversificadamente. Quem eram Harut e Marut? Que
ensinavam eles? Por que o ensinavam? O ponto de vista
que se apresenta plausível, a nós, é o do Tafsir Haccani,
segundo Baidhawi, e o do Tafsir Alcabir. A palavra “anjos”,
aplicada com respeito a Harut e Marut, é conotativa.
Significa “homens benévolos, de conhecimento, de ciência
e de poder”.
35. A palavra criticada é Ráina, que, empregada pelos
muçulmanos, significa “digna-nos com a tua atenção”.
Contudo, era ridicularizada pelos inimigos, pois, com uma
leve distorção, apresentava um significado insidioso. A
outra palavra, sem ambigüidade, é Anzurna, que tem o
mesmo significado (“digna-nos com a tua atenção”). A
doutrina geram consiste em que devemos nos resguardar
do truques cínicos, de usos de palavras que soam como
elogio aos nossos ouvidos, mas que, no fundo, encerram
aguilhões. Não somente devemos ser concisos nos nossos
termos, mas também ouvir respeitosamente as palavras do
Mestre a quem nos dirigimos. As pessoas imponderadas
usam palavras vãs ou suscitam questões tolas e,
inadvertidamente, fazem digressões.
36. A palavra que traduzimos por “versículo” é Áiat. Ela
não é usada somente para os versículos do Alcorão, mas,
de um modo geral, para todas as Revelações de Deus,
como no versículo 39 desta Surata, e para outros
Portentos Divinos na história da natureza, ou para os
milagres, como no versículo 61 desta Surata. Ela tem sido
ainda empregada nas demarcações e nos símbolos de
prodígios humanos como, por exemplo, em monumentos e
obeliscos erigidos pelo antigo povo de Ad (versículo 128 da
26ª Surata). Qual é o seu significado, aqui? Se nos
apegarmos ao sentido generalizado, significará que a
mensagem periódica de Deus é sempre a mesma,
podendo diferir, porém, na sua forma, de acordo com as
necessidades e as exigências da época. Tais formas,
como as que foram apresentadas a Moisés, depois a Jesus
e depois a Mohammad, diferiam umas das outras. Alguns
exegetas aplicam-na, também, ao versículo do Alcorão.
Nada há de degradante nisto, uma vez que acreditamos na
revelação progressiva. No versículo 7 da 3ª Surata, é-nos
distintamente ilustrado que, no Alcorão, enquanto alguns
versículos são fundamentais, outros ao alegóricos; assim
sendo, é prejudicial levarmos em consideração os
versículos alegóricos e os seguirmos ao pé da letra. Por
outro lado, é absurdo considerarmos versículos, como o
número 115 desta Surata, como se fosse ab-rogado pelo
número 144 da mesma Surata, ao se referir à alquibla. Nós
voltamos o rosto para o Levante, sem contudo crermos que
Deus esteja num só lugar. Ele está em toda parte.
37. Três palavras são usadas, no Alcorão, com o
significado aproximado de “perdoar”, mas cada uma com
um matriz diferente. ‘Afa (aqui traduzida por “perdoar”)
significa esquecer, obliterar da mente. Safaha (aqui
traduzida por “tolerar”) significa ser diferente, tratar de um
assunto como se ele não afetasse a pessoa em nada.
Ghafa-ra (que não aparece neste versículo) significa
contrabalançar algo, como faz Deus, com a Sua graça, em
relação aos nossos pecados; esta palavra é especialmente
apropriada para um dos atributos de Deus, Ghaffar, ou
seja, Indulgente.
38. Trata-se, virtualmente, dos idólatras em Makka, que
tentavam impedir os árabes muçulmanos de entrar em
Caaba, local universal de adoração árabe. Os próprios
idólatras a denominavam a Casa de Deus. Com que
propósito iriam eles excluir os muçulmanos, que queriam
cultuar o Verdadeiro Deus, em vez dos ídolos? Se aqueles
idólatras tivessem logrado sucesso, teriam causado
violentas dissensões entre os árabes, e destruído a
inviolabilidade e a própria existência da Caaba.
39. Ou seja, estarás perante Deus em qualquer direção
que te virares.
40. É uma derrogação da glória de Deus – de fato, constitui
blasfêmia – dizer que Ele gera filhos, como um homem ou
um animal. A doutrina cristã é aqui enfaticamente
repudiada. Se as palavras têm significado, seria a
atribuição a Deus, de uma natureza material e de funções
dos ínfimos animais. Num sentido mais espiritual, nós
todos somos filhos de Deus.
41. O sentido principal de Imam é o de “ser primordial”;
consequentemente, pode significar: líder religioso; líder em
orações em congregação; modelo, padrão, exemplo; um
livro de orientação; um livro de evidência e registro. Aqui,
os significados de líder religioso, modelo, padrão e
exemplo, estão implícitos.
42. A Caaba é a Casa de Deus. Sua fundação remonta,
pelas tradições árabes, aos tempos de Abraão. A sua
forma cúbica refere-se aqui a: era o centro espiritual, ao
qual todas as tribos árabes convergiam, para o exercício
do comércio, para a disputa dos torneios poéticos e para a
prática da adoração; era um território sagrado, respeitado,
tanto por amigos, como por inimigos. Em certas épocas
todas as lutas eram, e ainda são, proibidas dentro dos
seus limites, e mesmo as armas não podiam ser
carregadas, e tampouco caça alguma podia ser morta. A
exemplo das cidades de asilo, sob o domínio judaico, nas
quais o homicidas se podiam refugiar (Números 35:6), ou
dos santuários da Europa medieval, nos quais os
criminosos não podiam ser perseguidos, Makka foi
reconhecido pelos costumes árabes como invioláveis às
perseguições, às vinganças e à violência; era um local de
oração; ainda hoje há a Estância de Abraão dentro dos
seus limites, onde se supõe que ele orou; deve-se
conservá-la pura e sagrada, para todos os propósitos.
Embora o versículo, em sua totalidade, seja expresso na 1ª
pessoa do plural, a Casa é chamada de “Minha Casa” (1ª
pessoa do singular), para enfatizar a relação pessoal do
Único e Verdadeiro Deus, e repudiar o politeísmo, que a
degradava, antes de ser novamente purificada por
Mohammad.
43. Quatro rituais são, aqui, enumerados, os quais
adquirem, agora, os seguintes significados técnicos:
circungirar o sagrado território da Caaba (Tawaf); retirar-se
para aquele local de remanso espiritual, para
contemplação e oração (I’ticaf); inclinar as costas em
oração (Ruku’); e prostrar-se no chão em oração (Sujud). A
proteção do território sagrado é tarefa de todos, sendo que
uma higienização e purificação especiais são requeridas,
para o bem dos devotos que empreendem esses rituais.
44. O território que circunda Makka é estéril e rochoso,
comparado, digamos, ao de Taif, cidade que fica 85 km a
leste de Makka. Uma oração pela prosperidade de Makka,
portanto, inclui a oração pelas boas coisas materiais da
vida. Este é o significado literal. Todavia, note-se que a
oposição, neste versículo, situa-se entre os frutos do
Jardim, para os virtuosos, e o tormento do Fogo, para os
maléficos – uma alegoria espiritual de grande força e
persuasão.
45. A totalidade dos israelitas é chamada a testemunhar
sobre um dos slogans, de que eles adoravam: “o Deus de
seus pais”. A idéia, em suas mentes, restringia-se à de um
deus tribal. Entretanto, é-lhes rememorado que os seus
antepassados possuíam, do leito de morte é descrita na
tradição judaica.
46. Hanif, em árabe. Esta palavra inclinava-se à oposição
certa, ortodoxa (no significado literal), firme na fé, sadia e
firmemente equilibrada, que crê em um só Deus
(monoteísta). Talvez a última palavra, monoteísta, sumarie
todos os outros matrizes. Os judeus, embora orientados
quanto à Unicidade, procuraram falsos deuses, e os
cristãos inventaram a Trindade ou a copiaram da idolatria.
Nós, por nosso turno, voltamo-nos para a pura doutrina de
Abraão (hanif), para vivermos e morrermos na fé em um
Deus Uno e Verdadeiro.
47. Eis aqui o verdadeiro credo do Islam: acreditar no único
Deus Universal, na Mensagem que nos chegou através de
Mohammad, nos sinais interpretados à base de
responsabilidade pessoal, na mensagem revelada a outros
profetas do passado. Estes tópicos são mencionados em
três grupos: Abraão, Ismael, Isaac e as tribos (destes,
Abraão tinha aparentemente um livro -versículo 18 da 87ª
Surata -, e outros seguiam su
sua prístina forma); outras escrituras, outros profetas e
outros mensageiros de Deus (não especificamente
mencionados no Alcorão – versículo 78 da 4ª Surata). Não
fazemos distinção entre qualquer um desses. Sua
mensagem (no essencial) foi uma só, e isso constitui a
base do Islam.
48. Estamos aqui na trilha daqueles que seguem a única e
indivisível mensagem do Deus Único, sempre que
outorgada. Se outros a empanam ou a conspurcam, são
eles que abandonaram a fé e criaram a dissensão ou
cisma. Porém, Deus vê e conhece tudo. E Ele velará pelo
que é Seu, e o Seu apoio será infinitamente mais precioso
do que qualquer apoio que o homem possa dar.
49. Sibghat, em árabe, com seu significado radical implica
matização, coloração, e também significa religião, criação.
Assim como a matização e a coloração dão um toque de
distinção aos objetos que se prestam a esse expediente,
também a nossa vida adquire um novo viço, com a
verdadeira Religião de Deus.
50. Quibla quer dizer a direção, ou seja, o locam para o
qual os muçulmanos voltam os rostos ao orarem. O Islam
imprime grande importância à oração em congregação,
dando destaque à nossa fraternidade universal e
cooperação mútua. Para que a oração seja devidamente
efetuada, a ordem, a pontualidade, a precisão, a postura
simbólica e a direção comum são essenciais, resultando
que o Imam e toda a sua congregação possam olhar numa
única direção e dirigir as suas súplicas a Deus. Nos
primórdios, antes de sua organização como povo, os
muçulmanos seguiam como símbolo de sua quibla a
cidade sagrada de Jerusalém, sagrada tanto para os
judeus como para os cristãos, os Adeptos do Livro. Isto
simbolizava o seu devotamento às Revelações de Deus.
Ao serem desprezados e perseguidos, retiraram-se de
Makka e alcançaram Madina. Mohammad, sob inspiração
Divina, principiou a organizar seu povo como nação, povo
independente, com leis e rituais próprios. Naquela altura a
Caaba foi estabelecida como quibla, que voltou assim ao
centro primitivo ao qual o nome de Abraão estava ligado, e
tradicionalmente, também, o nome de Adão. Jerusalém
permaneceu (e permanece) sagrada aos olhos do Islam,
devido ao seu passado; mas como o Islam é uma religião
progressista, seu novo simbolismo possibilitou-lhe
desvencilhar-se das tradições de um passado remotíssimo,
e insinuar-se por uma era de liberdade irreprimida, dileta
ao espírito da Arábia. A mudança teve lugar cerca de 16
meses e meio depois da Hégira. A quibla de Jerusalém,
por si só, deveria Ter parecido igualmente estranha,
mormente depois que se haviam acostumado à outra. Em
verdade, uma direção ou outra, a Leste ou a Oeste, não
importaria, uma vez que Deus está em todos os locais, e
independe de tempo e lugar. O que importava era o senso
de disciplina, ao qual o Islam imputa grande destaque.
51. Nação do centro. A essência do Islam, é evitar todo
tipo de extravagância em qualquer lado. É uma religião
simples e prática. A palavra árabe (wasat) tem também o
significado de intermediária.
52. Isto demonstra o sincero desejo de Mohammad de
procurar a luz do alto no que dizia respeito a quibla. Até à
organização de seu próprio povo numa comunidade sólida,
com suas leis e regulamentos distintos, ele seguira uma
prática baseada no fato de que os judeus e os cristãos
consideravam Jerusalém uma cidade sagrada. Contudo,
não havia quibla universal alguma entre eles. Alguns
judeus, ao orarem, volviam os rostos para Jerusalém,
especialmente durante o tempo em que estavam cativos,
como veremos mais tarde. Ao tempo do Profeta
Mohammad, Jerusalém estava nas mãos do Império
Bizantino, o qual era cristão. Os cristãos, porém,
orientavam suas igrejas para o leste, que é um ponto da
bússola, e não qualquer lugar sagrado. O fato de os altares
estarem situados no leste não
coração ficou naturalmente deleitado quando a quibla em
direção à Caaba foi estabelecida. A conexão da Caaba
com Abraão deu a ela um ar de grande antigüidade; sua
característica quanto a ser um centro árabe tornou-se
apropriada quando aconteceu de a Mensagem ser
revelada em árabe, e ser transmitida através da união
daquele povo; na ocasião em que ela foi adotada, a
pequena comunidade muçulmana foi expulsa dali,
procurando exílio em Madina, não obstante isso, tornou-se
um símbolo de esperança e triunfo final, para cuja
concretização Mohammad vivia; tornou-se ainda o centro e
local de encontro de todos os povos, na peregrinação
universal, que foi instituída com a quibla.
53. Este versículo deve ser lido juntamente com o 150
desta, com o qual a sentença é aqui completada. O
raciocínio é de que com a designação de Caaba, como
quibla, Deus estava aperfeiçoando a religião e
preenchendo os requisitos da oração futura, concebidos
por Abraão. A oração haveria de ser de caráter triplo: para
que Makka se tornasse um santuário sacrossanto (2ª
Surata, versículo 126); para que ali uma nação
(muçulmana) verdadeiramente crente se estabelecesse
com locais de devoção (2ª Surata, versículo 128); para que
um Mensageiro fosse enviado entre os árabes com umas
certas qualidades (2ª Surata, versículo 129), lá
estabelecidas e novamente repetidas aqui, para se
completar o raciocínio.
54. A palavra “recordar” apresenta-se muito inconsciente
para traduzir dhikr, que adquiriu agora um vasto número de
associações em nossa literatura religiosa. Em sua
significação verbal ela abrange: lembrar, aprazer (a Deus),
mencionando-O freqüentemente; exercitar; celebrar ou
comemorar; levar a sério, cultuar a memória como um
domínio precioso.
55. A sentença “na perseverança e na oração” mencionada
no versículo anterior, não constitui mera passividade.
Significa ativamente porfiar pela vereda da Verdade, que é
a vereda de Deus. Tal porfia consiste em despendermos
nossa vereda, quer com respeito às nossas propriedades,
quer com o desapego às nossas vidas e às vidas dos que
nos são caros, quer com a perda de frutos da faina de toda
a nossa vida, não apenas de bens materiais, mas de
alguma aquisição moral e intelectual, de alguma posição
que por si só pareça enormemente desejável aos nossos
olhos, mas eu devemos espontaneamente sacrificar, se
necessário, pela causa de Deus.
56. A virtude da paciente perseverança na fé induz à
menção de dois monumentos simbólicos dessa virtude.
Existem dois pequenos montes, o de Assafa e o de
Almarwa, agora absorvidos pela cidade de Makka, situados
perto do poço de Zamzam. Aí, de acordo com tradições,
Agar, mãe de Ismael, orou suplicando por água no deserto
adusto e, levada pela sua afoita busca ao redor desses
montes, teve respondidas as suas orações e avistou o
manancial de Zamzam. Infelizmente os árabes idólatras
haviam colocado ali um ídolo masculino e outro feminino,
causando, com seus rituais grosseiros e supersticiosos,
ofensa aos primitivos muçulmanos, fazendo com que estes
experimentassem alguma hesitação em percorrer aquelas
plagas durante a peregrinação.
57. A Sagrada Mesquita: a Caaba, na sagrada cidade de
Makka. Não é correto insinuarmos que a ordem, instituindo
a Caaba como quibla, ab-rogue o versículo 115 desta,
onde é asseverado que o Leste e o Oeste pertence a Deus
e que Ele é Onipresente. Isto é perfeitamente verdadeiro
em todas as épocas, antes e depois da instituição da
quibla.
58. O Hajj é a peregrinação principal, cujos rituais
acontecem durante os primeiros dez dias do mês de Dulhijja.
A Umra constitui uma peregrinação menos formal e
se dá em qualquer época do ano. Em ambos os casos
suplicante peregrino começa por colocar sobre si uma
vestimenta simples, de tecido, sem costura, dividida em
duas peças, quando ainda está a alguma distância de
Makka. A colocação dessa vestimenta peregrina (Ihram)
caracteriza o simbolismo da renúncia às vaidades do
mundo. Depois disto, e em todo o transcorrer da
peregrinação, ele não deve usar outras roupas, não deve
usar ornamentos, besuntar seus cabelos, usar perfumes,
caçar, ou praticar outros atos proibidos. O complemento da
peregrinação é simbolizado por rasparem as cabeças os
homens, cortarem as madeixas de seus cabelos as
mulheres, pelo abandono do Ihram a reposição das vestes
comuns.
59. Imprecadores, isto é, anjos e humanos (ver versículo
161 desta); os abominados se excluirão da proteção de
Deus e dos anjos, tornando-se pessoas não gratas aos
humanos porque, pela sua contumaz rejeição da fé, não
apenas pecam contra Deus, mas ainda falseiam suas
próprias condições de homens, os quais Deus criou no
“mais perfeito dos moldes” (95ª Surata, versículo 4).
60. Eternamente = por muito tempo. A maldição não é jogo
de palavra; é um terrível estado espiritual, de todo oposto
ao estado de graça. Pode o homem maldizer? Certamente
não, no mesmo sentido que nos referimos em relação à
maldição de Deus. Uma simples maldição verbal não tem
efeito. Porém, se uma pessoa é oprimida ou tratada com
injustiça, seus clamores podem ascender até a Deus,
oração, e descerá, então, a “ira” ou maldição de Deus
sobre os iníquos, privando-os de Sua graça.
61. Onde as terríveis conseqüências do Mal como por
exemplo, a rejeição de Deus, são mencionadas, há sempre
uma ênfase quanto aos atributos da clemência e da
misericórdia de Deus. Neste caso, a Unicidade é também
enfatizada, porquanto já estamos cientes da quibla como
símbolo da unidade, e prontos a abordar o tema da
unidade diversificadamente, quanto à Natureza e quanto
às leis sociais da sociedade humana.
62. Esta magnífica passagem da Natureza expõe-se como
um outeiro sombreando uma planície, realçando a beleza
da nossa visão, preparando-nos para as leis e injunções
cotidianas que se seguem. Note-se a sua arquitetura
literária. Deus é Uno; e entre os Seus assombrosos
Portentos está o da uniformidade de desígnios quanto à
amplíssima diversificação da Natureza. Os Portentos
apresentam-se em forma da beleza, poder, e da utilidade
ao próprio homem, e faz com que este apele para a sua
própria inteligência e sapiência. Principiamos com a glória
dos céus e da terra, em amplos espaços contidos na
imaginação humana, remotos, mas tão próximos à sua
própria vida. O mais estarrecedor dos fenômenos
cotidianos, resultante da relação mútua dos céus e da
terra, consiste na alternação do dia e da noite, regular, mas
cambiante, de acordo com as estações do ano e as
latitudes do globo. A noite para o descanso, e o dia para o
trabalho; é preciso que encaremos o trabalho em termos
de beleza da natureza; o relato dos navios “que singram”
os mares, como meios de comunicação e troca de
mercadorias entre os povos. Deste modo, o mar não nos é
menos útil do que a terra firme; e o tomar e o dar
(drenagem e evaporação) entre o mar, o céu e a terra são
eloqüentemente exemplificados pela chuva.
63. Atingimos agora o ponto da regulamentação dos
alimentos. Primeiramente (versículos 168-171) deparamonos
com um apelo a todos os povos, muçulmanos,
idólatras, bem como aos Adeptos do Livro; depois
(versículos 172-173), aos muçulmanos em especial; então
(versículos 174-176) vem aquela espécie de homens que
(como alguns fazem) ou acreditam em formalismo em
excesso, ou não acreditam em nenhuma restrição. O Islam
segue o áureo meio-termo. Todas as sociedades bem
regulamentadas estabelecem razoáveis limitações. Estas
coisas tornam-se obrigatórias para todos os leais membros
de uma determinada sociedade, e mostra o que é “lícito”
nessa sociedade. Porém, se as limitações forem razoáveis,
o “lícito” também coincidirá repetidas vezes com o que é
“bom”.
64. Mai-itat: carniça; animal que morre por si. A palavra no
original árabe tem um significado um pouco mais amplo,
apresentado em Fiquih (jurisprudência), como qualquer
coisa que morre por si mesma, não expressamente morta
com o intuito de servir de alimento, e sem o Takbir (Em
nome de Deus, Deus é o Maior) ser devidamente
pronunciado antes de ser sacrificada. Contudo, há
exceções: o pescado é lícito (halal), embora não haja sido
especialmente envolvido com o halal, nem com o Takbir.
Porém, mesmo o pescado, se deteriorado, deve
obviamente ser evitado.
65. Quanto à proibição dos alimentos, comparar com os
versículos 4-5 da 5ª Surata e com os versículos 121, 138-
146 da 6ª Surata, etc. os peritos em Fiquih ordenaram os
detalhes com grande elaboração. Nosso propósito é
apresentarmos princípios gerais, não detalhes técnicos. A
carniça, ou carne putrefata, e o sangue, como gêneros
alimentícios, devem causar repulsa a qualquer pessoa de
gosto refinado. Assim deveria ser também com a carne de
suíno, já que este vive de rebotalhos. Mesmo que os
suínos fossem artificialmente alimentados com comida
saudável, as abjeções permaneceriam, porque são animais
imundos sob outros aspectos, sendo que a carne de
animais imundos afeta a quem a consome; a carne de
suíno possui mais gordura do que o necessário para a
fortificação dos músculos; é mais propensa a causar
enfermidades do que outra espécie de carne; apresenta,
por exemplo, a triquinose, caracterizada por vermes da
finura de um fio de cabelo, nos tecidos musculares. Quanto
aos alimentos dedicados aos ídolos ou a falsos deuses, é
obviamente inadmissível que os monoteístas se dêem a
eles.
66. Note-se primeiramente que este versículo e o seguinte
tornam claro que o Islam mitigou, em muitos, os horrores
dos costumes pré-islâmicos referentes ao Talião. A fim de
satisfazer os estritos clamores da justiça, a igualdade é
prescrita, com uma veemente recomendação de clemência
e perdão. Apesar de o fazermos, julgamos incorreto,
todavia, traduzir quisas como talião. Em todo o caso, é
melhor que se evite termos técnicos para se designarem
situações diferentes. “Talião” em português tem um
significado mais dilatado, equivalente, quase, a “pagar o
mal com o mal”, e mais adequadamente aplicar-se-ia às
contendas sanguinolentas da época de idolatria. O Islam
assevera: se deveis tirar uma vida para pagar uma vida,
que pelo menos haja um laivo de eqüidade nisso; a morte
de um cativo de outra tribo não deve envolver contenda
sanguinolenta alguma, pelo qual muitos homens livres
seriam arrastados à morte. Porém, um decreto de
misericórdia, desde que seja obtido por consenso, com
razoáveis compensações, seria preferível.
67. Os jurisprudentes têm cuidadosamente estabelecido
que a lei do quisas se refere tão-somente ao homicídio. Ela
não se aplica ao crime acidental ou por engano. Nesse
caso, não há a pena capital.
68. O irmão: o termo é perfeitamente generalizado, uma
vez que o Islam constitui uma irmandade. Nesta, e em
todas as questões de herança, as mulheres têm direitos
semelhantes aos dos homens e, por isso, o gênero
masculino abrange todos os sexos. Aqui, estamos
considerando os direitos dos herdeiros sob o prisma de
uma vasta fraternidade. Nos versículos 178-179 desta,
deparamo-nos com os direitos dos herdeiros quanto à vida;
nos versículos 180-182 veremos os herdeiros quanto à
propriedade.
69. É permitido um testamento verbal; porém, espera-se
que o testador seja justo com seus herdeiros, e não se
divorcie do que é considerado eqüitativo. Por esta razão,
quinhões definidos foram estabelecidos, mais tarde, para
os herdeiros (ver o versículo 11 da 5ª Surata etc.). estes
procedentes definem ou limitam o poder testamentário,
porém, não o ab-rogam. Por exemplo, entre os achegados
encontram-se pessoas (um neto órfão na presença de
filhos sobreviventes) que não herdariam sob condições de
falta de testamento, mesmo que o testador quisesse fazer
algo por elas. Ainda, poderia haver estranhos pelos quais
ele gostaria de fazer algo; neste caso, os juristas
providenciaram para que ele tivesse poder de disposição
de um terço de seus bens. Não deve ser parcial em
relação a um herdeiro em detrimento de outro, nem
tampouco tentar ludibriar credores legais. Se tentar agir
assim as testemunhas de seu testamento oral deverão
interferis, agindo de duas maneiras. Uma seria persuadir o
testador a mudar o seu legado antes que este morra. A
outra seria, depois da morte, reunir as partes interessadas
e pedir-lhes que concordassem com um arranjo mais
eqüitativo. Afora isto, a mudança de disposição de um
testamento é considerada crime, como acontece no caso
de todas as leis.
70. Como foi prescrito: isto não quer dizer que o jejum dos
muçulmanos seja igual ao de outros anteriormente
observados quanto ao número de dias, quanto à hora e à
maneira de jejuar, ou quanto a quaisquer outros fatores;
isto quer apenas dizer que o princípio da auto-penitência
pelo jejum não é novo.
71. O jejum muçulmano não significa auto-tortura.
Conquanto seja mais meticuloso que outros jejuns, ele
também propicia atenuação temporária para especiais
circunstâncias. Se fosse simplesmente uma abstenção
temporária, isso seria mais instintos para a comida, a
bebida e o sexo são mais intensos na natureza animal, e a
abstenção temporária dessas coisas resulta em que a
atenção seja dirigida para algo mais elevado. E isto
somente se processa através da oração, da contemplação
e dos atos de caridade.
72. Enfermidade e viagem não devem ser interpretadas
num sentido dilatado; trata-se daquelas que causam
verdadeiro martírio ou sofrimento, caso o jejum seja
observado. Quanto à viagem, um padrão mínimo de três
marchas é prescrito por alguns exegetas; outros fazem-no
mais preciso com a estipulação de cerca de 80 km. Uma
viagem de 12 ou 15 km a pé é mais cansativa do que a
mesma viagem feita por carro de boi. Existem vários graus
de fadiga em se cobrir uma distância estipulada,
cavalgando (também camelo), a bordo de um confortável
trem, de um automóvel, de um navio, de um avião, de uma
nave espacial. Em nossa opinião os padrões devem
depender dos meios de transporte e dos relativos recursos
dos viajantes. É preferível determiná-lo em cada caso, de
acordo com as circunstâncias.
73. Homens e mulheres são como vestimentas uns para os
outros; são para o apoio mútuo, o conforto mútuo, a
proteção mútua, adaptados um ao outro como uma
vestimenta se adapta ao corpo. Uma vestimenta tem o
condão tanto para embelezar como de abrigar. A questão
do sexo é sempre delicada de ser abordada; aqui somos
instruídos que, mesmo em tal assunto, uma relação clara,
franca e honesta é preferível a uma relação fraudulenta e
engano de si mesmo. O instinto sexual é qualificado como
um ato de comer e de beber, ocorrências animalescas a
refrear, mas não de que se envergonhar. As três
contingências são proibidas durante o dia, no jejum, porém
permitidas quando o jejum for quebrado, à noite, até que o
próximo período de jejum se inicie.
74. Além das três exigências materiais primordiais do
homem, que podem ativar a sua concupiscência, existe
uma quarta forma de concupiscência na sociedade, aquela
em relação à abastança e aos bens. O propósito do jejum
não é atingido se essa quarta concupiscência não for,
também, refreada. Comumente, as pessoas honestas
contentam-se em se absterem do furto, do assalto e do
estelionato. Mais duas formas sutis de concupiscência são
aqui mencionadas. Uma é aquela em que alguém usa os
seus próprios bens para corromper alguns juizes ou
algumas autoridades, com o fito de auferir algum ganho
material, mesmo sob o manto e a proteção da lei. As
palavras traduzidas por “bens alheios” podem também
significar “prosperidade pública”. Os bens carregam
consigo o estigma da responsabilidade. Se falharmos em
compreendê-los e satisfazê-lo, não teremos aprendido a
consistente lição da abnegação pelo jejum.
75. Havia muitas superstições relacionadas ao novilúnio,
como ainda as há hoje em dia. Porém, é-nos aconselhado
que nos desvencilhemos de tais superstições. Como
divisão de tempo, onde o calendário lunar é observado, a
lua nova constitui um importante sinal, pelo qual as
pessoas esperam com avidez. As festividades
muçulmanas, incluindo a peregrinação, são fixadas pela
aparição da lua nova. Os árabes, entre outras
superstições, possuíam uma, que consistia em entrarem
em suas casas pelas portas de trás, durante ou depois da
peregrinação. Isto é desaprovado, porque não há virtude
em qualquer dessas restrições artificiosas. Toda virtude
procede do amor e do temor a Deus.
76. Eis aqui um provérbio muçulmano, que deveria ser
muito repisado, quanto às suas multifárias significações.
Umas poucas serão citadas aqui. Se ingressardes numa
sociedade, respeitai as suas normas e os seus costumes;
se desejardes honradamente alcançar um objetivo, apegaivos
a isso abertamente, e não “sorrateiramente”; não useis
de subterfúgios; se desejardes sucesso num
empreendimento, providenciai todos os instrumentos
necessários para tanto.
77. A guerra somente é permissível em defesa própria, e
com limite bem definidos. Uma vez empreendida, ela deve
ser conduzida com vigor, não de modo implacável, mas no
sentido de restabelecer a paz e a liberdade de culto a
Deus. De qualquer modo, os limites rigorosos não devem
ser transgredidos; as mulheres, as plantações não devem
ser extirpadas, nem tampouco a paz deve ser negada
quando o inimigo a propõe.
78. Esta passagem é ilustrada pelos eventos que tiveram
lugar em Alhudaibiya, no sexto ano da Hégira, embora não
esteja claro se foi revelada na ocasião ou não. Os
muçulmanos constituíam, naquele tempo, uma poderosa e
influente comunidade. Muitos deles faziam parte dos
exilados de Makka, onde os idólatras tinham estabelecido
uma autocracia intolerante, perseguindo-os, proibindo-os
de visitarem os lares, e mesmo proscrevendo-os da
peregrinação, durante o universalmente conhecido período
de trégua. Isto denotava intolerância, opressão e
autocracia no mais alto grau. A simples disposição, por
parte dos muçulmanos satisfaziam fielmente. Mesmo
assim os idólatras não tinham escrúpulos em romperem
com fé.
79. À semelhança disso, as cercanias de Makka eram
consideradas sagradas, locais em que a guerra era
proibida. Se os inimigos os Islam infringissem tal conceito,
os muçulmanos ficariam livres para, igualmente, o
infringirem, na mesma proporção. Qualquer convenção
torna-se ineficaz, se uma das partes não a respeita. Tem
de haver uma lei de igualdade. Ou talvez a palavra
“reciprocidade” expresse melhor essa conjuntura.
80. Toda a luta requer meios para os seus preparativos. Se
a guerra é justa e pela causa de Deus, todos os que
possuem bens devem gastá-los espontaneamente. Essa
deve ser a sua contribuição para a Causa, em adição ao
seu esforço pessoal, ou se por qualquer razão se
encontrarem impossibilitados de lutar. Se se agarrarem às
suas riquezas, talvez as suas próprias mão estejam
contribuindo para a sua autodestruição. Ou, por outra, se a
sua riqueza estiver sendo gasta, não na causa de Deus,
mas em algo que deleita os seus caprichos, poderá
acontecer de as vantagens irem para o inimigo, e a
pessoa, assim, estará, pela sua ação, contribuindo para a
sua própria destruição. Em todos os tópicos, os seus
padrões devem ser, ano de egoísmo, mas de benevolência
para com a sua irmandade, pois que tal benevolência é
prazerosa aos olhos de Deus.
80. – a. Ver nota nº 58.
81. nos meses já mencionados: os meses de Chawal, de
Dul-quida, e de Dulhijja (até ao 10º ou ao 13º dia) sai
reservados para os rituais do hajj. Isso equivale a dizer que
os rituais podem iniciar-se cedo, logo no começo de
Chawal, com uma chegada definida a Makka, mas os
principais rituais são concentrados nos primeiros dez dias
de Dul-hijja, especialmente no 8º, 9º e 10º dias desse mês,
quanto a influência de peregrinos alcança o seu auge.
82. A cerca da metade do caminho entre Arafat e Mina (ver
versículo 197 desta Surata e a sua respectiva nota),
encontra-se um lugar chamado Muzdalifa, onde o
Mensageiro fez uma longa oração. Esse lugar tornou-se o
Monumento Sagrado, e os peregrinos são instruídos no
sentido de seguirem tal exemplo, quando do seu retorno.
83. Ao aproximar-se o fim da peregrinação a multidão é
imensa, e se algumas pessoas se retêm, depois do ritual
de Arafat, isso causa grande confusão e inconveniência.
Por conseguinte, a saída deve ser rápida para todos,
conduta esta estritamente necessária. Cada membro da
multidão deve pensar no conforto e na conveniência de
todos.
84. Depois da peregrinação, no tempo da idolatria, os
peregrinos costumavam reunir-se em assembléia, na qual
eram decantados os louvores aos antepassados. Como
todos os rituais da peregrinação foram espiritualizados no
Islam, assim o desfecho da peregrinação foi, também,
espiritualizado. Foi recomendado que os peregrinos
permanecessem dois ou três dias depois da peregrinação,
porém deveriam gastá-los em oração e louvor a Deus. Ver
versículo 203 desta Surata.
85. Nos dias já mencionados: os três dias depois do
décimo, quando os peregrinos permanecem no Vale de
Mina para a oração e o louvor. São os dias do Tachric (ver
versículo 200 desta surata e a sua respectiva nota). Os
peregrinos têm a opção de partir no segundo ou no terceiro
dia.
86. Se carecem de fé, usam de todas as escusas para
resistirem ao apelo de Deus. Dizem eles: “Oh, sim, nós
acreditamos em Deus, se Ele nos aparecer, acompanhado
dos Seus anjos e da Sua Glória!” Em outras palavras, eles
querem que seja a sue modo, e não segundo os desígnios
de Deus. Porém, assim não será, sabendo-se que a
decisão de todas as questões pertence a Deus. Se formos
sinceros para com Ele, esperaremos pelo Seu tempo e
pela Sua época, e jamais aguardaremos que Ele espere
pelo nosso tempo e pela nossa época.
87. Aos israelitas, sob a orientação de Moisés, foram
apresentados a glória de Deus e muitos sinais evidentes,
mas mesmo assim eles seguiram a sua própria conjectura,
preferindo os seus próprios caprichos e fantasias. Assim
fazem os povos em todas as eras. Mas eles que não se
iludam! A justiça de Deus é inexorável e, quando vier, será
implacável e inconfundível para com aqueles que rejeitam
as Suas Mercês.
88. Comparar com o versículo 196 desta Surata (final); lá a
questão era a daqueles que não temem a Deus. Aqui a
questão é a daqueles que Lhe rejeitam os portentos.
89. As dádivas divinas, neste mundo, parecem ser
díspares, parecendo, às vezes, que as conseguem aqueles
que menos as merecem. A benevolência de Deus é
ilimitada, tanto para o justo como para o injusto. Em sua
sapiência, Ele pode concedê-la a quem Lhe aprouver. O
cômputo pode não ser considerado agora, mas sê-lo-á no
final, quando a balança for compensada.
90. A intolerância e a perseguição, por parte de uma súcia
de idólatras de Makka, causaram inenarráveis
adversidades ao Mensageiro do Islam e aos seus primeiros
companheiros. Eles suportaram tudo com humildade e
incansável paciência, até que o Mensageiro permitiu que
pegassem em armas, para efetuarem a defesa própria.
Então, eles foram censurados pela quebra do costume
quanto aos meses proibidos, embora fossem compelidos a
lutar durante aquele período, contrariando os seus próprios
sentimentos, em defesa própria. Os seus inimigos não
apenas os forçavam a tomar atitudes guerreiras, mas ainda
interferiam nas suas consciências, perseguiam-nos a eles
e às suas famílias, insultavam abertamente Deus e O
negavam, mantinham os árabes muçulmanos fora da
Mesquita Sagrada, e os exilavam. Tais violências e
intolerâncias são adequadamente tidas como piores do
que o homicídio.
91. Khamr: bebida; literalmente compreendida como
significando o sumo fermentado da uva. É aplicada, por
analogia, a todas as bebidas fermentadas, e, numa
analogia mais intensa, a qualquer bebida ou droga tóxica.
Poderá, possivelmente, haver algum benefício nela, mas o
dano é maior do que o benefício, especialmente se
considerarmos do ponto de vista social, bem como do
individual.
92. Maissar: jogo; literalmente, um meio de se conseguir
algo, mui facilmente, usufruindo lucros, sem trabalhar para
tal; daí, jogo. Esse é o princípio pelo qual o jogo é proibido.
A forma mais familiar de jogo, entre os árabes, era a de
tirar a sorte por meio de setas, constituindo o princípio da
loteria; as setas eram marcadas e serviam ao mesmo
propósito dos bilhetes de loteria de hoje. Setas marcadas
eram retiradas de um saco. Algumas não possuíam
marcas, e aqueles que as retiravam nada ganhavam.
Algumas marcas indicavam prêmios, que podiam ser
grandes ou pequenos. Tirar alguém polpudo quinhão, ou
pequeno, ou nenhum, isso dependeria de pura sorte, a
menos que houvesse fraude da parte de algumas pessoas
envolvidas. O princípio no qual a objeção está baseada é:
mesmo que não haja fraude, ganhamos aquilo que não
merecemos pelo esforço, ou perdemos por mero azar. O
dado e as apostas estão apropriadamente enquadrados na
definição do jogo. Contudo, o expediente do Seguro não é
considerado jogo, uma vez conduzido nos princípios
negociosos. Aqui as bases dos cálculos constituem
estatística em larga escala, da qual o mero azar é
eliminado. Os próprios seguradores pagam bônus na
proporção dos riscos, calculados exata e estatisticamente.
93. O matrimônio é a mais íntima das comunhões, e o
mistério do sexo encontra a sua suprema satisfação
quando a harmonia espiritual íntima é combinada com o
elo material. Se de maneira alguma a religião exerce uma
real influência na vida de um dos consortes, ou de ambos,
a diferença nesta questão vital certamente afetará as vidas
de ambos, mais profundamente do que as diferenças de
berço, raça, língua, ou posição. Por conseguinte, é preciso
que as partes, ao se darem em matrimônio, possuam as
mesmas aspirações espirituais. Se duas pessoas se
amam, as suas aspirações quanto às coisas supremas da
vida devem ser idênticas. Note-se que a religião, neste
caso, não constitui um simples rótulo, nem tampouco é
uma questão de costume ou de berço. Duas pessoas
poder ter nascido em religiões diferentes, mas se, por suas
mútuas aspirações, vierem a descortinar da mesma
maneira a verdade, elas certamente, de pronto, aceitarão
os mesmos rituais e a mesma irmandade social. Caso
contrário, a situação tornar-se-á insustentável, tanto
individual como socialmente.
94. Azan: impureza, poluição. Ambos os conceitos devem
ser lembrados. O asseio e a pureza corporais fazem bem,
tanto ao corpo como ao espírito. A relação sexual nesse
período é proibida. Porém, o assunto deve ser considerado
sob o ponto de vista da mulher, bem como do ponto de
vista do homem. Quanto a ela, há o perigo da impureza, o
que deve ser levado em consideração. No mundo animal o
instinto é um guia que deve ser obedecido. O homem
deveria ser superior neste particular, mas freqüentemente
é inferior.
95. Os árabes possuíam muitas espécies de imprecações,
tendo para cada uma delas uma denominação especial em
seus jargões. Muitas dessas denominações relacionavamse
com o sexo e causavam o desentendimento, a
alienação, a divisão e a separação entre o marido e a
mulher. Este e os três versículos seguintes referem-se a
isso.
96. Os árabes idólatras tinham um costume um tanto
injusto para com as mulheres candidatas ao casamento, e
isso foi suprimido pelo Islam. Às vezes, advindo de um
arroubo de cólera ou de capricho, o marido proferia um
juramento, por Deus, de não tocar a sua esposa. Isso
privava-a dos seus direitos conjugais, mas ao mesmo
tempo mantinha-a ligada a ele, indefinidamente; assim, ela
não se podia casar de novo. Caso quisesse que o marido
reconsiderasse, ele argumentava que o seu juramento a
Deus o impedia. Em primeiro lugar, o Islam desaprovou os
juramentos impensados, mas insistiu em que um juramento
adequado, solene e intencional fosse escrupulosamente
observado. Num assunto melindroso como esse, em que a
esposa é afetada, se o juramento é apresentado com uma
escusa, é dito ao homem que de maneira alguma há
desculpa. Deus leva em consideração a intenção, não
meras palavras insensatas. É permitido às partes um
período de quatro meses, para ver se se decidem por um
possível reajustamento. A reconciliação é recomendada,
mas se eles realmente optam pela separação, é injusto
mantê-los ligados indefinidamente. O divórcio é o único
expediente justo e eqüitativo, embora, como o Mensageiro
declarou, de todas as coisas permitidas, o divórcio seja a
mais odiosa aos olhos de Deus. Em tais circunstâncias,
Deus perdoará, porque Ele conhece os ressentimentos de
cada uma das partes, e atenderá aos clamores daquele
que sofre.
97. O Islam tenta manter o estado matrimonial tão
prolongado quanto possível, especialmente quando há
filhos envolvidos; porém, é contrário às restrições à
liberdade do homem e da mulher em assuntos de
importância vital, como o amor e a vida familiar. Ele
restringe os atos impetuosos tanto quanto possível, e deixa
em aberto as portas para a reconciliação em muitos itens.
Uma sugestão de reconciliação é feita, sujeira a certas
precauções (ver os versículos seguintes) contra atos
impensados.
98. A diferença de posição econômica entre homens e
mulheres faz com que os direitos e as responsabilidades
daqueles sejam superiores aos destas. O versículo 34 da
4ª Surata refere-se ao dever do homem de manter a
mulher, bem como a uma certa diferença, quanto à
natureza dos sexos. Adstritos a isso, os sexos estão em
igualdade de condições perante a lei.
99. No ponto em que o divórcio por incompatibilidade
mútua é permitido, há sempre o perigo de que as partes
ajam precipitadamente, então arrependam-se e desejem
separar-se novamente. Para se evitar a continuidade de tal
ação caprichosa, é estabelecido um limite. Dois divórcios
(com uma reconciliação entremeada) são permitidos.
Depois disso, as partes devem decidir-se definitivamente:
ou dissolverem permanentemente a união, ou viverem
honradamente juntos, em tolerância e amor mútuos –
“conservá-las condignamente”; nenhuma das partes deve
infernizar a outra, nem resmungar, nem furtar-se aos
deveres e às responsabilidades do casamento.
100. Todas as proibições e limitações, prescritas aqui, o
são no interesse de uma vida decente e honrada para
ambas as partes, bem como no interesse de uma vida
social limpa e virtuosa, sem escândalos, públicos ou
secretos. Caso haja qualquer temor de que – por serem
salvaguardados os interesses econômicos dela, a sua
liberdade pessoal fique afetada – o marido se recuse a
dissolver o casamento e talvez a trate com crueldade,
então, em tais casos excepcionais, é permitido conceder
alguma consideração material ao marido; mas a
necessidade e a eqüidade disso devem ser submetidas ao
julgamento de juizes imparciais, isto é, a tribunais
constituídos. Um divórcio desta natureza é denominado
Khul’a.
101. Este versículo é a continuação da primeira sentença
do versículo 229 desta surata. São permitidos dois
divórcios, seguidos de reconciliação; na terceira vez, o
divórcio se torna irrevogável, até que a mulher se case
com outro homem e dele se divorcie. Isto serve para
estabelecer uma condição quase impraticável. Tira-se
daqui a seguinte conclusão: Se um homem ama uma
mulher, não deve permitir que ímpetos subitâneos de
temperamento ou de furor o induzam a tomar atitudes
precipitadas. Que acontece depois de dois divórcios,
quando um homem toma a esposa de volta? Ver a nota
seguinte.
102. Há, aqui, duas cláusulas condicionais: – “Quando vos
divorciardes das vossas esposas…” e “ao terem elas
cumprido o período prefixado (iddat)…”, seguidas de duas
cláusulas conseqüentes: – “Tomai-as de volta
eqüitativamente” ou “libertai-as eqüitativamente”. A
primeira cláusula é relacionada com a terceira, e a
Segunda com a quarta, por assim dizer. Todavia, se o
marido deseja reatar os laços matrimoniais, não precisa
esperar pelo Iddat. Porém, se não deseja, ela fica livre
para se casar com outro, depois do Iddat. Para se
conhecer o significado do Iddat, ver a nota do versículo
228 desta surata.
103. O término de um laço matrimonial é a questão mais
cruciante, tanto para a família, como para a vida social. E
todos os expedientes lícitos que possam, eqüitativamente,
propiciar a reconciliação dos que já viveram juntos são
aprovados, conquanto haja amor entre eles, e possam
viver em termos de honradez, um para com o outro. Se tais
condições forem satisfeitas, não caberá, por direito, a
estranhos, impedir ou obstruir a reconciliação. Estes
poderão estar cobiçando os bens ou anelando outras
eventualidades. Este versículo foi ocasionado por um fato
real, que foi submetido ao Mensageiro, durante a sua vida.
104. A espera para a viúva (quatro meses e dez dias) deve
ser mais longa que a do Iddat para a divorciada (três
menstruações; ver versículo 288 desta surata). No último
caso, o único escopo é certificar-se de que não há
concepção proveniente do casamento dissolvido. Isto
torna-se claro no versículo 49 da 33ª Surata, onde está
especificado que não há Iddat para as divorciadas virgens.
No primeiro caso há, em adição, a consideração do luto e
do respeito à memória do marido falecido. Em ambos os
caos, se houver provas de concepção, um novo
casamento, para a mulher, estará certamente fora de
cogitação até ao nascimento da criança, desde que se
observe, então, um intervalo. Enquanto isso, o seu
sustento, numa escala razoável, ficará a cargo do último
marido ou dos familiares deste.
105. A lei estipula que, em tal caso, metade do dote fixado
deve ser paga pelo homem à mulher. Porém, fica a critério
da mulher perdoar a metade do que iria receber ou ao
homem perdoar a metade que está autorizado a deduzir.
106. Quem tiver o contrato matrimonial em seu poder, de
acordo com a escola hanafita, é o próprio marido que
comumente pode, por uma ação sua, dissolver o
casamento. Convém-lhe, portanto, se o mais liberal
possível para com a mulher pagando-lhe o dote inteiro,
mesmo que o casamento não tenha sido consumado.
107. Orações intermediárias: deveria ser traduzido como
“as melhores ou as excelentíssimas orações”. Os exegetas
diferem quanto ao exato significado desta frase. A maioria
deles, porém, parece optar pela interpretação disto como
“a Oração da Tarde”. Assim sendo, ela é passível de ser
negligenciada; mas mesmo assim é estritamente
necessária, e nos faz lembrar de Deus no meio dos nossos
afazeres terrenos. Há uma surata especial (a 103ª),
intitulada “Al ‘Asr”, de cujo significado místico do texto trata
apropriadamente.
108. Devemos combater pela causa de Deus, e nunca para
satisfazer as nossas próprias paixões e cupidez egoístas;
eis que a admoestação se repete: “Deus é Oniouvinte,
Sapientíssimo”.
109. A geração subseqüente a Moisés e a Aarão foi
governada por Josué, que cruzou o Jordão, estabelecendo
as tribos na Palestina. O seu governo durou 25 anos, após
os quais houve um período de 320 anos, em que os
israelitas passaram a ter uma história cheia de anomalias.
Eles não eram unidos entre si e por isso sofreram duros
reveses nas mãos dos madianitas, dos amalecitas e de
outras tribos da Palestina. Eles freqüentemente
descambavam para a idolatria e olvidavam a adoração do
verdadeiro Deus. De tempos em tempos aparecia um líder
entre eles, que se investia de poderes ditatoriais. Tais
ditadores são chamados de Juizes, na tradução
portuguesa do Antigo Testamento. O último de sua estirpe
foi Samuel, que constitui um marco na transição da
linhagem dos Reis, por um lado, e dos últimos profetas, por
outro. Ele data aproximadamente do século XI a.C.
110. Talut é o nome árabe para Saul, que era alto e bem
apessoado, e que pertencia à tribo de Benjamim, a menos
das doze tribos. Os seus bens terrenos era minguados; e
foi quando saiu em busca de alguns asnos que tinham
fugido da casa de seu pai, que encontrou Samuel, e foi,
por este, ungido rei. O capricho do povo apareceu
imediatamente após ele se nomeado. Eles levantaram toda
a espécie de objeções triviais. A principal circunspecção
em suas mentes era o egoísmo; cada um queria, por seu
turno, ser líder ou rei em pessoa, ao invés de querer o bem
do povo como um todo, como um líder deve querer.
111. Arca da Aliança: Tábut, em árabe. Um baú de
madeira de acácia, coberto e filigranado de ouro puro,
cujas dimensões são: 1,50 m X 0,90 m X 0,90 m (ver
Êxodo, 25:10-22). Supunha-se conter o “testemunho de
Deus” ou os Dez Mandamentos, entalhados em pedras,
com relíquias de Moisés e Aarão. A sua tampa de ouro
constituía o “Assento da Misericórdia” com dois querubins
de ouro maciço, com as asas abertas. Era, para os
israelitas, uma possessão sagrada. Ela foi perdida para o
inimigo, logo no início do ministério de Samuel; ver o
versículo 246 desta Surata, e a sua respectiva nota;
quando foi trazida de volta, permaneceu num vilarejo por
20 anos e, aparentemente, foi levada para a capital quando
o reinado foi constituído. Tornou-se, assim, um símbolo de
unidade e de autoridade.
112. Davi não somente era pastor, guerreiro, rei, sábio e
profeta, como também era dotado do Dom da poesia e da
música.
113. Este é o “Versículo do Trono” (Áiat-ul-Cursi). Quem
poderia traduzir o seu glorioso significado ou reproduzir o
ritmo das suas bens escolhidas e compreensíveis
palavras? Mesmo no original árabe o significado parece
ser maior do que podem exprimir as palavras.
114. Os atributos de Deus são tão diferentes de qualquer
coisa que conhecemos, no nosso mundo presente, que
devemos ficar satisfeitos com a compreensão de que a
única palavra adequada, com que podemos designá-Lo, é
“Ele”. Ele vive, mas a Sua vida é auto-subsistente e eterna;
ela não depende de outros seres e não inclui apenas a
idéia de “auto-subsistência”, mas também a idéia de
“resguardo e manutenção de todas as vidas”. A sua vida é
a fonte e o esteio, constantes de todas as formas
derivadas de vida. A vida perfeita constitui atividade
irrepreensível, em contraste com a vida imperfeita, que
vemos a nos rodear, a qual não apenas está sujeita à
extinção, mas também à necessidade de repouso, ou de
diminuição das atividades (algo entre a atividade e sono,
para o qual nós, de comum acordo com os outros
tradutores, usamos a palavra “inatividade”), pela
necessidade de um sono reparador. Porém, Deus não tem
necessidade de descansar ou de dormir. A sua atividade,
como a Sua vida, é perfeita e auto-subsistente.
Contrastante com esta assertiva é a expressão usada no
Salmos, 77.65: “E despertou o Senhor, como homem
adormecido, como guerreiro subjugado pelo vinho”.
115. Depois de nos conscientizarmos de que a Sua Vida é
uma Vida absoluta, de que o Seu Ser é um Ser absoluto,
ao passo de outras vidas e outros seres são eventuais e
evanescentes, nossas idéias de céus e terra desvanecerse-ão
como brumas na presença da luz. O que está por
detrás dessas brumas é Ele. Tal realidade, como a que os
nossos céus e a nossa terra possuem, é um reflexo da Sua
absoluta Realidade. Os panteístas transmitem uma idéia
errada, ao dizer que tudo é Ele. A verdade será melhor
evidenciada se dissermos que tudo é d’Ele. Como poderia
alguém postar-se ante Ele, ufanando-se perante Ele, por
direito, e clamar por intercessão junto ao seu próximo? Em
primeiro lugar, ambos pertencem a Ele, sendo que Ele vela
tanto pela vida de um como pela de outro. Em segundo,
ambos estão na dependência da Sua Vontade e do Seu
Comando. Porém Ele, em Sua Sapiência e Planificação,
pode cotejar as Suas criaturas e conceder-lhes graus de
superioridade umas sobre outras. Então, questões, de
acordo com as leis e os deveres que lhes forem impostos.
Os conhecimentos de Deus são absolutos e não estão
condicionados pelo Tempo e pelo Espaço. A nós, Suas
criaturas, estão condições sempre se aplicam. Os Seus
conhecimentos e os nossos, acham-se, por isso mesmo,
em diferentes categorias, sendo que os nossos apenas
conseguem alguns reflexos da realidade, quando
concordam com a Sua Vontade e Planificação.
116. Trono: assento, poderio, conhecimento, símbolo de
autoridade. Em nossos pensamentos englobamos tudo
quando dizemos “os céus e a terra”. Bem, então, em tudo
está presente o poder, a vontade e a autoridade de Deus.
Certamente, “tudo” inclui as coisas espirituais, bem como
os cinco sentidos.
117. A imposição é incompatível com a religião, porque a
religião depende da fé e da vontade, e estas perderiam a
sua consistência, se induzidas à força; a verdade e o erro
têm sido tão claramente mostrados pela mercê de Deus,
que não deveria haver dúvidas na mente de qualquer
pessoa de boa vontade quanto aos fundamentos da fé; a
proteção de Deus é contínua e os Seus planos hão de
sempre guiar-nos, tirando-nos das profundezas das trevas
e conduzindo-nos à clareza da luz.
118. Os três versículos 258, 259 e 260, têm dado origem a
muitas controvérsias quanto ao seu significado exato, no
sentido de correlacionar os incidentes e a exatidão das
pessoas aludidas, cujos nomes não são mencionados. Em
tais assuntos, em que o Alcorão não menciona nomes, e
em que o próprio Mensageiro não deu indicação alguma,
parece-nos inútil especular e, ainda por, emitir possíveis
opiniões. Em questão de aprendizado, as especulações
são freqüentemente interessantes. Contudo, parece-nos
que o significado do Alcorão é tão vasto e universal, que
corremos o risco de nos desviar do seu real e eterno
significado, se continuarmos a disputar sobre pontos de
somenos importância. Os três incidentes constituem alguns
dos que talvez tenham acontecido repetidas vezes em
qualquer fase da vida do Profeta, e podem ser tomados
como uma visão impessoal, em qualquer tempo.
119. O primeiro ponto destacado é o orgulho do poderio e
a impotência do poder humano ante o poder de Deus. A
pessoa que disputava com Abraão pode Ter sido Nemrod
ou algum governador da Babilônia ou de outro lugar
qualquer. Escolhemos a Babilônia porque foi o berço
original de Abraão (Ur da Caldéia), e porque a Babilônia se
orgulhava da sua arte e da sua ciência, no mundo antigo. A
ciência pode ter muitas práticas magníficas; ela as teve
naquele tempo, elas as tem hoje. Porém, os mistérios da
vida baldava a ciência daquele tempo e continuam a baldar
a ciência de hoje, depois de muitos séculos de progresso.
120. Este incidente refere-se diversificadamente à visão de
Ezequiel das ossaturas secas (Ezequiel 37:1-10), à visita
de Neemias a Jerusalém em ruínas, depois da capitulação
e da sua reconstrução (Neemias 1:12-20), e a Uzair, ou
Ezra, ou Esdras, o escriba, sacerdote e reformador, que foi
enviado pelo rei persa depois da capitulação de Jerusalém,
e sobre o quê há muitas lendas judaicas. A disposição
vocabular é perfeitamente generalizada, e nós devemos
entendê-las como tal. Achamos que de fato se refira não
somente à morte e à ressurreição do indivíduo, mas
também da nação.
121. Uma porção deles: Juz’an, em árabe. Acatadíssimos
exegetas compreendem que isto significa que os pássaros
haviam de ser despedaçados e que os pedaços deles
deveriam ser postos nos montes. O despedaçamento ou
matança não é mencionado, mas eles afirmam que está
implícito, por elipse, uma vez que a questão é a de como
Deus ressuscita os mortos.
122. A verdadeira caridade é como uma campina de solo
magnífico, situada em local privilegiado. Absorve as
precipitações de chuva e a umidade penetra o solo, não
obstante a posição privilegiada mantê-lo sempre drenado,
fazendo com que as condições saudáveis aumentem
enormemente a sua produtividade. Porém, supondo-se
mesmo que a chuva não seja abundante, ele absorve o
orvalho, aproveitando ao máximo qualquer umidade que
possa assimilar, e isso lhe basta. Assim, também, um
homem verdadeiramente caritativo é espiritualmente
abastado; coloca-se em condições de atrair as mercês de
Deus, que ele não guarda egoisticamente, mas faz com
que circulem livremente.
123. Tendo sido explicadas as três parábolas concernentes
à natureza da caridade verdadeiramente espiritual, uma
quarta parábola é aqui adicionada, esclarecendo o seu
significado em toda a nossa vida. Suponhamos que
possuíssemos um suntuoso pomar, bem irrigado e fértil,
com deslumbrantes vistas de riachos, com refúgio para o
descanso da mente e do corpo; suponhamos que a velhice
fosse se assomando em nós, sendo os nossos filhos ainda
muito jovens para se dirigirem por si, ou carentes de
saúde; como nos sentiríamos se um torvelinho repentino,
seguido de relâmpagos ou de fogo, se abatesse sobre o
pomar, esturricando-o, abatendo deste modo todas as
nossas esperanças, presentes e futuras, destruindo o
resultado de toda a nossa labuta e das nossas economias
do passado? Bem, esta nossa vida é uma provação.
Podemos trabalhar com afinco, podemos economizar;
talvez tenhamos boa sorte. Talvez construamos para nós
um magnífico jardim de recreio, e tenhamos meios de nos
sustentar, bem como aos nossos filhos. Vem um enorme
torvelinho, acompanhado de relâmpagos e de fogo e
queima todo o negócio. Somos, então, já idosos para
começar novamente, e nossos filhos muito jovens ou
débeis para reparar os infortúnios. As nossas chances são
remotas, uma vez que não nos prevenimos para tal
contingência. O torvelinho é a “calamidade iminente”; a
prevenção contra ele é levar uma vida de verdadeira
caridade e virtude, que é a fonte da verdadeira e duradoura
felicidade, neste mundo e no outro. Sem isso, estaremos
sujeitos à vicissitudes desta vida incerta. Podemos, até,
pôr a perder a nossa decantada “caridade”, por insistirmos
na obrigação que os outros têm para conosco, ou por lhes
causarmos danos, porque os nossos pretextos não são
puros.
124. “De tenra idade”: dhu’afan em árabe; literalmente quer
dizer fraco, decrépito, enfermo, possivelmente referindo-se
tanto à saúde como à vontade, ou ainda ao caráter.
125. O bem e o mal mostram-nos caminhos opostos, por
pretextos opostos, e o contraste é bem demarcado na
caridade. Quando pensamos em praticar algum ato de
benevolência ou de caridade, somos acometidos de
dúvidas e invadidos pelo temos do empobrecimento; o mal,
no entanto, sustenta qualquer tendência egoística, cúpida
ou gasto extravagante para exibições, deleites pessoais ou
apetites indecorosos. Ao contrário, Deus nos introduz em
tudo o que é bom e benigno, porque neste procedimento
encontra-se o perdão dos nossos pecados, bem como a
grande e real prosperidade e satisfação. Ato benigno ou
generoso algum jamais arruinou alguém. A falsa
generosidade, ao contrário, é que, no mais das vezes,
conduz à ruína. Tendo em mente que Deus conhece todos
os nossos pretextos e Se importa com todos eles, além de
ter tudo em Seu poder, é óbvio o rumo que o homem
prudente escolherá. Todavia, a prudência é rara, e é
somente esta que sabe apreciar o verdadeiro bem-estar,
bem como distingui-lo do falso e aparente.
126. A usura é condenada e proibida nos termos mais
enérgicos possíveis. Não pode haver polêmica acerca
desta proibição. Quanto à definição da usura, isto dá
ensejo para diferenças de opinião. Os nossos
jurisprudentes, antigos e modernos, elaboraram um
extenso trabalho de literatura sobre a usura, baseados,
principalmente, nas condições econômicas, tal como
existiam no despontar do Islam. Porém, devido ao fato de
que os juros ocupam uma posição central na vida da
economia moderna e, especialmente, já que os juros são o
próprio sangue da vida das instituições financeiras
existentes, muitos muçulmanos ficaram inclinados a
interpretá-los de uma maneira radicalmente diferente da
dos jurisprudentes muçulmanos, ao longo de quatorze
séculos, e estão em conflitos acentuados com as injunções
categóricas do Profeta. De acordo com os ensinamentos
islâmicos, qualquer excesso no capital é ribá (juros). O
Islam não aceita distinções, em casos de proibições, entre
taxas razoáveis e exorbitantes de juros, e assim, entre
aquilo que é considerado diferença entre usura e juros;
nem entre retorno, em bônus, para consumo e para
propósitos produtivos etc.
127. Um símile adequado: enquanto que a diligência e o
comércio legítimos aumentam a prosperidade e a
estabilidade dos homens e das nações, a dependência da
usura meramente encoraja uma corja de ociosos, de
sangue-sugas cruéis e de indivíduos indignos, que nada
sabem do seu próprio bem e são, portanto, capazes de
enlouquecer os outros.
128. A primeira parte do versículo diz respeito às
transações que envolvem pagamentos futuros ou futuras
considerações, e a segunda às transações nas quais o
pagamento e a entrega são efetuados no ato. São
exemplos da primeira circunstância: Mercadorias
compradas agora, com pagamento prometido para tempo e
local futuros; pagamentos efetuado agora, com entrega
contratada para tempo e local futuros. Em tais casos,
recomenda-se um documento por escrito, mas deve-se Ter
em mente que as palavras “mais eqüitativo… mais válido
para o testemunho e o mais adequado para evitar dúvidas”
etc., implicam na não-obrigatoriedade, por parte da lei. São
exemplos da Segunda circunstância: pagamento à vista e
entrega no ato – isso não requer evidência escrita, mas
testemunhas oculares, para tais transações, são
recomendadas.
129. O escriba, em tais assuntos, assume uma condição
de fiduciário; portanto, deve registrar o ato como se
estivesse na presença de Deus, pleno de justiça para com
ambas as partes. Deve considerar o Dom da escrita como
uma dádiva divina, passando a usá-la como se estivesse a
serviço de Deus.
130. A ética comercial é, aqui, ensinada da maneira mais
prática, sendo ambos os expedientes condizentes com as
barganhas a serem realizadas, as evidências a serem
providenciadas, as dúvidas a serem desfeitas, e com os
deveres e direitos dos escribas e das testemunhas. A
probidade, mesmo em assuntos terrenos, terá de ser, não
apenas uma simples questão de conveniência ou de
política, mas uma questão de consciência e dever
religiosos.
131. Um penhor ou segurança fica na dependência do seu
próprio mérito, embora seja uma forma muito conveniente
de se concluir a barganha, quando as partes não confiam
uma na outra, e não podem conseguir um acordo por
escrito, com testemunhas adequadas.
132. A lei do depósito requer enorme confiança no
depositário, da parte do depositante. O depositário torna-se
um fiduciário, sendo que a doutrina da confiança pode ser
plenamente desenvolvida nessa base. O dever do
fiduciário é salvaguardar os interesses da pessoa, em cujo
favor ele conserva a custódia dos bens, e dar de volta as
contas e os haveres, quando requeridos. Repisamos que
tal dever está mais ligado às sanções da Religião, que
requer padrões mais altruísticos do que a Lei.
133. Comparar com o versículo 136 desta surata e com a
sua respectiva nota. Não devemos fazer qualquer distinção
entre um e outro dos mensageiros de Deus. Devemos
honrá-los eqüitativamente, embora saibamos que Deus,
em Sua Sapiência, enviou-os com missões diferentes e
deu-lhes diferentes graus de consideração.
134. Ver nota do versículo 1 da 2ª Surata.
135. Em algumas edições, a interrupção entre os
versículos 3 e 4 ocorre na palavra “discernimento” (furcan).
Nós achamos por bem seguir a divisão acatada pelos
exegetas egípcios e sauditas. Porém, isso não implica em
diferença alguma quanto à numeração dos versículos, uma
vez que há somente a questão de se uma linha deve ou
não passar para o versículo 3 ou para o 4.
136. Esta passagem nos proporciona um importante indício
para interpretação do Alcorão Sagrado. Falando de modo
amplo, ele deve ser dividido em duas partes, não dadas
em separado, mas interligadas, assim: o núcleo ou
substância do Livro é a parte figurada, metafórica,
alegórica. é deveras fascinante o tomarmos a última parte
para testar a nossa imaginação, quanto ao significado
intrínseco; contudo, ela se refere a tão profundo assunto,
para o qual a linguagem humana é inadequada e, muito
embora pessoas de sapiência retirem alguma luz disso,
ninguém deve ser dogmático, pois que o significado último
somente é conhecido por Deus. O exegetas,
costumeiramente, acham que os “versículos fundamentais”
se referem às ordens categóricas da Chari’a (ou a Lei), que
é acessível ao entendimento de qualquer um. Todavia, o
significado talvez seja mais amplo, ou seja, a essência da
Mensagem de Deus, que é distinta das várias parábolas,
alegorias e dos rituais ilustrativos.
137. Assim como Moisés preveniu os egípcios, também o
aviso aqui é dirigido aos árabes idólatras, aos judeus e aos
cristãos, e a todos aqueles que resistem à Fé,
admoestando-os que sua resistência será em vão. As
décadas seguintes viram a queda dos impérios bizantino e
persa, por causa da sua arrogância e da sua resistência às
Leis de Deus.
138. Refere-se à batalha de Badr, no mês de Ramadan, no
segundo ano da Hégira. A pequena comunidade
muçulmano-maquense, exilada, em amigos em Madina,
havia-se organizado em uma comunidade temente a Deus,
mas estava em constante perigo de ser atacada por seus
inimigos idólatras de Makka, em aliança com alguns dos
elementos desafeiçoados (judeus e hipócritas), dentre ou
perto da própria Madina. O escopo dos habitantes de
Makka era juntarem todos os recursos de que dispunham
e, com uma força colossal, esmagar e aniquilar
Mohammad e seus partidários. Com esse fito, Abu Sufian
estava dirigindo uma caravana ricamente carregada, da
Síria para Makka. Ele pediu reforço armado a Makka. A
batalha foi travada na planície de Badr, a sudoeste de
Madina. A força muçulmana consistia de somente 313
homens, a maior parte deles desarmados; porém, eram
liderados por Mohammad, e lutavam por sua fé. O exército
maquense estava bem armado e bem equipado, com mais
de 1.000 homens, e tinha entre seus líderes alguns dos
mais experimentados guerreiros da Arábia, incluindo Abu
Jahl, o inveterado inimigo do Isl
A lição geral é que os adeptos do Livro deviam ser os
primeiros a reconhecer em Mohammad o expoente vivo da
mensagem de Deus, como um todo; e alguns deles assim
fizeram; outros, porém, esquivaram-se, por arrogância,
apoiando-se em textos distorcidos e em doutrinas forjadas,
produtos dos seus próprios caprichos, uma vez que não
eram afeitos à razão e ao bom-senso.
143. Outra passagem gloriosa, plena de significado – tanto
patente como místico. A frase regente é “Em Tuas mãos
está todo o Bem”. Qual é o padrão pelo qual devemos
julgar o bem? É a Vontade de Deus. Por conseguinte,
quando nos submetemos à vontade de Deus, tendo o
Islam a nos iluminar, vemos o bem como sublime. Tem
havido, e há, muita controvérsia, quanto ao que seja o Bem
Sublime. Para os muçulmanos não há dificuldade: É a
vontade de Deus. Eles devem sempre empenhar-se em
aprender e compreender tal Vontade. E, uma vez nessa
fortaleza, eles estarão seguros. Não se atribularão com a
natureza do Mal. Este constitui a negação da vontade de
Deus. O Bem está em conformidade com a vontade de
Deus.
144. Verdade, em muitos sentidos. A cada doze horas, a
noite se transforma em dia e o dia em noite, e não há limite
específico entre eles. A cada ano solar, a noite se alonga
em relação ao dia, depois do solstício de verão, e o dia se
alonga em relação à noite, no solstício de inverno. Num
sentido mais amplo, contudo, se considerarmos a luz e as
trevas como símbolos de conhecimento e ignorância,
felicidade e sofrimento, discernimento espiritual e cegueira
mental, poderemos dizer que os Desígnios ou a Vontade
de Deus evidenciam-se tanto no mundo espiritual como no
mundo material, e que em Suas Mãos está todo o bem.
145. Podemos interpretar a morte em sentido ainda mais
amplo do que o da noite: morte física, intelectual,
emocional e espiritual. A vida e a morte podem ser,
também, aplicadas a coletividades, a grupos, e à vida
nacional. E quem alguma vez solveu os mistérios da vida?
Porém, a fé refere-se a eles como sendo dos Desígnios e
da Vontade de Deus.
146. O nascimento de Maria – mãe de Jesus – , o de João
Batista, o precursor de Jesus – , e o de Jesus – o profeta de
Israel, que os israelitas rejeitaram, ocorreram em ordem
cronológica, e nessa ordem são relatados. Zacarias não
esperava por um filho comum. Ele e sua esposa já haviam
passado da idade da paternidade e da maternidade,
respectivamente. Ele orou pelo surgimento de alguma
criança proveniente de Deus: “Ó Senhor meu, concede-me
uma ditosa descendência”. Para a sua surpresa, foi-lhe
concedido um filho, João – Yáhia em árabe – de sua carne.
147. Aqui iniciamos a história de Jesus. Como prelúdio,
temos o nascimento de Maria e a narrativa paralela de
João Batista, Yáhia, o filho de Zacarias. Isabel, mãe de
Yáhia, era prima de Maria, mãe de Jesus. Isabel era uma
das filhas de Aarão, irmão de Moisés e filho de Imran. Seu
marido, Zacarias, era virtualmente um sacerdote, e sua
prima, Maria, era também presumidamente de família
sacerdotal. Pela tradição, a mãe de Maria chamava-se
Hannah (em latim Anna e em português Ana) e seu pai
chamava-se Imran. Hannah é, por conseguinte, tanto
descendente da casa sacerdotal de Imran como esposa de
Imran, – uma mulher de Imran, num sentido duplo.
148. Messias; a forma hebraica e árabe é Massih. Cristo
(em grego Christos), que quer dizer “o ungido”. Os reis e
os sacerdotes eram ungidos para que aquilo simbolizasse
a consagração dos seus destinos especiais.
149. O apostolado de Jesus durou apenas cerca de três
anos, dos 30 aos 33, quando, ao ver dos seus inimigos, ele
foi crucificado. Porém, o Evangelho de Lucas (2:46),
descreve-o parlamentando com os provectos do Templo,
tendo a idade de 12 anos ou menos, ainda uma criança:
“Entretanto o menino crescia, e se fortificava, estando
cheio de sabedoria: e a graça de Deus era com ele” (Lucas
2:40). Alguns Evangelhos apócritos descrevem-no como
“pregando desde a infância”.
150. Este milagre dos pássaros de barro é encontrado em
alguns Evangelhos apócritos; os da cura dos cegos e dos
leprosos, e o da ressurreição dos mortos, encontram-se
nos Evangelhos canônicos. O Evangelho original (3ª
surata, versículo 48) não se constituía das várias histórias
escritas mais tarde pelos discípulos, mas da verdadeira
Mensagem, ensinada diretamente por Jesus.
151. A história de Jesus é contada com uma aplicação
especial, ao tempo do Profeta Mohammad. Note-se a
palavra “colaboradores” (ansar), a este respeito, e
“conspiraram”, no versículo 54 desta surata. A religião do
Mensageiro era a única Religião, a Religião de Deus, que
era, em essência, a religião de Abraão, de Moisés e de
Jesus. A argumentação se desenrola: “por que, então,
fazeis divisões e rejeitais o Mestre vivente?” O Islam
consiste em a pessoa curvar-se à Vontade de Deus. Todos
os que têm fé devem curvar-se à Vontade de Deus e ser
muçulmanos.
152. A palavra árabe makara tem sentido tanto destrutivo
como edificante, ou seja, de maquinar planos intrincados
ou de desenvolver algum propósito secreto benéfico. Os
inimigos de Deus estão constantemente fazendo o
primeiro. Porém Deus, em Cujas mãos repousam todas as
coisas boas, tem também os Seus planos, contra os quais
os malévolos não têm poder algum.
153. No ano das delegações, 10º da Hégira, fez-se,
oriunda de Najran (dirigindo-se para o Iêmen, cerca de 240
km ao norte de Saná), uma embaixada cristã. Os seus
integrantes tinham ficado muito impressionados ao ouvirem
esta passagem do Alcorão, explicando a verdadeira
posição de Cristo, e entraram em relações tributárias com
o recém-formado Estado Muçulmano. Porém, hábitos e
costumes arraigados evitaram que aceitassem de todo o
Islam. O Mensageiro, firme em sua fé, propôs um encontro
solene (Mubahala), no qual os dois lados convocariam não
apenas os seus homens, mas as suas mulheres e
crianças, orariam sinceramente a Deus, e invocariam a
maldição de Deus sobre aqueles que mentissem. Aqueles
que possuíssem uma fé sincera e pura não hesitariam.
154. Estamos, agora, em condições de tratar a questão
interrompida no versículo 87 da 2ª Surata. Jesus nada
mais é do que um homem. É contra o princípio da razão e
da Revelação chamá-lo de Deus ou de Filho de Deus. Ele
é denominado o filho de Maria, para deixar isto claro. Não
teve pai humano algum conhecido, já que seu nascimento
foi de natureza milagrosa. Os milagres que permeiam a
sua história relatam não somente o seu nascimento, a sua
vida e morte, mas também a história de sua mãe, Maria, e
do seu precursor, João. Estes eram os “sinais evidentes”
que ele traria. Foram aqueles que o interpretaram mal que
obscureceram os seus sinais evidentes e o cercaram de
seus próprios mistérios.
155. Falando de modo abstrato, os adeptos do Livro
concordariam com todas as proposituras. Nas prática,
porém, isso não se daria. À parte dos lapsos da doutrina
quanto à unicidade do Único e Verdadeiro Deus, não
existia a questão de um sacerdócio consagrado (entre os
judeus isso era também hereditário), como se um simples
ser humano – Cohen, ou o Papa, ou o Padre, ou Brama –
pudesse reivindicar superioridade, para além do seu
aprendizado, ou da pureza da sua vida, ou pudesse se
colocar entre o homem e Deus, de algum modo especial.
156. Comparar com o versículo 135 da 2ª Surata e com
todos os argumentos daquela passagem.
157. Os adeptos do Livro eram duplamente intrigantes para
com as pessoas muçulmanas: primeiramente porque, não
pertencendo elas à sua estirpe, receberam a Revelação;
em segundo lugar porque, tendo-a recebido,
admoestavam-nos segundo as suas próprias escrituras,
perante o seu Senhor!
158. Quintal de ouro (quintar): um talento de 1200 onças
de ouro.
159. Dinar: moeda de prata; no Império Romano tardio, o
denarius era uma pequena moeda de prata, do tamanho
da de 5 centavos atuais.
160. Os judeus tinham feito um pacto com o Profeta, no
ano 1º da Hégira; porém, logo o quebraram.
161. Comparar com o versículo 63 da 2ª Surata. O tema é:
Vós (adeptos do Livro) estais comprometidos, pelos vossos
votos, solenemente juramentados na presença dos vossos
próprios profetas. No Antigo Testamento, como atualmente
existe, são citados Mohammad (Deuteronômio 18:18), e a
ascensão da Nação Árabe (em Isaías 42:11), porque
Kedar era filho de Ismael, sendo este nome usado para
designar a Nação Árabe. No Novo Testamento, como
atualmente existe, Mohammad é vaticinado (João 14:16,
15:26 e 16:7). O futuro Consolador não pode ser o Espírito
Santo pretendido pelos cristãos, uma vez que este já
estava presente, auxiliando e guiando Jesus. A palavra
grega que se traduziu por ” Consolador” é “Paracletos”, a
qual, por sua vez, é uma patente corruptela de “Periclytos”,
que constitui quase uma tradução literal de “Mohammad”
ou “Ahmad” ( 61ª Surata, versículo 6). Reforçando esta
tese, houve outros evangelhos, perdidos no tempo, mas
que deixaram traços, que eram ainda mais específicos ao
se referirem a Mohammad; por exemplo, o Evangelho de
Barnabé, cuja tradução italiana se encontra na Biblioteca
Nacional de Viena. Ela foi editada em 1907.
162. A verdade de Deus é evidente, sendo que tudo o que
é bom, e é verdadeiro, e é sadio, e é normal, aceita-a com
júbilo. Todavia, mesmo que haja “morbidez no coração” (2ª
Surata, versículo 10), ou o julgamento esteja obscurecido
pela perversidade, todas as criaturas devem constatar a
existência de Deus e se conscientizar d’Ele e do Seu
Poder (2ª Surata, versículo 167).
163. O termo “muçulmano” é derivado da palavra Islam,
que quer dizer: submissão à vontade de Deus.
164. A posição do muçulmano é clara. Ele não se ufana de
ter uma religião peculiar, só para si. O Islam não é uma
seita ou uma religião étnica. Na sua opinião, todas as
religiões são como uma única, pois que a verdade é uma
só. Foi a religião decantada por todos os profetas
primevos. Foi a verdade ensinada por todos os Livros
inspirados. Em essência, ela galga à conscientização da
Vontade e dos Desígnios de Deus, e a uma jubilosa
submissão a essas características. Se alguém desejar
outra religião que não seja essa, será farsante para com a
sua própria natureza, assim como pérfido para com a
Vontade e os Desígnios de Deus. Tal pessoa não poderá
esperar por diretriz alguma, porquanto tem,
deliberadamente, renunciando a ela.
165. Os árabes comiam carne de camelo, coisa lícita no
Islam, porém proibida pela Lei Mosaica (Levítico 11:4).
Ora, tal Lei era muito rígida, devido à “dureza de coração”
de Israel, e por causa da insolência e da iniqüidade dos
israelitas (6ª Surata, versículo 146). Antes de ela ser
promulgada, os israelitas eram livres para escolherem a
sua própria alimentação.
166. A grande liberdade do Islam, na questão de leis
cerimoniais, comparada às Leis Mosaicas, está no fato de
não se constituírem numa reprimenda, mas sim numa
admoestação. Voltamo-nos para uma fonte mais antiga do
que a do judaísmo – as instituições de Abraão. Todos são
unânimes em afirmar que a sua fé era sadia, e que ele
certamente não era idólatra, termo este insolentemente
atribuído aos árabes para parte dos judeus.
167. Bakka: o mesmo que Makka; talvez um nome mais
antigo. A fundação da Caaba remonta aos tempos de
Abraão, mas há locais alusivos, no território sagrado, aos
nomes de Adão e Eva; por exemplo, em Arafat, o Monte da
Misericórdia (ver o versículo 197 da 2ª Surata e a sua
respectiva nota).
168. Álamin: que quer também dizer todos os mundos;
todas as espécies de seres; todas as nações; todas as
criaturas.
169. Há temores de várias espécies: o execrado temor do
covarde; o temor de uma criança, ou de um simplório, face
a um perigo desconhecido; o temor de uma pessoa
racional, que deseja evitar dano para si e para aqueles que
quer proteger; a reverência afim ao amor, que teme fazer
algo que desagrade ao objeto desse amor. O temor da
primeira espécie é indigno do homem; o da segunda é
próprio daqueles espiritualmente imaturos; o da terceira é
mais uma precaução contra o mal, enquanto este não
estiver subjugado; e o da quarta, é o esteio da virtude.
Aqueles afeitos à fé cultivam o da quarta espécie; nos
estágios primitivos podem apropriar-se do da segunda ou
da terceira; têm medo, mas não de Deus. O da primeira é
um sentimento do qual qualquer um deve envergonhar-se.
170. Todo o nosso ser deve estar impregnado do Islam;
este não deve ser um simples invólucro superficial ou um
espetáculo aparatoso.
171. O símile é de pessoas debatendo-se em águas
profundas, às quais a Providência arremessa uma forte e
inquebrável tábua de salvação. Se todos juntos se
agarrarem firmemente a ela, os seus esforços mútuos
propiciar-lhes-ão a oportunidade de se salvarem.
172. O “rosto” (wajh) expressa a nossa personalidade, o
nosso ser interior. O branco é a cor da luz; tornar-se
brando é estar iluminado pela luz, o que quer dizer estar
pleno de felicidade, dos raios da gloriosa luz de Deus. O
preto é a cor das trevas, do pecado, da rebeldia, da
miséria, e da remoção da graça e da luz de Deus.
Constituem também, os sinais do céu e do inferno. O
padrão da decisão, em todas as questões, constitui a
justiça de Deus.
173. A conclusão lógica da evolução da história religiosa é
o surgimento de uma religião universal não sectária, não
racial e não doutrinária, à qual o Islam se arroga o direito.
Porque o Islam é apenas a submissão à Vontade de Deus.
Isso implica em : fé, bem-proceder, ser um exemplo para
os outros, quanto a fazer o bem, e ter o poder de fiscalizar,
no sentido de que o bem prevaleça; abster-se do erro,
dando exemplo, para que outros se abstenham dele, e
tendo poder de fiscalizar, no sentido de que a injustiça e o
erro sejam erradicados. Portanto, o Islam vive, não em
função de si mesmo, mas em função de toda a
humanidade. Quanto aos adeptos do Livro, tivessem eles
tido fé, ter-se-iam tornado muçulmanos, uma vez que
foram preparados para o Islam. Infelizmente, há a
descrença que, contudo, não pode causar dano àqueles
que empunham o estandarte da Fé e do Direito, os que
deverão, sempre, sair-se vitoriosos.
174. “Gastar” falsamente pode tanto ser em falsa
“caridade”, como em “divertir-se”. Porque aqueles que
resistem aos propósitos de Deus, nenhum deles é, em
nada, bom. A essência da caridade é a fé e o amor. Onde
não há estes dois elementos, a caridade não é caridade.
Algum motivo vilipendiador existe aí; ostentação, ou coisa
pior, colocando a pessoa sob o jugo do fornecedor, por
uma pretensa caridade, algo ligado à vida deste mundo,
avaro e material. Que acontece, então? Tu esperas boa
colheita; porém, “enquanto pensas”, ó homem de Deus,
em como a tua riqueza se está desenvolvendo, vem o
vento glacial e destrói todas as tuas esperanças. O vento
consiste nalguma calamidade ou no fato que tu
constataste! Ou talvez seja “orgulho próprio”. Em teu
desespero, tu talvez culpes o destino cego, ou talvez
culpes a Deus! O destino cego não existe, porque existe a
Providência Divina, justa e benevolente. O dano ou a
injustiça não procedem de Deus, mas da tua própria alma.
Tu conduziste a tua alma por veredas errôneas, e sofreste
os efeitos do vento glacial. Todo o espetáculo de bravura
dos iníquos, nesta vida, nada é, senão um vento glacial,
acompanhado por malefícios para si próprio.
175. O Islam nos proporciona a revelação completa: “em
todos os Livros”, embora revelações parciais tenham
aparecido em todas as épocas. (Comparar com o versículo
23 desta surata e com a sua respectiva nota).
176. A batalha de Uhud foi um grande teste para a jovem
Comunidade Muçulmana. O brio, a sapiência e a robustez
do seu líder haviam sido mostrados na batalha de Badr
(versículo 13 desta surata, e respectiva nota), na qual os
idólatras de Makka sofreram uma esmagadora derrota.
Eles estavam determinados a vingar a sua desdita e a
aniquilar os muçulmanos, em Madina. Atingiam o número
de cerca de 3.000 combatentes, sob a direção de Abu
Sufian, e estavam tão confiantes na vitória, que levaram
suas companheiras, as quais revelaram a mais vergonhosa
selvageria depois da batalha. Face ao perigo iminente,
Mohammad, com a sua costumeira visão, coragem e
iniciativa, resolveu tomar sua posição no sopé do Monte
Uhud, que ficava a cerca de 5 km ao norte da cidade de
Madina. Cedinho, pela manhã, no dia 16 de Chawal, 3H
(janeiro de 625), ele estabeleceu as disposições para a
batalha. Ao sul de onde estavam, achava-se a catarata de
Nullan; e no desfiladeiro, entre os montes, atrás, achavamse
50 arqueiros para impedir um ataque inimigo pela
retaguarda. O inimigo estava empreendendo a tarefa de
atacar as muralhas de Madina, tendo, à sua retaguarda, os
muçulmanos. Em princípio, a batalha teve um desenrolar
auspicioso para os muçulmanos. O inimigo vacilava; os
arqueiros muçulmanos, porém, em desobediência às
ordens, abandonaram os seus postos para se juntarem aos
outros na perseguição aos inimigos e para a partilha dos
despojos. O inimigo tirou vantagem da lacuna deixada
pelos arqueiros, o que resultou numa encarniçada luta
corpo a corpo, na qual a superioridade favoreceu o inimigo.
Muitos dos companheiros do Profeta e dos socorredores
foram mortos. Contudo, os muçulmanos não debandaram.
Entre os mártires muçulmanos encontrava-se Hamza, um
dos irmãos do pai do Mensageiro. As tumbas dos mártires
são ainda mostradas em Uhud. O próprio Mensageiro foi
ferido na cabeça e no rosto, tendo arrancado um dos seus
dentes da frente. Não fosse por sua firmeza, sua coragem
e sua serenidade, tudo estaria perdido. Todavia, o
Mensageiro, a despeito do seu ferimento, e de muitos
outros muçulmanos feridos, inspirados pelo seu exemplo,
voltaram ao campo de batalha no dia seguinte, e Abu
Sufian e seu exército maquense acharam a retirava mais
prudente. Madina estava salva, mas os muçulmanos
aprenderam a sua lição de fé, constância, firmeza e
imperturbabilidade.
177. Badr dista aproximadamente 80 km de Madina, e o
encontro entre muçulmanos e coraixitas deu-se numa
terça-feira, 17 de Ramadan do ano 2H – 13 de março de
624 d.C. Foi a primeira batalha entre os muçulmanos e os
idólatras coraixitas. O número de combatentes
muçulmanos era de aproximadamente 300, providos de 70
camelos e 2 cavalos, ao passo que o número de
combatentes inimigos elevava-se a 1.000, providos de todo
o tipo de armamento. A batalha terminou com a vitória dos
muçulmanos. É considerada como a mais importante
batalha, pois foi a primeira vitória dos muçulmanos sobre
os idólatras.
178. Uma falange de incrédulos: uma extremidade, um fim
tanto superior como inferior. Aqui talvez a passagem deva
significar que os chefes dos idólatras de Makka, que
chegaram para exterminar os muçulmanos, com tal
confiança, voltaram frustrados em seus propósitos. A
desavergonhada voracidade com que eles e suas
companheiras mutilaram os cadáveres dos muçulmanos,
no campo de batalha, deixara indelevelmente patenteada a
sua eterna infância. Isso talvez servisse para demonstrar a
sua real natureza a alguns dos que lutaram por eles, um
dos quais, Khaled Ibn al Walid, não somente aceitou,
depois, o Islam, mas ainda se tornou um dos seus mais
notáveis paladinos. Ele estava com os muçulmanos na
conquista de Makka e, mais tarde, conseguiu destacadas
honrarias na Síria e no Iraque.
179. A verdadeira prosperidade não consiste na cupidez,
mas no franqueamento de nós próprios e dos nossos
recursos à causa de Deus, à verdade de Deus e ao serviço
das criaturas de Deus.
180. O Fogo (131, desta Surata) contrasta, como sempre,
com o Jardim no sentido espiritual; em outras palavras, o
inferno contrasta com o céu. Conquanto pensemos que o
céu seja uma espécie de jardim material confinado, algures
no firmamento, é-nos elucidado que somente a sua largura
tem a dimensão de todo o céu e de toda a terra juntos,
com toda a criação que podemos imaginar. Em outras
palavras, a nossa felicidade espiritual não somente
abrange esta ou aquela parte do nosso ser, mas todas as
vidas e todas as existências. Quem lhe poderá medir a
largura, o comprimento ou a altura?
181. Somente a Verdade de Deus é duradoura e se
sobreporá a tudo, no fim. Se houver derrota, não
deveremos descoroçoar, perder o ânimo ou abandonar a
porfia. A fé demanda esperança, diligência, labuta
constante, para atingir a meta.
182. Estas considerações gerais aplicam-se,
particularmente, ao desastre de Uhud. Num combate pela
fé, se alguém for ferido, saiba que o adversário também
sofreu baixas consideráveis. O sucesso ou o fracasso,
neste mundo, acontecem para todos, em tempos
diversificados; não devemos resmungar, uma vez que não
nos conscientizamos de todo o plano de Deus. O brio do
homem é conhecido na adversidade, assim como o ouro é
testado no fogo.
183. Batalha de Uhud.
184. Este versículo se refere, primordialmente, à batalha
de Uhud, em cujo decorrer houve um clamor de que o
Mensageiro havia sido morto. De fato, ele fora seriamente
ferido, mas Tal’a, Abu Bakr e Áli estavam ao seu lado para
o socorrer, e a incontente bravura deles salvou o exército
muçulmano de uma completa derrota. Este versículo foi
lembrado, novamente, por Abu Bakr, quando o Mensageiro
morreu de morte natural oito anos depois, para lembrar o
povo de Deus, Cuja Mensagem ele trouxe, viveria para
sempre. E nós temos de nos lembra disto, agora e
freqüentemente, por duas razões: quando no sentimos
inclinados a dispensar honrarias àqueles que foi o mais
veraz, ao mais puro e o maior dos homens, isto no sentido
de compensar o nosso enriquecimento de espírito, com os
seus ensinamentos; e quando nos sentimos deprimidos
pelas nuanças e mudanças de tempo, e nos esquecemos
de que o Eterno Deus vive e vela por nós, bem como por
todas as Suas criaturas, agora como em toda a história,
passada e futura.
185. Há um sutil toque de ironia nisto. No que tange aos
arqueiros de Uhud, que desertaram dos seus postos para
empreenderem a pilhagem, eles talvez tenham conseguido
a sua partilha, mas ao preço de se exporem, bem como a
todo o exército, a grande risco. Por causa de um ínfimo
ganho terreno, quase perderam as suas almas. Por outro
lado, quanto àqueles que ampliaram as suas visões e
combateram com denodo, em disciplina, sua recompensa
foi preste e segura. Se morressem, poriam sobre as
cabeças a coroa do martírio; se vivessem, seriam
considerados heróis e honrados, neste mundo e no outro.
186. A ordem era: não se precipitarem em recolher os
despojos, mas manterem estrita disciplina. Uhud
principiava a se constituir numa vitória para os
muçulmanos. Muitos dos inimigos foram mortos, e eles já
começavam a se retirar, quando uma parte dos
muçulmanos, contra as ordens, encetou a perseguição,
atraída pela perspectiva de polpudos despojos.
187. A princípio, a desobediência lhes pareceu prazerosa:
estavam perseguindo os inimigos, e havia a perspectiva de
despojos. Porém, quando a lacuna foi percebida pelo
inimigo, este cerrou fileira em torno da montanha, e quase
esmagou os muçulmanos. Não fosse pela graça de Deus e
pela firmeza do seu líder e dos seus companheiros
imediatos, eles estariam acabados.
188. Parece que um contingente de cavaleiros, conduzido
pelo arrojado Khaled Ibn al Walid, apareceu por entre o
vazio do desfiladeiro em que os arqueiros deveriam estar
e, na confusão que se originou, o antagonista se
reorganizou e afoitou-se sobre os muçulmanos. Da
planície, os muçulmanos, por sua vez, retrocederam e
tentaram reconquistar o morro. Estavam, agora, em dupla
desvantagem: estavam atulhados com os despojos que
haviam obtido, e muitas vidas tinham sido ceifadas das
suas fileiras, de maneira que as suas próprias vidas e as
de todo exército estavam em perigo. Com as suas vidas
em jogo, eles mal tinham tempo de lamentar a perda dos
despojos ou a calamidade geral. Contudo, isso lhes deu
consistência, e alguns deles passaram no teste.
189. Depois da surpresa inicial, quando o inimigo caiu em
cima deles, uma grande parte dos muçulmanos deu o
melhor de si; e, constatando-lhes o brio, o inimigo retirouse
para seu campo. Houve então uma trégua; os feridos
descansaram; aqueles que haviam lutado ferrenhamente
foram bafejados por um benfazejo sono, esse bálsamo da
Natureza. Contrastando com estes, destacava-se seqüela
dos hipócritas, cujo comportamento é descrito na nota
seguinte.
190. Os hipócritas se retiraram da luta. Aparentemente,
eles tinham ficado com aqueles que permaneceram
supervisionando a defesa de Madina, dentro das suas
muralhas, em vez de saírem intrepidamente ao encontro
do inimigo. Sua apreensão era causada pelo seu próprio
estado mental; o sono dos justo foi-lhes negado;
consequentemente, eles não cessavam de murmurar sobre
o que tinha acontecido. Somente os tolos procedem assim;
os sábios encaram os acontecimentos.
191. Era dever de todos os que estivessem capacitados,
combater pela causa sagrada, em Uhud. Mas uma
pequenas seqüela mostrava-se tímida; seus integrantes
não eram tão maus como aqueles que reclamavam contra
Deus, ou aqueles que insensatamente desobedeciam
ordens. Mesmo assim, eles não cumpriram com o dever.
São os nossos propósitos interiores que Deus considera.
Aquelas pessoas timoratas foram esquecidas por Deus.
Talvez, se houvesse para elas uma outra oportunidade,
aproveitá-la-iam e cumpririam o seu dever.
192. É a carência de fé que faz com que as pessoas
tenham medo de enfrentar a morte, de cumprir com o
dever quando este envolve perigo – viajar para ganhar um
sustento honesto, ou lutar por uma causa sagrada. Tal
temor é parte do castigo pela carência de fé. Se temos fé,
não há o que temer em encontrar a morte (ainda mais
sabendo que ela nos transportará para mais perto da
nossa meta), nem tampouco em encarar o perigo
decorrente de uma causa nobre, porque sabemos que a
chave da vida e da morte está nas mãos de Deus. Nada
acontece, se não for pela vontade de Deus. Se for de Sua
vontade que morramos, a nossa permanência em casa não
nos salvará. Se for de Sua vontade que percamos a vida,
existem três considerações que fazem com que ansiemos
por enfrentar o perigo: primeiro, morrer no cumprimento do
dever é o melhor meio de alcançar a Graça de Deus;
segundo, o homem que tem fé sabe que não irá para
nenhum lugar desconhecido – irá para mais perto de Deus;
terceiro, ele será “congregado”, junto a Deus. Ali
encontrará os seus caríssimos companheiros de fé.
193. Nota-se, aqui, um magnífico toquezinho de literatura.
À primeira vista, esperar-se-ia, neste caso, a 2ª pessoa
“acumulardes”, para concordar com a 2ª pessoa da
primeira clausura. Contudo, lembremo-nos de que a 2ª
pessoa, na primeira clausura, refere-se às pessoas de fé, e
de que a 3ª pessoa, na última clausura, refere-se aos
incrédulos, como se se dissesse: “Certamente que vós,
homens de fé, não vos afeiçoareis a acumular riquezas. O
vosso tesouro – o dever e a misericórdia de Deus são
muitíssimos mais preciosos do que qualquer coisa que os
incrédulos possam acumular nas suas vidas egoístas…
194. A natureza extremamente cândida de Mohammad
tornava-o caro a todos, e isso é reconhecido como uma
das Misericórdias de Deus. Um dos títulos do Mensageiro
é “Misericórdia para toda a Humanidade”. Em ocasião
alguma tal candura, tal misericórdia, tal sofrimento
prolongado, decorrentes da fraqueza humana, foram tão
valiosos como depois do desastre de Uhud. Era uma
qualidade divina, que, então, como sempre acontece,
reatou neles os laços das almas de incontáveis homens.
195. Além de afabilidade de sua natureza, Mohammad era
conhecido, desde tenra idade, por sua fidedignidade. Daí o
seu título de Al-Amin. Pessoas inescrupulosas
freqüentemente descarregam os seus chãos propósitos em
outras; mas acontece que suas acusações, que deveriam
causar danos, incrementam as várias virtudes pelas quais
a pessoa atacada é conhecidíssima. Depois de Uhud,
alguns dos hipócritas suscitaram dúvidas quanto à divisão
dos despojos, intentando plantar a semente da discórdia
nos corações dos homens que tinham desertado dos seus
postos em sua ânsia pelos mesmos. Tais meandros
rasteiros não foram acreditados por pessoa sensível
alguma, o que não tem interesse algum para nós, agora.
Todavia, os princípios gerais, aqui declarados, são de valor
perpétuo. Os homens de Deus não agem movidos por
razões indignas. Os que assim agem são criaturas
espiritualmente ínfimas, mas não tirarão proveito disso.
Não se deve julgar um homem de Deus pelos mesmos
padrões com que se julgam as criaturas cúpidas. Aos olhos
de Deus, há vários graus de homens, e nós devemos
tentar compreender e considerar tais graus. Se confiamos
em nosso líder, não devemos inquirir quanto à sua
honestidade sem justa causa. Se ele é desonesto, não
está qualificado para se o nosso líder.
196. Trata-se das batalhas de Uhud e de Badr,
respectivamente. Se Uhud constituiu um revés para os
muçulmanos, eles haviam infligido um revés duas vezes
maior aos habitantes de Makka, em Badr. Tal revés não se
deu sem a permissão de Deus, uma vez que Ele queria
testar e purificar a fé daqueles que seguiam o Islam, e
mostrar-lhes que deveriam porfiar e fazer tudo o que
estivesse ao seu alcance para merecerem o adjutório de
Deus.
197. Uma bela passagem acerca dos mártires pela causa
da verdade. Eles não estão mortos; vivem, num sentido
mais altruístico e profundo do que o da vida que deixaram.
Mesmo aqueles que não acreditam no além-túmulo,
honram as memórias dos que perecem por nobres causas
colocando a coroa da imortalidade nas mentes e nas
memórias das gerações ainda por nascer. Mas, no caso da
fé, nós divisamos uma mais elevada, mais verdadeira e
menos relativa imortalidade. Quem sabe, “imortalidade”
não seja a palavra certa nesta contextura, uma vez que
também implica na continuidade desta vida. No caso deles,
através do portal da morte, adentram a verdadeira e real
vida, em oposição à sua sombra aqui. A nossa vida carnal
é sustentada por alimentação material, e suas alegrias e
seus prazeres, no que há de melhor, são aqueles
projetados na tela do nosso mundo corpóreo.
198. Depois da confusão em Uhud, os homens passaram a
se reagrupar em torno do Mensageiro. Este estava ferido e
eles também, mas todos estavam prontos para combater
novamente. Abu Sufian e seus idólatras se retiraram, mas
lançaram um desafio, no sentido de encontrar o Profeta e
seu exército, novamente, na feira de Badr, no ano
seguinte. O desafio foi aceito, e um grupo de muçulmanos,
escolhidos a dedo, sob a direção do seu intrépido líder,
cumpriu a palavra, mas o inimigo não compareceu. Os
muçulmanos voltara, não apenas ilesos, mas enriquecidos
pelos negócios que fizeram na feira e (presume-se)
fortificados pelo acréscimo de novos aderentes à sua
causa.
199. O homem, em seu estado de firmeza, seria mais
miserável se pudesse desvendar os segredos do Futuro ou
do Incognoscível. Porém, as realidades são-lhes
reveladas, de tempos em tempos, quando oportuno, por
mensageiros escolhidos para o propósito. É nosso dever
apegarmo-nos à fé e conduzirmo-nos bem pela vida.
200. As graças são de toda a espécie; materiais, tais como
riqueza, propriedade, força física etc.; graças intangíveis,
tais como: influência, berço de ouro, inteligência, destreza,
visão ampla, etc.; graças espirituais do mais alto teor.
Despendermos de todas essas faculdades (excetuando-se
o que for necessário para nós mesmos), em prol daqueles
que necessitam delas, constitui caridade e purifica o nosso
próprio caráter. Recusá-la (excetuando-se o que for de
nossa necessidade) constitui, de igual modo, cupidez e
egoísmo, e é energicamente condenável.
201. Por meio de uma metáfora apropriada, é asseverado
que a sua riqueza, ou quaisquer outras graças que ele
tenha acumulado, circundar-lhe-ão o pescoço, e não lhe
proporcionarão qualquer bem. Desejará livrar-se daquilo,
mas não será capaz. De acordo com a frase bíblica, com
outra conotação, aquelas cosias parecer-lhe-ão como uma
mó de moinho, em torno do pescoço (Mateus, 18:6). A
metáfora, aqui, é mais consistente. Ele abraçou-se,
sofregamente, à sua riqueza ou às suas graças. Estas
constituir-se-ão em pesado colar, labéu do cativeiro, em
torno do seu pescoço. Estarão fortemente atadas e
retorcidas, e lhe causarão dor e angústia, em vez de
prazer.
202. No versículo 245 da 2ª Surata, lemos: “Quem está
disposto a emprestar a Deus, espontaneamente?” Em
outros locais, a caridade ou o despender na senda de
Deus é metaforicamente descrita como “dar a Deus”. O
Mensageiro empregava, freqüentemente, essa expressão,
para angariar fundos a serem despendidos na senda de
Deus. Os escarnecedores zombava, dizendo: “Então, Deus
é pobre e nós somos ricos.” Tal blasfêmia coadunava-se
com toda a sua conduta na história, ao assassinarem os
profetas e os diletos de Deus.
203. Os três tópicos mencionad
207. A Verdade – a Mensagem de Deus – chega a qualquer
homem ou nação por uma questão de custódia sagrada.
Ela deve ser transmitida, pela imprensa falada, escrita, e
ensinada e esclarecida a todos que puder alcançar. O
sacerdócio privilegiado, para começar, erige uma barreira.
Porém, ainda pior, quando tal sacerdócio distorce a
verdade por comodidade sua, ignorando o resto, vendendo
essa dádiva de Deus por um miserando e efêmero lucro,
quão miseravelmente a sua lição, quando Nêmesis chegar!
208. Um quadro minucioso, de amplitude mundial! Eles
poderão causar danos e misérias a outros; poderão
distorcer a verdade de Deus e coroar os falsos padrões de
adoração; poderão ser creditados por virtudes que não
possuem, e desfrutar de aparentes sucessos, que advirão
a despeito das suas desprezíveis fraudes, mas não
regozijemos com qualquer glória que isso lhes possa
causar.
209. Ou seja, em todas as posturas, o que, novamente, é
simbólico em todas as circunstâncias – pessoais, sociais,
econômicas, históricas e outras.
210. No Islam, a igualdade de condições entre os sexos,
não somente é reconhecida, como imposta
veementemente. Se a distinção dos sexos, que é uma
distinção fornecida pela natureza, não conta em questões
espirituais, muito menos contarão, certamente, as
distinções artificiais, tais como: linhagem, riqueza, posição,
raça, cor, origem etc.
211. Aqui, como no versículo 198 desta Surata, acima, e
em muitos outros locais algures, é dado um destaque no
sentido de que, seja qual for a dádiva, a recompensa ou a
bem-aventurança que advenha àqueles de conduta reta, o
seu principal mérito repousa no fato de tudo emana da
Presença do Próprio Deus. A “Proximidade de Deus”
expressa essa ocorrência melhor do que qualquer outro
símbolo.
212. (Falah) aqui, e em outras passagens, deve ser
entendida em um sentido amplo, incluindo a prosperidade
nos nossos afazeres terrenos, bem como no nosso
desenvolvimento espiritual. Em ambos os casos, ela
implica em felicidade e na concretização dos nossos
desejos, purificados pela mercê de Deus.
213. Nafs, em árabe, pode significar: ser, ego, pessoa,
pessoa vivente, vontade, alma, como no versículo 4 desta
Surata. Min-ha: A partícula Min pode então sugerir, aqui,
não uma parte ou uma fonte de alguma coisa, mas uma
espécie, uma natureza, um similaridade. O pronome há
certamente se refere a Nafs.
214. Todos o nossos direitos e deveres mútuos são
submetidos a Deus. Nós somos as Suas criaturas. A sua
Vontade é o padrão e a medida da Benevolência; e os
nossos deveres são medidos pela nossa conformidade
com a Sua Vontade. Entre nós (seres humanos), nossos
direitos e deveres mútuos vêm da Lei de Deus, sendo o
senso do Direito implantado em nós por Ele.
215. Entre os primordiais e maravilhosos mistérios da
nossa natureza, encontra-se o do sexo. Irregenerado
macho é capaz, face ao orgulho de sua fortaleza física, de
esquecer o papel essencial que a mulher desempenha na
existência dele e em todos os relacionamentos sociais que
se evidenciam em nossas vidas humanas coletivas.
216. A justiça para com os órfãos é prescrita com a citação
especial de três tópicos quanto às tentações a que estão
afeitos os guardiães: (1) não se deve adiar a restauração
de todos os pertences, quando for chegado o tempo
(assunto do versículo 5, desta Surata); (2) os bens
restituídos deverão ser de igual valor àqueles recebidos; o
mesmo princípio se aplica quando se há rol algum; (3) se
os haveres forem administrados em conjunto, haverá
necessidade de se consumirem os artigos perecíveis;
neste caso, uma probidade rigorosa será necessária
quando tiver lugar a separação.
217. Note-se a cláusula condicional sobre os órfãos,
introduzindo as normas concernentes ao casamento. Isto
nos aclara a mente, quanto à ocasião imediata da
“promulgação” deste versículo. Deu-se depois do episódio
de Uhud, quando a comunidade muçulmana se viu
atulhada de um sem-número de órfãos e viúvas, bem como
de cativos de guerra. O tratamento dispensado a todos
estes deveria ser regido pelos princípios humanitários e de
igualdade. A ocasião é a coisa do passado, mas os
mesmos princípios permanecem. Desposai as órfãs, se
estiverdes bem certos de que, desse modo, podereis
proteger os seus interesses e os seus haveres, com
perfeita justiça para com elas e para com os vossos
dependentes, se é que tendes algum.
218. O número irrestrito de esposas dos “tempos de
idolatria” foi, então, meticulosamente reduzido ao máximo
de quatro, contanto com se pudesse tratar todas com
perfeita eqüidade, no tocante às coisas materiais, bem
como em afeição, e às coisas imateriais. Como tal
condição é dificílima de ser preenchida, compreendemos
estar a tendência descambando para a monogamia.
219. Cativas de guerra.
220. Isto se aplica aos órfãos, mas a enunciação está
perfeitamente generalizada. Os bens não somente
acarretam direitos, mas também responsabilidades. Talvez
o proprietário não possa, absolutamente, fazer o que lhe
apraz; seus direitos são limitados ao benefício da
comunidade, da qual ele é membro e se ele for incapaz de
reconhecer isso, o seu controle sobre os mesmos deverá
ser anulado. Todavia, isto não quer dizer que será tratado
com rudeza. Pelo contrário, seus interesses devem ser
protegidos e ele deverá ser tratado com especial
condescendência.
221. As pessoas referidas são aquelas entre as quais as
heranças têm de ser divididas. As divisões são
especificadas. Aqui, os princípios gerais são no sentido de
que as mulheres devam participar da herança, tanto
quanto os homens, e de que os parentes – que não têm
direito legal de participação na partilha – , os órfãos, e os
indigentes não sejam tratados asperamente, se presentes
à divisão. A “concessão” deverá ser tirada da propriedade,
como parte das despesas do funeral.
222. Este é um pungente argumento, dirigido àqueles que
têm de dividir um espólio. Quão ansiosos ficariam se
tivessem de deixar atrás uma família em desespero! Se
isso acontecer a outrem, ajudai-os e sede complacentes.
223. Os princípios da lei da herança são estabelecidos, em
amplo delineamento, no Alcorão; os detalhes precisos têm
sido elaborados com base na prática do Mensageiro e na
de seus companheiros, bem como por interpretação e
analogia. Os jurisprudentes muçulmanos têm compilado
uma vasta quantidade de ensinamentos a este respeito,
parecendo-nos que esse corpo legislativo é, por si só,
suficiente para formar um assunto de estudo durante toda
a vida. Trataremos, aqui, apenas dos princípios básicos a
serem colhidos do texto, segundo a interpretação dos
jurisprudentes. O poder da disposição testamentária
estende-se somente a um terço da propriedade; os
restantes dois terços são distribuídos entre os herdeiros,
como foi prescrito. Toda a distribuição se efetua depois de
serem pagos legados e dívidas, incluindo as despesas do
funeral.
224. À primeira vista, as palavras árabes parecem
significar : “se mais de duas filhas”. Contudo, a alternativa
na cláusula seguinte é: “se apenas uma filha”.
Logicamente, portanto, a primeira cláusula deve significar:
“se filhas, duas ou mais”. Esta é a interpretação geral,
confirmada pela provisão suplementar do versículo 176
desta surata, o qual deve ser lido ele conjunto a este.
225. Este versículo trata das partes distribuídas entre filhos
e pais. O versículo seguinte trata das partes distribuídas
entre o cônjuge do falecido ou da falecida, bem como entre
os colaterais. As cotas dos filhos são fixadas, mas as suas
importâncias dependerão do que couber aos pais. Se o
pai, ou a mãe, estiver vivo e houver filhos, tanto um como a
outra receberá um sexto, cada; se apenas um deles estiver
vivo, ele ou ela receberá a sua sexta parte, indo o resto
para os filhos. Se os pais estiverem vivos e não houver
filho algum, ou outro herdeiro, a mãe receberá um terço (e
o pai os outros dois terços, restantes); se não houver
filhos, havendo, contudo, irmãos ou irmãs (isto é
rigorosamente interpretado em ermos de plural), a mãe
receberá um sexto e o pai o restante, um vez que, em se
tratando do pai, este prescinde de colaterais.
226. O marido receberá a metade dos bens da sua falecida
esposa, se esta não deixar prole, indo o restante para os
residuários; se ela deixar um filho, o marido receberá
apenas um quarto. Seguindo a norma de que a parte que
cabe à mulher é, geralmente, a metade da que cabe ao
homem, a viúva receberá um quarto dos bens do seu
falecido marido, desde que este não deixe prole, e um
oitavo, se deixar. Se houver mais de uma viúva, sua cota
coletiva será um quarto, ou um oitavo, conforme o caso;
entre si, elas dividirão igualmente.
227. A palavra árabe é Kalala. Todavia, ela não foi definida
com autoridade, durante a vida do Mensageiro. Este foi um
termo que Ômar Ibn al Khattab desejava que o Mensageiro
tivesse definido, durante a sua vida; os outros dois são
Khilafa (sucessão) e Riba (usura). Respeitando a definição
aceita, ater-nos-emos à herança de uma pessoa que não
tenha deixado descendentes ou ascendentes (conquanto
distantes), mas somente colaterais, com ou sem viúvo ou
viúva. Se houver viúvo ou viúva sobrevivente, este ou esta
receberá a parte já definida, antes de os colaterais
entrarem em cena.
228. Um “irmão ou uma irmã” é, aqui, interpretado como
sendo uterinos, ou seja, provenientes da mesma mãe, mas
não do mesmo pai. Os casos de irmãos plenos (do mesmo
pai e mesma mãe), ou irmãos provenientes do mesmo pai,
mas de diferentes mãe, serão tratados mais adiante, no
último versículo desta surata. Quando ao irmão ou irmã
uterinos, se apenas um sobreviver, receberá um sexto; se
mais de um sobreviver, receberão coletivamente um terço,
para que o dividam entre si, isto na suposição de não
haver descendentes ou ascendentes (embora remotos).
229. As dívidas (das quais as despesas com funerais
tomam a primeira linha) e os legados constituem a
incumbência primordial no caso de uma pessoa falecida,
antes que se proceda à distribuição da herança. Porém, a
eqüidade e o trato justo devem ser observados com todas
as questões, para que não sejam prejudicados os
interesses de ninguém.
230. A maioria dos jurisprudentes compreende que isto se
refere ao adultério ou à fornicação; tal caso, eles
consideram que a punição foi alterada para cem açoites,
de acordo com o versículo 2 da 24ª Surata. Nós, porém,
achamos que se refira a uma prática sacrílega, entre as
mulheres, análoga à prática sacrílega existente entre os
homens (4ª Surata, versículo 16), porquanto punição
alguma é especificada aqui para o homem, como seria o
caso, se este estivesse envolvido naquela prática; a
palavra al-lati, tão-somente al-lati, termo puramente
feminino, é empregada para as partes envolvidas naquela
prática.
231. A fim de se proteger da integridade das mulheres,
evidências meticulosas são requeridas; por exemplo,
quatro, em vez das duas testemunhas costumeiras. O
mesmo se dá com referência ao adultério (ver versículo 4
da 24ª Surata).
232. “Conservai as cativas até que alguma ordem definida
seja recebida.” Aqueles que consideram este crime como
adultério ou fornicação, dizem que tal ordem definida (“um
novo destino”) significa um pronunciamento definitivo do
Profeta, sob inspiração; esta era a punição por açoites,
encontrada no versículo 2 da 24ª Surata. Se entendermos
o crime por “prática sacrílega”, presumiremos, dada a
ausência de qualquer ordem definida (“um novo destino”),
que a punição deverá ser semelhante àquela aplicada à
pessoa do versículo seguinte. Aquela é, por si só, definida,
ou talvez com essa intenção, porquanto o crime é
afrontoso.
233. Nos dias de idolatria, em muitas nações, incluindo a
árabe, um enteado ou um irmão de criação costumava
tomar posse da viúva ou das viúvas do falecido,
juntamente com os bens e escravos deste. Tal costume
sacrílego foi proibido. Ver, também, o versículo 22 desta
surata, mais adiante.
234. Nos costumes pré-islâmicos, outro truque para aviltar
a liberdade das mulheres casadas consistia nos maus
tratos e no emprego da força, a fim de que pedisse o
divórcio (ver o versículo 229 da 2ª Surata e respectiva
nota), ou seu equivalente, uma vez que o dote poderia ser
pedido de volta. Isto também foi proibido.
235. Na época da idolatria, os homens casavam-se com
suas madrastas viúvas.
236. Esta tabela de uniões proibidas concorda, em
essência, com o que é costumeiramente aceito por todas
as nações, exceto no que diz respeito aos mínimos
detalhes. Ela se inicia no versículo anterior (com as viúvas
ou as divorciadas, em relação ao pai). O diagrama é
esquematizado na conjectura de que a pessoa que
pretende se casar seja homem; se for mulher, aplicar-se-á
o mesmo diagrama; ler-se-á, então: “vossos pais, vossos
filhos, vossos irmãos, etc.”; ou poder-se-á, sempre, lê-lo do
ponto de vista da relação do marido, porquanto haverá
sempre um marido em concernência.
237. Por “mãe” compreende-se, também, a avó (paterna
ou materna), a bisavó etc.; por “filha” compreende-se,
também, a neta (por parte do filho ou filha), a bisneta etc.;
por “irmã” compreende-se a irmã legítima ou a meio-irmã;
“tia, por parte do pai” compreende a tia-avó etc.; “tia, por
parte de mãe” compreende a tia-avó etc..
238. As relações lactárias desempenham um importante
papel na Lei muçulmana e são consideradas como
relações consangüíneas; parece-nos, portanto, que não
somente mães e irmãs adotivas, mas ainda tias adotivas
etc., enquadram-se nas uniões proibidas.
239. É geralmente aceito (sem unanimidade) que “sob
vossa tutela” seja uma descrição, não uma condição.
Portanto, uma enteada que esteja “sob vossa tutela”
enquadrar-se-á na proibição, se a outra condição (sobre a
mãe) for preenchida.
240. Por “filhos”, compreende-se os netos, mas excluemse
os filhos adotivos ou pessoas consideradas como tais,
em decorrência das palavras “vossos filhos carnais”.
241. A barreira do casamento conjunto com duas irmãs
aplica-se também, à tia e à sobrinha conjuntas, mas não à
irmã da esposa falecida.
242. “As que tendes à mãe”, isto é, as cativas da guerra
contra aqueles que perseguem a fé, e sob as ordens de
um Imam virtuoso (Jihad). Em tais casos, as hostilidades
dissolveram os laços civis. Por outro lado, era permitido o
casamento com as cativas casadas, desde que não se
conhecesse o paradeiro dos maridos. Contudo, se ambos
estivessem juntos, o Islam não permitia o casamento com
ela.
243. Depois das uniões proibidas, o versículo continua a
dizer que outras mulheres, que não aqueles especificadas,
devem ser procuradas para o casamento; mesmo assim,
não por motivos de luxúria, mas a fim de preservar a
castidade entre os sexos. O casamento, no original árabe,
está aqui descrito por uma palavra que sugere
fortalecimento (ihsan); o casamento é, portanto, o
fortalecimento da castidade.
244. Assim como a mulher submete a sua pessoa no
casamento, o homem também deve submeter (menos
parte da sua independência), pelo menos alguns dos seus
bens, de acordo com as suas posses. E isto propicia a Lei
do Dote. É fixado um dote mínimo, não sendo, porém,
necessário apagar-se a esse mínimo, quanto à nova
relação criada.
245. Ou seja, cativas tomada durante o Jihad: “As que
tendes à mão” não significa, necessariamente, que elas
estejam comprometidas convosco, ou que sejam
propriedade vossa. Tudo o que é capturado, na guerra,
pertence à comunidade e é nesse sentido que elas são
“vossas”. Se procurarem tais pessoas, para com elas se
casarem, não o façam por motivos vis. O cativeiro está,
agora, ultrapassado, no verdadeiro espírito do Islam.
Contudo, há outras condições, nas quais a liberdade de
uma mulher (ou de um homem) é restrita, e o princípio
também se aplica aqui.
246. Parafraseemos este versículo, porquanto ele contém
um profundo significado: Todas as vossas propriedades,
tende-las em custódio, quer estejam em vosso nome, quer
pertençam à comunidade, quer pertençam a pessoas
sobre quem tenhais controle. Constitui erro e desperdício.
No versículo 188 da 2ª Surata, a mesma frase apareceu,
acautelando-nos à cupidez. Aqui ela aparece para nos
encorajar a aumentar os nossos bens pelo uso moderado
dos mesmos. Somos admoestados, no sentido de que o
desperdício poderá levar-nos à nossa própria destruição.
247. Tanto os homens como as mulheres desfrutam das
dádivas divinas, alguns mais que os outros. Isso poderá
parecer injusto, mas é-nos assegurado que a Providência
distribuiu as pessoas segundo um esquema, pelo qual
todos recebem aquilo a que fazem jus. Se isso não nos
parece muito claro, lembremo-nos de que não temos pleno
conhecimento, mas Deus sim. Não devemos ficar
enciumados se outras pessoas têm mais do que nós, seja
em riqueza, posição ou poderio, talento ou felicidade.
Talvez as coisas sejam igualadas no todo, a curto ou a
longo prazo, ou equacionadas segundo as necessidades e
méritos, numa escala da qual não nos podemos aperceber.
248. Quando a emigração de Makka para Madina tomou
corpo, vínculos e laços de amizade foram estabelecidos
entre os emigrantes e os socorredores, passando ambos a
compartilhar a herança uns dos outros. Mais tarde, quando
a Comunidade foi solidamente estabelecida e as tensões
com aqueles que haviam ficado para trás, em Makka,
foram diminuídas, tanto os direitos dos parentes
consangüíneos em Makka, como os da irmandade
socorredora em Madina, foram salvaguardados. O
significado mais generalizado é semelhante: respeitai os
vossos laços consangüíneos, de fraternidade, de pacto
amigável e de compreensão.
249. No caso de altercação familiar, quatro medidas a
serem tomadas, são mencionadas: talvez conselhos
verbais ou admoestações sejam suficientes; se noa, as
relações sexuais deverão ser suspensas; se isso não
bastar algum leve castigo físico deverá ser ministrado,
embora todas as autoridades sejam unânimes em deprecar
qualquer espécie de crueldade; se nada disto der certo; é
recomendado um conselho familiar (versículo 35 desta
surata).
250. O mau-humor, o queixume, o sarcasmo, o ato de falar
um do outro na presença de outras pessoas, referindo-se a
erros passados que deveriam ser esquecidos e perdoados,
tudo isso é proibido. E a razão fornecida constitui a
característica do Islam. Devemos viver toda a nossa vida
como se estivéssemos na presença de Deus, Que está nas
alturas, muito acima de nós, mas Que vela por nós.
251. Um plano excelente para se consertar as disputas
familiares, sem muita publicidade ou conspurcação, sem
recorrer às chicanices da lei. Os casais muçulmanos, em
todo o mundo, recorrem a este instrumento. Os países
latinos reconhecem este plano, em seus sistemas gerais.
Os árbitros de cada família devem conhecer as
idiossincrasias de ambas as partes e pôr-se em posição,
com a ajuda de Deus, para efetuar uma verdadeira
reconciliação.
252. Este preconceito é mais amplo e mais compreensível
do que “Amar a Deus e ao próximo”, porque ele inclui
deveres, tanto para com os animais como para os nossos
semelhantes, além de enfatizar os serviços práticos, não
os meramente sentimentais.
253. O vizinho próximo, ou seja, em contingência local,
bem como em relacionamentos íntimos, assim como o
vizinho estranho, “próximo ou não”, inclui aqueles que não
nos são conhecidos ou que vivem longe ou perto de nós,
ou numa esfera totalmente distinta.
254. O Companheiro pode ser o nosso amigo íntimo ou o
nosso sócio, assim como o viajante pode ser um conhecido
ocasional, que encontremos quando em viagem. Isto tem
mais amplitude do que o “vizinho desconhecido”.
255. Vossos servos: qualquer criatura que não possua
direitos civis. Inclui cativos ou escravos (em qualquer forma
que existam), pessoas sob a vossa tutela, ou animais
silentes, com os quais tendes de tratar. Todos eles são
criaturas de Deus e merecem a nossa simpatia e o nosso
serviço prático.
256. A arrogância é a razão pela qual os nossos atos de
amor e de benevolência não se desenvolvem. Outras, são
a avareza e o egoísmo. Deus é contrário a tudo isso,
porquanto todos esses defeitos procedem de falta de amor
a Ele e da carência de fé n’Ele. Avaro é o que não somente
se recusa a gastar, prestando serviços, mas, por meio de
exemplos e preceitos, impede outros de fazê-lo, tornandose,
portanto, por comparação, odioso ante os seus
semelhantes. Assim, sendo, ele ou faz de sua precaução
uma virtude, ou esconde as dádivas com as quais foi
agraciado – riqueza, posição, talento etc..
257. Note-se como o castigo se adapta ao crime. O
avarento despreza as pessoas; assim procedendo, ele
próprio se torna desprezível.
258. Um defeito oposto à avareza, mas igualmente oposto
à caridade, é gastar perdulariamente para se notado pelos
homens. Constitui mera hipocrisia; não há amor nisso,
tanto para com Deus, como para com o homem.
259. A referência é tanto para o estado de embriaguez
como para o de aturdimento mental, devido ao
entorpecimento ou a alguma outra causa. Talvez ambos
estejam implícitos. Antes que a proibição dos tóxicos fosse
totalmente promulgada, era, pelo menos, inconcebível que
as pessoas comparecessem às orações em tal estado.
Para as orações, é preferível que estejamos de posse de
todas as nossas faculdades, a fim de que nos
aproximemos de Deus com um espírito de reverência. A
“oração”, aqui, significa “o local das orações”, uma
Mesquita; o significado conseqüente será o mesmo.
260. A rigorosa higienização e purificação da mente e do
corpo é requerida, especialmente na hora da oração.
Contudo, há certas circunstâncias em que a água para a
ablução não é facilmente encontrada, mormente nas
condições adustas da Arábia. Nesse caso, esfregar-se com
areia seca ou com terra limpa é recomendado. Quatro de
tais circunstâncias são mencionadas; as duas última,
quando o lavar-se é especialmente requerido; as duas
primeiras, quando o lavar-se deve ser necessário, não
sendo, no entanto, fácil encontrar água. Isso, para um
homem doente, que não pode caminhar para conseguir
água, e para um homem em viagem, que não possui pleno
controle dos seus suprimentos. Nos quatro casos em que a
água não pode ser conseguida, a pessoa se limpar com
areia ou terra seca é recomendado. Este ato é chamado de
Tayamum.
261. Ver nota do versículo 93 da 2ª Surata. Um truque dos
judeus consistia em distorcer as palavras e expressões,
com o fito de ridicularizar os mais solenes ensinamentos
da fé. Quando deveriam ter dito: “Ouvimos e obedecemos”,
diziam em voz alta: “Ouvimos”, e sussurravam: “e
desobedecemos”. Quando deveriam ter dito,
respeitosamente: “Ouvimos”, adicionavam com um
sussurro: “o que não deve ser ouvido”, a fim de
escarnecerem. Quando inquiriam do Profeta, usavam
palavras ambíguas, aparentemente inofensivas, mas
desrespeitosas em suas intenções.
262. Literalmente quer dizer: “Antes que obliteremos as
feições (ou rostos) de alguns, fazendo com que suas
cabeças se virem para trás (ou que suas costas se voltem
para a frente)”, constituindo um idiotismo árabe que deve
ser livremente traduzido, para que proporcione um
significado adequado em português. O rosto é a principal
expressão da real essência do próprio homem; ele
constitui, também, o índice da sua fama e estima. Os
adeptos do Livro foram especialmente favorecidos por
Deus, quanto às revelações espirituais. Se se mostrassem
indignos, haveriam de perder os seus “rostos”. Sua
eminência deveria, face à sua própria conduta, degenerarse
em degradação. Outros tomar-lhes-iam o lugar.
263. Comparar com o versículo 65 da 2ª Surata, e
respectiva nota.
264. Literalmente, a mais tênue pele, no sulco do caroço
da tâmara – uma coisa sem valor (Fatil).
265. Os judeus procuraram a ajuda dos idólatras de Makka
contra Mohammad; porém, longe de conseguirem essa
ajuda, ambos, judeus e idólatras, foram, outrossim,
desbaratados. Esta foi a ocasião imediata, mas as palavras
têm um significado perfeitamente genérico.
266. A palavra que traduzimos pela expressão “a mais
ínfima partícula” é naquir, o sulco do caroço da tâmara,
coisa sem valor nenhum. A avareza e a inveja estão entre
as piores espécies de egoísmo, e aparecem especialmente
incôngruas nas pessoas de poderio, de autoridade, de
influência, de quem era de se esperar generosidade em
dar, e generosidade em desejar prosperidade ou a
felicidade a outras pessoas.
267. Tal como os reinados de Davi e Salomão, que tinham
fama internacional.
268. A inveja é como fogo interno que, por si só, é um
inferno.
269. O jardim contrasta com o Fogo; a sombra contrasta
com o calor do fogo. O Mal cresce consoante aquilo de que
é alimentado. Também a benevolência e a felicidade
crescem consoante a sua prática.
270. Úlul-amr = aqueles imbuídos de autoridade, ou de
responsabilidade, ou da capacidade de decisão, ou de
resolução de disputas. Toda a autoridade emana de Deus.
Portanto, os profetas de Deus têm as suas autoridade
derivadas da d’Ele. Como o Islam não faz divisões
abruptas entre o sagrado e o profano, comumente espera
que o governo seja imbuído de espírito justiceiro. O Islam
espera que os muçulmanos respeitem e obedeçam à
autoridade de tal governo. Caso contrário, não haverá
ordem ou disciplina alguma. Onde, na atual conjuntura,
existe uma abrupta divisão entre a lei e a mora, entre os
assuntos seculares e religiosos, como é o caso da maior
parte dos países hoje em dia, o Islam espera que a
autoridade civil seja exercida com retidão e, em tal
condição, ele prescreve obediência a essa autoridade.
271. A referência imediata é feita aos hipócritas
(Munafiquin) de Madina, mas as palavras são
generalizadas, sendo que o mal da hipocrisia tem-nos
desafiado em todas as épocas. Tais homens declaram
estar sempre do lado do Direito, mas sorrateiramente
andam de braços dados com o mal e com a injustiça,
fazendo desta última o seu juiz, desde que os seus
interesses pessoais estejam em jogo.
272. O teste da verdadeira fé não consiste na nossa
profissão verbal, mas sim em apresentarmos todas as
nossas dúvidas e disputas perante aquele em quem
professamos a fé. Indo mais além, quando uma decisão é
apresentada, não somente devemos aceitá-la, mas ainda
rebuscar os recônditos das nossas almas e retirar dali
todos os empecilhos e resistências, propiciando uma
jubilosa aceitação, resultante da convicção da nossa
própria fé.
273. Aqueles altamente apegados à fé, de bom grado
sacrificam as suas vidas, os seus lares e tudo quanto
consideram caro pela causa de Deus. Quanto àqueles cuja
fé não é tão consistente, espera-se, pelo menos, que
façam o que um leal membro de qualquer sociedade faz:
que submetam as suas dúvidas e disputas ao cabeça da
sociedade, a animadamente aceitam as suas decisões e a
elas se submetam.
274. Uma passagem do mais profundo significado
espiritual. Mesmo o homem mais humilde, que aceita a fé e
pratica o bem, torna-se logo um membro aceito pela
majestosa e magnífica confraternidade espiritual. Esta
constitui um companheirismo que vive eternamente ao sol
da Graça de Deus. Constitui uma gloriosa hierarquia, da
qual quatro gruas são especificados: (1) o mais alto é o
dos Profetas ou Mensageiros, que recebem inspiração
plenária de Deus e que ensinam a humanidade, através de
exemplos e preceitos. Esse posto, no Islam, é ocupado por
Mohammad; (2) aqueles cujos estandartes são a
sinceridade e a verdade; eles amam e exemplificam a
verdade com suas pessoas, seus meios, suas influências e
com tudo de seu. Esse posto foi ocupado pelos
companheiros especiais de Mohammad, cujo modelo
encontrava-se em Abu Bakr Assiddik; (3) o nobre exército
de Testemunhas, que testificam a verdade. O testemunho
pode aparecer em forma de martírio ou pela língua do
verdadeiro pregador, ou pela caneta do estudioso, ou pela
vida do devotado ao serviço; (4) há uma vasta acumulação
de pessoas virtuosas, gente comum, que trata dos seus
negócios cotidianos, porém sempre de maneira virtuosa.
275. Combate algum deverá ser empreendido sem as
devidas preparações e precauções. Estas satisfeitas,
deveremos marchar para frente, sem temor. Embora haja
zêugma do verbo, “avançai” está repetido para dar ênfase.
Contudo, devemos avançar com espírito coletivo, não com
espírito egoístico, tanto em pequenos grupos como em
massa, como o nosso Líder determinar.
276. É bem o pensamento de um egoísta. Tais homens
estão longe de constituírem a fonte de fortificação da sua
comunidade. Não são úteis ao combate; o versículo
seguinte implicitamente os delata.
277. Mustadh’af – aquele reconhecidamente fraco e, por
conseguinte, maltratado e oprimido. Comparar com o
versículo 98 desta surata, e com o 150 da 7ª Surata.
278. Mesmo do ponto de vista humano, a causa de Deus é
a causa da justiça, a causa dos oprimidos. Por ocasião da
grande perseguição, antes de Makka ser reconquistada,
quanta desgraça, ameaça, tortura e opressão não foram
suportadas por aqueles de fé inquebrantável! As vidas de
Mohammad e de seus aderentes foram ameaçadas; eles
era ridicularizados, assediados, insultados, surrados;
aqueles ao alcance das mãos dos inimigos era postos a
ferros e lançados ao cárcere; outros foram boicotados,
proscritos do comércio e dos negócios, banidos das
relações sociais; não podiam, nem mesmo comprar o
alimento de que necessitava, nem cumprir os deveres
religiosos. A perseguição foi redobrada quanto aos
escravos, às mulheres e às crianças crédulas, depois da
Hégira. Seus clamores por um protetor e auxiliador da
parte de Deus foram respondidos quando Mohammad
propiciou, novamente, a liberdade e a paz a Makka.
279. Auliyaa, plural de wali, que quer dizer amigo,
sustentador, protetor, patrão, da mesma raiz de mawla (ver
versículo 33 desta surata e respectiva nota).
280. Antes da ordem de combate ter sido dada, havia
alguns impacientes cujos ímpetos mal podiam ser contidos.
Queriam lutar por motivos execrandos, tais como
pugnacidade, amor à pilhagem, ódio contra seus inimigos,
ganho de objetos pessoais. Lutar por tais motivos constitui
erro em todos os tempos. Quando chegou o tempo da
provação, em que eles teriam de lutar, não para seu
benefício mas por uma causa sagrada, em cuja luta
haveria muito sofrimento e pouco ganho, os hipócritas
negacearam e se amedrontaram.
281. O Mensageiro foi enviado para pregar, guiar, instruir e
mostrar o Caminho, não para tornar boas as pessoas, ou
para conter tudo o que é mau. Isso não é dos desígnios de
Deus, os quais testam a vontade humana. O dever do
Mensageiro, por conseguinte, é dar a conhecer a
mensagem de Deus, com todos os meios de persuasão
que lhe forem disponíveis. Se os homens desobedecerem,
perversamente, a essa mensagem, não estarão
desobedecendo a ele, mas estarão desobedecendo a
Deus. Do mesmo modo, aqueles que obedecerem à
Mensagem estarão obedecendo a Deus. Não estarão
obsequiando o Mensageiro; tão-somente estarão
cumprindo com as suas obrigações.
282. A coragem de Mohammad era tão notável quanto o
eram seu critério, sua gentileza e sua confiança em Deus.
Ao encarar circunstâncias temerosas, freqüentemente era
deixado a sós, e assumia a inteira responsabilidade.
Todavia, o seu exemplo e a sua palpável confiança em
Deus inspiravam e incentivavam os muçulmanos, além de
conter a fúria dos seus inimigos, ao considerarmos que ele
era o inspirado Mensageiro de Deus, encarregado de
desenvolver o Plano d’Ele, constatamos que nada pode
resistir a tal Plano. Se acontece de o inimigo ter solidez,
poder ou recursos, saibamos que a solidez, o poder e os
recursos de Deus são infinitamente maiores.
283. Nestes passageiros ensejos terrenos, a providência e
a justiça de Deus nem sempre se apresentam evidentes
aos nossos olhos. Porém, é-nos asseverado que
acreditemos em que, se ajudarmos numa boa causa e a
apoiarmos, compartilharemos de todo o seu crédito e de
toda a sua vitória final. E, inversamente, não poderemos
sustentar sua causa má, sem compartilhar de todas as
conseqüências maléficas. Se as aparências se
assemelharem contrárias a esta assertiva, não nos
deixemos levar por elas, porque Deus é Onipotente.
284. Quando a deserção, por parte dos hipócritas, em
Uhud, quase resultou numa catástrofe para a causa dos
muçulmanos, houve um grande ressentimento por parte
destes em Madina, quanto àqueles. Uma parte desejava
decapitá-los; a outra, deixá-los em paz. A política vigente,
entretanto, procurava evitar ambos os extremos,
especificados por este versículo. Era patente que eles
constituíam um perigo para a comunidade muçulmana,
caso fossem admitidos em seus conselhos, sendo que, de
qualquer modo era considerados uma perene fonte de
desmoralização. Todavia, conquanto toda precaução
possível fosse tomada, medida extrema alguma foi
aplicada contra eles. Pelo contrario, foi-lhes propiciada a
oportunidade de se reabilitarem. Se fizessem um sacrifício
pela causa (“abstendo-vos do que é proibido”- ver o
versículo seguinte), sua conduta purgá-los-ia da covardia
anterior, e a sua sinceridade faria com que fossem aceitos
de volta. Porém, se tornassem a desertar da comunidade
muçulmana, seriam tratados como inimigos e ficariam
afeitos à penalidade adicional, relativa à deserção, que é
hoje aplicada por todas as nações em guerra. Mesmo
assim, uma exceção humanitária foi feita nos dois casos,
especificados no versículo 90 desta Surata.
285. Migrado: é a forma verbal de que hijrat é derivada. Al
Bukhari interpreta isto adequadamente, como “fugir de
tudo o que é proibido”. Isto incluiria a migração (hijrat) no
sentido técnico de abandonar um lugar em que a prática da
religião não seja permitida. Contudo, tal expediente é mais
generalizado. Em tempos de guerra, se um homem
concorda em se submeter à disciplina e em se abster de
infringir as ordens expedidas, terá provada a sua fidelidade
e será tratado como um membro da comunidade em
guerra. Caso contrário, se por falsas pretensões conseguir
ingressar nos conselhos internos, meramente para traí-los,
será devidamente tratado como traidor ou desertor, e será
punido por sua traição e deserção; ou, se escapar, será
tratado como inimigo, destituído de quaisquer concessões
de misericórdia. Será considerado pior que um inimigo,
porquanto reivindicava ser um de vós para vos espionar e
ajudar o inimigo.
286. A vida é absolutamente sagrada na Irmandade
Muçulmana. Todavia, enganos, às vezes, acontecem,
como aconteceu em Uhud, em que vários muçulmanos
foram mortos (confundidos que foram com os inimigos) por
muçulmanos. Não houve intenção criminosa, portanto não
houve crime. Mas, em todo o caso, a família do morto
ficava afeita a ressarcimento, a menos que se remitisse
disso espontaneamente; em compensação, exigia-se que o
desafortunado que cometera o engano manumitisse um
escravo crédulo. Assim, um engano deplorável constituíase
numa oportunidade para que um escravo crédulo
ganhasse a liberdade, uma vez que o Islam desaprovava a
escravidão. O ressarcimento deveria ser feito somente se o
morto pertencesse à sociedade muçulmana ou a algum
povo que estivesse em paz com essa sociedade.
Obviamente, nada seria pago se o morto, embora crédulo,
pertencesse a um povo que estivesse em guerra com a
sociedade muçulmana; mesmo que se pudesse ter acesso
ao seu povo, não seria justo aumentar os recursos do
inimigo. Se o morto fosse um inimigo em litígio,
automaticamente as leis de guerra justificariam a sua
morte como contingências guerreiras, a menos que se
tivesse rendido antes. Se o homem que ceifou uma vida
involuntariamente não possuísse meios de manumitir um
escravo crédulo ou proceder ao ressarcimento deveria,
então, por meio de um ato de rigorosa abnegação
(jejuando por dois meses consecutivos), demonstrar a
conscientização da gravidade do ato que praticara, além
do sincero arrependimento. Achamos que isto se aplique a
todos os três casos mencionados.
287. Relata-se que Al-Háress Ibn Zaid, da tribo dos Bani
Amer, de Makka, quando idólatras, torturou Ai-ach Ibn
Rabib, um muçulmano. Depois da Hégira, Al Háress
tornou-se muçulmano e viajou para Madina, encontrandose,
então, com Ai-ach; este, sem ter consciência da
adesão daquele, matou-o. arrependido, foi à presença do
Profeta e contou-lhe o ocorrido, ao que o Profeta disse:
“Vá, ó Ai-ach, e liberta um escravo muçulmano.”
288. A ocorrência imediata que ocasionou esta passagem
foi a da questão da emigração (hijrat) dos locais em que o
Islam estava sendo perseguido e subjugado. Obviamente,
o dever dos muçulmanos era deixar tais lugares, mesmo
que isso significasse abrir mão de seus lares e juntar-se à
comunidade muçulmana, fortalecendo-a, para que nela
pudessem viver em paz e lutar contra o mal que os
rodeava. Porém, o significado é mais amplo. O Islam não
diz: “Não ofereçais resistência ao mal!” Pelo contrário, ele
impõe uma porfia constante e incessante contra o mal.
Para tanto, é necessário que nos esqueçamos dos nossos
lares, que nos juntemos à nossa irmandade, tomando de
sobressalto e expugnando a fortaleza do mal. Porque o
dever do muçulmano não consiste, somente, em praticar o
bem, mas em coibir o mal. Para efetuarmos o nosso
assalto, deveremos conquistar uma posição da qual tal
assalto seja possível; e saibamos que a terra de Deus é
suficientemente espaçosa para tal propósito. “Posição” não
significa apenas situação geográfica, mas também posição
moral e material. Por exemplo, devemos evitar companhias
maléficas se não pudermos desbaratar o mal, e diligenciar
no sentido de galgar uma posição em que sejamos
capazes de empreender tal proeza.
289. Se devido a incapacidade física, mental ou moral
estivermos impossibilitados de encetar um bom combate,
deveremos contentar-nos em nos opormos ao mal ou nos
livrarmos dele. A graciosa Misericórdia de Deus
reconhecerá e perdoará a nossa fraqueza, desde que seja
real e não meramente uma desculpa.
290. O versículo 101 concede permissão para abreviarem
a oração conjunta, quando as pessoas se encontrarem em
viagens; os versículos 102-104 tratam de casos em que há
perigo de guerra, diretamente com o inimigo. A abreviação
da oração conjunta, em ambos os casos, é conduzida,
regulamentada minuciosamente, pela prática do
Mensageiro e de seus companheiros. Quanto às viagens,
duas perguntas são suscitadas: no que consiste uma
viagem com esse propósito?; seria o temor de um ataque
motivo suficiente para que se abreviassem as orações
conjuntas? Quanto à primeira, é preferível deixar o assunto
a critério da pessoal, apenas tecendo considerações a
todas as circunstâncias da viagem, como no caso da que
exclui o jejum (versículo 184 da 2ª Surata e respectiva
nota). O texto deixa-a a critério da pessoa. Quanto à
segunda, a prática do Mensageiro mostra que o perigo não
é uma condição necessária; é meramente mencionado
com um possível incidente, O Mensageiro freqüentemente
abreviava as orações, de quatro para duas rac’at, na
Oração do Meio-dia, na Oração da Tarde, e na Oração da
Noite; as outras duas, de qualquer modo, são curtas: a
Oração, da Alvorada, com duas rac’at, e a Oração do
Crepúsculo, com três.
291. A oração em congregação, em perigo face ao inimigo,
vale-se do princípio de que o conciliábulo deve ser dividido
em dois grupos; um grupo ora, enquanto o outro vigia o
inimigo; então, o outro grupo pratica a oração, enquanto o
primeiro recua para enfrentar o inimigo; cada grupo
procede de uma ou duas rac’at, ou cerca da metade da
oração conjunta; todas as precauções são tomadas no
sentido de se evitar uma arremetida do inimigo; mesmo
enquanto em oração, armaduras e armas não são
necessariamente postas de lado, exceto se for provável
uma precipitação de chuva, que causará inconveniência ao
portador da armadura e dano às armas, ou quando
qualquer indisposição ou fadiga abalar as energias do
portador.
292. São possíveis duas interpretações: (1) “quando
tiverdes concluído a oração conjunta”; (2) “quando (devido
ao perigo extremo) tiverdes de omitir completamente as
orações conjuntas, mesmo as curtas, indicadas para o
tempo de perigo.” Preferimos a última, porquanto está mais
de acordo com a sentença seguinte, que nos exorta a nos
lembrarmos de Deus individualmente, em qualquer postura
possível, durante o perigo. Porém, passado o perigo, as
orações completas deverão ser praticadas nos tempos
prescritos.
293. Os exegetas explicam esta passagem com referência
ao caso de Taima Ibn Ubairac, nominalmente muçulmano,
mas na realidade um hipócrita, afeito de toda sorte de
iniqüidades. Este era suspeito de haver roubado um
conjunto de armadura e, quando as provas contra ele se
tornaram deveras evidentes, escondeu a propriedade
roubada na casa de um judeu, onde ela foi encontrada. O
judeu negou o gravame e acusou Taima, mas as simpatias
da comunidade muçulmana estavam do lado de Taima, por
causa da sua nominal profissão do Islam. O caso foi levado
ao conhecimento do Mensageiro, que inocentou o judeu,
de acordo com o rigoroso princípio da justiça, como
“dirigido por Deus.”
294. Caçaba: cometer, lucrar, obter, conseguir, trabalhar
por algo valioso, estabelecer provisões para a Vida Futura.
Nós procedemos à nossa labuta diária para obtermos o
nosso sustento; de modo que, num sentido espiritual, seja
qual for o bem ou o mal que pratiquemos ou façamos nesta
vida, este propicia-nos o bem ou o mal na Vida Futura. Nos
versículos 110-112 desta Surata, três casos são
considerados: se procedermos e não nos arrependermos,
crentes que poderemos dissimular, estaremos enganados,
pois que nada se esconde de Deus, e sofreremos todas as
conseqüências na Vida Futura, porquanto não poderemos
furtar-nos à nossa responsabilidade; se procedermos
erroneamente, em grande ou pequena escala, e
imputarmos a causa a terceiros, a nossa responsabilidade
primeira ainda permanecerá, só que adicionaremos a ela
algo mais, uma vez que circundaremos o nosso pescoço
com o agravo da falsidade, o qual converterá, mesmo as
nossas pequenas faltas, em grandes pecados e, de
qualquer maneira, estigmatizar-nos-á nesta vida com o
opróbrio e a ignomínia.
295. A unicidade, o poder e a benevolência de Deus estão
tão patentes na natureza e na mente humanas, desde que
esta esteja de acordo com o espírito universal, que tãosomente
a mais abjeta perversão poderia ser responsável
pelo pecado da traição espiritual. Tal pecado advém de
certas idéias pervertidas do sexo e do ego. A perversão do
sexo consiste em se supor que este governe os assuntos
espirituais. Disso advêm tão horríveis criações da
imaginação como a de Kali, a sanguinolenta deusa da
Índia, ou Hécate, a deusa da vingança e do ódio, na
mitologia grega. Mesmo possuindo garbosas formas de
aliciação, como no caso de Saraswati (a deusa do
aprendizado) ou de Minerva (a deusa virgem da guerra e
cultura), sem falar em Vênus (a deusa do amor), a ênfase
dispensada ao sexo destrói a verdadeira contemplação da
natureza espiritual. As idéias pervertidas do ego estão
estereotipadas na história de Satanás, que era tão
arrogante, a ponto de desobedecer a Deus, sendo
amaldiçoado por Ele. Ambas estas perversões, se lhes
dermos guarida, arruinarão completamente a nossa
natureza espiritual, além de desfigurar o artesanato de
Deus. Portanto, isso não constitui meramente um pecado
extremo, mas um pecado que nos corrompe
completamente.
296. O cerceamento das ovelhas das reses é uma outra
faceta das superstições de que os homens se tornavam
escravos, ao especularem falsos deuses. A astrologia, a
magia e as crenças dos homens em entidades que não
existem, distanciam-nos do Verdadeiro e Único Deus.
297. A responsabilidade pessoal é repetidas vezes
repisadas na temática do Islam. Nela estão implícitas a fé e
a conduta reta. A fé não é uma circunstância extrema; ela
principia com um ato de vontade que, se verdadeiro e
sincero, afeta todo o ser e o leva à virtude. Nisto ela se
distingue da espécie de fé que promete salvação, porque
um terceiro, em quem nos é pedido que acreditemos,
tomou para si todos os pecados dos homens, ou a espécie
de fé que prescreve que, porque nascemos de uma certa
raça, ou de uma certa casta, somos privilegiados, e a
nossa conduta há de ser julgada por padrões diferentes
daqueles dos outros homens. Sejamos quem quer que
sejamos, ou o que quer que sejamos, se praticarmos o
mal, deveremos sofrer as conseqüências, a não ser que a
Misericórdia de Deus nos venha em socorro.
298. Naquir: o sulco do caroço de uma tâmara, um objeto
sem valor algum. Comparar com o versículo 53 desta
surata, e respectiva nota.
299. Abraão é destacado, na teologia muçulmana, com o
título de “O amigo de Deus”. Isto, certamente, não significa
que ele fosse algo mais do que um mortal. Todavia, a sua
fé era pura e verdadeira, e a sua conduta era firme e reta,
em todas as circunstâncias. Ele foi a origem dos três
cursos do pensamento religioso, que mais tarde foram
cristalizados pelas instituições de Moisés, Jesus e
Mohammad.
300. Uma e outra vez está estampada, na comunidade
islâmica, a justeza no trato com as mulheres, os órfãos, as
crianças e com todos cuja fraqueza requeira consideração
especial. A lei acerca das viúvas, dos órfãos, da herança,
do dote e do casamento já foi especificada nos versículos
2-35 desta, com instrução mais consistentes do que as que
serão aqui fornecidas acerca da referências igualmente
mais importantes. As palavras traduzidas por “mulheres
órfãs” designam, cremos, as filhas das viúvas, que eram
muitas depois da batalha de Uhud, e que era dever da
comunidade muçulmana prover. Mas alguns exegetas
tomam-nas como significado somente “mulheres órfãs”.
301. Tanto as viúvas como as órfãs têm de ser auxiliadas,
porque são comumente fracas, maltratadas e oprimidas.
Nas comunidades que fundamentam os seus direitos civis
na força bruta, os mais fracos são marginalizados, e a
opinião pública nada mais espera. Mesmo em democracias
modernas, das mais são espécies, é-nos sugerido que é
destino da minoria sofrer; a força da superioridade
numérica tornar-se o passaporte para o poderio e o
privilégio. O Islam, não obstante preservar os profundos
pontos de vista masculinos em geral, prescreve os mais
solícitos cuidados para com os fracos e oprimidos de toda
a maneira – em direitos de propriedade, em direitos sociais
e no direito às oportunidades de desenvolvimento. A força
ou a fraqueza material, ou com a superioridade numérica.
302. Para protegerem os interesses econômicos da
mulher, várias normas são prescritas quanto ao dote no
matrimônio. Porém, a sacraticidade do casamento é, por si
só, maior do que qualquer interesse econômico. O divórcio
é, de todas as práticas permitidas, a maios odiosa junto a
Deus. Portanto, se uma ruptura entre marido e mulher
puder ser evitada por alguma consideração econômica,
será melhor fazer-se tal concessão, do que pôr em perigo
o futuro da esposa, dos filhos e, provavelmente, também
do marido.
303. Legalmente, mais de uma esposa (até quatro) é
permitido, com a condição de que o homem seja
perfeitamente justo para com todas. Todavia, esta é uma
condição quase impossível de preencher. Se, na
esperança de que venha a poder preenchê-la, o homem se
colocar nessa impossível condição, será direito insistir em
que ele não deve descartar-se de uma delas, mas que, ao
menos, preencha os deveres materiais que lhe cabem com
respeito a ela.
304. A existência de Deus é existência absoluta. Ela
independe de qualquer outra pessoal ou de qualquer outro
arbítrio. E é digna de todo o louvor, pois é “todabenevolência”
e compreende toda a excelência possível. É
necessário salientar este ponto, a fim de se mostrar que a
lei moral, para o homem, não é uma simples questão de
ordens transcendentais, mas repousa, realmente, nas
exigências essenciais da própria humanidade. Os mais
elevados padrões éticos são injungidos pelo Islam, não
como imperativos dogmáticos, mas porque, como pode ser
demonstrado, seguem as exigências da natureza humana,
bem como o resultado de suas experiências.
305. Algumas pessoas inclinadas a favorecer os ricos,
talvez porque esperem algo deles em troca. Algumas
pessoas são inclinadas a favorecer os pobres, talvez
porque estes estejam, geralmente, desesperançosos.
Todavia, a parcialidade, em ambos os casos, é errônea.
Sede justos, sem temores ou favores! Tanto o rico como o
pobre estão sob a proteção de Deus, tanto quanto seus
legítimos interesses estejam em jogo; ambos não devem
esperar ser favorecidos às expensas dos outros. E Ele
pode proteger-lhes os interesses, bem melhor do que
qualquer homem.
306. Eis aqui um aviso inteligível contra aqueles que fazem
da sua religião um mero assunto de conveniência terrena.
A verdadeira religião é muitíssimo mais profunda. Ela
transforma a natureza intrínseca do homem. Depois dessa
transformação, será tão impossível, para ele, mudar, como
o é, para a luz, transformar-se em tenebrosidade.
307. Se o motivo é auferirmos alguma vantagem, alguma
honra, saibamos que a fonte de todo o bem é Deus. Como
poderá isso ser realmente esperado por aqueles que
negam a fé? Mesmo que haja alguma demonstração de
honra terrena, que dignidade teria, face ao desprezo que
angariará no mundo espiritual?
308. Os métodos e os motivos da hipocrisia são
completamente desmascarados, aqui. Ela não tem
escrúpulos, outrossim espreita uma oportunidade de
transformar qualquer evento, ao sabor das suas próprias
vantagens. Se uma batalha é travada entre dois princípios
inconsistentes, ela não acredita em nenhum dos dois, mas
espreita, esperando pelo resultado. Existe uma incessante
luta entre o bem e o mal neste mundo. Se o bem se
matizar como vencedor, os hipócritas cerrarão fileiras ao
seu lado com palavras suntuosas, tomando a si grande
parte do crédito. Talvez o fiel da balança se incline para o
outro lado, mais tarde; então, eles terão de fazer as pazes
com o mal. “Oh!”, dirão eles airosamente, “estávamos nas
fileiras dos vossos inimigos antes, mas com o intuito de
vos proteger, uma vez que eles eram muito mais fortes do
que vós!” Isto talvez possa satisfazer as exigências deste
mundo, mas o dia da sua prestação de contas virá
finalmente. Porque o bem deverá, em última análise,
triunfar.
309. Se escolhermos o mal deliberadamente, duplicando,
assim, a nossa culpabilidade pela fraude e pela trapaça,
não estaremos enganando Deus, mas a nós próprios.
Estaremos divorciando-nos da graça de Deus e nos
infiltrando por caminhos tortuosos, distanciando-nos, cada
vez mais, da Senda. Nessas condições, quem poderá
guiar-nos ou nos mostrar o Caminho? Nossos instintos
verdadeiros e retos tornar-se-ão obtusos; a nossa fraude
tornar-nos-á instáveis, as vantagens que tivermos
usufruído estarão perdidas, e ficaremos com a mente
verdadeiramente conturbada.
310. Mesmo os hipócritas poderão obter perdão, sob
quatro condições: (1) sincero arrependimento, o que lhes
purificará a mente; (2) emenda em suas condutas, o que
lhes purificará a vida externa; (3) constância e devoção à
crença em Deus, o que lhes fortalecerá a fé e os protegerá
contra o assédio do mal; (4) sinceridade em sua religião ou
em seu ser interior, o que lhes propiciará serem membros
integrantes do benevolente companheirismo da Fé.
311. Comparar com o versículo 55 da 2ª Surata, quanto ao
trovão e ao relâmpago, que fulminaram aqueles que eram
tão presunçosos, a ponto de quererem ver Deus frente a
frente, e com o versículo 51, da mesma Surata, quanto à
adoração do bezerro de ouro. A lição a tirar consiste em
que é presunção, da parte do homem, querer julgar os
arcanos espirituais em termos de coisas materiais, ou
querer ver Deus com seus olhos materiais, sabendo-se
que Deus está acima de qualquer forma material, e
independe de tempo e espaço.
312. Ver a 2ª Surata, versículo 65 e a 4ª Surata, versículo
47.
313. Neste versículo, há uma recapitulação de três
incidentes da teimosia dos judeus, já mencionados na 2ª
Surata: o pacto ao pé do Monte (2ª Surata, versículo 63); a
sua arrogância, onde lhe foi ordenado entrarem, humildes,
numa cidade (2ª Surata, versículo 58); e a sua profanação
do sábado (2ª Surata, versículo 65).
314. A falsa acusação imputada a Maria era de que não
era casta. Comparar com o versículo 27 da 19ª Surata. Tal
acusação já é bastante grave, se imputada a qualquer
mulher; mas, em se tratando de Maria, a mãe de Jesus,
significava expor ao ridículo o próprio poder de Deus. O
Islam é particularmente incisivo em salvaguardar a
reputação da mulher. Os difamadores de mulheres têm de
providenciar a apresentação de quatro testemunhas que
corroborem as suas acusações; e, se fracassarem na
apresentação, serão açoitados com oitenta açoites, além
de não mais serem aceitos como testemunhas regulares
(ver versículo 4 da 24ª Surata).
315. O final da vida de Jesus na terra está tão envolto em
mistério quanto a sua natividade e, ainda, como de fato,
está também o período da maior parte da sua vida
particular, com exceção dos três principais anos do seu
sacerdócio. Não será em nada proveitoso discutirmos
sobre as muitas dúvidas e conjecturas existentes entre as
primitivas seitas cristãs e entre os teólogos muçulmanos.
As igrejas cristãs ortodoxas têm como ponto cardeal da
sua doutrina que a vida de Jesus chegou ao seu termo na
cruz, que ele morreu e foi sepultado, que no terceiro dia
ressuscitou corporeamente, com seus ferimentos curados,
caminhou e conversou, e comeu com seus discípulos, e
que depois foi levado fisicamente para o céu. Esta
explicação é necessária para a doutrina teológica do
sacrifício e da expiação vicária dos pecados, mas é
rejeitada pelo Islam. Contudo, algumas das primeiríssimas
seitas cristãs não acreditavam que Cristo tivesse sido
morto na cruz. Os basilídios acreditavam que um outro
indivíduo lhe serviu de substituto. O Evangelho de Barnabé
sustenta a teoria da substituição na cruz. O ensinamento
alcorânico diz que Cristo não foi crucificado nem morto
pelos judeus, não obstante existissem certas
circunstâncias aparentes que produziram a ilusão nas
mentes de alguns dos seus inimigos; que as disposições,
as dúvidas e conjecturas sobre tais assuntos são vãs; e
que ele foi elevado até Deus (ver próximo versículo e
respectiva nota).
316. Há diferenças de opinião quanto à exata interpretação
deste versículo. As palavras são: Os judeus não mataram
Jesus, pois que Deus fê-lo ascender (rafa’a) até Ele. Uma
corrente de opinião sustenta que Jesus não teve uma
morte humana comum, outrossim ainda vive, fisicamente,
no céu; outra, sustenta que ele deveras morreu (versículo
120 da 5ª Surata), mas não como se supôs: que tivesse
sido crucificado, e que a sua “ascensão” até Deus significa
que, ao invés de ter sido tido na conta de malfeitor, como
os judeus pretendiam que fosse, foi tido em conta honrosa,
por Deus, como Seu Mensageiro; ver o próximo versículo.
317. Primeiramente, temos uma afirmação generalizada:
que a inspiração foi enviada a muitos Mensageiros e que
essa inspiração era da mesma espécie da que foi enviada
ao Mensageiro Mohammad, porquanto a mensagem de
Deus é uma só. Nota-se que aquilo de que se fala, aqui, é
inspiração, não necessariamente de um Livro. Toda a
nação, ou todo grupo de pessoas, teve um mensageiro
(10ª Surata, versículo 47). Alguns destes mensageiros são
mencionados pelo nome, no Alcorão, e outros não (4ª
Surata, versículo 164).
318. Deus falou a Moisés no Monte Sinai, por meio de uma
nuvem (Êxodo, 34.5). Daqui, o título de Moisés na teologia
muçulmana: Kalim-Ullah (aquele a quem Deus falou).
319. Todos os Mensageiros proclamam a benevolência de
Deus para com os justos, o Seu perdão para aqueles que
se arrependem (boas-novas), bem como a ira vindoura
para aqueles que rejeitam a fé e vivem na iniqüidade
(admoestação). As suas missões de admoestação
constituem um prelúdio e um complemento à missão de
boas-novas. Ninguém (homem ou mulher) poderá dizer
que não sabia.
320. Os atributos de Cristo são mencionados: que ele era
filho de uma mulher e, portanto, era um homem; porém era
um mensageiro, um homem com uma missão de Deus, e,
portanto, considerado com honra; o resultado de um verbo,
outorgado a Maria, pois ele foi criado pela palavra de Deus
“Sê” (Kun); e foi (3ª Surata, versículo 59) um espírito
procedente de Deus, mas não Deus. Sua vida e missão
foram mais limitadas do que no caso de outros
mensageiros, embora devamos dispensar-lhe iguais
honrarias, como um dileto de Deus que foi. As doutrinas da
Trindade (iguais com Deus) e da unigenicidade (filho único
de Deus) são repudiadas como blasfêmias. Deus
independe de toda a necessidade, e não necessita de
filhos para gerir os Seus assuntos. O Evangelho de João
(seja quem for que o tenha escrito) colocou uma grande
qualidade de misticismo alexandrino e gnóstico em torno
da doutrina do Verbo (Logos, em grego), mas ela é
explicada simplesmente aqui.
321. Cristo freqüentemente vigiava e orava, como um
humilde servo de Deus que era; e a sua agonia, no Jardim
Getsêmani, foi plena de dignidade humana e de humildade
(Mateus 26:36-45).
322. A Prova e a Luz são o Alcorão e a personalidade, a
vida e os ensinamentos do Profeta Mohammad.
323. Sua graça = Sua Presença. Ver na 3ª Surata,
versículo 195. A mercê e a graça são mencionadas aqui
como provindo especialmente d’Ele.
324. Este versículo suplementa a regra da herança quanto
às condições da pessoa falecida que não tenha deixado
descendentes nem ascendentes. No versículo 12 desta
surata, levou-se em consideração o caso da pessoa que
não tenha deixado irmãs ou irmãos uterinos. Aqui, leva-se
em conta o caso de a pessoa ter deixado irmãos ou irmãs
por parte de pai, fosse a mãe a mesma ou não. “Irmãos” e
“irmãs”, neste versículo, devem ser tomados como sendo
aqueles tais irmãos e irmãs.
325. Esta disposição tem sido justamente admirada por
sua concisão e compreensibilidade. Obrigações: ucud; a
palavra árabe implica em tantas coisas, que um capítulo
inteiro de comentários poderia ser escrito sobre ela.
Primeiramente, há as obrigações divinas, que advêm da
nossa natureza espiritual e da nossa relação com Deus.
Na nossa própria vida humana e material, nós nos
incumbimos de obrigações mútuas, expressas ou
implícitas. Temos obrigações comerciais ou sociais;

obrigações matrimoniais, obrigações para com o nosso
Estado; obrigações tácitas: vivendo numa sociedade civil,
devemos respeitas as suas convenções tácitas, a menos
que elas sejam moralmente erradas, sendo que, nesse
caso, devemos retirar-nos de tal sociedade. Há obrigações
tácitas nas relações hospedeiro/hóspede,
viajante/acompanhante, empregador/empregado, etc., das
quais todo homem de fé deve desincumbir-se
conscientemente. O homem que abandona aqueles que
dele necessitam, e se retira para o deserto para orar, é um
covarde que negligencia as suas obrigações. Todas essas
obrigações estão relacionadas entre elas.
326. Comparar com o versículo 158 da 2ª Surata, onde
Assafa e Almarwa são denominados “Símbolos (Cha’aer)
de Deus”. Aqui os símbolos são tudo o que se relacione
com a Peregrinação, a saber: (1) os locais (como Assafa e
Almarwa, ou a Caaba e Arafat etc.) (2) os rituais e as
cerimônias prescritas; (3) as proibições (tal como a de
caçar etc.); (4) as estações e os períodos prescritos. Há
simbolismo, tanto espiritual como moral, em todos esses
expedientes.
327. Trata-se do mês da peregrinação ou, por outra,
coletivamente, os quatro meses sagrados (9ª Surata,
versículo 36), a saber, Rajab (7ª), Dul-qui’da (11ª), Dul-hijja
(12ª, o mês da peregrinação) e Muharram (1ª mês do ano).
Em todos esses meses a guerra era proibida. Com
exceção de Rajab, os outros três meses são consecutivos.
328. A imunidade quanto ao ataque ou a interferência
estendia-se aos animais trazidos como oferendas para o
sacrifício, e aos que portavam guirlandas ou filetes ou
marcas distinguíveis que lhes dessem imunidade.
329. Este estado é oposto ao descrito no versículo 1, ou
seja, quando houverdes deixado os Recintos Sagrados ou
houverdes retirado as vestimentas especiais de peregrinos,
coisa que evidenciará a vossa volta à vida comum.
330. No sexto ano da Hégira, os idólatras, levados pelo
ódio aos muçulmanos, e pela perseguição a eles,
proibiram-lhes o acesso à Mesquita Sagrada. Quando os
muçulmanos se restabeleceram em Makka, alguns deles,
querendo desforrar-se, procuravam excluir os idólatras ou,
de algum modo, interferir na sua participação na
Peregrinação. Isto é condenado. Passando do evento
imediato ao princípio geral, saibamos que não devemos
tirar proveito, ou desforra, ou retribuir o mal com o mal. O
ódio, por parte dos iníquos, não justifica a hostilidade da
nossa parte. Devemos auxiliar-nos mutuamente na retidão
e na piedade, e não fazermos com que se perpetuem rixas,
ódios e inimizades.
331. A proibição do consumo da carne de animais mortos
por doença, do sangue, da carne de suíno e da carne de
animais, em cujo abate tenho sido invocado outro nome
que não o de Deus, está explicada na nota do versículo
173 da 2ª Surata.
332. Se o animal morre estrangulado, ou vítima de um
golpe violento, ou de uma queda de ponta-cabeça, ou se
recebe chifradas (em luta) de outro animal até morrer, ou
se é atacado por outro animal selvagem, a pressuposição
que se tem é que se transforma em carniça, uma vez que o
sangue vital se coagula antes de ser retirado do corpo.
Contudo, a pressuposição pode ser refutada. Se o sangue
vital ainda fluir e o modo solene de abate (dabh), em nome
de Deus, como sacrifício, for observado, então essa carne
será lícita para ser consumida.
333. Este era, também, um rito idólatra, diferente daquele
em que um sacrifício era dirigido a um ídolo em particular ,
ou a um falso deus.
334. Os jogos de todas as espécies são proibidos (2ª
Surata, versículo 219). Uma espécie de loteria ou roleta,
praticada pelos árabes idólatras, foi descrita na nota do
versículo 219 da 2ª Surata. A divisão da carne, feita dessa
maneira, é aqui proibida, porquanto constitui uma forma de
jogo.
335. O último versículo cronologicamente revelado,
marcando a aproximação do fim da missão de Mohammad
na terra.
336. O versículo anterior foi revelado na forma negativa;
ele definiu aquilo que não era lícito comer, a saber, coisas
grosseiras ou repugnantes, ou dedicadas a superstições.
Este versículo está na forma positiva; ele define o que é
lícito, ou seja, tudo o que é bom e puro para o consumo.
337. A caça será legal nas seguintes condições: (1) que os
animais estejam treinados para matar, não meramente
para satisfazerem os seus próprios apetites ou por mero
capricho, mas sim para a alimentação dos seus donos; o
treinamento implica em que algo da solenidade que Deus
nos ensinou a este respeito, se encontre na ação deles; (2)
que invoquemos o nome de Deus sobre a presa; isto é
interpretado como querendo dizer que o Takbir deverá ser
proferido quando o gavião, ou o cão etc., for enviado sobre
a presa.
338. A questão é, geralmente, de comida, a qual tem de
ser comumente “boa e pura”; quanto à carne, ela deve
proceder de um animal morto com alguma espécie de
solenidade, semelhante àquela do Takbir, e as regras do
Islam, a este respeito, são análogas àquelas dos adeptos
do Livro. Não há objeção ao reconhecimento mútuo (a este
respeito), em oposição à carne procedente de animais
mortos pelos pagãos, com ritos supersticiosos.
339. O Islam não é exclusivista. As relações sociais,
incluindo o casamento com os adeptos do Livro, são
permitidas. Um muçulmano poderá desposar uma mulher
das fileiras dele, nos mesmos termos que desposaria uma
muçulmana, ou seja, deverá garantir-lhe um status
econômico e moral, nunca se deixando levar meramente
por razões de lascívia ou desejo físico. Uma muçulmana,
no entanto, não poderá casar-se com um não-muçulmano,
porquanto o seu status muçulmano seria afetado – a
esposa, via de regra, é sempre absorvida pela
nacionalidade e pelo status que lhe impõe a lei do seu
marido. Uma não-muçulmana, ao casar-se com um
muçulmano, deverá, finalmente, aceitar o Islam. Qualquer
homem ou mulher, de qualquer raça ou credo, ao aceitar o
Islam, poderá, espontaneamente, casar-se com qualquer
muçulmana ou muçulmano, contanto que seja por motivos
de pureza e castidade, e não por razões de cupidez.
340. Como sempre, a comida, o asseio, as relações
sociais, o casamento e outras injunções da vida, estão
ligados ao nosso dever para com Deus, e à nossa fé n’Ele.
Tal dever e fé são para o nosso próprio benefício, aqui e
na Vida Futura.
341. Estas são condições essenciais para a realização do
Wudhu, ou as abluções preparatórias para se praticar as
orações, a saber: lavar todo o roso com água; as mãos, e
os braços, até à altura dos cotovelos; fazer uma pequena
fricção da cabeça com água (porquanto a cabeça é
usualmente protegida e, portanto, comparativamente
limpa); banhar os pés, e as pernas até à altura dos
tornozelos. Em adição, seguindo a prática do Mensageiro,
é comum lavar-se primeiramente a boca, a garganta e as
narinas, antes de lavar o rosto etc..
342. Comparar com o versículo 43 da 4ª Surata, e
respectiva nota. A impureza cerimonial advém da
contaminação sexual.
343. Não consiste o Tayammum, ou o ato da higiene
simbólica com areia ou terra limpas, quando a água não
estiver disponível. Achamos que essa substituição é
permitida tanto para o Wudhu, como para o banho
completo nas circunstâncias mencionadas.
344. Há um significado particular e um geral. O significado
particular refere-se à Promessa e ao Pacto solenes, feitos
por dois grupos de pessoas em Acaba, um vale próximo a
Mina; a primeira, cerca de quatorze meses antes da
Hégira, e o segundo, um pouco mais tarde. Eram
promessas e pactos de lealdade ao Mensageiro de Deus.
O significado geral foi explicado na nota do versículo 1,
desta surata: o homem encontra-se sob uma obrigação
espiritual, sob um pacto implícito com Deus; Ele concedeu
ao homem a razão, o discernimento, as elevadas
faculdades da alma, e ainda a posição de Seu legatário da
terra (2ª Surata, versículo 30); e o homem está obrigado a
servi-Lo fielmente e a obedecer a Sua Vontade.
345. Fazer justiça e agir com retidão em uma atmosfera
cordial ou neutra já, por si só, encerra os seus mistérios;
porém, o verdadeiro teste ocorre quando tendes de fazer
justiça em relação um povo que vos odeia ou pelo qual vós
nutris aversão. E nada menos do que isso é requerido de
vós pela elevada lei da moral.
346. Durante a vida do Mensageiro aconteceu, repetidas
vezes, de os inimigos do Islam levantarem as suas mãos
contra ele, contra o povo dele e contra os seus
ensinamentos. As circunstâncias estavam, de um ponto de
vista terreno, a favor deles, mas as suas mãos mostravamse
inertes e débeis, porque estavam lutando contra a
verdade de Deus. Assim, isso acontece sempre, agora
como estão.
347. Isto aconteceu no sopé da sobranceira altura do
Monte Sinai. Os chefes, os líderes, ou anciãos do povo,
foram escolhidos de cada uma das doze tribos (ver o
versículo 60 da 2ª Surata, e respectiva nota) para fins
censuários; em Números, 1:4-16, são denominados
“aqueles que são os príncipes das suas tribos e das suas
casas”. Mais adiante, doze outros “chefes do exército de
Israel” foram escolhidos para perquirirem sobre as terras
de Canaã; os seus nomes são mencionados em Números,
13:1-6.
348. A promessa dos cristãos deve ser entendida como o
encargo que Jesus impôs aos seus discípulos – e que
estes aceitaram – , ou seja, o de acolherem o Ahmad (m
dos nomes do Profeta – 61ª Surata, versículo 6). São
aqueles que se intitulam “cristãos” os que rejeitam isto. Os
verdadeiros cristãos aceitaram-no. A inimizade entre
aqueles que se intitulam cristãos, e os judeus, continuará
até ao último dia!
349. Mubin: desejaríamos ter podido traduzi-la com uma
palavra simples do que “lúcido”. Porém, deverá significar
tão-somente sucinto, que é o oposto de prolixo, sendo o
Alcorão, contudo, o mais eloqüente entre os mais
eloqüentes livros que a humanidade já teve a oportunidade
de ler. “Claro” estaria também certo, porquanto significaria
“não-ambíguo, evidente, não envolto em mistérios de
origem, história, ou significado, aquele cuja essência as
pessoas todas poderiam compreender, sem a intervenção
de sacerdotes ou de gente privilegiada”. Mubin possui
todos esses significados.
350. Os mais reverenciados mensageiros de Deus nada
são além de homens. Todo o poder pertence a deus, e não
a qualquer homem. A criação de Deus talvez adote muitas
formas, mas se alguma é diferente do que costumamos ver
diariamente, nem por isso deixa de ser criação, ou e estar
sujeita ao poder do Senhor. Criatura alguma poderá ser
Deus.
351. Os filhos de Deus: comparar com Jó, 38:7: “Quando
as estrelas da alva juntas cantavam alegremente e todos
os filhos de Deus se rejubilavam.” Comparar, também, com
Gênesis, 6:2: “Os filhos de Deus viram as filhas do
homens.” Predileto: comparar com Salmos, 127:2: “Ele deu
as suas preferidas ovelhas.” Se usadas em linguagem
figurada, estas e outras palavras semelhantes referem-se
ao amor de Deus. Infelizmente, o termo “filho” empregado
no sentido físico, ou “amantíssimo”, num sentido
exclusivista, como se Deus amasse somente os judeus,
constitui um escárnio à religião.
352. Este refrão, no versículo anterior, neutraliza a idéia de
filiação, e neste versículo neutraliza a idéia exclusiva de
“amantíssimo”. Em ambos os casos conclui-se que Deus
independe de relações físicas e de particularidades
exclusivistas.
353. Os 600 anos (em cifras redondas) que separaram
Cristo de Mohammad constituíram, realmente, a idade das
trevas no mundo. A religião foi corrompida; os padrões
morais caíram excessivamente; muitos falsos esquemas e
heresias tomaram vulto; e houve a interrupção na
sucessão de mensageiros, até ao advento de Mohammad.
354. Houve uma longa linhagem de patriarcas antes de
Moisés: Abraão, Isaac, Ismael, Jacó etc.
355. Comparar com Êxodo, 19:5: “Se vós logo ouvirdes a
minha voz e observardes o pacto que fiz convosco, eu vos
tomarei por meu povo particular, com preferência sobre
todos os outros povos.” Israel foi escolhido para ser o
porta-voz da mensagem de Deus, a mais alta honra que
qualquer nação pode adquirir.
356. Chegamos, agora, aos eventos detalhados que
aparecem no 13º e 14º capítulo do Livro dos Números, no
Antigo Testamento. É preciso que se leia estes capítulos
como um comentário, que se examine um mapa da
Península do Sinai que mostre as suas ligações com o
Egito, pelo oeste; com o noroeste da Arábia, pelo leste;
com a Palestina, pelo nordeste. Talvez suponhamos que
os israelitas tivessem cruzado, em sua caminhada do Egito
para a Península, algum lugar próximo à extremidade
setentrional do Golfo de Suez. Moisés organizou e contou
as pessoas, e instituiu o sacerdócio. Depois, caminharam
para o sul, cerca de 280 km, até ao Monte Sinai, onde a
Lei foi recebida. Então, talvez a cerca de 140 km, ficava o
deserto de Paran, perto das fronteiras meridionais de
Canaã. Do acampamento ali formado, foram enviados
doze homens para examinar as terras, e eles penetraram
até Hebron, digamos, cerca de 140 km do seu
acampamento, e cerca de 80 km ao sul da futura
Jerusalém. Eles depararam-se com um rico país, e
trouxeram romãs e figos, e um cacho de uvas tão pesado
que tinha que ser carregado por dois homens, sobre uma
verga. Eles voltaram e relataram que a terra era rica,
porém os homens que lá estavam eram muito fortes para
eles. O povo de Israel não tinha coragem, nem tampouco
fé, e Moisés teve que admoestar as pessoas por isso.
357. O povo não estava propenso a seguir a chefia de
Moisés, e não estava disposto a lutar por sua “herança”.
Com efeito, eles disseram: “Elimina, primeiramente, o
inimigo, que nós tomaremos posse.” Na Lei de Deus, nós
temos de trabalhar e porfiar por aquilo de que desejamos
desfrutar.
358. Enter aqueles que voltaram, depois de terem feito o
reconhecimento das terras, havia dois homens que tinham
fé e coragem. Estes eram Josué e Caleb. Tempos mais
tarde, Josué iria suceder a Moisés na liderança, isso
depois de 40 anos. Estes dois homens era a favor de uma
entrada imediata, através dos portões principais. Porém,
disseram que todos deveriam depositar a sua confiança
em Deus, para alcançarem a vitória.
359. O conselho de Josué e Caleb, e a determinação de
Moisés, sob instrução divina, mostraram-se inapetecíveis à
multidão, cujos receios estavam sobremaneira inflamados
pelos outros dez homens que haviam ido com Josué e
Caleb. Aqueles haviam feito um “temeroso relato”, pois
ficaram apavorados pela enorme estatura dos canaanitas.
A multidão rebelou-se abertamente e estava preparada
para apedrejar Moisés, Aarão, Josué e Caleb, e voltar para
o Egito. Suas respostas a Moisés eram plenas de ironia, de
insolência, de blasfêmia e de covardia. Com efeito, eles
diziam: “Tu falas do teu Deus e tudo o mais; vai com o teu
Deus e luta ali, se quiseres; nós ficaremos aqui sentados,
olhando.”
360. Moisés orou e intercedeu por eles. Contudo, é-nos
dito aqui (e há nisso um toque espiritual, não encontrado
na história dos judeus) que Moisés foi suficientemente
cuidadoso para apartar-se, e a seu irmão, da rebeldia.
361. Aquela geração não veria a Terra Sagrada. Todos
aqueles que tinham mais de 20 anos morreriam nos
descampados: “Vossos cadáveres ficarão jazendo na
solidão”(Números 14:33). Apenas aqueles que eram
crianças alcançariam a terra prometida. E assim
aconteceu. Do deserto de Paran, eles erraram nas
direções norte, sul e leste, por 40 anos. Da ponta do que é
agora denominado Golfo de Acaba eles viajaram para o
norte, conservando-se no lado leste da depressão, da qual
o Mar Morto e o rio Jordão fazem parte. Quarenta anos
mais tarde, eles cruzaram o Jordão, no ponto oposto ao
que é agora chamado de Jericó, sendo que nesse tempo
Moisés, Aarão e a totalidade da geração mais velha já
havia morrido.
362. Literalmente, “conta-lhes, em verdade, a história” etc..
O ponto é que a história, no Gênesis, 4:1-15, constitui uma
narrativa estéril, não estando incluídas, lá, as lições aqui
encerradas. É então dito ao Mensageiro que propicie a
veracidade da questão, os detalhes que reforçarão as
lições.
363. Os dois filhos de Adão eram Habil (em português,
Abel) e Cabil (em português, Caim). Caim era o mais velho
e Abel o mais novo – o justo e inocente. Presunçoso, e por
se mais velho, Caim estava cheio de arrogância e ciúme, o
que fez com que cometesse o crime de assassinato. Entre
os cristãos, Caim era o tipo do judeu, em contraposição a
Abel, o cristão. O judeu tentando matar Jesus e acabar
com o cristão. Do mesmo modo, em contraposição a
Mohammad, o irmão mais velho da família semítica, Caim
era o tipo das pessoas do Antigo e do Novo Testamento,
as quais tentavam resistir e matar Mohammad e subjugar o
seu povo.
364. A minha e a tua culpa. Há duas possíveis
interpretações: (1) a interpretação óbvia é a de que o
assassinato injusto não somente carrega consigo os
encargos do seu próprio pecado, mas também os encargos
dos pecados da sua vítima. Esta, ao ser alvo de
desmandos ou injustiças, é perdoada dos seu pecados, e o
iníquo, tendo sido admoestado, tão-somente agrava os
seus próprios pecados; (2) a expressão “minha culpa” tem
também sido interpretada como “pecado contra mim,
consistindo em que me mataste”; neste caso “tua culpa”
talvez tanto signifique “teu crime em cometeres um
assassinato” ou “teu crime contra ti mesmo, porquanto o
crime cause uma real perda de ti mesmo na Vida Futura.”
Ver a última cláusula do versículo seguinte.
365. A fala de Abel é plena de significado. Ele é inocente e
temente a Deus. À ameaça de morte, feita pelo outro, ele
se sai com a resposta calma, com a intenção de corrigi-lo.
“Certamente”, ele argumenta, “se o teu sacrifício não foi
aceito, é por que havia algo de errado contigo, porquanto
Deus é Justo e aceita o sacrifício dos virtuosos. Se isto não
te dissuade, eu não vou querer revanche, embora haja
tanto poder em mim com relação a ti quanto há em ti com
relação a mim. Eu temo ao meu Senhor, pois sei que Ele
ama toda a Sua Criação. Deixa-me prevenir-te de que está
procedendo erradamente. Não pretendo nem mesmo
resistir a ti; porém, sabes quais serão as conseqüências?
Tu ficarás em eterno tormento espiritual”.
366. Sal-at talvez signifique “cadáver”, com uma
implicação de nudez e vergonha, em dois sentidos: o
sentido de estar exposto, sem sepultamento, e o sentido
desse corpo estar aviltado, por ter sido violentamente
privado, por um injustificado assassinato, da alma que o
habitava – a alma, também, de um irmão.
367. A história de Caim é narrada com uns poucos
detalhes, a fim de contar a história de Israel. O povo de
Israel insultava e assassinava homens virtuosos, que não
lhe causavam danos, mas, pelo contrário, vinham para o
bem de toda humanidade. Quando Deus retirou os Seus
favores de Israel, por causa dos pecados do seu povo, e
os concedeu a uma nação irmã, a inveja de Israel
descambou para o pecado. Matar ou procurar matar uma
pessoa só porque ela representa um ideal, significava
matar todos os que prima por esse ideal. Por outro lado,
salvar a vida de uma pessoa, nas mesmas circunstâncias,
significava salva a comunidade inteira. Qual seria a mais
consistente condenação pelo assassinato de uma pessoa
e pela vingança?
368. Para o duplo crime de traição contra o Estado,
combinado com a traição a Deus, como é o caso dos
crimes premeditados, quatro alternativas de punição são
mencionadas, cada uma das quais haverá de ser aplicada,
de acordo com as circunstâncias, a saber: execução
(cortar a cabeça), “crucificação”, aleijamento ou exílio.
Essas eram as características do Direito Penal de então e
de séculos mais adiante, com exceção das torturas, como
“enforcamento”, afogamento e esquartejamento. Em todos
os casos, o arrependimento sincero, antes que fosse tarde,
era reconhecido como ponto de apoio para a misericórdia.
369. Compreendido como significando a mão direita e o pé
esquerdo.
370. Aqui tocamos num ponto da jurisprudência. Os
jurisprudentes do Direito Canônico não são unânimes
quanto ao valor da propriedade roubada, a qual envolveria
a punição, que consiste em cortar a mão do ladrão ou da
ladra. A maioria é de opinião que pequenos furtos são
isentos de punição. A opinião geral é que apenas uma das
mãos do ladrão primário deve ser cortada. Aparentemente,
na época de Jesus os ladrões eram crucificados.
371. Havia homens, entre os judeus, que estavam
constantemente sôfregos em constatar uma mentira
quando ao Mensageiro. Tinham os seus ouvidos
constantemente à escuta de narrativas, mesmo de
pessoas que jamais se haviam aproximado dele. Se
usarmos a preposição “de”, em vez da preposição “para”
(pois a palavra árabe contém os dois significados), o
sentido ficará: Eles são espreitadores ou espias acurados,
em relação a quaisquer mentiras de que puderem tomar
conhecimento, e atuam como espias dos outros (seus
rabinos etc.) que estão por trás do pano, para os quais
levam as falsas narrativas.
372. Comparar com o versículo 14 desta surata. A adição
da expressão min ba’di, aqui, evidencia a distorção das
palavras quanto ao tempo e aos locais em que foram
proferidas. Eles não manipulavam honestamente a sua lei,
outrossim, malbaratavam-na, distorcendo-lhe o significado.
Ou pode ser que, como portadores das narrativas, eles
distorcessem o significado, deturpando o contexto.
373. Ávidos em devorar o que é ilícito: tanto no sentido
literal como no figurado. No sentido figurado, seria:
Lançavam mão da usura, ou da propina, ou tiravam
indevidas vantagens das fracas posições das pessoas, ou
dos seus próprios poderes fiduciários, para aumentarem a
sua fortuna.
374. Esta é uma pergunta minuciosa quanto às intenções
dos judeus de levarem os seus casos para decisões ao
Mensageiro. Eles iam ter com ele para ridicularizar o que
fosse que ele dissesse, ou para enganá-lo quanto aos
fatos, e para se apegarem a uma decisão favorável a eles
e que estivesse contra a eqüidade. Se a sua própria lei não
se coadunasse com os seus interesses egoísticos, eles
muitas vezes a mudavam. Mohammad, porém, era sempre
inflexível em sua justiça.
375. Termo Rabbani deve, achamos, ser traduzido pelo
título judeu Rabino, que serve para designar os seus
homens sábios. O aprendizado judaico é identificado como
a literatura rabínica. Ahbar é o plural de Hibr ou habr, pelo
que devemos entender jurisprudentes judeus. Mais tarde, o
termo foi aplicado àqueles de outras religiões. Estaria,
acaso, a palavra relacionada com a mesma raiz de
“Hebreu” ou de “Heber” (Gênesis, 10:21), os ancestrais do
povo hebraico? Isto nos parece inviável, pelo fato de a raiz
árabe para a palavra “Hebreu” ser ” ‘Abar” e não Habar.
376. Duas acusações são feitas contra os judeus: (1) que
mesmo dos livros que possuíam, eles destorciam o
significado, segundo os seus próprios interesses, porque
temiam mais aos homens do que a Deus; (2) que o que
eles possuíam nada mais era o que fragmentos da Lei
original, revelada a Moisés, misturada com uma porção de
assuntos semi-históricos e legendários, de alguma poesia
elevada. A Tora, mencionada no Alcorão, não se trata do
Antigo Testamento como o conhecemos, nem tampouco se
trata do Pentateuco (os primeiros cinco livros do Antigo
Testamento, contendo a Lei).
377. A retaliação é prescrita em três locais no Pentateuco,
a saber: Êxodo, 21:23-25, Levítico, 24:18-21 e
Deuteronômio, 19:21. A redação, nas três citações, é
diferente, mas em nenhuma delas se encontra a adicional
indução à misericórdia, como se encontra aqui. Note-se
que em Mateus, 5:38, Jesus cita a Velha Lei “olho por
olho” etc., modificando-a, no sentido do perdão; mas a
injunção alcorânica é mais prática. Este apela à
misericórdia é no sentido de “entre os homens”, no mundo
espiritual. Mesmo quando o injuriado perdoa, o Estado ou
o Governante é competente para tomar tal ação, conforme
for necessário para a preservação da lei e da ordem, na
sociedade. Porque o crime possui as suas implicações,
que vão além dos interesses da pessoa injuriada; a
comunidade é afetada. Ver o versículo 32 desta surata.
378. Isto não faz parte da Lei Mosaica, mas dos
ensinamentos de Jesus e de Mohammad. Note-se como os
ensinamentos de Jesus são gradualmente introduzidos
como preparando o caminho para o Alcorão.
379. Originalmente, a humanidade constituía-se de um
simples povo ou uma simples nação; ver o versículo 1 da
4ª Surata e o versículo 213 da 2ª Surata. Assim sendo,
Deus poderia ter-nos conservado todos iguais, com uma só
língua, uma só espécie de comportamento e um só
conjunto de condições físicas (incluindo o clima) para
vivermos. Porém, em Sua sapiência, Ele nos proporcionou
uma diversidade de tais contingentes, não apenas em um
tempo específico, mas em diferentes períodos e épocas.
Isto põe à prova, ainda mais, a nossa capacidade para a
Unidade (Wahdaniya), e acentua a necessidade da
Unidade do Islam.
380. Como a nossa verdadeira meta é Deus, as coisas que
nos parecem diferentes, vistas de diferentes pontos de
vista, sendo primordialmente reconciliadas n’Ele. Einstein
estava certo, ao aprumar as profundezas da Realidade
com o mundo da ciência física. Isso aponta, cada vez mais,
para a necessidade da Unidade de Deus, no mundo
espiritual.
381. O tempo dos insipientes é o tempo da organização
tribal, dos feudos e das diferenças de acentuação egoística
no homem. Esse tempo, realmente, ainda não se acabou.
Constitui missão do Islam tirar-nos dessa falsa atitude
mental e levar-nos à verdadeira atitude da Unidade. Se a
nossa fé for segura, Deus nos guiará para essa Unidade.
382. Porque “muitos homens são depravados” (versículo
49 desta surata) deduz-se como inevitável que deva haver
apóstatas, mesmo numa religião racional e de bom-senso
como o Islam. Porém, há aqui uma admoestação, ao corpo
dos muçulmanos, no sentido de que não se repita a
história dos Judeus, e de que os muçulmanos não se
tornem tão auto-satisfeitos ou arrogantes, a ponto de se
apartarem do espírito dos ensinamentos de Deus. Se
assim fizerem, a perda será deles próprios. A munificência
de Deus não se restringe a um grupo ou a uma seção da
humanidade. Ela poderá sempre elevar em dignidade
aqueles que seguem o verdadeiro espírito do Islam. Esse
espírito é definido de duas maneiras, primeiro em termos
gerais: os crédulos amarão a Deus, e Deus os amará; e,
segundo, por sinais específicos: entre a Irmandade, sua
atitude deverá ser de humildade, sendo que, em relação
aos iníquos, não se engajarão em compromissos verbosos;
porfiarão e lutarão sempre pela verdade e pelo que é
direito; não conhecerão medo, tanto físico como daquela
espécie insidiosas, que diz: “Que dirão as pessoas se
agirmos deste modo?” Serão muitíssimo elevados
mentalmente, para que não sejam acossados por qualquer
de tais pensamentos. Pois, como diz o versículo seguinte,
seus amigos serão: Deus, Seu Mensageiro e Seu povo,
povo que julga com justeza, sem receio, ou favores.
383. Não é certo estardes intimamente associados àqueles
para os quais a religião é motivo de escárnio ou, no melhor
das vezes, nada mais do que brinquedo. Eles poderão ser
divertidos, ou ter outros motivos para vos encorajar.
Porém, a vossa associação a eles minará a sinceridade da
vossa fé, e vos tronará cínicos e insinceros.
384. Há a mais cruciante ironia neste versículo e no
seguinte: Ó adeptos do Livro, odiai-nos, acaso, só porque
cremos em Deus, e não somente em nossa escritura, mas
também na vossa? Talvez nos odieis porque obedecemos
a Deus, e vós estais em rebeldia contra Ele! Por que nos
odiais? Há coisas piores do que a nossa obediência e
nossa fé. Quereis que vos demos a conhecer algumas
delas? Nosso teste será: que tratamento dispensou Deus
às coisas que passamos a mencionar e qual foi o povo que
incorreu na ira de Deus? (Deuteronômio 11:28 e 28:15-68).
Quem provocou a ira de Deus? (Deuteronômio 1:34 e
Mateus 3:7). Quem abandonou Deus e passou a cultuar o
mal? (Jeremias 16:13). Esse é o vosso registro.
385. Para símios, ver o versículo 65 da 2ª Surata. Para
homens possuídos pelo demônio e demônios introduzidos
em suínos, ver Mateus 8:28-32.
386. Comparar com o versículo 12 desta surata e com o
versículo 245 da 2ª Surata, quanto a “emprestar
espontaneamente a Deus”, e com o versículo 181 da 3ª
Surata, quanto ao motejo blasfemo “Deus é pobre!”
Constitui uma outra forma de motejo dizer: “A mão de
Deus está encerrada; Ele é avaro; Ele nada dá!” Tal
blasfêmia é repudiada. Muito pelo contrário, ilimitada é a
munificência de Deus; Ele dá, por assim dizer, com ambas
as mãos bem abertas – uma figura de retórica de ilimitada
liberalidade.
387. A tradução literal das duas linhas deveria ser:
“Comeriam do que estivesse sobre eles e do que estivesse
sob eles.” Comer (akala) é uma palavra muito
compreensiva e denota, geralmente, deleite material,
social, mental e espiritual. “Saciar-se do que é ilícito”, nos
versículo 62 e 63, refere-se auferir lucros indevidos
provenientes da usura, dos fundos fiduciários, ou de outras
fontes. “Comer”, então, pareceria significar receber
satisfação ou felicidade na vida comum, bem como no
mundo espiritual. “Do que estivesse sobre eles” referir-seia
às coisas celestiais, ou à satisfação espiritual, e “do que
estivesse sob eles” referir-se-ia à satisfação terrena.
Entretanto, é preferível tomar as palavras como uma
expressão idiomática e entender: “agraciamento com as
bênçãos dos céus e da terra”.
388. Comparar com João 20:17, onde Cristo diz a Maria
Madalena “…Vai aos meus irmão e dize-lhes que vou para
meu Pai, e vosso Pai, para meu Deus, e vosso Deus”; com
Lucas 18:19, onde Cristo repreende certo governante por
este tê-lo chamado de Bom Mestre.
389. Maria jamais reivindicou ser a mãe de Deus, ou
afirmou que seu filho era Deus. Ela era uma mulher
reverente e virtuosa.
390. Note-se quão logicamente o argumento se
desenvolve, face ao desvio e à carência de fé dos judeus,
às blasfêmias associadas com os nomes de Jesus e Maria,
e, nos versículos seguintes, com o culto de troncos e
pedras inanimadas.
391. Os Salmos contêm várias passagens de imprecações
contra os iníquos: “Ouviu o Senhor e ficou irritado;
inflamou-se o fogo contra Jacó e ferveu a cólera contra
Israel, porque não tiveram fé em Deus, nem confiaram em
Seu socorro”. Salmos 77:21-22, e 69:22-28.
392. Comparar com Mateus, 23:33: “Serpentes, raça de
víboras, como escapareis vós de serdes condenados ao
inferno?”, e com Mateus 12:34.
393. Existem homens maldosos em todas as comunidades;
porém, se os líderes conviverem com os desmandos
dessas comunidades – e pior ainda, se os próprios líderes
compartilharem desses desmandos – então essas
comunidades estarão condenadas.
394. Os significado não é que eles meramente se
intitulavam cristãos, mas eram cristãos sinceros, que
apreciavam as virtudes dos muçulmanos, como aconteceu
com os abissínios, aos quais os muçulmanos pediram
refúgio durante a perseguição ocorrido em Makka.
395. Em prazeres que são benignos e lícitos o pecado
consiste no exagero. Não há mérito algum na mera
abstinência ou no mero asceticismo, embora a humildade e
o desprendimento intrínsecos ao asceticismo possam ter o
seu valor. Usai de todas as espécies de dádivas divinas
com gratidão, mas sabei que o exagero não é aprovado
por Deus.
396. Comparar com o versículo 219 da 2ª Surata, e
respectiva nota. As pedras, aqui referidas, são as pedras
do altar ou as colunas de pedra, nas quais era derramado
óleo para a consagração, ou, ainda, as lajes sobre as quais
se processava o ritual do sacrifício da carne para os ídolos.
Qualquer prática idólatra ou supersticiosa é, aqui,
condenada. Os ansab eram objetos de culto, comuns na
Arábia pré-islâmica.
397. Essas setas eram, também, usadas ara tirar a sorte,
isto é, para vaticinar momentos de sorte ou de azar, ou
para ficar sabendo dos desejos dos deuses pagãos,
quanto a se o homem deveria ou não empreender certos
atos.
398. Há uma sutil sinfonia que parece, à primeira vista,
tratar-se de uma tripla repetição. A relação de tais simples
regulamentações, como as da alimentação, ou do jogo, ou
a reverência dispensada a locais sagrados ou a instituições
sagradas, tem de ser explicada vis-à-vis aos elevados
deveres do homem. Porém, as mais simples normas
físicas, ou seja, aquelas referentes ao comer, ao asseio
etc., se forem boas, referir-se-ão, também, aos aspectos
elevados.
399. Literalmente, “saber”. A caça é proibida nos Recintos
Sagrados. Se deliberadamente transgredirmos essa
injunção, daremos provas de falta de fé e de reverência.
400. A veste de peregrino, Ihram, foi explicada na nota do
versículo 196 da 2ª Surata.
401. Para uma transgressão inadvertida da norma
pertinente à caça não há, aparentemente, penalidade
alguma. A transgressão intencional deverá ser prevenida,
se possível, por ação prévia. Se, em alguns casos, a ação
preventiva não for efetiva, a penalidade será prescrita. A
penalidade efetuar-se-á com três alternativas: um animal
equivalente deverá ser oferecido à Caaba como sacrifício,
e sua carne distribuída entre os pobres; ou os pobres
deverão ser alimentados com cereal, ou receber dinheiro,
de acordo com o valor do animal, caso tenha sido
sacrificado; ou o transgressor deverá jejuar tantos dias
quanto o número de pobres que deveria alimentar –
aqueles enquadrados na segunda alternativa.
Provavelmente, a última alternativa seria uma opção
somente para os transgressores muito pobres, que não
pudessem desincumbir-se da primeira e da segunda
alternativas, sendo que, neste ponto, os jurisprudentes não
chegaram a um acordo. O “animal equivalente”, na
primeira alternativa, seria um animal doméstico de valor
semelhante, ou de semelhante peso em carne, ou de
forma semelhante (ou seja, de cabra a antílope), como
adjudicado por dois homens justos, escolhidos para esse
fim. As alternativas sobre a penalidade, a sua remissão
(“Deus perdoa o passado”), ou a sua exação, explicam as
duas últimas linhas do versículo.
402. Caça aquática, isto é, a caça encontrada na água, ou
seja, aves aquáticas, peixes etc.. “Aquática” inclui mares,
rios, lagos, açudes etc..
403. Não tem no Alcorão.
404. Não tem no Alcorão.
405. Não tem no Alcorão.
406. Não tem no Alcorão.
407. Um bom número de superstições dos árabes idólatras
é aqui mencionado. As mentes idólatras, não
compreendendo os segredos ocultos da natureza,
atribuíam certos fenômenos à ira divina, e eram acossadas
por temores supersticiosos, que infernizavam as suas
vidas. Se uma camela ou uma fêmea de um animal
doméstico dava cria de um grande número de filhotes, ela
(ou um dos seus filhotes) haveria de ter a sua orelha
cortada, e esse animal era dedicado a um deus; tal animal
era denominado bahira. Ao voltar, em segurança, de uma
viagem, ou ao se recuperar de uma doença, uma camela
era similarmente dedicada e deixada solta para pastar à
vontade; era, então, chamada de as’iba. Quando um
animal tinha cria em duplicata, certos sacrifícios ou
dedicações eram feitos a ídolos; tal animal, sendo
dedicado, era denominado wacila. Um camelo reprodutor,
dedicado aos deuses por certos rituais, era chamado de
hami. Os exemplos, em particular, levam à verdade
generalizada: que a superstição é devida à ignorância,
sendo degradante ao homem e desonrosa para Deus.
408. Comparar com o versículo 170 da 2ª Surata. Quando
um mensageiro de Deus vem para nos ensinar o melhor
caminho, é tolice dizermos: “Basta-nos seguir o que
seguiam os nossos pais”.
409. Comparar com o versículo 51 desta surata. Então, a
unicidade de Deus reconciliará diferentes pontos de vida. A
unidade de um Juiz proporcionará justiça perfeita quanto à
conduta de cada um, não importando quão diferente, na
forma, ela possa ter parecido neste mundo.
410. Istahaca = merece ter algo (bom ou mal), atribuído a
alguém; daqui a alternativa significativa: (1) que cometeu
(pecado) ou foi julgado culpado (de pecado); (2) que tinha
ou reivindicava direitos legais (de propriedade). O
procedimento foi seguido, num caso vigente, durante a
vida do Mensageiro. Um homem de Madina morreu no
exterior, confiando a dois amigos os seus pertences, para
que fossem entregues aos seus herdeiros estipulados, em
Madina. Eles, contudo, retiveram em seu poder uma
valiosa taça de prata. Quando isto foi descoberto, foram
tirados juramentos daqueles que sabiam do fato, e a justiça
foi feita.
411. Uma cena do Dia do Reconhecimento é posta perante
nós em palavras minuciosas, mostrando a
responsabilidade e as limitações dos diletos de Deus,
enviados para pregarem a Sua Mensagem aos homens,
com referência especial à Mensagem de Jesus. Fossem
quais fossem as fantásticas formas que a Mensagem
tomasse nas reações dos homens, estava além do
conhecimento dos mensageiros daquele tempo, estando
também além das suas responsabilidades.
412. Os judeus teriam procurado tirar a vida de Jesus, bem
antes da tentativa final de crucificá-lo (ver Lucas 4:28-29).
A tentativa deles de o crucificarem foi-lhes também
frustrada, de acordo com os ensinamentos que recebemos
do Alcorão.
413. A pergunta dos discípulos demonstra um pouco da
falta de fé, muita atenção para com o alimento físico, e um
desejo infantil de milagres ou sinais. Todos esses
expedientes podem ser comprovados, partindo-se dos
Evangelhos Canônicos. Simão Pedro, bem no princípio da
narrativa, pediu a Jesus que se apartasse dele, porquanto
ele (Simão) era pecador (Lucas, 5:8). Esse mesmo Pedro,
depois, renegou desavergonhadamente seu Mestre três
vezes seguidas, quando o Mestre estavam em poder dos
seus inimigos. E um dos discípulos (Judas) literalmente
traiu Jesus. Mesmo nos Evangelhos Canônicos,
muitíssimos dos milagres estão relacionados com a comida
e a bebida; por exemplo, a transformação da água em
vinho (João, 2:1-11), a transformação de cinco pães e de
dois peixinhos em alimento para 5.000 homens (João, 6:5-
13), sendo este o único milagre registrado pelos quatro
evangelistas; a miraculosa quantidade de peixes,
apanhados para a alimentação (Lucas, 5:4-11), a maldição
da figueira que não dava frutos (Mateus, 21:18-19), a
alegoria de se comer a carne de Cristo e beber o seu
sangue (João, 6:53-57). Por causa de os samaritanos não
quererem receber Jesus em sua aldeia, os discípulos
Tiago e João queriam que uma língua de fogo descesse do
céu e os consumisse (Lucas, 9:54).
414. As palavras da oração parecem sugerir a última Ceia.
Comparar com a visão de Pedro, em Atos dos Apóstolos,
10:9-16.
415. No Islam, como na oração de Cristo, o sustento deve
ser tomado tanto para o fortalecimento físico, como para o
espiritual, especialmente para este último.
416. Jesus, aqui, dá a conhecer que era mortal, e que o
seu conhecimento era limitado, como o de um mortal.
417. Fauz = felicidades, ventura, realização, salvação, a
consecução ou o cumprimento dos desejos. Que magnífica
definição de salvação, ou fim da vida! – que nós devemos
angariar o aprazimento de Deus, e que devemos chegar ao
estágio em que o Seu aprazimento estará em todo o nosso
ser!
418. A argumentação é tripla: (1) Deus criou tudo o que
vedes e conheceis; como podeis, então, julgar que
qualquer de Suas criaturas possa igualar-se a Ele? (2) Ele
é o vosso próprio Senhor; Ele vos adora e ama; como
podeis, então, ser tão ingratos, e correr atrás de outra
entidade? (3) As trevas e a luz existem para ajudar-vos a
distinguir entre o verdadeiro e o falso; como podeis, então,
confundir a verdade de Deus com as vossas falsas idéias e
superstições? Talvez possa haver repúdio quanto ao
dualismo da antiga teologia persa; Luz e Trevas não são
duas forças conflitantes; ambas são criações do Único e
Verdadeiro Deus.
419. Esta vida é um período de provação. O outro período
prepara o Julgamento.
420. É insensatez supormos que Deus reina apenas nos
céus. Ele reina também na terra. Ele conhece todas as
nossas intenções e pensamentos secretos, bem como a
real validade do que está por trás daquilo que nos
dignamos mostrar. É pelos nossos feitos que Ele nos há de
julgar; pelos nossos feitos, bons ou maus, teremos a
devida recompensa, no devido tempo.
421. A palavra Quirtás, na época do Mensageiro, poderia
significar apenas “pergaminho”, que foi empregado como
material de escrita na Ásia ocidental, a partir do século II
a.C. A palavra derivou-se do grego Charles (comparar com
a palavra latina Charta). O papel, como o conhecemos,
feito de trapos, foi primeiramente usado pelos árabes,
depois da conquista de Samarcanda, no ano 751 d.C. Os
chineses haviam-no usado, lá pelo século II a.C. Os árabes
o introduziram na Europa, e ele foi usado na Grécia no
século XI ou XII, e na Espanha, por intermédio da Sicília,
no século XII. O papiro, feito de junco egípcio, já era usado
no Egito, por volta do ano 2500 a.C. Então, ele cedeu lugar
ao papel, no século X d.C.
422. Os materialistas desejam, literalmente, ver as coisas
físicas e materiais perante eles; porém, se tal coisa lhes
aparece, provinda de fonte incomum, eles não a podem
compreender, e dão-lhe nomes tais como magia, ou
superstição, ou qualquer outro nome em voga, não
ajudando em nada no sentido de adquirirem fé, porquanto
“em seus corações abrigam a morbidez”(2ª Surata,
versículo 10).
423. A frase “os escarnecedores foram envolvidos por
aquilo de que escarneciam” expressaria,
epigramaticamente, só parte do sentido, mas não o todo. O
termo “foram envolvidos” implica em que a lógica dos
eventos fez o feitiço virar contra o feiticeiro e, uma vez que
o homem se vê sitiado e rodeado pelos inimigos, na
guerra, e é forçado a se render, então os escarnecedores
constatarão que esses eventos é que justificariam a
Verdade, não eles. Onde estavam os escarnecedores de
Jesus, quando Tito destruiu Jerusalém? Quanto aos
escarnecedores que fizeram com que Mohammad fugisse
de Makka, qual não foi a sua situação, quando ele voltou
triunfante para ali, tendo eles de implorar por misericórdia –
e ele lha concedeu! De acordo com o provérbio latino,
Magnífica é a Verdade, que deve prevalecer.
424. As pessoas vulgares cultuam falsos deuses, por
causa do medo que têm que eles lhes causem danos, ou
na esperança de que lhes dispensem alguns benefícios.
Esses falsos deuses não podem fazer nem um, nem outro.
Todo o poder, toda a beneficência está nas mãos do Único
e Verdadeiro Deus. Tudo o mais é pretensão ou ilusão.
425. A palavra Fitnat possui vários significados, partindo da
idéia-raiz de “experimentar, testar”; ou seja, (1) um teste ou
uma tentação, como nos versículos 102 da 2ª Surata; (2)
problemas, tumultos, opressão, perseguição, como nos
versículos 191, 193 e 217 da 2ª Surata; (3) discórdia, como
no versículo 7 da 3ª Surata; (4) subterfúgio, uma escusa
fundamentada na falsidade, como aqui. Outros significados
serão notados, à medida que ocorrerem. Aqueles que
blasfemavam sobre Deus, verão agora, a “nulidade” das
suas imaginações.
426. As mentiras que costumavam contar “sumiram” dos
canais que costumavam ocupar, deixando os mentirosos
em apuros. Ao negarem o indubitável fato de que
acatavam falsos deuses, eles passam a admitir a falsidade
de suas noções, e desse modo se condenam, por suas
próprias bocas.
427. De acordo com uma fidedigna tradição, este versículo
foi revelado devido ao comparecimento de alguns idólatras
à assembléia do Profeta, onde se recitava o Alcorão.
Ouviram-no, mas nada entenderam. E quando lhes foi
pedido que definissem o que o Profeta dizia, responderam:
“Nada sabemos; vemo-lo apenas mover os lábios”.
428. Sua falsidade não é devida à carência de
conhecimentos, mas à sua perversidade e egoísmo. Por
isso, nem seu entendimento, nem seus ouvidos, nem seus
olhos fazem adequadamente o seu trabalho. Eles
distorcem tudo o que vêem, ouvem, o que lhes é ensinado,
resultando que se aprofundam cada vez mais no lodo. A
trapaça que costumam praticar sobre outras pessoas
estará presente perante o Trono do Julgamento, sendo que
ela aparecerá claramente perante os seus próprios olhos.
429. Existem muitas evidências de missão divina do
Mensageiro, bem como na Mensagem que ele recebeu. Se
isto não fosse suficiente para convencer os incrédulos, não
seria, acaso, vão, procurar por sinais nas entranhas da
terra ou por uma visível ascensão aos céus? Se na avidez
do Mensageiro em fazer com que sua mensagem fosse
aceita por todos, ele ficasse magoado com o
empedernimento deles, com a franca oposição e
perseguição a ele, ser-lhe-ia dito que o pleno
conhecimento do Plano Divino convencê-lo-ia que a
impaciência era desaconselhável.
430. Ser que ande sobre a terra; estão inclusos, nesta
expressão, aqueles que vivem na água – peixes, répteis,
crustáceos, insetos, bem como os quadrúpedes. Os alados
são mencionados separadamente. Tair, que é comumente
traduzido por “ave”, compreende qualquer animal que voe,
incluindo mamíferos, como os morcegos. Em nosso
orgulho, nós talvez excluamos os organismos que vivem
além da dimensão percebida por nós; contudo, saibamos
que eles vivem uma vida social e individual, como nós
próprios, e que toda a forma de vida está sujeira ao Plano
e à Vontade de Deis. Em outras palavras, tudo obedece ao
Seu Plano arquetípico, mesmo o Livro aqui mencionado.
Todas as coisas são, em seus vários graus,
correspondentes a Seu Plano (serão consagrados, no fim,
ante seu Senhor).
431. O limitado livre-arbítrio do homem faz uma pequena
diferença. Se ele vir os sinais, mas tapar os ouvidos à
verdadeira mensagem, e recusar-se (como um surdo) a
falar dessa mensagem que toda a natureza proclama,
então, de acordo com o Plano (de seu limitado livrearbítrio),
ele deverá sofrer e vagar, assim como, no caso
oposto, receberia a diretriz e a salvação.
432. A atribulação e o sofrimento deveriam (se os
tomarmos adequadamente) tornar-se, para nós, as
melhores dádivas de Deus. Através do sofrimento
exercitamos a humildade, que constitui o antídoto para
muitos vícios, e a fonte de muitas virtudes. Porém, se
tomarmos o sofrimento com outra disposição, nos
queixaremos; tornar-nos-emos pusilânimes, e Satanás terá
a sua oportunidade de nos explorar, apresentando-nos os
prazeres sedutores de suas futilidades.
433. O castigo de Deus, para com os iníquos, constitui
uma medida justiceira, para que sejam protegidas a
verdade e a virtude de suas depredações, e para que se
mantenham os Seus decretos justiceiros. Esse é um dos
aspectos do Seu caráter, ao qual dá ênfase o epíteto
“Acalentador dos Mundos”.
434. Aprendermos a verdade interior de nós mesmos e do
mundo, evidencia um certo estágio avançado de
sensibilidade e de desenvolvimento espiritual. Há um
estágio mais superficial, no qual a prosperidade e as boas
coisas da vida talvez despertem em nós a comiseração, a
benevolência e a prestimosidade. Em tais casos, a
Mensagem cria raízes. Porém, há um outro tipo de caráter,
que se empertiga com a prosperidade. Para os desse tipo,
ela constitui um teste, ou ainda uma punição, partindo de
um elevado ponto de vista. Eles se aprofundam cada vez
mais no pecado e dali são repentinamente retirados, e,
então, ao invés de ficarem contristados, ficam meramente
desesperados.
435. Alguns dos coraixitas, ricos e influentes, pensavam
que estivesse aquém da dignidade deles ouvir os
ensinamentos de Mohammad, em companhia dos
discípulos de baixas condições financeiras, que se reuniam
em torno dele. Ele, porém, recusava-se a dispersar
aqueles humildes discípulos, que sinceramente
procuravam Deus. Partindo de um modo de ver terreno,
eles nada tinham a ganhar de Mohammad, pois este era
pobre, e ele igualmente nada tinha a ganhar com eles, pois
que não tinham influência. Mas isso não constituía razão
para que ele os mandasse embora; com efeito, a sua
verdadeira sinceridade angariava-lhes precedência sobre
os mundanos, no Reino de Deus, cuja justiça era vindicada
na vida cotidiana de Mohammad, nisto, e em outras coisas.
Se a sua sinceridade era, de algum modo, dúbia, isso não
implicava em responsabilidade para o Pregador.
436. Há, agora, um bom número de argumentos, postos à
baila contra os maquenses, que se recusaram a crer na
Mensagem de Deus. Cada argumento é introduzido pela
expressão “Diz”. Eis aqui os quatro primeiros: (1) eu recebi
a luz, e a seguirei; (2) eu prefiro a minha Luz aos vossos
vãos desejos; (3) quanto ao vosso desafio (“Se há um
Deus, por que Ele não extermina de vez os blasfemos?”),
não compete a mim levantá-lo; o castigo está nas mãos de
Deus; (4) se estivesse em minhas mãos, competiria a mim
levantar o vosso desafio; tudo o que sei é que Deus está
familiarizado com a existência de insensatez e da
iniqüidade, e com muitas outras coisas mais, que mortal
algum pode saber; vós podeis divisar poucos lampejos do
Seu Plano, mas podeis estar seguros de que Ele não
tardará em chamar-vos a prestar contas.
437. Anjos da guarda; muitos exegetas compreendem isto
como tal. A idéia de guardar é expressa em um termo
geral. Deus vela por nós e nos guarda, além de nos prover
de todos os expedientes materiais, morais e espirituais,
para que isso nos auxiliem em nosso crescimento e
desenvolvimento, nos salvaguardem dos danos, e nos
aproximem mais do nosso Destino.
438. No tempo desta revelação, o povo do Mensageiro
constituía-se como um corpo que não apenas rejeitava a
verdade de Deus, mas ainda perseguia aqueles que a
aceitavam. O dever do Mensageiro era dar a conhecer a
sua Mensagem, coisa que ele fazia. Ele não era
responsável pela conduta dos outros. Contudo, ele lhes
dizia detalhadamente que todas as admoestações,
provindas de Deus, tinham o seu limite de tempo, como
eles logo constatariam. E, com efeito, eles o constataram,
num espaço de poucos anos, de sorte que os líderes da
resistência chegaram a um fim escabroso, e todo o seu
sistema de fraude e egocentrismo foi destruído, dando
lugar à mais pura fé do Islam. À parte desta aplicação
particular, há a aplicação mais geral, para o presente e
para todos os tempos.
439. O argumento culmina com o que está aqui, e leva à
enorme visualização de Abraão, o verdadeiro na fé, que
não se detinha ante os assombros da natureza; passava
“da natureza ao Deus da natureza”. Deus não criou apenas
os céus e a terra; com cada acréscimo de conhecimento
nós vemos em que perfeitas proporções toda a Criação é
mantida unida. As criaturas estão sujeitas à influências do
tempo, mas não o Criador; Sua palavra é a chave que abre
a porta da existência. Mas não se trata apenas do ponto de
partida da existência, mas de toda a medida e padrão da
Verdade e do Direito. Possivelmente, talvez existam, na
nossa visão deste magnífico mundo, aberrações de
vontades humanas, ou outras vontades; mas, no momento
em que a trombeta soar para o derradeiro dia, o Seu Trono
de julgamento restaurará, com perfeita justiça, os domínios
do Direito e da Realidade. Porque o Seu conhecimento e a
Sua sapiência compreendem toda a realidade.
440. Agora aparece a história de Abraão. Ele viveu entre
os caldeus, os quais possuíam enormes conhecimentos
das estrelas e dos outros corpos celestes. Contudo, ele
penetrou para além do mundo físico e divisou o mundo
espiritual, este por detrás daquele. Seus ídolos ancestrais
nada significavam para ele. Esse constituiu o primeiro
passo. Mas Deus o elevou em muitos graus acima. Deus
lhe mostrou, com veemência, as glórias espirituais por
detrás das magníficas forças e leis do universo físico.
441. Temos agora uma lista de dezoito Mensageiros,
dividida em quatro grupos, compreendendo os grandes
Mestres, aceitos entre os adeptos das três grandes
religiões, baseadas em Moisés, Jesus e Mohammad. O
primeiro grupo a ser mencionado é o de Abraão, com seu
filho, Isaac, e o filho de Isaac, Jacó. Abraão foi o primeiro a
receber um Livro. Este é mencionado no versículo 19 da
87ª Surata, embora tal Livro esteja agora perdido.
Portanto, eles foram os primeiros a receber a Diretriz, em
termos de um Livro.
442. No segundo plano, temos os grandes fundadores de
famílias, isoladamente de Abraão, a saber: Noé, do tempo
do Dilúvio; Davi e Salomão, os verdadeiros estabilizadores
da monarquia judaica; Jó, que viveu 140 anos, viu quatro
gerações de descendentes, e no fim de sua vida foi
abençoado com uma vasta riqueza agropecuária (Jó, 42:12
e 16); José, que foi Ministro de Estado no Egito, realizando
ali grandes obras, e foi o progenitor de duas tribos; e
Moisés e Aarão, os líderes do Êxodo do Egito para a
Palestina. Eles viveram intensamente, e são denominados
“praticantes do bem”.
443. O terceiro grupo consiste, não de homens, de ação,
mas de Pregadores da Verdade, que levaram vidas
solitárias. Seu epíteto é “os Virtuosos”. Eles foram profetas
místicos, e formam um grupo conexo, em torno de Jesus.
Zacarias foi o pai de João Batista, o precursor de Jesus
(versículos 37;41 da 3ª Surata). Jesus referiu-se a João
como sendo Elias: “…ele mesmo é Elias, que há de vir”
(Mateus, 11:14); e diz-se que Elias esteve presente, e que
falou com Jesus, na Transfiguração, no Monte (Mateus,
17:3).
444. Este é o derradeiro grupo, descrito como o daqueles
“favorecidos acima das nações”. Ele se constitui de quatro
homens, e todos eles passaram por infortúnios, e foram
envolvidos nas destruições das nações, permanecendo,
contudo, na senda de Deus, surgindo, então, acima das
ruínas delas. Ismael era o filho mais velho de Abraão;
quando era um bebê, ele e sua mãe quase morreram de
sede no deserto, ao redor de Makka; porém, eles foram
salvos pelo poço de Zamzam, tornando-se ele o fundador
da nova nação árabe. Eliseu (Al-yas’a) sucedeu ao Profeta
Elias, que viveu em tempos atribulados para ambos os
reinos judaicos (Judá e Israel); havia reis iníquos, com
outras nações a pressioná-los; mas ele realizou muitos
milagres, e algum revide foi dado ao inimigo, a conselho
seu. A história de Jonas (Yunus) é bem conhecida; ele foi
engolido por um peixe, ou baleia, mas foi salvo pela
misericórdia de Deus; por causa da sua pregação, a sua
cidade (Nínive) foi salva (versículo 98 da 10ª Surata). Lot
era sobrinho e contemporâneo de Abraão; quando a
cidade de Sodoma foi destruída, por causa da corrupção,
ele foi salvo, como um homem justo (versículos 80-84 da
7ª Surata.
445. Mãe das Cidades: Makka, agora a Alquibla (Diretriz) e
o Centro do Islam. Não obstante este versículo ter sido
revelado em Makka antes da Hégira, e antes que Makka
tornasse a Alquibla do Islam, Makka era, em verdade, a
Mãe das Cidades, estando tradicionalmente relacionada
com Abraão e com Adão e Eva (ver versículos 125 e 197
da 2ª Surata). E todas as cidades circunvizinhas,
significaria: “todo o mundo”, caso considerássemos Makka
como o Centro.
446. Algumas das várias idéias relacionadas com a
“criação” estão anotadas na nota do versículo 117 da 2ª
Surata. Se o corpo do homem foi criado do barro, ou seja,
de matéria terrestre, houve um processo primitivo de
criação de tal matéria. Aqui, o corpo é deixado de lado,
sendo a alma trazida a foco. A alma passou por vários
processos de modelagem e adaptação à suas várias
funções em seus vários ambientes (versículo 7-9 da 32ª
Surata). Porém, cada alma, em particular, depois de deixar
o corpo, volta à forma com que foi criada, com nada mais
do que sua história – “com as obras que realizou”- , a qual
faz parte integrante dela. Qualquer coisa exterior, dada
como ajutório para o seu desenvolvimento – “tudo quanto
vos concedemos”- deverá, necessariamente, ser deixada
de lado, não obstante ela ter-se orgulhado dela. Estas
coisas exteriores poderão consistir de coisas materiais, por
exemplo, riqueza, propriedades, sinais de poder, influência
e causas de orgulho, como filhos, parentes e amigos etc.,
ou coisas intangíveis, como talento, intelecto etc..
447. No mar, ou nos desertos, ou nas selvas, ou nas
desesperadas cenas fantasiosas, sempre que perquirimos
as imensidões dos espaços, são as estrelas que atuam
como nossos guias, justamente como o sol e a lua, que já
foram mencionados, como servindo de cômputo para o
tempo.
448. Nossa alegoria leva-nos, agora, para a maturidade,
para o fruto, para a colheita, para a vindima. Por meio da
semente nós surgimos, do nada para a vida; vivemos a
nossa vida cotidiana de descanso e trabalho, e passamos
o marco do tempo; tivemos a experiência mental de
atravessar vastos espaços, no mundo espiritual, guiandonos,
em nosso rumo, pela estrela da fé; crescemos, e
estamos prontos para a colheita ou vindima! Assim será
com o homem, se ele produzir os frutos da fé!
449. Cada fruto – sejam uvas, olivas ou romãs – parece ser
igual, em seu tipo, e, contudo, cada variedade é diferente
em sabor, consistência, forma, tamanho, cor, no suco ou
no óleo neles contidos, proporção de sementes que
frutifica etc.. Em cada variedade, o indivíduo poderá ser
diferente. Aplique-se a alegoria ao homem, cujo variado
fruto espiritual poderá ser igualmente diferente e, no
entanto, igualmente valioso.
450. Jinns (Gênios): Quem são eles? No versículo 50 da
18ª Surata, é-nos dito que Iblis (Lúcifer) era um dos Jinns,
dando a entender que foi por isso que ele desobedeceu à
ordem de Deus. Contudo, naquela passagem e em
passagens semelhantes, é-nos dito que Deus ordenou aos
anjos que se prostrassem perante Adão, coisa que eles
fizeram, menos Iblis. Isso implica em que Iblis havia feito
parte da companhia dos anjos. Em muitas passagens falase
concomitantemente de gênios e de homens. Nos
versículos 14-15 da 55ª Surata, é relatado que o homem
foi criado do barro, ao passo que os gênios foram criados
de uma chama de fogo. O significado da raiz de janna,
yajinnu, é: “ser coberto ou escondido”, e com o verbo na
voz ativa, significa: “cobrir ou esconder”, como no versículo
76 desta surata. Algumas pessoas dizem que jinn,
portanto, significa as qualidades ou capacidades ocultas do
homem; outras, que significa seres dos ermos ou da selva,
ocultos nos montes ou nas touceiras. Não desejamos ser
dogmáticos, mas achamos, por um confronto e estudo das
passagens alcorânicas, que o significado simples é “um
espírito” ou uma força invisível ou oculta. Em histórias
romanescas de folclore, como em As Mil e Uma Noites,
eles foram personificados com formas fantásticas, mas não
é da nossa alçada desenvolver isso aqui.
451. As principais tarefas com que se depara o dileto de
Deus são: observar de perto quaisquer desses fatores que
possam promover os elevados fins; tentar purificar aqueles
que têm sido mal empregados; introduzir novas idéias e
novas maneiras de ver as coisas; e combater o que for
errado e não puder ser corrigido; tudo isto com o propósito
de conduzir a verdade e deixar entrar a luz espiritual aonde
antes só havia trevas. Se isto não for feito com a discrição
e a tenacidade de um Mestre espiritual, talvez haja não
apenas a reação da obstinação, mas também uma
indecorosa mostra de desonra ao verdadeiro Deus e à Sua
Verdade, podendo a dúvida espalhar-se entre os irmãos
mais fracos cuja fé seja superficial e afeita a ser abalada.
O que acontece com os indivíduos pode acontecer
coletivamente com as nações e os grupos de pessoas. Em
sua obsessão, esses grupos poderão pensar que suas
próprias idéias são as certas. Deus, em Sua infinita
compaixão, os tolera, e pede àqueles que têm idéias mais
puras acerca da fé, que não difamem a fraqueza do seu
próximo, a menos, é claro, que este difame a verdade real,
e torne a questão ainda pior do que antes. Porquanto haja
erros, Deus perdoará e enviará a Sua graça, a fim de evitar
a ignorância e a insensatez. Porquanto existia o mal ativo,
Deus tratará com ele à Sua própria maneira. Certamente, o
virtuoso não há de esconder a sua luz sob uma capa, ou
se comprometer com o mal, ou recusar-se a viver uma vida
correta, quando tem o meio para isso – o conhecimento.
452. Se os incrédulos estão meramente obstinados, nada
os fará retratarem-se. Não há história mais farta de
milagres do que a história de Jesus. Contudo, nessa
mesma história, é-nos dito que Jesus disse: “Esta geração
perversa e adúltera pede um prodígio; e não se lhe dará
outro prodígio, senão o prodígio do Profeta Jonas”(Mateus,
16:4). Há sinais, propiciados por Deus, todos os dias –
compreendidos por aqueles que crêem. Uma mera
insistência sobre sinais particulares ou especiais significa
pura contumácia e incompreensão quanto ao mundo
espiritual.
453. A graça de Deus está sempre pronta a evitar a
fraqueza ou ignorância do homem, a aceitar o
arrependimento e a conceder o perdão. Porém, quando o
pecador se mostra em virtual rebeldia, é-lhes dado corda, e
será sua própria culpa se ele tatear distraidamente ao léu,
sem qualquer esperança certa ou refúgio.
454. Um grupo de idólatras de Makka pediu ao Profeta que
fizesse aparecer os anjos – para testemunharem que ele
era o Mensageiro de Deus – ou que ressuscitasse alguns
mortos, para que pudessem inquiri-los sobre a sua
veracidade. Todavia, os mais estupendos milagres, mesmo
de acordo com as suas idéias, não os teriam convencido.
Se todo o aparato do mundo espiritual fosse colocado à
frente deles, não teriam crido, porque, por sua livre escolha
e vontade, recusam o conhecimento e a fé.
455. Os virtuosos não buscam nenhum outro padrão de
julgamento que não seja a Vontade de Deus. Como
poderão fazê-lo quando Deus, em Sua graça, tem
explicado a Sua Vontade com detalhes, no Alcorão, o qual
os homens de todas as capacidades podem entender?
Com ele o mais humilde pode aprender lições de conduta
reta na vida cotidiana, e o mais avançado poderá encontrar
a mais elevada sapiência, em seu ensinamento espiritual,
enriquecida por todas as espécies de magníficas
metáforas, tiradas da natureza e da história do homem.
456. Eis aqui uma alegoria ao benevolente, com sua
missão divina, e ao malevolente, com sua missão maligna.
O primeiro, antes de adquirir a sua vida espiritual, estava
como que morto. Foi a graça de Deus que lhe concedeu a
vida espiritual, com uma Luz com a qual ele pudesse dirigir
seus próprios passos, bem como os passos daqueles que
querem seguir a luz de Deus. O oposto constitui-se
daqueles os que odeiam a luz de Deus, que vivem nas
profundezas das trevas, e que tramam e se entocaiam
contra tudo o que é bom. Poderão equiparar-se, mesmo
por um momento, estes dois tipos? Pode acontecer que a
liderança, em todos os centros populacionais, esteja nas
mãos de homens maus. Contudo, os bons não deverão
ficar desencorajados. Estes deverão obrar em virtude, e
concluir a sua missão.
457. Além dos ensinamentos das palavras de Deus, e dos
ensinamentos do mundo de Deus, da natureza, da história
e dos contatos humanos, muitos outros sinais chegam aos
diletos de Deus, que os recebem humildemente, e tentam
compreendê-los; e muitos sinais também chegam aos
incrédulos, na forma de admoestação ou equivalente, os
quais eles não levam em consideração, ou
deliberadamente rejeitam. Porém, a obra de Deus estará
sempre de acordo com a Sua própria Vontade e Seu
próprio Plano, e não de acordo com os desejos e caprichos
dos incrédulos.
458. O Plano Universal de Deus é o cadhá-wa-cadar, que
é muito mal compreendido. Esse Plano é inalterável, e
essa é a Sua Vontade. Isto quer dizer que no mundo
espiritual, bem como no material, existem leis de justiça, de
misericórdia, de graça, de castigo, etc., que funcionam tão
seguramente como qualquer outro instrumento que
conheçamos. Se, então, o homem se recusar a aceitar a
Fé, tornar-se-á rebelde e, a cada passo, abater-se-á cada
vez mais, com a aceleração do seu movimento regular.
Quase não será capaz de tomar a respiração espiritual, a
ponto de sua recuperação – a despeito da misericórdia de
Deus, que ele rejeitara – tornar-se tão difícil, como se
tornaria a sua ascensão aos céus. Por outro lado, o devoto
achará, a casa passo, mais fácil o próximo.
459. Os estudos científicos modernos provam que quanto
mais o homem se eleva na atmosfera, mais difícil se torna
a sua respiração pelo nariz. Ao alcançar a altura de 360 m,
só poderá respirar pela boca; continuando a elevar-se,
chegará o momento em que será totalmente impossível
respirar.
460. Eternidade e infinidade são termos abstratos. Não
possuem significado especial em nossa experiência
humana. A qualificação “salvo para quem Deus quiser”
torna-os mais inteligíveis, à medida que formemos alguma
idéia – conquanto inadequada – de uma Vontade e de um
Plano, e conheçamos a Deus por Seus atributos de
Misericórdia e de Justiça.
461. Os iníquos desposam os iníquos, por causa das suas
barganhas mútuas. Porém, ao agirem assim, eles livram os
virtuosos de tentações piores.
462. Deus é independente de nossas orações ou serviços.
É de Sua misericórdia que Ele deseje o nosso bem.
Qualquer raça ou povo a quem Ele conceda as suas
chances deve entender que o seu fracasso não o afeta; Ele
poderia criar outros povos em seus lugares, como fez em
tempos passados, e como está fazendo nos nossos
próprios dias, caso tenhamos olhos para ver.
463. Aqui há sarcasmo mordaz do mais alto teor, que
passou desapercebido a alguns exegetas. Os idólatras
geralmente têm um enorme Panteão, embora, afora isso,
possuam uma vaga idéia de um Deus Supremo. Porém, os
bens materiais vão para as deidades, os “parceiros”
fantasiosos de Deus, porquanto estes têm templos,
sacerdotes, oferendas, etc., ao passo que o Verdadeiro e
Supremo Deus tão-somente recebe cultos verbais ou,
quando muito, uma parcela, junto aos inúmeros
“parceiros”. E era assim também na Arábia. Os quinhões
designados para os “parceiros” iam para os sacerdotes e
para os sequazes dos “parceiros”, que era muitos, e
reivindicadores de seus direitos. O quinhão designado a
Deus ia, possivelmente, para os pobres, porém, mais
provavelmente ia, para os sacerdotes, que mantinham o
culto dos “parceiros”, já que o Supremo Deus não tinha,
em separado, Seus próprios sacerdotes. Deus criou todas
as coisas; como poderia ter Ele um quinhão?
464. Era de se supor que os falsos deuses e ídolos – entre
muitas nações, incluindo a árabe – requeressem sacrifícios
humanos. Comumente, tais sacrifícios são revoltantes ao
homem, mas saiba-se que eles eram “tentadores”, pelo
costume dos idólatras, o qual falsamente reivindicava o
título de religião. Tal costume, se adotado, nada mais fazia
do que destruir espiritualmente as pessoas que o
praticavam, além de transformar a religião num confuso
acervo de superstições revoltantes.
465. O tabu, quanto a certas comidas, constitui, às vezes,
um instrumento dos sacerdotes para reservarem para si
coisas especiais. Isso deve ser reforçado pela pretensão
de que a proibição, para os outros, ocorre pela vontade de
Deus. Isso constitui uma mentira ou invencionice quanto a
Ele. Constituem-no, também, as superstições, em sua
maioria.
466. As reses dedicadas aos deuses pagãos deveriam ser
poupadas de todo o trabalho útil; nesse caso, tornavam-se
um peso morto para a comunidade, e causavam, além
disso, uma porção de danos aos campos e às colheitas.
467. Estas são as superstições idólatras mais absurdas.
Algumas já apareceram no versículo 103 da 5ª Surata, o
qual deve ser consultado, juntamente com a respectiva
nota.
468. Refere-se aos costumes dos árabes anteriores ao
Islam, que enterravam vivas as filhas e sacrificavam aos
ídolos.
469. A superstição acaba com a verdadeira religião.
Voltemos às superstições dos árabes idólatras acerca das
reses para a alimentação. Os cavalos não são
mencionados, porquanto a carne do cavalo não fazia parte
da dieta, e não havia superstições sobre ela. Ovelhas e
cabras, camelos e bois, eram a fonte comum de carne. As
ovelhas e as cabras não eram empregadas como bestas
de carga, mas os camelos (de ambos os sexos) eram
usados no transporte de carga, e os bois no arado, embora
as vacas fossem principalmente utilizadas para leite e dar
carne. A frase “Ele criou para vós animais de carga, e
outros para o abate” não diferencia todas as espécies, mas
evidencia as primeiras e as últimas categorias.
470. As superstições, referidas no versículo 130, acima,
são mais ridicularizadas neste versículo seguinte.
471. Sangue fluente: distinto do sangue aderente à carne,
ou o fígado, ou qualquer outro órgão interno que purifica o
sangue.
472. A palavra Zufur pode significar garra ou casco; ela
está no singular; porém, como nenhum animal possui
somente uma garra, e não há pontos de interrupção nas
garras, devemos considerar o casco, para uma correta
interpretação. Segundo a lei judaica, “Tudo o que tem
unhas fendidas, e a fenda das unhas divide em duas, e
remói, entre os animais, aquilo comereis, destes porém
não comereis, dos que remoem ou dos que têm unhas
fendidas: o camelo, que remói mas não tem as unhas
fendidas; este vos será imundo; e o coelho, porque remói
mas não tem as unhas fendidas, este vos será imundo. E a
lebre, porque remói, mas não tem as unhas fendidas, esta
vos será imunda.” (Levítico, 11:3-6). Portanto, “animais
solípedes” seria a interpretação correta. Estes três
animais, conquanto ilícitos para os judeus, são lícitos para
os muçulmanos. Comparar com o versículo 160 da 4ª
Surata.
473. A Revelação a Moisés se reportava aos detalhes da
vida das pessoas, servindo assim de guia prático para os
judeus e, depois, para os cristãos. Confessadamente, a
Mensagem do Islam, como se encontra no Alcorão,
constitui o próximo guia completo, em relação ao tempo,
depois da de Moisés.
474. Porque os diligentes estudos do anterior Povo do
Livro foram feitos em linguagem desconhecida ao recémformado
Povo do Islam, ou porque os membros daquele
povo haveriam de deparar-se com circunstâncias
diferentes das deste, no novo mundo pós-islâmico.
475. Ou seja, o Alcorão, a vida e os ensinamentos de
Mohammad, o Mensageiro de Deus.
476. Novamente a doutrina da responsabilidade pessoal.
Nós próprios somos responsáveis por nossos atos; não
podemos transferir as conseqüências para ninguém mais.
Nem tampouco ninguém poderá expiar vicariamente os
nossos pecados. Se, honestamente, as pessoas têm
dúvidas ou desentendimentos sobre questões importantes
quanto à religião, não devem dar início a disputas fúteis.
Tudo será esclarecido no fim. Nosso mister, aqui, é
mantermos a unidade e a disciplina, e cumprirmos com o
dever com que nos deparamos.
477. Comparar com o versículo 30 da 2ª Surata, e
respectiva nota, onde traduzimos a palavra Khalifa por
“legatário”, sendo do Plano de Deus tornar Adão (como
representante da humanidade) e Seu legatário na terra.
Uma outra idéia implícita em Khalifa é a de “sucessor,
herdeiro”, isto é, aquele que tem direito prioritário à posse
(a quem um testamento em vida foi concedido pelo
possuidor), depois que este morreu. No versículo 23 da 15ª
Surata aparece a notável palavra “Herdeiro” (com “h”
maiúsculo – Wáriçun), aplicada a Deus: “Somos Aquele
que dá a vida e a morte, e somos o Único Herdeiro de
tudo.” A mesma idéia ocorre no versículo 180 da 3ª Surata,
onde há que ver a respectiva nota. Aqui, a tradução tenta
expressar ambas as idéias, as quais entendemos, partindo
do original.
478. Esta é uma combinação de abreviaturas de quatro
letras. A combinação, aqui, inclui as três letras, Alef, Lam,
Mim, que aparecem no início da 2ª Surata, sendo
discutidas na nota do versículo 1, da mesma surata. A letra
adicional, Sad, aparece aqui e na 19ª Surata, e,
isoladamente, no início da 38ª Surata. O fator comum às
7ª, 19ª e 38ª Suratas é que, em cada caso, o teor delas
consiste das histórias (quiças) dos Profetas. Nesta Surata
temos as histórias de Noé, de Hud, de Sáleh, de Lot, de
Xuiab e de Moisés, culminando com Mohammad , e, na
38ª Surata, as histórias de Davi, Salomão e de Jó,
igualmente culminando com Mohammad, ocupando três
das cinco seções.
479. Peito, seguindo o original. Usamos a palavra mais
apropriada ao idioma português. O significado é que
Mohammad se via consolado perante todas as dificuldades
que encontrava, ao logo de sua missão, com o fato de que
encontrava uma diretriz límpida no Livro, para a sua
pregação.
480. Isto foi adicionado com o fito de que o homem não se
empertigasse com tal minúsculo conhecimento, como o
que possuía, porquanto há grandes alturas a serem
alcançadas, no reino espiritual.
481. A história espiritual do homem principia com um
prelúdio. Pensemos nas cidades e nas nações que foram
arruinadas por iniqüidade. Deus propiciou aos homens
grandes oportunidades, e lhes enviou admoestadores e
mestres. Arrogantemente, porém, eles continuaram com
suas maneiras malignas, até que uma horripilante
calamidade os assaltou, e extinguiu mesmo os seus traços.
482. O termo “configuração”, ou “forma”, deve ser
interpretado, não somente referindo-se à forma física, a
qual muda a cada dia que passa, mas também às várias
configurações ou formas que a nossa existência ideal e
espiritual possa tomar, de tempos em tempos, de acordo
com as nossas experiências interiores. Comparar com o
versículo 8 da 82ª Surata. A Forma, ou Ideal, ou Padrão
Original, de acordo com a doutrina mística de Platão, tal
como a desenvolve na sua obra, “A República”, pode
também ser comparada com os “nomes” ou a natureza e
qualidade das coisas, que Deus ensinou a Adão (versículo
31 da 2ª Surata, e versículo 94 da 6ª Surata, e respectivas
notas). Somente após Adão (o que serve para toda a
humanidade) ter sido ensinado, é que foi pedido aos anjos
que se curvassem ante ele, pois, pela graça de Deus, seu
status ficou virtualmente mais elevado. Note-se a
transição: de “vós” (plural), na primeira cláusula, para
“Adão”; na Segunda cláusula; Adão e humanidade são
sinônimos; o plural é restabelecido nos versículos 14, 16-
18 desta surata.
483. Nota-se o estratagema sutil de Iblis: seu egoísmo em
querer colocar-se acima do homem, e sua falsidade em
ignorar o fato de que Deus não fez meramente de barro o
corpo do homem, mas deu-lhe uma forma espiritual – em
outras palavras, ensinou-lhe a natureza das coisas e
elevou-o em dignidade, acima dos anjos.
484. Outra instância da sutileza e da falsidade de Iblis. Ele
espera, até conseguir a tolerância. Então, explode em
mentiras e provocações impertinentes. A mentira está em
ele sugerir que Deus o desviou do Caminho; em outras
palavras, que o desvirtuou, sendo que foi a sua própria
conduta a responsável por sua degradação. A provocação
consiste em armar ciladas na Senda Reta, para a qual
Deus dirige os homens. Ele então cai mais um passo nos
planos inferiores, além daqueles cinco mencionados na
nota do versículo 13 desta surata. Seu sexto passo
consiste na provocação.
485. Agora o caso se volta em direção ao homem. Ele foi
colocado num jardim espiritual de inocência e bênção, mas
era do Plano Divino conceder-lhe uma limitada faculdade
de escolha. Tudo o que lhe era proibido, era aproximar-se
da Árvore do Mal; porém, ele sucumbiu às sugestões de
Satanás.
486. Comparar toda esta passagem sobre Adão com as
passagens dos versículos 30-39 da 2ª Surata e com outras
passagens das suratas subseqüentes. Quanto aos locais,
as palavras são exatamente as mesmas, e, todavia, todo o
argumento é diferente. Em cada caso ele se coaduna com
o contexto. Na 2ª Surata, o argumento era sobre a origem
do homem. Aqui ele é um prelúdio à sua história na terra, e
assim continua, logicamente, na próxima seção, a se dirigir
aos Filhos de Adão, e vai mais adiante, com a história dos
vários mensageiros que vieram para guiar a humanidade.
A verdade é uma só, mas a sua apresentação adequada,
palavras humanas, mostra uma faceta diferente, em
contextos distintos.
487. Há, aqui, uma dupla filosofia sobre roupas, para que
corresponda ao duplo significado do versículo 20 desta
surata. Espiritualmente, Deus criou o homem “isolado”
(versículo 94 da 6ª Surata); a alma, na sua pureza e beleza
despidas, não conhecia a vergonha, porque não sabia o
que era culpa; após haver sido tocada pela culpa e
conspurcada pelo mal, seus pensamentos e suas ações
tornaram-se a sua roupagem e adorno, ações e
pensamentos esses que poderiam ser: bons ou maus,
honestos ou prostituídos, sempre de acordo com suas
intenções interiores. Assim se dá com o corpo: ele é puro e
belo, desde que não seja maculado pelo mau uso. Sua
roupagem e seu ornamento podem ser bons ou
degradantes, sempre de acordo com as intenções da
mente e do caráter; se boas, as intenções constituem os
símbolos da pureza e da beleza. Entretanto, os melhores
vestuários e ornamentos que possamos Ter provêm da
virtude, a qual cobre a nudez do pecado.
488. Melhor atavio: zínat – adornos ou aparatos para um
viver magnífico – construção para dar a entender, não
apenas as vestimentas que adicionam graça aos que as
usam, mas ainda a toalete e o asseio, a atenção com os
cabelos, bem como com outros pequenos detalhes
pessoais, que nenhuma pessoa que tem amor-próprio
deve negligenciar quando vai a solenidades, ou mesmo
quando comparece perante um grande dignitário humano,
seja pela impressão que causará, seja pela dignidade da
ocasião. Quão mais importante é observarmos tais
detalhes quando, solenemente, colocamos as nossas
mentes na Presença de Deus, embora saibamos que Ele
está sempre presente em todos os lugares. No entanto, a
precaução quanto ao exagero está implícita; os homens
não devem ir às orações vestidos de seda, ou com enfeites
próprios das mulheres. Igualmente, a alimentação sóbria,
sadia e integral, não deve estar divorciada dos ofícios
religiosos: apenas a precaução quanto aos exageros é que
está estritamente implícita. Um faquir ensebado e
desleixado, não pode clamar por santidade no Islam.
489. Nas se deve supor que os rebeldes, quanto a Deus,
serão de pronto despojados de suas vidas, por causa de
seus pecados. Eles terão as porções que lhes couberem,
incluindo as boas coisas da vida, bem como a chance de
se arrependerem e se reformarem, durante o seu período
probatório nesta terra. Durante esse período, poderão viver
intensamente. Depois que esse período expirar serão
chamados a prestar contas. Eles verão, por si mesmos,
que as coisas quiméricas, nas quais depositavam
confiança, eram falsas. Confessarão os seus pecados,
mas será tarde demais.
490. As gerações mais remotas cometeram um duplo
crime: (1) seus próprios pecados; (2) o mau exemplo que
deixaram para aqueles que vieram depois delas. Nós não
apenas somos responsáveis por nossos próprios
desmandos, mas também por aqueles que o nosso
exemplo e os nossos ensinamentos induzem os nossos
descendentes a cometer. Contudo, não compete às bocas
dos descendentes clamar por um duplo castigo para os
seus ascendentes; porque não se trataria de intenção
justiceira, mas sim de puro despeito, o que, por si só,
constitui pecado. Ademais, as gerações posteriores têm de
responder por duas coisas: (1) seus próprios pecados, e
(2) seu fracasso em aprenderem daqueles que os
precederam; eles estariam em vantagem, pois eram “os
primeiros na fila do Tempo”; mas não aprenderam. Deste
modo, nada há que escolher entre as mais remotas e as
mais recentes gerações, em matéria de culpa. Porém,
quão poucas pessoas compreendem isto! No versículo 160
da 6ª Surata foi-nos dito que o bem era decuplamente
recompensado, mas que o mal era punido de acordo com
o teor da culpa, em perfeita justiça. Este versículo de
maneira alguma é incompatível com isso. Dois crimes têm
de ter um castigo duplo. Todavia, devemos entender os
numerais “décuplo” e “duplo” em sentido figurado, e não
quantitativamente.
491. Um homem que tenha sofrido desapontamento talvez
possua um inconfesso sofrimento de rancor, no fundo da
sua mente, o qual talvez lhe obstrua as alegrias, por causa
das recordações passadas que se intrometem no meio da
felicidade. Em tais casos, a própria memória constitui
motivo de dor. Mesmo os pesares são intensificados pela
memória. Mas isso acontece nesta nossa vida imperfeita.
Na perfeita felicidade dos virtuosos, todos esses
sentimentos serão barrados. Nem tampouco quaisquer
sentimentos de inveja ou de carência serão possíveis,
nessa bênção.
492. Os que, em conjunto, compartilharem do Fogo,
somente poderão responder com uma única palavra:
“Sim”, tal é o seu estado de miséria. Mesmo assim, suas
vozes mesclar-se-ão com a voz do Lamentador, que
explicará os seus estados; estarão num estado de
maldição, isto é, de privação da graça e da misericórdia de
Deus. Tal privação constitui a mais intensa miséria que a
alma pode suportar.
493. Os iníquos refletem suas próprias mentes tortuosas,
quando a senda de Deus se encontra perante eles. Ao
invés de seguirem o caminho reto, tentam encontrar algo
nela que satisfaça as suas próprias idéias distorcidas
Francamente, eles não têm fé na Meta final – a Vida futura.
494. Esta é uma passagem difícil, os exegetas têm-na
interpretado de maneiras diferentes. Três correntes
distintas podem ser distinguidas na interpretação: (1) uma
acha que os homens, nos cimos, são anjos, ou homens de
exaltada dignidade espiritual (ou seja, os grandes
mensageiros), que serão capazes de reconhecer as almas,
num simples olhar, com respeito à sua dignidade espiritual;
os cimos serão a sua estância exaltada, da qual eles darão
as boas-vindas aos virtuosos, com uma saudação de paz,
por si só, constituir-se-á numa garantia de salvação para
aqueles que são saudados; (2) almas que não se
encontram decididamente do lado do mérito, ou
decididamente do lado do pecado, mas perfeitamente
equilibradas entre o céu e o inferno. Seus casos não estão
ainda decidido, porém a sua saudação evidencia anseio,
porquanto têm esperança da misericórdia de Deus; (3) a
terceira linha da interpretação, com a qual concordamos,
aproxima-se da primeira, com esta exceção: a divisão e os
cimos são uma metáfora. As almas elevadas regozijar-se-
ão com a salvação eminente dos virtuosos.
495. Na expressão “seus olhares”, de acordo com a
interpretação (2) da nota anterior, o pronome “seus” referirse-ia
às pessoas cujos destinos não estão ainda decididos,
sendo que as exclamações são suas; segundo as
interpretações (1) e (3) da mesma nota, “seus” referir-se-ia
aos que em conjunto compartilham do Jardim, e que
estariam conscientes da terrível natureza do inferno, e
expressariam o seus horror quanto a ele. Nós preferimos
esta última interpretação. Então, a menção dos “habitantes
dos cimos”, com suas exclamações, no versículo 48,
aparece naturalmente, como uma espécie diferente de fala,
procedente de diferentes espécies de homens.
496. Um versículo sublime, comparável ao versículo do
Trono, o 255, da 2ª Surata. A Criação, em seis dias, é
certamente, metafórica. Os “Dias de Escarmento de Deus”
(versículo 14 da 45ª Surata) não se referem tanto ao
tempo, mas ao crescimento, em nós, ca conscientização
espiritual, da conscientização do pecado e da Misericórdia
de Deus. No versículo 47 da 22ª Surata é-nos dito que um
dia, na visão de Deus, é como 1.000 anos dos que
conhecemos; e no versículo 4 da 70ª Surata, a
comparação é com 50.000 dos nossos anos. Na história da
nossa terra material nós devemos reconhecer seis grandes
épocas da evolução. Ver versículo 9-12 da 41ª Surata.
497. O termo “Trono” (Árch) talvez seja metafórico,
significando um símbolo de autoridade, de poder, de
vigilância, como o é o termo Cursi (assento, trono) –
comparar com a nota do versículo 255 da 2ª Surata. Cursi
talvez se refira à majestade, ao passo que ‘Arch se refere
ao poderio, sendo que a pequena diferença de matrizes
derrama luz sobre as duas passagens. Aqui, somos
instruídos quanto à criação dos céus e da terra em seis
dias. Porém, a menos que estejamos obcecados com a
idéia judaica de que Deus descansou no sétimo dia, é-nos
dito que a Criação não foi mais do que um prelúdio à obra
de Deus; porque Sua autoridade é exercida
constantemente pelas que Ele estabelece e impõe a todas
as partes da Sua Criação. O magnífico emblema retórico
da noite e do dia, uma perseguindo o outro, em rápidas
sucessões, é mais vantajosamente reforçado pelo verbo
árabe Yugchi, duplamente acusativo, demonstrando as
interações mútuas do dia e da noite, um substituindo a
outra, por seu turno. Os corpos celestes mostram uma
ordenação que constitui uma evidência dos constantes
desvelo e governo de Deus. Não apenas isso, mas é tãosomente
Ele Que cria, mantém e governa, e ninguém mais.
498. A parábola é completa, em seu significado triplo. No
mundo material, os ventos correm como verdadeiros portavozes
de coisas auspiciosas; eles são como que
vanguardeiros, atrás da qual vem o grosso do exército dos
ventos, impulsionando nuvens saturadas à sua frente; a
sábia Providência de Deus é o General, que dirige essas
nuvens em direção a uma terra esturricada, sobre a qual
as nuvens descarregam os seus animadores aguaceiros
de misericórdia, que transformam a terra desolada em terra
vivente, fértil e bela, propiciadora de ricas colheitas. No
mundo espiritual, os ventos constituem grandes motivos de
forcas na mente do homem, ou no mundo em torno dele,
ventos esses que trazem as nuvens ou instrumentos da
misericórdia de Deus, que descem rumo às almas até
então espiritualmente mortas. Uma vez que podemos ver
ou experimentar tais ocorrências em nossas vidas, aqui em
baixo, podemos, acaso, duvidar da ressurreição das
nossas almas, depois de aqui morrermos?
499. A história de Noé, com maiores detalhes, será
encontrada nos versículos 25-49 da 11ª Surata. Aqui, o
escopo é contar brevemente as histórias de alguns dos
profetas, que se destacaram no período entre Noé e
Moisés, culminando, desse modo, com uma lição aos
contemporâneos do próprio Mensageiro Mohammad.
Quando Noé atacava a iniqüidade da sua geração, ele era
escarnecido e tido como louco, porquanto mencionava o
Grande Dia, que viria na Vida Futura. A retribuição de
Deus veio logo depois – o grande dilúvio, durante o qual o
seu povo incrédulo foi afogado, ao passo que ele e aqueles
que nele acreditavam, e entraram na arca, foram salvos.
500. O povo de Ad, com o seu profeta Hud, é mencionado
em muitos lugares. Ver especialmente versículos 123-140
da 26ª Surata e os versículos 21-26 da 46ª Surata. Sua
história pertence à tradição árabe. Seu ancestral epônimo,
Ad, constitui a 4ª geração de Noé, tendo sido filho de A’us,
filho de Aarão, filho este de Sem, filho de Noé. Ele ocupava
uma vasta área do território da Arábia Meridional, que se
estendia desde o Omã na embocadura do Golfo Pérsico,
até Hadramaut e o Iêmen, na extremidade meridional do
Mar Vermelho. Os membros do povo eram de estatura alta,
e eram grandes construtores. Provavelmente, os longos e
sinuosos tratos de areia (ahcaf), em seus domínios
(versículo 2 da 46ª Surata), eram irrigados por canais. Eles
se esqueceram do verdadeiro Deus e oprimiram o seu
povo. Uma fome de três anos os açoitou, mas eles não se
escarmentaram. Finalmente, uma terrível rajada de vento
os destruiu, bem como à sua terra; porém, uns poucos que
restaram, conhecidos como o segundo povo de Ad ou de
Tamud (ver mais adiante), foram salvos, sofrendo, depois,
sorte semelhante, por seus pecados. A tumba do profeta
Hud é ainda tradicionalmente mostrada em Hadramaut. Há
ruínas e inscrições nas vizinhanças. É de uso uma
peregrinação anual a essa tumba, no mês de Rajab.
501. O povo de Samud foi o sucessor da cultura da
civilização do povo de Ad, para cuja história ver a nota
anterior. Esses dois povos eram primos, aparentemente
um ramo jovem da mesma raça. Sua história também
pertence à tradição árabe, de acordo com o seu ancestral
epônimo, Samud, que era um dos filhos de A’abir (um dos
irmãos de Aarão), filho de Sem, filho de Noé. Sua sede era
no quadrante noroeste da Arábia (Arábia Pétrea), entre
Madina e a Síria. Ela inclui tanto a região rochosa (Hijr,
versículo 80 da 15ª Surata), como o espaçoso e fértil vale
(Wadi), e a planície da região de Kurá, que principia bem
ao norte da cidade de Madina. Quando, no ano 9 da
Hégira, o Mensageiro conduziu uma expedição a Tabuk
(cerca de 65 km ao norte de Madina) contra as forças
romanas, atendendo a um relatado rumor de invasão
romana, proveniente da Síria, ele e seus homens se
depararam com os restos arqueológicos de Samud. A
cidade rochosa de Petra, recentemente escavada, próxima
a Ma’an, talvez remonte aos tempos de Samud, embora
sua arquitetura possua muitas características relacionadas
com as culturas egípcia e greco-romana, concretizando o
que é chamado, pelos escritores europeus, de Cultura
Nabatéia. Quem era os nabateus? Eram de uma velha
tribo árabe, que desempenhou um importante papel na
história, e que depois entrou em conflito com Antígono I, no
ano 312 a.C.. Sua capital era Petra, mas eles estenderam
o seu território até o Eufrates. No ano 85 a.C. eram os
senhores de Damasco sob o reinado de seu rei Hariça
(Areta, na história romana). Por algum tempo eles
permaneceram aliados do Império Romano, e de posse do
litoral do Mar Vermelho. No ano 105 d.C. o imperador
Trajano reduziu esse território e o anexou ao seu. Os
nabateus sucederam o povo de Samud, na tradição árabe.
O nome Samud é mencionado numa inscrição do rei
assírio, Sargão, datada do ano de 715 a.C. (Encyclepaedia
of Islam).
502. A história da camela encantada, que constituía um
Sinal para Tamud, é diversificadamente contada, na
tradição. Não precisamos seguir as várias versões da
história tradicional. O que nos é dito no Alcorão é: ela
constituía um Sinal ou Símbolo, o qual o profeta Sáleh
usava como escarmento para os altivos opressores dos
pobres; havia escassez de água, e as classes arrogantes
ou privilegiadas tentavam obstruir o acesso dos pobres, ou
de suas reses às fontes, tendo Sáleh de intervir em favor
deles; assim como a água, as pastagens eram
consideradas dádivas gratuitas da natureza, neta espaçosa
terra de Deus, mas os arrogantes tentavam monopolizar
também as pastagens; fez-se desta camela especial um
caso-teste para ver se os arrogantes chegavam à razão;
estes, ao invés de concederem ao povo os seus direitos
inalienáveis, esquartejaram a pobre camela e a mataram,
com certeza secretamente; a taça da sua iniqüidade ficou
repleta, e o povo de Tamud foi destruído por um
horripilante terremoto, que deixou os seus membros
prostrados no chão, e os soterrou, juntamente com as suas
casas e os seus ricos edifícios.
503. A retaliação não foi por muito tempo adiada. Veio um
terrível terremoto e soterrou o povo e destruiu esta tão
decantada civilização. A calamidade deve ter sido bem
extensa em área, e bem intensa no terror que inspirou,
pois é descrita (versículo 31 da 54ª Surata) como “um
estrondo”, saihatan wahi-datan, ou aquela espécie de
estrondo que acompanha todos os grandes abalos
sísmicos.
504. Sáleh foi salvo pela misericórdia de Deus, por ser um
homem justo e virtuoso. A sua exclamação, aqui, talvez
seja uma admoestação de despedida, ou talvez constitua
um solilóquio em que ele lamenta a destruição do seu
povo, por seus pecados e por sua insensatez.
505. A história de Lot é bíblica, mas destituída de algumas
característica vergonhosas, o que constitui uma rasura na
narrativa bíblica (ver Gênesis 19:30-36). Ele era sobrinho
de Abraão, e foi enviado como mensageiro e admoestador
ao povo de Sodoma e Gomorra, cidades sumariamente
destruídas por seus inenarráveis pecados. Esse povo
ainda não pôde ser localizado com precisão, mas supõe-se
que vivia algures nas planícies a leste do Mar Morto. A
história da sua destruição é narrada no capítulo 19 do
Gênesis.
506. Uma instância do aviltante sarcasmo que os
pecadores empedernidos usavam contra os virtuosos. Eles
feriam com palavras e reforçavam o insulto com atos de
injustiça, pensando que com isso levassem os virtuosos à
desgraça. No entanto, é bom que se saiba que Deus vela
pelos Seus e, no final, os iníquos, por si só, se destroem,
quando a taça da sua iniqüidade está cheia.
507. Na narrativa bíblica ela olha para trás – uma ação
física. Aqui, ela constitui o tipo daqueles retardatários, ou
seja, aqueles que, por suas atitudes mentais ou morais, a
despeito das suas ligações com os virtuosos, são
induzidos a olhar para trás, para a rutilação da iniqüidade e
do pecado. Os virtuosos devem ter um único objetivo: a
Senda de Deus. Não devem olhar para trás, nem mesmo
para os lados.
508. A tempestade está explicitamente relatada (versículo
82 da 11ª Surata) como tendo sido de pedras. Nos
versículos 73-74 da 15ª Surata é-nos dito que houve uma
terrível detonação ou estrondo (saihat), em adição à chuva
de pedras. Comparando com estas passagens ou com a
passagem bíblica (Gênesis, 19:24 – ver nota do versículo
80, acima), nós julgamos que a tempestade foi “uma chuva
de enxofre”.
509. A palavra “Madian” talvez deva ser identificada com o
adjetivo “madianita”” . Madian e os madianitas são
freqüentemente mencionados no Antigo Testamento,
embora o incidente particular, aqui mencionado, pertença
mais à tradição árabe do que à judaica. Os madianitas
eram árabes, embora, como vizinhos dos canaanitas, se
mesclassem com eles. Eram uma tribo nômade; foi aos
mercados madianitas que José foi vendido como escravo,
os quais o levaram para o Egito. Seu principal território,
nos tempos de Moisés, ficava a nordeste da Península do
Sinai, e a leste do território dos amalecitas. Sob o comando
de Moisés, os israelitas encetaram uma guerra de
extermínio contra eles; assassinaram o rei dos madianitas,
mataram todos os homens, queimaram suas cidades e
castelos, e apoderaram-se do seu gado ( Números, 31:7-
11).
510. Xuaib pertence mais à tradição árabe do que à
tradição judaica, da qual ele é desconhecido. A sua
identificação com Jetro, sogro de Moisés, não tem
justificativa, nós a rejeitamos. Não há similaridade alguma,
nem quanto a nomes, nem quanto a incidentes, pois
existem dificuldades cronológicas (ver nota do versículo
93, adiante). Se, como os exegetas dizem, Xuaib fazia
parte da Quarta geração de Abraão, sendo bisneto de
Madian (um dos filhos de Abraão), ele estaria a apenas um
século do tempo de Abraão, ao passo que a Tora nos
fornecia um período de quatro a seis séculos entre Abraão
e Moisés. O simples fato de que Jetro era madianita, e de
que outro nome, o de Hobab, é mencionado coo sendo o
do sogro de Moisés (Números, 10:29), propicia campo
improfícuo para a identificação. Como os madianitas
constituíam principalmente uma tribo nômade, não
devemos ficar surpresos com o fato de que a sua
destruição, em um dos dois aldeamentos, não afetasse as
suas vidas nos clãs da tribo, que se deslocavam para
outras regiões geográficas. Aparentemente, a missão de
Xuaib restringia-se a um dos aldeamentos dos madianitas,
que foi destruído por um terremoto (versículo 91 desta
surata). Se isto aconteceu um século depois de Abraão,
não há dificuldade alguma em se supor que os madianitas
constituíssem uma tribo novamente numerosa, três ou
cinco séculos mais tarde, no tempo de Moisés (ver a nota
anterior). O nome da mais alta montanha do Iemen, Nabi
Xuaib (3500 m), provavelmente não tem conexão com o
território geográfico dos madianitas nômades, a menos que
suponhamos que o seu vaguear se tenha estendido muito
para o sul dos territórios mencionados na nota anterior.
511. Os madianitas estavam no caminho da rota comercial
da Ásia, ou seja, entre duas nações opulentas e bem
organizadas, o Egito e a Mesopotâmia que compreendia
principalmente a Assíria e a Babilônia. Os seus pecados
habituais são, deste modo, aqui caracterizados:
proporcionar medida e peso inexatos, sendo sabido que a
mais estrita probidade comercial é necessária para o
sucesso; a forma mais generalizada de tal pecado
consistia em privar as pessoas dos seus direitos legítimos;
promover desmandos e tropelias, sendo sabido que a paz
e a ordem haviam sido estabelecidas (novamente num
sentido literal e metafórico): não contentes em conturbarem
a vida já assentada, entregava-se ao franco banditismo
(tanto literal como metaforicamente), de várias maneiras,
obstruindo o acesso das pessoas aos locais de culto de
Deus; e abusando da religião e da reverência, por motivos
escusos, isto é, a exploração do próprio credo para
obtenção dos seus fins trapaceiros, como alguém que
constrói casas de oração com ganhos ilícitos, ou faz
caridade ostensivamente com dinheiro que obteve à custa
de fraudes etc.. Após expor este rol de pecados habituais,
Xuaib faz dois apelos, reportando-se ao passado: “Vós
começastes como uma insignificante tribo e, pela graça de
Deus, crescestes e vos multiplicastes, tanto em número
como em recursos; não tereis, então, um dever para com
Deus, que consiste em cumprir e fazer cumprir a Sua Lei?
Qual foi o resultado, no caso daqueles que se deram ao
pecado? Porventura, não vos escarmentaríeis com o
exemplo deles?” Assim Xuaib iniciou o seu argumento,
com fé em Deus, fonte de todas as virtudes, e o finalizou
relatando a destruição por resultado de todos os pecados.
No versículo seguinte ele os exorta a que terminem com as
suas controvérsias, e se aproximem de Deus.
512. Porventura, podemos fazer qualquer idéia da data da
destruição dos madianitas? Na nota do versículo 85 desta
surata, discutimos os aspectos geográficos. As seguintes
considerações ajudar-nos-ão a fazermos alguma idéia do
período. As histórias de Noé, de Hud, de Sáleh, de Lot e
de Xuaib parecem estar em ordem cronológica. Portanto,
Xuaib vem depois de Abraão, seria impossível ele ter sido
contemporâneo de Moisés, que viveu muitos séculos mais
tarde. Tal dificuldade é reconhecida por Ibn Alcatir e por
outros exegetas clássicos. A identificação de Moisés. Os
madianitas, que foram destruídos por Moisés e, depois
dele, por Gedeão, constituíam resquícios de povoados
locais, tal qual falamos acerca dos judeus, hoje em dia;
contudo, a sua existência como nação, em sua terra natal
original, parece ter-se findado antes de Moisés: “foram
despojados das suas habitações, como se nunca nelas
houvessem habitado”(versículo 92 desta surata). Eusébio
e Ptolomeu mencionam uma cidade de Madian, que não
tinha grande importância. Após os primeiros séculos da
Era Cristã, Madian, como cidade, aparece como um local
sem importância vivendo no passado.
513. As histórias que foram relatadas deveriam servir de
escarmento para as gerações presentes e futuras, que
herdam as terras, o poderio e as experiências do passado.
Elas deveriam saber que, se cometessem os mesmos
pecados, deparar-se-iam com a mesma sorte.
514. O termo “Faraó” ( árabe Fir’aun) é um título dinástico,
não o nome de um rei especial do Egito. Têm-se
encontrado traços dele nos hieróglifos primitivos, com a
variação Per’aa, que significa “Casa Grande”. A letra nun é
uma letra “fraca”, adicionada ao processo de arabização.
Quem era o Faraó, na história de Moisés? Caso as
inscrições nos auxiliem, poderíamos responder com
alguma confiança; porém, desafortunadamente, as
inscrições falham quanto a isso. Provavelmente, deve
tratar-se do Faraó da 18ª Dinastia, digamos, Tutmés I, lá
pelo ano de 1540 a.C.
515. Note-se que Moisés, ao tratar com o Faraó e com os
egípcios, não dizia que a sua missão provinha do seu Deus
ou do Deus do seu povo, mas sim do “vosso Senhor”, do
“Senhor do Universo”. E sua missão não era apenas para
o seu povo: “Eu venho a vós (povo egípcio), da parte do
vosso Senhor”.
516. A serpente desempenhava um grande papel na
mitologia egípcia. O grande deus-sol, Ra, conquistara uma
estupenda vitória sobre a serpente de nome Apofis, que
estereotipava a vitória da luz sobre as trevas. Muitos dos
seus deuses e deusas tomavam formas de serpentes, para
imprimir terror aos seus oponentes. O cajado de Moisés,
como um tipo de serpente que era, de pronto afetou a
mentalidade dos egípcios. O desrespeito, que antes havia
tomado conta das suas mentes, convertia-se, então, em
terror. Ali estava alguém que podia exercer controle sobre
o réptil, coisa que o próprio deus Ra não conseguia fazer.
517. Moisés e seu irmão, Aarão, foram postos “na cova do
leão” contra os mais ardilosos mágicos do Egito; porém,
eles estavam calmos, e deixaram os mágicos terem o seu
turno em primeiro lugar. Como é costumeiro neste mundo,
o embuste dos mágicos produziu uma grande impressão
sobre os presentes; mas quando Moisés arremessou o seu
cajado, a ilusão foi perfeita, e a falsidade foi revelada.
518. No versículo 101 da 17ª Surata, a referência é a nove
Milagres Evidentes. Estes são: o Cajado (versículo 107
desta surata); a Mão Diáfana (versículo 108 desta surata);
os anos de seca e de escassez de água (versículo 130
desta surata); a colheita minguada (versículo 130 desta
surata); e os cinco mencionados neste versículo, a saber:
epidemias entre os homens e os animais; os gafanhotos;
as lêndeas; os sapos; e a transformação da água em
sangue.
519. Quando, por fim, o Faraó deixou que o povo de Israel
se fosse, não foi escolhida a estrada para Canaã, nas
encostas do Mediterrâneo e que passava por Gaza, porque
o povo estava desarmado, e poderia, ali, encontrar
imediata resistência, mas os israelitas seguiram pelos
caminhos desérticos do Sinai. Eles tinham de atravessar
pelas extremidades alagadiças do Mar Vermelho (coisa
que fizeram), local em que as hostes do Faraó chegaram
em perseguição, perecendo afogadas. Comparar com o
versículo 50 da 2ª Surata.
520. Onde estava reunido o Conselho, quando Moisés se
dirigiu ao Faraó? A capital do Egito, na 18ª Dinastia, era
Tebas (No-Amon), que ficava a mais de 640 km ao sul do
Desta, em cujo vértice os israelitas viviam. Mênfis, no ápice
do Delta, um pouco mais ao sul de onde agora se encontra
o Cairo, ficava também a 170 km dos povoados israelitas.
As entrevistas tinham de ser feitas ou em um Palácio perto
de Gochen, onde os israelitas viviam, ou em Zoan (Tânis),
a capital deltaica, erigida pela dinastia anterior, que estava,
certamente, ainda à disposição da dinastia reinante, e não
ficava muito longe do povoamento dos israelitas.
521. As quarenta noites da comunhão de Moisés com
Deus, na montanha, devem ser comparadas com os
quarenta dias do jejum de Jesus, no deserto, antes de
iniciar o seu sacerdócio (Mateus, 4:2), e ainda com os
quarenta anos da preparação de Mohammad, antes que
desse início ao seu sacerdócio.
522. Até o melhor de nós talvez seja induzido a se achar
de posse daquelas presunçosa idoneidade, ou ambição
espiritual, ainda não justificada pelo estágio que temos
alcançado. Moisés já havia visto parte da glória de Deus,
quando da sua radiante mão diáfana, que reluzia com a
glória divina. Porém, ele era ainda carnal, sendo que sua
missão para com seu povo iria começar depois do pacto do
Sinai. Era prematuro, da parte dele, pedir para ver Deus.
523. A (outros) homens, ou seja, entre os seus
contemporâneos. Ele era portador de uma missão elevada,
e tinha tido a honra de falar com Deus.
524. A feitura do bezerro de ouro e a sua respectiva
cultuação pelos israelitas, no Monte, durante a ausência de
Moisés, estão relatadas no versículo 51 da 2ª Surata,
sendo que alguns detalhes mais desenvolvidos são dados
nos versículos 83-87 da 20ª Surata. Note-se como, em
cada caso, apenas estes pontos são relatados, os quais
são necessários ao argumento em questão. Um narrador,
que tenha como objetivo a mera narração, conta a história
em todos os seus detalhes, além de se enlear nela. Um
artista contumaz, que tem por objetivo reforçar as lições,
traz à tona cada ponto, em seu lugar adequado. Mestre em
todos os detalhes, ele não faz digressões, mas, munido de
supremo tirocínio literário, apenas adiciona o toque
necessário, em cada lugar, para completar a figura
espiritual. Seu objetivo não é a história, mas sim a lição.
Note-se, aqui, o contraste existente entre a intensa
comunhão espiritual de Moisés, no Monte, e a simultânea
corrupção do seu povo, na sua ausência. Podemos
entender a sua justa indignação e amargo pesar (versículo
150 desta surata). O povo havia derretido todos dos seus
ornamentos de ouro e feito a imagem de um bezerro,
parecido com o touro de Osíris, na cidade de Mênfis, nas
terras dos iníquos egípcios, aos quais eles haviam voltado
as costas. Quanto ao mugido, havia uma abertura nas
duas extremidades do bezerro elaborado e, ao passar por
elas, o vento produzia um ruído semelhante a um mugido.
525. A imagem de um bezerro: literalmente, a palavra
Jasad significa, especialmente, o corpo de um homem. No
versículo 8 da 21ª Surata, ela é obviamente empregada
para um corpo humano, como também no versículo 34 da
38ª Surata. Entretanto, no último caso, a idéia de uma
imagem, sem qualquer vida, é também aventada. Na
passagem em questão estão incluídas muitas insinuações;
de que se tratava de uma imagem sem vida; como tal, ela
não poderia abaixar-se; assim sendo, o simulacro de
“abaixar-se”, mencionado imediatamente depois, provou
tratar-se de uma fraude; contrariamente ao seu protótipo, o
touro Osíris, ele nem mesmo era portador do símbolo de
Osíris. O ídolo de Osíris possuía, pelo menos, algum
princípio da ética.
526. Arrojou as Tábuas; não nos é dito que as Tábuas se
quebraram; de fato, o versículo 154 desta Surata, mais
adiante, mostra que elas ficaram inteiras. Elas continham a
Mensagem de Deus. Haveria um quê de desrespeito (se
não de blasfêmia) em se supor que o Mensageiro de Deus
houvesse quebrado as Tábuas , em sua raiva incontinente,
como é relatado no Antigo Testamento: “…acende-se o
furor de Moisés, e arremessou as tábuas das suas mãos, e
quebrou-as ao pé do monte.”(êxodo, 32:19). Neste ponto,
e também no ponto e que Aarão (na história do Antigo
Testamento) ordenou que o ouro fosse trazido, e fundiu um
bezerro, modelando-o com uma talhadeira, e construindo
um altar na frente do bezerro (Êxodo, 32-2-5), a nossa
versão difere da do Antigo Testamento. Não cremos que
Aarão, que foi designado por Deus para ajudar Moisés
como Mensageiro d’Ele, pudesse descer tão baixo, a ponto
de induzir o povo à idolatria, fosse qual fosse a sua
fraqueza humana.
527. Neste versículo está a prefiguração, a Moisés, do
Mensageiro do árabes, o derradeiro dos mensageiros de
Deus. Profecias sobre ele poderão ser encontradas na
Tora e no Evangelho. Na Tora, como ora aceita pelos
judeus, Moisés diz: “O Senhor, teu Deus, te despertará um
profeta do meio de ti, de teus irmãos, como
eu.”(Deuteronômio, 18:15). O único Profeta que apareceu
com uma lei como a de Moisés foi Mohammad; e ele veio
da casa de Ismael, o irmão de Isaac, pai de Israel. No
Evangelho, como ora aceito pelos cristãos, Cristo
prometeu um outro Consolador (João, 14:16); a palavra
grega, Paraclete, que os cristãos interpretaram como se
referindo ao Espírito Santo, é tida pelos nossos exegetas
como se referindo a Rericlyte, que seria a forma grega de
Ahmad. Ver o versículo 6 da 61ª Surata.
528. O adjetivo “iletrado”, como aplicado ao Profeta, aqui e
no versículo 157, acima, possui três significados especiais:
ele não era versado nos conhecimentos humanos; todavia,
estava de posse da mais elevada sapiência, e tinha os
maravilhosíssimos conhecimentos das Escrituras
anteriores. Isto constituía uma prova da sua inspiração.
Demonstrava um milagre da mais elevada espécie, um
“sinal”, que todos podiam pôr à prova então, e todos
podem pôr à prova agora. Todo o conhecimento humano
organizado tende a se cristalizar, ou a se tornar parcial, ou
se ter sabor de alguma corrente de pensamento. Os
Mestres mais altruísticos têm de estar libertos de tias
colorações, assim como uma lousa limpa seria necessária,
caso uma mensagem perfeitamente clara e intrépida
tivesse que ser nela escrita.
529. Pescar, como todas as outras atividades, era proibido
ao povo de Israel no sábado. Como esta prática era
costumeiramente observada, aos sábados os peixes
chegavam à tona com uma sensação de segurança nas
águas dos canais e lagos, coisa que não acontecia nos
outros dias, quando a pesca era livre. Isto constituía uma
grande tentação para os transgressores, à qual eles não
podiam resistir. Alguns dos seus homens reverentes
protestavam, mas isso não surtia efeito. Quando as suas
transgressões, que, supomos, se estenderam aos outros
mandamentos, ultrapassaram os limites, o castigo chegou.
Eles foram desprezados pelo seu próprio povo, e se
tornaram como os símios, sem lei e sem ordem ou
decência, a localidade particular é tida como a cidade de
Eliat.
530. Ver Deuteronômio, 28:49: “O Senhor mandará de
longe, e das extremidades da terra, sobre ti, uma nação, à
semelhança da água que voa impetuosamente e cuja
língua tu não podes entender”.
531. A dispersão dos judeus é um grande fato na história
do mundo. A sua diáspora não terminou ainda, nem
tampouco está sujeita a terminar, tanto quanto podemos
prever.
532. Esta passagem tem levado a diferenças de opinião
quanto à interpretação. Significaria ela que cada indivíduo,
na posteridade de Adão, possui uma existência separada
do tempo de Adão, e que o Pacto foi feito com todos eles,
o qual é obrigatório, de acordo com cada indivíduo? Essa
questão, realmente, não é suscitada. As palavras do texto
referem-se a todos os descendentes dos filhos de Adão, ou
seja, a toda humanidade, nascida ou por nascer, sem
qualquer limite de herança espiritual. A humanidade, como
tal, possui um aspecto corpóreo. Foram concedidos à
humanidade certos poderes e faculdades que criam para
nós obrigações espirituais especiais, as quais devemos
fielmente cumprir; ver o versículo 1 da 5ª Surata, e
respectiva nota. Essas obrigações podem, partindo-se de
um ponto de vista legal, ser consideradas como advindas
de Pactos implícitos. No versículo anterior desta surata
(171), foi feita referência ao Pacto implícito com a nação
judaica. Agora nós consideramos o Pacto implícito a toda a
humanidade, porquanto a missão do mensageiro era de
âmbito mundial.
533. Os exegetas diferem quanto a se esta história ou
parábola se refere a um indivíduo em particular e, se assim
for, a quem. A história de Balaam, o vidente, que foi
convocado pelos inimigos de Israel a amaldiçoar esse país,
mas que, ao invés disso, o abençoou (Números, 22, 23 e
14), é bem diferente. É preferível tomarmos a parábola em
um sentido generalizado. Há homens de talento e posição,
aos quais chegam magníficas oportunidades de
introspecção espiritual, mas que perversamente as
ignoram. Satanás vê chegada a sua oportunidade, e se
apodera deles. Ao invés de se elevarem no mundo
espiritual, seus egoísmos e desejos terrenos, bem como as
suas objeções, puxam-nos para baixo, e ei-los perdidos.
534. O cão, especialmente no calor, estira a língua
(arqueja), seja ele atacando ou perseguindo e esteja
cansado, ou seja deixado em paz e em descanso. Babar
faz parte da sua natureza. Assim se dá com o homem que
rejeita Deus. Quer seja admoestando, quer seja deixado de
lado, continua a expelir a sua saliva imunda. Os danos que
ele causar, causará à sua própria alma. Contudo, talvez
haja infecção, causada pelos seus maus exemplos. Assim
sendo, nós devemos proteger os outros. Também, jamais
devemos perder as esperanças quanto a sua própria
emenda.
535. Conforme contemplamos a natureza de Deus, nós
podemos usar os mais soberbos nomes em que podemos
pensar, para expressarem os Seus atributos. Há centenas
de tais atributos. Na Surata da Abertura nós os temos,
indicados em poucas e compreensíveis palavras, tais como
Tahman (Clemente), Rahim (Misericordioso) e Rabul’alamin
(Senhor do Universo). Trazermos tais nomes à
lembrança faz parte da nossa Oração e Louvação. Porém,
não nos devemos igualar às pessoas que profanam o
nome de Deus, ou coisa parecida, como se para darem a
entender qualquer coisa derrogatória à Sua dignidade ou
Sua unicidade. Comparar com o versículo 110 da 17ª
Surata. Os mais belos atributos de Deus são em número
de 99, a saber: É Deus, não há mais divindade além d’Ele,
Clemente, Misericordioso, Soberano, Augusto, Salvador,
Pacífico, Zeloso, Poderoso, Compulsor, Supremo, Criador,
Onifeitor, Formador, Indulgente, Irresistível, Liberal,
Agraciante, Triunfantes, Sapiente, Restringente,
Abastecedor, Depreciador, Exaltador, Glorificador,
Sobrepujante, Oniouvinte, Árbitro, Justiceiro, Propício,
Conservador, Onipresente, Julgador, Majestoso,
Generoso, Velador, Exorável, Munificente, Prudente,
Afetuoso, Glorioso, Ressuscitador, Testemunha,
Verdadeiro, Autoridade, Fortíssimo, Inflexível, Protetor,
Louvável, Onímodo, Autor, Reprodutor, Vivificador,
Letífero, Vivente, Subsistente, Perfeito, Excelso, Uno,
Único, Eterno, Todo-Poderoso, Onipotente, Promovedor,
Obstruidor, Primeiro, Último, Visível, Invisível, Regente,
Sublime, Benevolente, Remissório, Punidor, Absolvedor,
Compassivo, Imperador, Majestoso e Honorável,
Eqüitativo, Congregador, Guia, Engendrador, Perpétuo,
Herdeiro, Diretor, Paciente.
536. Seu concidadão, ou seja, o Mensageiro Mohammad,
que vivia com eles e no meio deles. Ele foi acusado de
loucura porque se comportava de modo diferente do deles.
Ele não tinha ambições egoísticas; era sempre veraz, em
pensamentos, palavras, ações; era benevolente e tinha
consideração para com os fracos, e não se deslumbrava
com o poder, a riqueza, ou com a posição no mundo.
537. O mistério do nascimento do homem, o quanto isso
afeta o pai e a mãe, somente toca a imaginação dos pais
nos derradeiros estágios, quando a criança ainda não
nasceu e, no entanto, a vida já se manifesta dentro do
corpo da mãe expectante. A chegada da nova vida
constitui um acontecimento solene e impregnado de muita
esperança, bem como de riscos desconhecidos para a
própria mãe. Os pais, em sua ansiedade, voltam-se para
Deus.
538. Uma vez nascida a criança, os pais se esquecem de
que isso constitui uma dádiva de Deus – um milagre da
Criação, coisa que lhes deveria ascender as mentes para
os elevados arcanos do Senhor. Em vez disso, a sua
gradativa familiaridade com a nova vida faz com que eles a
liguem a muitas idéias supersticiosas ou rituais e
cerimônias, ou que a tomem por um mero acaso, como um
brinquedinho do mundo material. Isto leva à idolatria ou
falso culto, ou ao estabelecimento de falsos padrões, em
detrimento da dignidade de Deus.
539. A pulcritude e a virtude da vida de Mohammad eram
reconhecidas por todos, até que ele recebeu a missão de
pregar e combater o mal. Que aconteceu, então? O mal
ergueu barricadas para si mesmo. Este tinha olhos, mas
recusou-se a ver; tinha ouvidos, mas recusou-se a ouvir;
tinha inteligência, mas obstruiu os seus canais de
compreensão. Mesmo agora, após treze séculos e meio,
uma vida de inusitada pureza, probidade, justiça e virtude,
é vista sob falsa luz por detratores cegos!
540. A ocasião é a da divisão das presas de guerra, após a
batalha de Badr.
541. Os despojos, conseguidos numa guerra lícita e justa,
não pertencem a nenhum indivíduo. Caso ele tenha lutado
visando a recompensa com tais acessórios, ele lutou
levado por intenções errôneas. Eles pertencem à Causa –
neste caso a Causa de Deus – , conforme administrada por
seu mensageiro. Qualquer parte concedida a um indivíduo
constitui dádiva acessória, bafejo da benevolência do
comandante. A principal coisa é ele permanecer leal à
Causa de Deus, e não suscitar dissensões entre aqueles
que são pela Causa. As nossas relações internas devem
ser conservadas estáveis; não devem ser perturbadas pela
cupidez ou pelas considerações terrenas de ganho,
porquanto qualquer bafejo dessa natureza deverá estar
fora dos nossos cálculos.
542. Aquilo com que os agraciamos: tanto no sentido literal
como metafórico. O objetivo é que desistam do amor que
nutrem pelos despojos e pertences terrenos. Então, por
que o haveríamos de querer? Para todos os verdadeiros
crentes Deus concede generoso sustento, em qualquer
caso, em ambos os sentidos, mas especialmente no
sentido espiritual, pois este é mesclado de perdão e de
graus de dignidade perante Deus.
543. Um pouco antes da batalha de Badr houve duas
alternativas para os muçulmanos, em Madina, para não
serem vencidos pelos coraixitas de Makka. Uma, a que
apresentava menor perigo, na ocasião, e ainda anunciava
muitos despojos, seria cair em cima da caravana coraixita,
que voltava da Síria e se dirigia para Makka, ricamente
carregada, conduzida por Abu Sufian, e contando com
apenas 40 homens desarmados. Do ponto de vista terreno,
tal investida seria a mais fácil e mais lucrativa. A alternativa
adotada pelo Mensageiro, como a diretriz de Deus, era
deixar de lado os despojos e marchar intrepidamente
contra o exército dos coraixitas, que contava com 1.000
homens bem armados e bem equipados, provenientes de
Makka. Os muçulmanos não possuíam mais do que 300
homens mal armados, para se oporem a tal força. Porém,
se pudessem derrotá-la, isso iria abalar o espírito
autocrático de que Makka estava possuída. Com a ajuda
de Deus eles conquistaram uma esplêndida vitória, e o
estandarte da verdade foi erguido, para jamais ser de novo
baixado.
544. Comparar com os versículos 123, 125 e 126 da 3ª
Surata. A qualidade de anjos – 1.000, em Badr, e 3.500 em
Uhud – provavelmente não deve ser tomada literalmente,
mas sim expressar um fortalecimento, pelo menos igual, ao
do inimigo.
545. As leis que regem os combates espirituais são
exatamente iguais àquelas impostas pela virtude e
disciplina militares. Enfrentai o vosso inimigo franca e
diretamente; não afoita e atabalhoadamente, mas depois
dos devidos preparos. O verbo zahfan, no texto
(enfrentardes), implica em um proceder lento e bem
planejado para com um exército hostil. Uma vez em
combate, ide até o fim; não há lugar para pensamentos
outros. Morte ou vitória deverá ser o lema de todo o
soldado; poderá haver morte para ele, individualmente,
mas se ele tiver fé, haverá triunfo para a sua causa, em
ambos os casos. Duas exceções são reconhecidas: recuar
para melhor saltar para a frente, ou enganar o inimigo, por
meio de retiradas estratégicas; se um indivíduo ou um
destacamento estiver, pelas circunstâncias da batalha,
isolado de sua força, poderá recuar até ela, a fim de dar
prosseguimento à batalha. Não há virtude alguma no mero
combate solitário. Cada indivíduo deverá usar a sua vida e
os seus recursos, da melhor maneira possível, pela causa
comum.
546. Quando a batalha se iniciou, o Mensageiro orou: “Ó
Senhor, eis que surgem os coraixitas. Vieram com a sua
cavalaria para combater o teu Mensageiro. Ó Senhor
nosso, peço-Te que me concedas o que me prometeste.”
Então, apanhou um punhado de areia e o arremessou em
direção ao inimigo, constituindo isto um simbolismo da
cega arremetida deles para a sua sina. Isto surtiu um
grande efeito psicológico.
547. A inferioridade numérica dos muçulmanos era da
ordem de um para três. Também de outros modos eles
estavam em desvantagem: quanto às armas e
equipamentos, dispunham de poucos, ao passo que o
inimigo estava bem apoiado; eles eram inexperientes,
enquanto os coraixitas haviam trazido os seus mais
famigerados guerreiros. Em tudo isto havia um teste, mas
esse teste era acompanhado por graciosos e inestimáveis
valores; o seu Comandante era aquele em que eles tinham
uma fé perfeita, e por quem estavam dispostos a dar as
suas vidas.
548. Uma grande família – muitos filhos – era considerada
uma fonte de poderio e de fortalecimento (versículos 10 e
116 da 3ª Surata). Assim, também, em português, diz-se
que um homem com bastantes filhos tem a sua “aljava
cheia”. Comparar com Salmos, 127:4-5: “Como as flechas
nas mãos do guerreiro são os filhos da juventude. Ditoso o
varão que, com elas, enche a sua aljava; não terá
vergonha, mas parlamentará com os seus inimigos à porta
da cidade”. Assim se passa com as propriedades e as
posses; elas concorrem para a dignidade, para o poderio e
para a influência do homem. Contudo, tanto as posses
como uma enorme família constituem uma tentação e uma
prova. Talvez elas se constituam numa fonte de queda
espiritual, caso sejam mal administradas, ou se o amor a
elas fizer com que se exclua o amor a Deus.
549. As conspirações contra Mohammad, em Makka,
tinham como objetivo três malefícios. Os conspiradores
não apenas se viram frustrados, mas ainda o maravilhoso
trabalho de Deus fez com que “o feitiço virasse contra o
feiticeiro” e, do mal, tirou o bem, em cada caso. Eles
tentaram manter o Mensageiro em sujeição, em Makka,
pressionando os seus tios, parentes e amigos. Porém,
quanto maior era a perseguição, mais a pequena
comunidade muçulmana crescia em fé e em número. Eles
tentaram injuriá-lo ou matá-lo. Mas o seu magnífico
exemplo de humildade, perseverança e destemor
fortaleceu a causa do Islam. Eles tentaram tirá-lo, bem
como aos seus, dos seus lares. Porém, eles encontraram
um novo lar em Madina, de onde finalmente conquistaram,
não somente Makka, mas a Arábia e o mundo.
550. A norma é que a quinta parte seja posta de lado para
o Imam (o Comandante), e o restante seja dividido entre as
forças. A quinta parte reservada é expressa como sendo
para Deus e para o Mensageiro, bem como para
propósitos caritativos, para aqueles a quem a caridade é
de direito. Primordialmente, tudo fica à disposição de Deus
e do Seu Mensageiro (versículo 1 desta surata); porém
quatro quintos são divididos, sendo que apenas um quinto
fica retido para fins especiais. O Imam tem liberdade de
ação quanto ao modo da divisão. Durante a vida do
Mensageiro, uma certa porção era designada para ele e
para os seus parentes achegados.
551. A pequena força muçulmana, procedente de Madina,
foi ao encontro do colossal exército maquense, sendo que
se posicionaram nos dois lados do vale, em Badr, ao passo
que a caravana dos coraixitas encontrava-se na planície,
em direção ao mar, acerca de 5 km de Badr.
552. Eles estavam todos “para o que desse e viesse”. A
caravana estava se dirigindo para Makka, e pensavam que
ela mal chegasse lá. A força dos coraixitas estava
pensando em salvar a caravana, e depois aniquilar os
muçulmanos. Estes haviam decidido deixar a caravana em
paz, e atacar o exército coraixita que vinha de Makka, o
qual, pensavam, deveria ser pequeno, mas que se revelou
enorme, mais de três vezes o número deles. Contudo, as
duas forças se encontraram precisamente no local e no
tempo em que uma decisiva batalha deveria ser travada,
acontecendo que os muçulmanos dissiparam as
pretensões dos maquenses. Se eles houvessem planejado
cuidadosamente um encontro mútuo, não teriam feito
aquilo com mais precisão. No lado muçulmano, uns poucos
mártires sabiam que a vitória seria deles, e aqueles que
sobreviveram à batalha gozaram dos frutos da vitória. No
lado idólatra, tanto os que morreram como os que viveram
sabiam plenamente o resultado intrínseco. Mesmo
psicologicamente, ambos os lados entraram na batalha
com a plena determinação de decidir o resultado.
553. O exército muçulmano (embora seus componentes
soubessem das desvantagens materiais) não se
apercebeu das muitas vicissitudes com que iria deparar.
Os maquenses estavam exultantes, de qualquer forma, e
subestimaram a “desprezível” força que se lhes oporia.
Muito embora eles pensassem que a força muçulmana
fosse duas vezes maior do que realmente era (versículo 13
da 3ª Surata), mesmo assim achavam essa qualidade
desprezível, dada a pobreza de equipamento que possuía.
Estes dois erros psicológicos serviram a um Plano
principal, que era o de levar a questão a um resultado
decisivo, se os idólatras de Makka continuassem com a
sua arrogante opressão, já que a religião de Deus deveria
ser estabelecida em liberdade e honra.
554. A ocasião imediata foi a da repetida traição dos Banu
Curaiza, após os seus tratados com os muçulmanos.
Contudo, as lições de caráter genérico permanecem, como
são notadas nos dois versículos seguintes. A traição, na
guerra, é duplamente desonesta, pois põe em perigo
muitas vidas. Essa traição deve ser punida de maneira tal,
que não haja chance para uma outra. Não apenas os
virtuais perpetradores, mas ainda aqueles que seguem os
seus padrões devem ser deixados impotentes. E o tratado
que foi quebrado deverá ser denunciado, para que a parte
inocente possa, pelo menos, lutar em iguais termos.
Partindo das vigentes injunções materiais de guerra,
podemos proceder às mesmas lições, quanto às injunções
espirituais. Uma trégua ou entendimento é possível com
aqueles que respeita os princípios definidos, não o sendo,
contudo, com aqueles que não têm princípio algum, e
estão meramente dispostos a praticar a opressão e a
iniqüidade.
555. A ocasião imediata desta injunção foi quanto à
fraqueza da cavalaria, e às ordenações de guerra nos
primeiros combates do Islam. Porém, o significado, de
caráter genérico, se segue. Em todos os combates, sejam
materiais, morais ou espirituais, muni-vos das melhores
armas e armamentos contra o vosso inimigo, a ponto de
lhes imprimirdes inteiriço respeito, por vós e pela Causa
por que lutais.
556. Num combate, as desvantagens, da ordem de um
para dez, são aterrorizantes para qualquer indivíduo.
Porém, elas não desencorajam os que têm fé.
Particularmente, caso se saiam vitoriosos, ou morram, o
que prevalece é a sua Causa.
557. Tivessem sido dadas condições de igualdade, os
muçulmanos, devido a sua fé, poderiam vencer, mesmo
em desvantagem da ordem de um para dez. Porém, como
a sua organização era deficiente e o seu equipamento era
obsoleto, como foi o caso no tempo de Badr, foi-lhes
designado que não se engajassem em combates, estando
eles em desvantagem de um contra mais de dois. Com
efeito, eles venceram, estando em desvantagem de um
contra mais de três.
558. A destruição e a matança, conquanto repugnantes a
uma alma meiga como a de Mohammad, eram inevitáveis,
quando o mal tentava sobrepujar o bem. Até Jesus, cuja
missão era mais limitada, teve de dizer: “Não julgueis que
vim trazer paz à terra. Não vim trazer-lhes paz, mas
espada” (Mateus, 10:34). Em Badr foram feitos 70
prisioneiros, e foi decidido que se pediria resgate por eles.
Enquanto o princípio genérico de combater por este
propósito, ou seja, o de fazer prisioneiros para conseguir
seus respectivos resgates, é condenável, a ação particular,
neste caso, foi aprovada nos versículos 68-71 desta
surata.
559. O mal desposa o mal. Os que fazem o bem têm muito
mais razão para se unirem ao bem, para não apenas
viverem em harmonia mútua, mas para estarem prontos,
em todas as ocasiões, a protegerem uns aos outros.
Doutra sorte, o mundo será tomado de agressões por
povos inescrupulosos, resultando que o bem fracassará
em seu dever de estabelecer a Paz de Deus, e de fortificar
ainda mais as forças da verdade e da virtude.
560. O Livro de Deus, ou seja, o Plano Universal, o
Decreto Eterno, a Tábua Preservada (versículo 22 da 85ª
Surata). A relação consangüínea e os seus direitos e
deveres não dependem de circunstâncias especiais de
natureza temporária. Quaisquer direitos temporários de
herança mútua, estabelecidos entre os primeiros
Emigrantes e os Socorredores, não se aplicam àqueles
recrutados por último (nota do versículo 72 desta), os quais
vieram sob circunstâncias completamente diferentes.
561. Esta é a única Surata de Deus que não se inicia com
a expressão “Em nome de Deus, o Clemente, o
Misericordioso”. A razão disso está em que parece ter ela
sido revelado, por completo, com advertência às injustiças
e à quebra do pacto, cometidas pelos idólatras; constitui
uma reprimenda aos hipócritas, e tudo isso não se
coaduna com o nome de Deus, o Clemente, o
Misericordioso. A esse respeito foi Ibn Sina consultado, ao
que respondeu: “O nome de Deus inspira paz a segurança,
e não é de bom alvitre associá-Lo à acusações e à
agruras.”
562. Quatro meses. Alguns exegetas acham que se trate
dos quatro meses proibidos, nos quais os expedientes da
guerra, segundo um costume da Arábia antiga, eram
considerados ilícitos, a saber: Rajab, Dul-Qui’da, Dul-hijja e
Muharram (ver versículo 194 da 2ª Surata, e respectiva
nota). Contudo, é preferível tomar a significação como se
referindo aos quatro meses que imediatamente se seguem
à Declaração. Presumindo-se que a Surata haja sido
promulgada no início de Chawal, os quatro meses seriam:
Chawal, Dul- Qui’da, Dul-hijja e Muharram, dos quais os
últimos três seriam também meses costumeiramente
proibidos.
563. O grande dia do Hajj; é tanto o 9º dia de Dul-hijja
(‘Arafat) como no 10º (o Dia do Sacrifício).
564. Quando a guerra se torna inevitável, ela deve ser
encetada com vigor. De acordo com o termo português,
não se pode lutar com “luvas de pelica”. O combate poderá
tomar a forma de matança, ou de aprisionamento, ou de
assédio, ou de emboscada e outros estratagemas.
Contudo, mesmo assim, há sempre lugar para o
arrependimento e a emenda, por parte do lado culpado; e
se isso acontecer, será nosso dever perdoarmos e
estabelecermos a paz.
565. Mesmo entre os inimigos do Islam, entre os que estão
ativamente hostilizando os muçulmanos, talvez haja
indivíduos que se encontrem numa posição que requeira
proteção. Asilo completo lhes deve ser dado, bem como
oportunidades que lhes propiciem ouvir a Palavra de Deus.
Se aceitarem a Palavra, tornar-se-ão muçulmanos e
irmãos, sendo que questão alguma será suscitada. Se não
houver jeito de aceitarem o Islam, requererão proteção
dupla: (1) das forças islâmicas, que estão lutando contra o
seu povo, e (2) de seu próprio povo, uma vez que se
separaram dele. Ambas as espécies de proteção deverão
ser-lhes garantidas, sendo que deverão ser seguramente
escoltados para um local onde poderão estar a salvo. Tais
pessoas somente erram por ignorância, acontecendo que
deve haver muito de bom nelas.
566. Entre os árabes, os laços de parentesco eram tão
fortes, a ponto de serem quase irrompíveis. Os árabes
idólatras, entretanto, saíram da sua linha, a fim dos que
romperem, como no caso dos muçulmanos, que eram
“unha e carne” com eles. Além dos laços de parentesco,
havia ainda os da promessa jurada quanto ao Tratado.
Eles quebraram essa promessa, porque a outra parte era
composta de muçulmanos.
567. A palavra “Amara, como é aplicada para a mesquita,
implica nas seguintes idéias: construir ou consertar;
conservá-la na dignidade adequada; freqüentá-la, para fins
de devoção; e enchê-la de luz, de vida e de atividade. Por
motivo de brevidade, nós usamos somente o termo
“freqüentar” na tradução. Antes da pregação do Islam, os
idólatras construíam, reformavam e conservavam as
mesquitas, e nelas celebravam cerimônias idólatras,
incluindo a de dançarem nus, ao redor da Caaba. Disso
eles fizeram uma fonte de renda. O Islam protestou, e os
idólatras expulsaram os muçulmanos e o Líder destes de
Makka, além de lhes obstruírem o acesso à própria Caaba.
Quando os muçulmanos ficaram suficientemente fortes, e
reconquistaram Makka (8º ano da Hégira), purificaram o
santuário e restabeleceram o culto ao verdadeiro Deus. As
famílias que antes tinham controle sobre o santuário não
podiam, depois disso, em estado de idolatria, controlá-lo
mais. Caso se tornassem muçulmanos, isso seria um
assunto diferente. Esta foi a ocasião particular a que se
refere o versículo. A dedução genérica é clara. A casa de
Deus é um local de sincera devoção, e não um teatro de
rituais vulgares, nem tampouco uma fonte de renda
terrena. Tão-somente os crentes sinceros têm o direito de
ali entrar.
568. O dar de beber água fresca aos sedentos peregrinos,
e o prestar serviços materiais à mesquita constituem atos
de profunda significação; todavia, são apenas externos. Se
não tocarem a alma, seu valor será diminuto. Bem
maiores, aos olhos de Deus, são os atos de Fé, de
Diligência, e de auto-submissão ao seu Senhor. Aqueles
que praticarem, obterão honra aos olhos de Deus. A luz e
a diretriz de Deus chegarão até eles, mas não chegarão
até aqueles seres auto-suficientes, que pensam que uma
pequena amostra do que o mundo considera reverência
seja suficiente.
569. Eis aqui uma magnífica descrição do Jihad. Ele talvez
requeira que se lute pela causa de Deus, como uma forma
de sacrifício. Porém, a sua essência consiste em uma
verdadeira e sincera Fé, que se fixa em Deus, tanto que
todos os motivos egoísticos ou terrenos ficam parecendo
insignificantes, e se desvanecem. A fé dos crentes é uma
genuína incessante atividade, envolvendo o sacrifício (se
necessário for) da própria vida, ou dos bens, para o serviço
de Deus. A mera luta brutal é contrária a todo o espírito do
Jihad, ao passo que o lápis do estudante, ou a voz do
pregador, ou as contribuições do abastado, talvez
constituam mais valiosas formas de Jihad.
570. Hunain fica no caminho que vai de Taif a Makka, a
cerca de 22 km a leste desta cidade. Trata-se de um vale,
numa região montanhosa. Imediatamente após a conquista
de Makka, os idólatras pagãos, que estavam a um tempo
surpresos e humilhados com a brilhante recepção que o
Islam estava tendo, organizaram um tremendo
ajuntamento próximo a Taif, a fim de traçar planos de
ataque ao Mensageiro. As tribos de Hawzan e de Sa-quif
tomaram a liderança, e prepararam uma colossal
expedição com destino a Makka, jactando-se de seu
poderio e tirocínio militar. Havia, por outro lado, uma onda
de confidente entusiasmado por parte dos muçulmanos,
em Makka, à qual se juntaram novos muçulmanos. A força
inimiga contava com cerca de 4.000 homens, e a força dos
muçulmanos atingia um total de 10.000 ou 12.000 homens,
uma vez que todos a ela se queriam juntar. A batalha foi
travada em Hunain, como descrito na nota seguinte.
571. Pela primeira vez os muçulmanos gozaram de uma
tremenda vantagem, e isso foi em Hunain. No entanto,
aquilo, por si só, constituía um perigo. Muitos, em suas
fileiras, foram tomados mais pelo entusiasmo do que por
um espírito de sapiência, mais por um espírito de ufania do
que de fé e confiança na virtuosidade da sua causa. O
inimigo gozava das vantagens de conhecer completamente
o terreno. Ele encetou uma emboscada na qual a
vanguarda dos muçulmanos foi apanhada. E por ser a
região montanhosa, fácil se tornava ao inimigo ali se
entocaiar. Tão logo a vanguarda muçulmana entrou no
vale de Hunain, o inimigo caiu em cima deles com fúria tal,
que causou uma verdadeira devastação com suas flechas,
que partiam de suas tocaias. Em tais circunstâncias, a
vantagem numérica dos muçulmanos constituía, já, uma
desvantagem. Muitos foram mortos, e muitos voltaram, em
confusão e retirada. O Mensageiro, porém, como sempre,
mantinham-se calmo em sua sapiência e fé. Ele reagrupou
as suas forças, e infligiu ao inimigo a mais fragorosa
derrota.
572. Os acontecimentos desenrolados em Makka fizeram
com que aumentassem os lucros das transações e do
comércio. “Mas, não temais”, é-nos dito, “os idólatras
constituem um poderio fraco; eles estão sujeitos a
desaparecer, sendo que vós deveis fortalecer a vossa
própria comunidade, para que eles possam fazer mais do
que compensar a da aparente perda dos hábitos; e sabei
que Deus possui outros meios de melhorar a vossa
posição econômica.” Isto virtualmente aconteceu. Os
idólatras foram extintos da Arábia, e as contribuições dos
peregrinos, vindos de todas as partes do mundo, fizeram
com que a economia aumentasse, mais de cem vezes. Eis
aqui o bom senso, a sapiência, a habilidade política, e o
tacto, ainda que olhemos a questão de um ponto de vista
puramente humano.
573. Jizya; o significado é compensação. O significado
derivado, que se tornou um significado técnico, era uma
capitação exigida daqueles que não aceitavam o Islam,
mas que concordavam em viverem sob a sua proteção,
estando, deste modo, tacitamente disposto a se
submeterem aos ideais impostos pelo Estado Muçulmano,
salvo apenas a sua liberdade pessoal de consciência, com
relação a eles mesmos. Não havia uma quantia fixa para
isso e, de qualquer modo, aquilo era simbólico – uma
conscientização de que eles cuja religião era tolerada, por
seu turno, não deveriam interferir com a pregação e o
progresso do Islam. O Imam Chafi’i acha que a
contribuição seria de um dinar por ano, que seria o dinar
árabe de ouro, corrente nos Estados Muçulmanos. Ver a
nota do versículo 75 da 3ª Surata. A taxa variada de
quantia, havendo exceções para os pobres, para as
mulheres e crianças (segundo Abu Hanifa), para os
escravos, e para os monges ermitões; constituindo-se de
uma taxa sobre pessoas fisicamente capazes e em idade
para o serviço militar, aquilo seria, de certo modo, uma
comutação para este serviço.
574. Este versículo e o seguinte deveriam ser lidos juntos.
Eles condenam a conduta arbitrária e egoística dos árabes
idólatras que, por causa de um costume havia muito
estabelecido, o de observar quatro meses, nos quais o
combate era proibido, mudavam os meses, ou os
prolongavam, ou os reduziam, a fim de conseguirem uma
injusta vantagem sobre o inimigo. Os quatro meses
proibidos eram Dhul-quida, Dhul-Hijja, Muharram e Rajab.
Caso lhes conviesse, eles mudavam um desses meses,
tornando comum um mês proibido; posto que os seus
oponentes hesitavam em combater, eles ficavam numa
indevida vantagem. Isso ainda abalava a segurança do
mês da Peregrinação. Este era um costume antigo,
estabelecido para observação geral; e sua transgressão,
feita pelos idólatras, é condenada. A questão do ano solar
astronômico, em contraposição ao ano lunar eclesiástico,
não é suscitada aqui. Contudo, deve-se notar que o ano
árabe era quase luni-solar, como o ano hindu; seus meses
eram lunares, e a intercalação de um mês, para cada três
anos, quase se aproximava, mas não acuradamente, do
ano solar. Desde o ano da Peregrinação de Despedida
(10º da Hégira), o ano eclesiástico foi definitivamente
fixado como um ano puramente da lunar. Quase não
chegando a 354 dias, com meses calculados pelo virtual
aparecimento da lua. Depois disso, cada mês do ano
eclesiástico chegava 11 dias mais cedo do que no ano
solar, e desse modo os meses eclesiásticos ocorriam em
todas as estações e em todo o ano solar.
575. Os muçulmanos viam-se em desvantagem, devido
aos seus escrúpulos quanto aos meses proibidos. É-lhes
dito que não se deixem enganar quanto a isso. Caso os
idólatras combatessem em todos os meses, por um
pretexto ou por outro, era-lhes permitido que se
defendessem em todos os meses. Todavia, o controle
sobre si mesmos (como sempre), tanto quanto possível,
era recomendado.
576. O Interferirem com um costume, havia muito
estabelecido, de fazer interromper-se o período de
injunções guerreiras durante os meses proibidos ou
sagrados, não somente constituía uma demonstração de
escárnio, por parte dos idólatras quanto aos muçulmanos,
por causa da fé destes, mas ainda era errôneo, e, em si,
injusto, uma vez que impedia uma total verificação nas
irregularidades das injunções guerreiras, além de
prejudicar os respeitadores da lei, por meio de decisões
arbitrárias.
577. A referência imediata é à expedição de Tabuk ( 9º ano
da Hégira). Entretanto, a lição é perfeitamente genérica.
Quando é feito um clamor em favor de uma grande causa,
os afortunados são eles que têm o privilégio de atender a
tal clamor. Os desafortunados são aqueles que se
encontram tão engajados em seus limitados assuntos, que
se tornam surdos ao apelo. Estes estão sofrendo de uma
enfermidade espiritual.
578. A escolha é entre dois expedientes: iríeis preferir uma
nobre ventura e o glorioso privilégio de seguir o vosso líder
espiritual, ou a desventura de rastejardes na terra, em
busca de algum diminuto ganho terreno, ou por medo da
perda das coisas deste mundo? As pessoas que hesitaram
em atender ao clamor de Tabuk deixaram de fazê-lo por
causa do calor do verão, em meio ao qual a expedição foi
empreendida, devido à ameaça à existência da pequena
comunidade; e por medo de perder os frutos da colheita,
que estava em vias de ser efetuada.
579. A expedição de Tabuk não se constituiu num
fracasso. Embora muitos houvessem hesitado, muitos mais
se juntaram a ela. Porém, exemplo mais notável deu-se
quando o Mensageiro se viu obrigado a deixar Makka e
empreender a sua famosa Migração, “Hijrat”. Seus
inimigos conspiravam contra a sua vida. Ele já havia
enviado seus seguidores para Madina. Áli ofereceu-se
como voluntário para enfrentar os inimigos, em sua casa.
Seu único companheiro era Abu Bakr. Os dois se
esconderam por três noites na caverna de Saur, a cerca de
5 km de Makka, tendo o inimigo, em grande número, a
vasculhar toda a região à procura infrutíferas deles. “Nós
somos apenas dois”, disse Abu Bakr. “Qual”, disse
Mohammad, “fica sabendo que Deus está conosco”. A fé
lhes dava paz de espírito, e Deus lhes dava segurança.
Eles chegaram a Madina, em um glorioso capítulo abriu-se
para o Islam. As forças que os auxiliaram eram invisíveis,
mas seu poder era irresistível.
580. Literalmente, “o segundo dos dois”, que mais tarde
passou a ser o honroso título de Abu Bakr.
581. A palavra fitna, como ficou explicado na nota do
versículo 25 da 8ª Surata, significa sedição, tumulto,
alvoroço ou tentação. Os exegetas, aqui, apegam-se ao
último significado, explicando que alguns hipócritas
pediram a isenção do serviço, na expedição de Tabuk, que
iria em direção à Síria, sob a alegação de que não
poderiam suportar os encantos da mulheres daquelas
paragens, sendo que melhor fariam se ficassem em casa.
A resposta foi: “No entanto, já caístes em tentação aqui, ao
vos recusardes ao serviço, desobedecendo à convocação.”
582. A espera, tanto dos incrédulos, como dos crentes, se
dá em sentido diferente. O desejo dos incrédulos é que
aconteçam desastres aos crentes; porém, quer os crentes
saiam vitoriosos ou morram como mártires, pela Causa,
em ambos os casos estarão felizes com os resultados. Os
crédulos esperam a punição para os incrédulos, por causa
da infidelidade deles, tanto pelo seu próprio meio, como de
outra maneira, dentro dos Desígnios de Deus, coisa que os
incrédulos não gostariam, de um modo ou de outro.
(comparar com o versículo 158 da 6ª Surata).
583. Sádaca = esmola, que é dada em nome de Deus,
principalmente para os pobres e necessitados, e para
propósitos semelhantes, especificados no versículo 60.
Zakat é a caridade regular e obrigatória, numa comunidade
muçulmana organizada, comumente de 2,5 % no tocante a
mercadorias, e de 10%, no tocante a frutos da terra. Existe
um vasto corpo de obras a este respeito.
584. As esmolas ou as doações caritativas devem ser
dadas para os pobres e necessitados e para aqueles que
se encontram a seu serviço. Isto é, os fundos de caridade
não deverão ser desviados para outros usos; contudo, as
despensas genuínas com a administração e distribuição da
caridade sairão, com justa razão, de tais fundos.
585. O termo português “mão-de-vaca” satisfaria apenas
uma parte do significado. A mão é símbolo do poder, da
ajuda e da assistência, isto poderá referir-se ao sentido
financeiro ou a outro qualquer. Os hipócritas pretender ser
uma porção de coisas, mas realmente são uns inúteis, não
se constituindo em ajuda para ninguém.
586. As cidades da planície, Sodoma e Gomorra, nas quais
Lot em vão exortou o povo a que desistisse de suas
abominações. Ver os versículos 80-84 da 7ª Surata.
587. A referência é a uma conspiração, feita pelos inimigos
do Mensageiro, com o fito de matá-lo, quando ele voltava
de Tabuk. A conspiração fracassou. O mais estranhável
disso é que entre os conspiradores encontravam-se
homens de Madina, que haviam enriquecido por causa da
prosperidade que se seguiu à paz e ao bom governo que
ali se estabeleceu por meio do Islam. O comércio florescia;
a justiça era firmemente imposta, com mãos equânimes. E
a única retribuição que aqueles homens souberam dar foi a
do mal pelo bem, aquilo era uma espécie de vingança,
porque o Islam primava por suprimir o egoísmo, defendia
os direitos dos mais pobres e mais humildes, e
considerava a dignidade mais pela virtude do que pelo
berço ou pela posição.
588. Uma terrível admoestação para aqueles que
decididamente se opuseram à Causa de Deus. O
Mensageiro era, por natureza, pleno de misericórdia e
perdão. Ele orava em favor dos seus inimigos. No entanto,
em tal caso, mesmo as suas orações se vêem sem efeito,
por causa da atitude deles em rejeitarem Deus.
589. A expedição a Tabuk teve de ser realizada às
pressas, no rigor do verão, por causa da ameaça ou do
temor de uma invasão dos bizantinos. Eles partiram de
Madina, por volta do mês de setembro ou outubro, do
calendário solar.
590. Na morte de um muçulmano, simplesmente assistir às
cerimônias funerárias constitui um dever piedoso, e que
nenhum muçulmano das vizinhanças deverá se furtar;
praticar as orações antes que o corpo seja baixado à
sepultura, sendo que o abaixamento do corpo à sepultura
deverá ser feito com um ritual simples, solene e digno, no
qual os parentes mais chegados, ou amigos, auxiliam no
sepultamento, enquanto os outros permanecem em pé ao
lado da sepultura. Para aqueles que tenham demonstrado
hostilidade para com o Islam, isto não seria correto, e seria
proibido.
591. Khaualif é o plural de khalifa, ou seja, aqueles que
ficaram para trás, enquanto os homens iam para a guerra.
Havia homens que preferiam ficar para trás, com as
mulheres, quando havia trabalhos árduos para serem feitos
por homens com tal como defenderem os seus lares. Eles
não eram apenas covardes, porém também tolos, uma vez
que não compreendiam as coisas de seu próprio interesse.
Caso o inimigo se saísse melhor do que seus irmãos, eles
próprios seriam esmagados. “Seus corações serão
selados.” Os hábitos de covardia e de hipocrisia que eles
adotaram tornaram-se a sua segunda natureza.
592. Os pagamentos se referem à caridade regular,
estabelecida pelo Islam – esmolas obrigatórias. Caso as
consideremos como uma multa ou um encargo, sua virtude
estará desfeita. Se nos regozijarmos em ter aí a
oportunidade de ajudar a comunidade a manter os seus
padrões de assistência pública, e a suprimir a
mendicância, livrando-se de inconveniente e repugnante
importunação, cujo abrandamento é apenas governado por
motivo de se livrarem de nocivos obstáculos do caminho,
então o nosso ponto de vista será inteiramente diferente.
Nós desejamos que haja esforços organizados e efetivos
para que se revolvam os problemas humanos da pobreza e
da miséria. Ao procedermos assim, aproximar-nos-emos
de Deus, e angariaremos os votos e as orações dos
religiosos, conduzidos pelo nosso Líder, Mohammad.
593. Note-se como este simbolismo aparece nas
descrições do cumprimento final do destino do homem. Na
ciência matemática, isso seria como uma letra ou fórmula,
que sumariaria um longo curso de racionalizações. Nas
artes gráficas, seria o que um lótus é para o budismo, ou
seja, expressaria todo um complexo de experiências
emocionais e religiosas. Na música, seria como as notas
características de Brahms ou Paganini. Nesta mesma
Surata, ele ocorre antes, nos versículos 72 e 89. Nós
estamos levando em consideração os bons e os maus
beduínos, e fechando o círculo, quanto a eles.
594. Os árabes do deserto não eram todos gente simples.
Havia hipócritas astutos entre eles, tanto entre certas tribos
acampadas ao redor de Madina, como entre outras, na
própria Madina. Compreendemos que ambos os grupos
pertencem aos Arab a quem o contexto se refere, e não
aos cidadãos de Madina, já estabilizados, de cujos
hipócritas já foi falado em seções anteriores. Talvez
aparentassem ser simples, mas eram, em sua ignorância,
os mais obstinados hipócritas.
595. Esta é uma classe de insidiosos malfeitores, cujo tipo
é ilustrado pela história de Kubá (“Mesquita dos
desmandos” – dhirar). Kubá é um subúrbio de Madina,
cerca de 4,5 km a sudeste. Quando o Profeta se dirigia
para Madina, na Hégira, ele descansou por quatro dias em
Kubá, entes de atingir o seu destino. Aí foi construída a 1ª
mesquita, a “Mesquita da Piedade” (taqwa) ou a mesquita
do poder do Islam (Quwat-ul-Islam), à qual ele
freqüentemente ia, durante as suas subseqüentes estadas
em Madina. Para tirar vantagens sagradas, alguns
hipócritas da tribo Bani Ghannam construíram uma
mesquita de oposição em Kubá, fingindo ajudarem o Islam.
Na realidade, eles estavam aliados a um famigerado
inimigo do Islam, um tal de Abu Amir, que havia lutado
contra o Islam em Uhud, e que estava agora, depois da
batalha de Hunain (9º ano da Hégira), na Síria; os seus
confederados queriam uma mesquita, para que o Profeta a
ela fosse; porém, aquilo constituir-se-ia apenas numa fonte
de desmandos e divisão, ficando o esquema desaprovado.
596. Abu Amir, cognominado o Ráhib (monge), uma vez
que havia estado em contato com os monges cristãos.
597. A original “Mesquita da Piedade”, construída pelo
Mensageiro.

598. O homem que constrói sua vida, baseado na piedade
(coisa que inclui a sinceridade e a pureza de todas as
intenções), e nas suas esperanças no Bom Aprazimento
de Deus, deve construí-la numa firme fundação rochosa
que jamais será abalada. Em contraposição a este, está o
homem que constrói a sua vida num oscilante morro
sedimentário, à beira de um abismo, já minado por forças
que ele não vê. O morro e as fundações, tudo ruirá,
juntamente com ele, resultando que ele será arrojado no
Fogo da miséria, do qual não há escapatória.
599. Entre os fiéis, o maior número consistia daqueles que
eram perfeitamente leais e estavam sempre prontos a
cumprir com seus deveres. Eles obtiveram o amor e o bom
aprazimento de Deus. Em seguida vêm uns poucos que
titubeara, porque suas vontades eram fracas, e se viram
desencorajados pelos perigos e dificuldades com que se
haviam de ver; a graça salvadora de Deus os protegeu, e
eles superaram as suas fraquezas, e não fracassaram em
seus deveres; Deus os perdoou e aceitou-lhe o
arrependimento. Por último, da ilustração tirada da questão
de Tabuk, houve alguns que fracassaram em seus
deveres, não por contumácia ou má vontade, mas por
insensatez, por frouxidão, e por fraqueza humana; eles
literalmente deixaram de obedecer aos clamores do
Profeta, e foram naturalmente chamados para se
explicarem, e, por fim, foram excluídos da vida da
comunidade. O estado mental deles é aqui descrito
graficamente. Embora a terra seja espaçosa, para eles ela
se tornou constrangida. Em suas almas, eles tinham uma
sensação de constrangimento. Nas conjunturas terrenas
eles se sentiam pobres de espírito. Cientificaram-se de que
não podiam fugir de Deus, mas tão-somente poderiam
encontrar conforto e refúgio, voltando-se para Ele.
600. O combate talvez seja inevitável e, quando a
convocação, da parte do governante do Estado islâmico,
for feita, deverá ser obedecida. Todavia, o combate não
deverá ser glorificado, à exclusão de tudo o mais. Mesmo
entre aqueles que estão aptos a partir, uma parte deverá
ficar para trás – uma em cada cidadela ou círculo – para fins
de estudo; assim, quando os combatentes voltarem para
casa, suas mentes ficarão novamente em sintonia com os
mais normais interesses da vida religiosa, sob a direção de
mestres adequadamente instruídos. Os estudantes e os
mestres passam a ser soldados de Jihad, em seu espírito
de obediência e disciplina.
601. Ver a nota do versículo 1 da 2ª Surata.
602. Aiat = sinais, ou versículos do Alcorão. Ambos os
significados devem aqui ser compreendidos. Cada
versículo constitui uma pepita de outro da sabedoria. E,
nos versículos imediatamente subseqüentes, a saber, os 3-
6 desta surata, são fornecidos exemplos das maravilhas da
Criação Material de Deus. Se os céus estrelados nos
impressionam por sua sublimidade, como sinais da
sapiência e do poder de Deus, quão mais portentoso não
seria o fato de Ele ter falado aos humanos, na própria
linguagem deles, por intermédio dos Seus Mensageiros,
para que eles entendessem?
603. Ver a nota do versículo 54 das 7ª Surata.
604. Hamim; líquido fervente; está associado, como no
versículo 57 da 38ª Surata, com gassak, um líquido escuro,
almiscarado, ou intensivamente frio; ambos constituem
simbolismos do castigo que resulta a rebeldia contra Deus.
605. O epíteto adequado ao sol é diyá (esplendor e glória
do brilho), e, para a lua, é “uma luz” (de beleza), a luz fria
que ilumina e nos ajuda na escuridão da noite. Porém, o
sol e a lua constituem, também, medidas de tempo. Com a
mais simples observação desses corpos, podemos
acompanhar o ritmo dos verdadeiros meses e anos
lunares, coisa de que os pecuaristas e agricultores não
podem prescindir. Para a agricultura os anos solares são
acuradamente observados, uma vez que eles indicam as
mudanças das estações; todavia, os anos solares comuns
nunca são exatos; mesmo o ano solar, de 365 ¼ dias,
requer correções de avanços cálculos astronômicos.
606. A palavra árabe é Cur’an, que também significa
leitura. O dever do mensageiro de Deus é dar a conhecer a
Sua Mensagem, à medida em que ela lhe é revelada,
agrade ou desagrade ela àqueles que a ouvem. Os
egocêntricos querem inserir seus próprios desejos e
caprichos nos preceitos religiosos e, deste modo, estão
freqüentemente dispostos a usar a religião para
conseguirem seus fins. A maior parte das corrupções,
ocorridas na Religião, é devida a esta causa. No entanto, a
Religião não deve ser desse modo prostituída.
607. Mohammad passou toda a sua vida de pureza e
virtude entre o seu povo; ele sabia ou estava ciente de tal
pureza e virtude, mesmo antes que ele recebesse a sua
missão. Sabia que o povo amava a sua nação, e era leal a
ela. Por que deveriam voltar-se contra ele, quando lhe
devia apontar, sob inspiração, todos os pecados e
desmandos? Aquilo era para o próprio bem deles. Ele tinha
de argumentar mais e mais com eles: “Não compreendeis?
Vede que glorioso privilégio é, para vós, receberdes a
verdadeira diretriz de Deus.”
608. Todas as grandes invenções e descobertas, das quais
os humanos se ufanam, constituem frutos daquela
genialidade e engenhosidade que Deus lhes tem
gratuitamente concedido de Sua Graça. Porém, o espírito
do homem continua mesquinho, como é ilustrado pela
parábola concernente ao mar. Ah, como o coração do
homem se regozija, quando o navio desliza suavemente,
ao sabor dos ventos favoráveis! Ah, como, na adversidade,
ele se volta, em terror e desesperança, a Deus, e faz
promessas! Ah, como essas promessas são
desconsideradas, tão logo o perigo passa! Comparar com
o versículo 63 da 6ª Surata.
609. Com a nossa insolência e orgulho, não vemos o quão
pequena e efêmera é, de nós, a parte que é mortal. Vê-laemos,
por fim, quando aparecermos perante o nosso Juiz.
Enquanto isso, as nossas ridículas pretensões tãosomente
nos ferirão.
610. Uma outra magnífica Parábola, explicando a natureza
de nossa vida presente. A chuva cai em gotas, e se
mistura com a terra. Por meio disso, pelo artesanato
incomparável de Deus, as entranhas da terra são tornada
férteis. Todas as espécies de grãos, benéficos, úteis e
magníficos, bem como as frutas e os vegetais, são
produzidos para os humanos e animais. A terra cobre-se
com a sua ostentação de verde, amarelo, e com todas as
variedades de cores. Talvez o “dono” das terras atribua a
si todo o crédito, pense que isso durará eternamente.
Então vem uma rajada de vento, ou de erupção vulcânica,
e a destrói; ou poderá ocorrer, mesmo em condições
normais, que chegando o tempo da colheita, os campos e
os pomares sejam arrasados por alguma praga ou doença.
Onde está a beleza e a magnificência de ontem? Tudo o
que resta são pó e cinzas. Que coisas mais poderemos
obter, desta vida material e física?
611. Em contraste com os prazeres efêmeros e incertos
desta vida material, existe a vida mais elevada, à qual
Deus nos está constantemente exortado. Ela é
denominada O Lar da Paz. Eis que aí não há temores,
desapontamentos, ou pesares. A ela todos são
conclamados, mas serão escolhidos não aqueles que
tiverem procurado as vantagens materiais, mas aqueles
que tiverem procurado o Bom Aprazimento de Deus. A
palavra Salam (Paz) provém da mesma raiz de Islam, a
Religião da Unidade e da Harmonia.
612. Tendo sido feita alusão à obra e à sapiência de Deus,
tanto como à real Verdade, como contra o falso culto e
contra os falsos deuses que os humanos estabelecem,
segue-se que o desconsiderar a Verdade deverá levar-nos
a erros clamorosos, não apenas em nossas crenças, mas
também em nossa conduta. Errarem e estaremos perdidos!
Como poderemos, então, fugir à Verdade?
613. A desobediência a Deus ocasionam as suas próprias
e terríveis conseqüências em nós mesmos. A Lei, a
Palavra e o Decreto de Deus devem ser cumpridos. Se
procurarmos falsos deuses, a nossa Fé será diminuída, e
então extinta. As nossas faculdades espirituais estarão
mortas.
614. Taawil: elucidação, explicação, realização final.
Comparar com o versículo 53 da 3ª Surata. A Mensagem
de Deus não somente nos proporciona as normas para a
nossa conduta cotidiana, mas nos fala dos elevados
assuntos de significado religioso, os quais requerem
elucidação, de três maneiras: (1) por instrução de mestres
de grande experiência espiritual; (2) por experiência dos
fatos vigentes da vida; e (3) pelo preenchimento final das
esperanças e dos escarmentos em que agora depositamos
confiança por meio da nossa Fé. Os incrédulos rejeitam a
Mensagem de Deus, simplesmente porque não podem
compreendê-la; e não dão a ela nem mesmo uma chance
de elucidação, em nenhuma dessas maneiras.
615. Os hipócritas vão encontrar algum grande mestre,
mas não tirarão proveito disso, porque não estão
sinceramente à procura da verdade. São como os cegos,
ou como os surdos, ou como os imbecis. É impossível
guiá-los, porquanto não têm vontade de ser guiados.
616. O Mensageiro está seguro de que a culminação do
mal é o mal, assim como a culminação do bem é o bem.
Torne-se esse resultado patente perante seus próprios
olhos, durante o tempo da sua existência, ou depois, não
faz diferença. Os iníquos não devem regozijar-se por eles
ter sido dado corda, nem por lhes parecer que estavam de
posse de um triunfo (por certo tempo), nem tampouco os
virtuosos devem perder o ânimo; porque a promessa de
Deus é inexorável, e se cumprirá. E, de qualquer modo, a
balança só poderá ser parcialmente ajustada, se isto for
possível, nesta vida. Haverá o ajuste final e completo no
Dia do Julgamento. Deus é Onisciente, e toda a verdade
estará perante Ele.
617. Esta será a sina final, sabendo-se que eles próprios
trá-la-ão para si. A psicologia dos incrédulos é aqui
exposta e analisada. Este argumento particular principia no
versículo 47 desta surata, e termina no versículo 53 da
mesma. Ele se inicia com uma declaração generalizada de
que cada povo teve as admoestações e explicações, por
intermédio de um Mensageiro, especialmente enviado a
ele; esse Mensageiro constituir-se-á uma relevante
testemunha, no julgamento final, quando a questão será
julgada com perfeita eqüidade. Então, segue-se um
diálogo. Os incrédulos perguntam zombeteiramente: “Por
que não envia agora o castigo?” A resposta para os
incrédulos é: ” Ele virá no devido tempo, de Deus.” É dito
aos crédulos para observarem e verem como os pecadores
tomariam o castigo, caso este lhes chegasse de pronto.
Não iriam achar que chegou mui repentinamente? Quando
ele virtualmente chegar, o pânico deles será indescritível.
“Será verdade?, perguntarão os incrédulos. “Sim, a
verdade verdadeira”, será a resposta. “E nada poderá
impedi-la”.
618. Aqueles que procedem erroneamente possuem uma
enfermidade me seus corações, coisa que lhes causará a
morte espiritual. Deus, em Sua Misericórdia, declara-lhes a
Sua Vontade, coisa que deveria dirigir-lhes as vidas, e lhes
proporcionar a cura para a sua enfermidade espiritual.
Caso aceitassem a Fé, o remédio faria efeito; encontrar-seiam
sob a diretriz certa, e receberiam de Deus o perdão e a
misericórdia. Em verdade estas seriam dádivas bem
melhores do que as vantagens materiais, as posses ou as
riquezas.
619. O “sustento” deve ser tomado tanto no sentido literal
como metafórico. No sentido literal, que magníficas e
variegadas ordenações Deus no proporciona, seja na terra,
no mar e no ar, distribuídas nos três reinos, vegetal, animal
e mineral! No entanto, mentes tacanhas colocam barreiras
artificiais quanto ao seu uso. No sentido metafórico, que
assombrosos campos de conhecimento e de enlevo
espiritual nos são proporcionados em nossas vidas,
individual e social! E quem irá dizer que alguma dessas
coisas é lícita e outra proibida? Supondo-se, em
circunstâncias especiais, que assim fosse, não é direito
que se atribuam restrições artificiais dessa espécie a Deus,
e que arbitrariamente se fabriquem sanções religiosas
contra elas.
620. Quanto às pessoas que mentem com respeito à
Religião, ou inventam falsos deuses, ou falsa adoração,
terão elas alguma idéia do Dia do Julgamento, quando
serão chamadas a prestar contas, e terão de responder por
seus feitos?
621. A referência à história de Noé, aqui, é apenas
incidental, para ilustrar um ponto especial. A história toda
encontra-se nos versículos 25-49 da 11ª Surata e em
muitas outras passagens, a saber, versículos 59-64 da 7ª
Surata, 23-32 da 23ª Surata, 105-122 da 26ª Surata e 75-
82 da 37ª Surata. Em cada local, no contexto, há um ponto
especial. O ponto especial aqui, é que a própria vida e
pregação de Noé, entre seu povo iníquo, foi causa de
ofensa para eles. Porém ele nada temeu, confiou em Deus,
proclamou sua mensagem, e foi salvo do Dilúvio.
622. A história, abrangendo Moisés, Aarão e o Faraó, é
fartamente contada nos versículos 103-137 da 7ª Surata,
havendo referências a ela em muitos locais do Alcorão. A
referência incidental, aqui, é para ilustrar um ponto em
especial, ou seja, que os iníquos são arrogantes e estão
interligados pelos seus pecados, e os preferem à Verdade;
eles não hesitam em atribuir os diletos de Deus, que
trabalham com desprendimento para eles, intenções
maldosas, coisa que abalaria a eles, os iníquos, em
circunstâncias semelhantes.
623. Quando eles arrojaram seus cajados, estes se
transformaram em serpentes por um truque de feitiçaria; no
entanto, os milagres de Moisés eram maiores do que os
truques da mistificação, porque tinham a Verdade
verdadeira por detrás deles.
624. Esta instrução, supomos, foi dada quando os
mistificadores foram levados à confusão, e alguns dos
egípcios acreditaram. Moisés permaneceria no Egito por
um certo período, para que sua Mensagem tivesse tempo
de surtir efeito, ates que os israelitas fossem levados para
fora dali. Eles teriam que transformar as suas casas em
locais de oração (Quibla), uma vez que o Faraó
provavelmente não permitiria que estabelecessem locais
públicos de culto, porquanto eles tão-somente teriam de
ser, então, vilegiaturistas no Egito. A Quibla haveria de ser
um simbolismo da posterior restauração do puro culto de
Deus, na Caaba, sob a orientação de Mohammad. Estas
eram as boas-novas (o Evangelho) do Islam, pregadas por
Noé, Abraão, Moisés e Jesus, e concretizadas por
Mohammad.
625. A súplica de Moisés, à qual se juntou Aarão, pois
sempre estava com ele, pode ser deste modo
parafraseada: “Ó Deus, nós entendemos que a opulência e
as riquezas dos egípcios não devem ser invejadas. Elas
são apenas venturas efêmeras desta vida. Elas constituem
uma desvantagem na qual, com seu orgulho por suas
posses, os egípcios se desvirtuaram, bem como aos
outros. Que seu orgulho seja a sua ruína! Faze com que
sua riqueza se transforme em amargura, e com que seus
corações se tornem empedernidos, porque eles Te
rejeitaram, e não acreditarão, até que literalmente vejam o
castigo por seus pecados!”
626. Depois de os israelitas ficaram errando pelo Sinai,
estabeleceram-se na terra de Canaã, descrita como “…
uma terra em que mana leite e mel”(Êxodo, 3:8). Eles
tiveram uma terra próspera; e foram agraciados com o
sustento espiritual, proporcionado por enviados, para
proclamarem a Mensagem de Deus. Eles deveriam ter
agido melhor do que descambarem para disputas e
cismas, mas assim o fizeram. Aquilo era o que de mais
imperdoável havia, considerando-se os favores que tinham
recebido de Deus. Os cismas advieram da arrogância
egoística, mas Deus julgará entre eles, no Dia do
Julgamento.
627. Deus, em Sua infinita Misericórdia, aponta como um
escarmento a contumácia do Pecado, e faz alusão ao
excepcional caso de Nínive e de seu Profeta Jonas. A
história de Jonas é contada nos versículos 139-148 da 37ª
Surata, onde seria lugar apropriado para mais comentários.
Aqui é suficiente notarmos que Nínive era uma cidade
antiquíssima, que agora não mais se encontra no mapa.
Acredita-se que sua localização haja sido demarcada por
dois outeiros, na margem esquerda do Tigre, defronto à
florescente cidade de Mosul e que está na margem direita,
cerca de 370 km a noroeste de Bagdá. Um dos dois
outeiros possui o nome de “Tumba de Nabi Iúnus”. Os
arqueólogos ainda não exploraram por completo a sua
antigüidade. Não obstante, claro está que se trata de uma
velhíssima cidade sumeriana, talvez remontando ao ano
3.500 a.C.. Ela tornou-se a terceira capital sucessiva da
Assíria. O primeiro Império Assírio, sob o governo de
Chalmanesser I, por volta do ano 1.300 a.C., tornou-se a
suprema força da Ásia Ocidental. A Babilônia, da qual a
Assíria havia sido anteriormente tributária, tornou-se então
tributária da Assíria. O segundo Império Assírio surgiu por
volta de 745 a.C., sendo que Sennarista (705-681 a.C.)
embelezou a cidade com muitas obras públicas. Ela foi
destruída pelos citas (então chamados medas) em 612
a.C.. Caso se presuma que o tempo de Jonas foi por volta
do ano de 800 a.C., teria sido entre o primeiro e o segundo
Império Assírio; quando a cidade foi quase destruída por
causa de seus pecados, mas dado seu arrependimento, foi
concedido ao povo um novo período de vida gloriosa, que
veio com o segundo Império.
628. Deus é Indulgente, Misericordiosíssimo. Mesmo
quando sofremos, sob provações e atribulações, isso é
para o nosso bem, e ninguém pode impedir isso senão Ele,
sendo que, em Seu Plano, Ele faz com que aconteça o
melhor para todos. Por outro lado, não há força capaz de
interceptar as Seus favores e bênçãos, sendo que Sua
benevolência flui livremente, quando a merecemos, e
freqüentemente, quando não a merecemos.
629. O Furcan, ou o Discernimento entre o certo e o
errado, foi-nos enviado, procedente de Deus. Se nós
aceitarmos a diretriz, não será para parecer como um favor
conferido àqueles que no-la concederam. Eles sofrem
abnegadamente por nós, a fim de que possamos ser
guiados, para o nosso próprio bem. Por outro lado, se a
rejeitarmos, bem, a perda será nossa. Nós temos uma
certa quantidade de livre-arbítrio, e a responsabilidade é
nossa, não a podendo deixar recair sobre os Mestres,
enviados por Deus.
630. Quando, a despeito de todos os esforços dos diletos
de Deus, as pessoas não aceitam a Verdade, e o mal
parece florescer por certo tempo, nós devemos esperar e
ser pacientes, e, ao mesmo tempo, não devemos perder as
esperanças, ou deixar de envidar esforços, no sentido
contrário, porque, só deste modo, poderemos fazer a
nossa parte, nos Planos de Deus.
631. Ver o versículo 1 da 2ª Surata, e respectiva nota.
632. Todo o princípio básico está incluso na Revelação de
Deus, e é fartamente ilustrado e explicado em detalhes.
633. A Mensagem de Mohammad era admoestar quanto
ao mal, e tinha por finalidade anunciar a boas-novas da
Misericórdia e da Graça de Deus, para todo aquele que a
quisesse receber, em Fé e em confiança em Deus. Esta
dupla Mensagem é ilustrativamente proclamada nesta
Surata.
634. O gozo de todas as boas e verdadeiras coisas desta
vida refere-se, achamos, à vida presente, com seus
limitados termos, e a abundante Graça refere-se às
elevadas recompensas espirituais, que começam aqui, e
são completadas na vida por vir.
635. O coração (literalmente, peito, em árabe) já está bem
guardado no corpo; e supõe-se que os segredos estejam
ocultos no coração, ou peito. Os tolos poderão procurar
intensivamente cobrir seus corações com indumentárias,
mas, mesmo assim, nada poderá ser escondido de Deus.
636. É cientificamente correto dizermos que toda a vida se
desenvolveu na água, sendo que tal assertiva também
aparece no versículo 30 da 21ª Surata. O Trono da
autoridade de Deus é metaforicamente descrito como
estando sobre a água, ou seja, regularmente, sobre toda a
vida.
637. Se os homens do mundo desejarem o resplendor
desta vida, tê-lo-ão a mancheias; contudo, saibam que se
trata de falso resplendor, e que implica na negação da vida
espiritual, a qual procede da diretriz da luz interior, e da
revelação de Deus, como é descrito no versículo 17 desta
surata, mais adiante.
638. “Uma testemunha enviada por Ele”; ou seja, o Livro
que foi concedido a Mohammad, o Sagrado Alcorão, que é
comparado à Revelação original, concedido a Moisés. Nós
não fazemos distinção entre uma verdadeira e genuína
Mensagem e outra, nem tampouco entre um mensageiro e
outro – porque todos eles procedem do Único e Verdadeiro
Deus.
639. A missão de Noé destinava-se a um mundo corruptos,
afundado em pecados. A missão era de caráter duplo,
como a missão de todos os diletos de Deus: ela tinha por
finalidade admoestar os humanos quanto ao mal,
convocando-os ao arrependimento, e ainda anunciar-lhes a
boas-novas da Graça de Deus, caso eles se voltassem
para Ele: ela se constituiu numa Diretriz e em Misericórdia.
640. A resposta de Noé (como a do Dileto de Deus, o qual,
épocas mais tarde, falou em Makka e em Madina)
constituiu-se num padrão de humildade, de cavalheirismo,
de firmeza de caráter, de persuasão, de veracidade, e de
apego ao seu próprio povo. Primeiro, submissamente – não
exultantemente -, ele informa a seus concidadãos que está
de posse da Mensagem de Deus. Segundo, ele lhes diz
que, mesmo em sua parte admoestatória, trata-se de uma
Mensagem de Misericórdia, e que talvez, devido à
arrogância deles, a Misericórdia lhes seja ocultada.
Terceiro, ele lhes diz abertamente que não pode haver
compulsão quanto à religião; contudo, acaso, não
deveriam aceitar de bom grado aquilo que era para o
próprio benefício deles? Ele argumenta com eles como um
deles.
641. O ridículo a que os pecados expunham Noé, partindo
do próprio ponto de vista deles, era natural. Lá estava um
pregador feito carpinteiro! Lá estava um planalto, fora do
alcance da bacia mesopotâmica, drenada pelos
majestosos Tigre e Eufrates, que ia desaguar no mar,
longe dela 1.200 ou 1.300 km, e em linha reta! E ele ainda
falava de inundação, como no mar! Todas as civilizações
materiais orgulhavam-se de suas obras públicas e de seus
traçados de drenagem. E lá estava um indivíduo contando
com Deus! Porém, acaso, o orgulho tacanho deles não
pareceria também ridículo para o dileto de Deus? Ali
estavam homens impregnados de pecado e insolência! E
eles pretendiam competir com o poder de Deus e folgar
quanto à sua promessa! Em verdade, desprezível raça e a
humana!
642. Um filho (ou enteado, ou neto) de Noé, desobediente
e recalcitrante, é mencionado mais adiante (versículos 42-
43 e 45-46). Um membro de sua família, ao se apartar das
tradições da progênie, em assuntos que lhe dizem
respeito, deixa de compartilhar dos privilégios dela.
643. Os símiles das montanhas são as ondas, que são
altas como os montes – literalmente, pois os picos estavam
sendo encobertos.
644. Os incrédulos recusam-se a acreditar em Deus, mas
têm grande fé nas coisas materiais. Aquele jovem iria
tentar salvar-se subindo aos picos das montanhas, não
sabendo que os próprios pios iriam ficar submersos.
645. Não há dúvida de que o nome está ligado à palavra
“Kurd”, na qual a letra r constitui uma interpolação
posterior, porquanto os velhos registros sumérios
mencionam um povo chamado Kutir ou Gutu, que
dominava a região do médio Tigre, não muito depois do
ano 2.000 a.C.. Esta região compreende o moderno distrito
turco de Bothan, no qual está situado Jabal Judi (perto das
fronteiras da moderna Turquia, do moderno Iraque, e da
moderna Síria), e a cidade de Jazirat Ibn Ômar (na
presente fronteira turco-síria), e se estende no Iraque e no
Irã. A enorme massa de montanha do Plateau Ararat
domina esse distrito. O sistema de montanhas “é o único
no Velho Mundo que contém grandes lençóis de água que
são lagos não salgados e sem saída, sendo que os
principais são o Lago Van e o Lago Urumiya”. Tal deveria
ter a própria região de estupendo Dilúvio, se
considerarmos que a escassa precipitação pluviométrica
se transformou em um torrencial aguaceiro. Um
represamento glaciário do Lago Van, na Idade do Gelo,
teria produzido o mesmo resultado. A região possui muitas
tradições locais, relacionadas com Noé e o Dilúvio. A lenda
bíblica de que o Monte Ararat seja o local de repouso da
Arca de Noé é inadmissível, visto que o pico mais alto do
Monte tem mais de 4.800 m de altitude. Caso se trate de
um dos picos menores do sistema Ararat, a lenda concorda
com a tradição muçulmana sobre o Monte Judi (ou Guti), e
isto em concordância com as mais antigas e mas
conceituadas tradições locais. Estas tradições locais são
aceitas pelos cristãos orientais e pelos judeus.
646. A adição de força à força talvez se refira ao aumento
da população, como alguns exegetas acham. Enquanto
outras partes da Arábia eram esparsamente povoadas, as
terras irrigadas do povo de Ad podiam manter uma
população relativamente densa, que lhe aumentava o vigor
natural nos expedientes de guerra e paz. Contudo, o termo
empregado é perfeitamente genérico. Aquele era um povo
poderoso, em seu tempo. Se tivesse obedecido a Deus, e
seguido o exemplo dos virtuosos, ter-se-ia tornado ainda
mais poderoso, porque “a virtude exalta uma nação.”
647. Agarrar pelo topete; uma expressão árabe, referindose
à crina do cavalo. Quando o homem consegue agarrarse
a ela, tem o cavalo sob completo domínio; para o
cavalo, ela é, por assim dizer, a coroa de sua beleza, a
concentração de sua força e auto-afirmação. Assim, o
poder de Deus sobre todas as criaturas é ilimitado, e
ninguém pode resistir ao Seu decreto. Comparar com os
versículo 15-16 da 96ª Surata.
648. As histórias de Sáleh e do povo de Tamud foram
contadas sob um outro ponto de vista, nos versículo 73-79
da 7ª Surata. A diferença quando ao ponto de vista, lá e
aqui, é a mesma quanto à história de Hud; ver o versículo
50 desta surata, e respectiva nota. Note-se como a história
agora é a mesma, e contudo, os novos pontos e detalhes
são trazidos à tona para ilustrarem cada novo argumento.
Note-se, também, como o pecado inveterado do povo de
Ad – orgulho e obstinação – é distinto do vício dominante do
povo de Tamud – a opressão dos pobres, ilustrada pelo
simbolismo da camela; ver o versículo 73 da 7ª Surata, e
respectiva nota. Todo o pecado resume-se, num sentido,
no orgulho e na rebeldia; contudo, os pecados adquirem
matrizes particulares, em circunstâncias diferentes, e tais
colorações são trazidas à baila num dos quadros mais
artisticamente pintados – com a maior parcimônia possível
de palavras e a mais penetrante análise de intenções. Para
a localidade e a história do povo de Tamud, ver a nota e o
versículo 73 da 7ª Surata.
649. Apenas um prazo de três dias para pensamentos
posteriores e arrependimento. Porém, eles não prestaram
atenção. Um terrível terremoto veio durante a noite,
precedido por uma rajada de vento retumbante
(provavelmente vulcânica), que é um bem conhecido fato
em áreas afeitas e abalos sísmicos. Ele veio durante a
noite e os soterrou nas suas próprias casas-fortalezas, que
eles pensavam que fosse locais seguros. A manhã os
encontrou jacentes de bruços, ocultos à luz. Como os
poderosos são aviltados!
650. De acordo com a seqüência da 7ª Surata, a referência
seguinte deveria ser a história de Lot, sendo que essa
história começa no versículo 77 desta surata, mais ainda
adiante; porém, ela é introduzida por uma breve referência
a um episódio da vida de seu tio Abraão, de cuja semente
advieram os povos aos quais Moisés, Jesus e Mohammad
foram enviados com a maior das Revelações. Abraão, em
seu tempo, passou pelo fogo das perseguições, nos vales
da Mesopotâmia; ele havia deixado atrás de si a idolatria
ancestral de Ur, dos caldeus; ele havia sido testado, e saiu
triunfante, quanto à perseguição de Nemrod,; ele havia,
então, fixado residência em Canaã, da qual seu sobrinho,
Lot, foi chamado a pregar nas cidades iníquas da planície
oriental do Mar Morto, que é por isso chamada de Bahr
Lut. Desse modo preparado e santificado, Abraão se acha
então pronto para receber a Mensagem de que ele fora
escolhido para ser progenitor de uma interminável linha de
Profeta; e é essa a Mensagem que é agora referida.
651. A narrativa é muito concisa, sendo que a maioria dos
detalhes é tida como certa. Podemos supor que os anjos
deram a notícia primeiramente a Abraão, que já contava,
de acordo com a Bíblia, Gênesis, 21:5, 100 anos de idade,
e depois a sua esposa, Sara, que não tinha muito menos
do que 90 anos (Gênesis, 17:7). Ela deveria provavelmente
estar oculta, segundo um costume oriental. Ela mal pôde
acreditar na notícia. Em seu ceticismo (em seu júbilo,
alguns dizem), ela gargalhou. Contudo, a notícia de que
ela iria ser mãe de Isaac e, através de Isaac, avó de Jacó,
foi-lhe formalmente comunicada. Jacó iria constituir-se
numa árvore frutífera, com seus doze filhos. Porém, até
então, Abraão não tinha tido filho algum com ela, e Sara
havia passado da idade de conceber. “Como poderia
aquilo acontecer?”, ela pensou.
652. A história de Lot é contada nos versículos 80-84 da 7ª
Surata. Aqui, a ênfase é quanto ao trato de Deus para com
os humanos – em misericórdia, quanto ao verdadeiro
serviço espiritual, e em justiceira ira e punição quanto
àqueles que desafiam as leis da natureza, estabelecidas
por Ele. Também se dá ênfase ao trato dos homens uns
com os outros, bem como o contraste entre os virtuosos e
os iníquos, que não respeitam nenhuma lei divina ou
humana.
653. A narrativa bíblica dá a entender que as filhas eram
casada e que seus maridos estavam por perto (Gênesis
19:14), e que essas mesmas filhas, mais tarde, cometeram
incesto com seu pai, resultando que dele tiveram filhos
(Gênesis 19:31). Em parte alguma do Alcorão Sagrado se
dá a entender tais abominações. Alguns exegetas sugerem
que “minhas filhas”, na boca de um homem venerável, tal
como Lot, o pai de seu povo, pode significar quaisquer
jovens garotas daquelas cidades. A expressão “meu filho”
(Waladi) é ainda hoje um modo de as pessoas mais velhas
se dirigirem a um jovem, nos países de fala árabe.
654. Na própria família de Lot havia uma pessoa que
destoava quanto à harmonia da família a mulher dele. Ela
era desobediente para com seu marido, que então
obedecia à ordem de Deus. Ela olhou para trás,
compartilhando da sina dos habitantes iníquos das cidades
da planície. Ver o versículo 10 da 66ª Surata. A narrativa
bíblica diz que ela se transformou numa estátua de sal
(Gênesis, 19:26).
655. Sijjil é uma palavra persa, arabizada, vinda de angogil,
ou sang-i-gil, que quer dizer pedra de argila, ou duro
como argila cozida, de acordo com Câmus. Sodoma e
Gomorra situava-se numa região de solo duro, empedrado
e sulfuroso, ao qual esta descrição muito bem se aplica.
Comparar com o versículo 33 da 51ª Surata, onde as
palavras são “pedra de argila” (hijárat min Tin), em relação
ao mesmo incidente.
656. Comparar com os versículos 85-93 da 7ª Surata. A
localização de Madian está explicada na nota do versículo
85 da 7ª Surata. Aqui a ênfase é quanto ao trato de Deus
para com os homens, às maneiras tortuosas e obstinadas
do homem; lá, a ênfase era, outrossim, quanto ao pecado
dos habitantes de Makka, em tempos posteriores.
657. Tanto Platão como Aristóteles definem a justiça como
a virtude que “dá a cada um o que lhe é devido”. Partindo
deste ponto de vista, a justiça torna-se a virtude-mestra,
incluindo a maior parte das outras virtudes. Foi a falta
dessa virtude que arruinou os madianitas. Seu egoísmo
consistia no “agravo intencional”, ou seja, estragar os
negócios das outras pessoas, não lhes dando o que lhes
era devido.
658. Os arcanos espirituais são fáceis de ser entendidos,
se a eles dispensarmos as devidas considerações.
Contudo, aqueles que os aborrecem deliberadamente,
cerram os olhos aos Sinais de Deus, pretendendo, em sua
arrogância, estar “bem além deles”! Quão aquém estão!
659. Só o que eles entendem é a força bruta. Eles
praticamente dizem: “Não vês que temos todo o poder e
influência, e que tu, Xuaib, és apenas um pobre mestre?
Poderíamos apedrejar-te ou aprisionar-te, ou fazer o que
quiséssemos contigo! Agradece-nos por nossa
benevolência, se tu poupamos – pelo bem de tua família.
Isto é mais do que tu mereces!”
660. A história de Moisés com o Faraó aparece em muitos
lugares no Alcorão e, em cada um, em conexão com algum
ponto especial a ser ilustrado. Aqui o ponto é que o trato
de Deus está para com o homem é concernente a todas as
coisas, sendo ele justo em todos os tempos. Contudo, o
homem, sob falsas lideranças, fracassa, por escolha
deliberada, e perece juntamente com os seus falso líderes.
No exercício da inteligência e da liberdade de escolha que
lhe foram concedidas, o homem deveria ser especialmente
cuidadoso, e entender as suas próprias responsabilidades,
e tirar proveito dos Sinais de Deus, para obter a Graça e as
bênçãos d’Ele.
661. Yaumun mach-hud. Para dar a entender o significado
da expressão árabe, nós a traduzimos por “um dia
testemunhável”. Expliquemos os vários matizes de
significados implícitos: (1) um Dia para o qual todas as
testemunhas apontarão, de todos os quadrantes da Terra;
(2) um Dia em que os testemunho será dado, perante o
Trono do Julgamento de Deus, por todas as testemunhas
relevantes, ou seja, por todos os Profetas que pregaram,
por todos os homens ou mulheres que tenhamos
beneficiado ou agravado, pelos anjos que tiverem
registrado todos os nossos pensamentos e atos, ou por
todos os pensamentos e atos personificados; (3) um Dia
que será testemunhado, isto é, visto por todos, não
importando como e onde tenham morrido.
662. Falará, isto é, seja em defesa própria, seja em
acusação a outros; ou interceder por outros, ou entrar em
conversa, ou fazer perguntas uns aos outros. Será um Dia
solene, em que tudo se desenrolará perante o Grande Juiz,
de Quem tudo será conhecido, e Cuja autoridade será
inquestionável. Não haverá lugar para tergiversações ou
equívocos ou subterfúgios de qualquer espécie, nem
tampouco ninguém poderá lançar culpa sobre outrem, ou
se responsabilizar por outrem. A responsabilidade pessoal
será estritamente mantida.
663. Comparar com o versículo 62 desta surata. Sempre
existiu, nos assuntos humanos, o conflito entre o velho e o
novo – os carcomidos sistemas de nossos ancestrais, e o
novo e vivente manancial de inspiração de Deus, que se
adapta aos novos tempos e aos novos ambientes. Os que
advogam pelo primeiro olham para este último, não apenas
com uma dúvida intelectual, mas ainda com uma
suspeição moral, como fizeram os Adeptos do Livro quanto
ao Islam, com o seu novo ponto de vista e com o seu
vigoroso e realístico modo de ver as coisas.
664. Os dois extremos do dia de doze horas: manhã e
tardezinha. A Oração da Manhã é denominada Fajr, que se
pratica tão logo a luz aparece, mas antes do nascer do Sol;
desta maneira, nós nos levantamos em boa hora, e
iniciamos o dia com a lembrança de Deus, e do nosso
dever para com Ele. A Oração do Meio-dia é denominada
Duhr, e é praticada logo depois do meio-dia; nós nos
encontramos no meio dos nossos afazeres cotidianos, e
novamente nos lembramos de Deus.
665. Em certas horas da noite; zulafan, que quer dizer uma
aproximação, algo muito próximo de acontecer. Como a
língua árabe possui, como o grego, o número dual, distinto
do plural – e o plural é aqui usado, não o dual -, é razoável
argumentarmos que pelo menos três “aproximações da
noite” estão aqui compreendidas. A Oração da Tarde (Asr),
e a do Crepúsculo (Magrib), logo depois do pôr-do-sol,
seria a segunda. A Oração da Noite (ichá) seria a terceira,
quando nos postamos perante Deus, antes de irmos
dormir. Estas são as cinco orações canônicas do Islam.
666. Ver a nota do versículo 1 da 2ª Surata.
667. Para a compreensão da Parábola, tudo o que é
necessário saber é que José era um dos Diletos
Escolhidos de Deus. Quanto à história, é necessário que
se incluam mais uns poucos detalhes. Seu pai era Jacó,
também chamado Israel, o filho de Isaac, este, filho mais
novo de Abraão. Este pode ser chamado o pai da linha da
profecia semítica. Jacó teve quatro esposas. De três delas
ele teve dez filhos. Em sua velhice ele teve, de Raquel (em
árabe, Rahil), uma mulher lindíssima, dois filhos, José e
Benjamim (o caçula). Quando esta história começa, supõese
que José tivesse por volta de 17 anos de idade. O local
onde Jacó, sua família e seu rebanho se estabeleceram foi
Canaã, sendo por tradição mostrado como ficando próximo
à moderna cidade de Nablus (antiga Chechem), cerca de
49 km ao norte de Jerusalém. A tradicional localidade do
poço em que José foi atirado por seus irmãos é ainda
mostrada, nas redondezas.
668. José era uma pessoa correta. Seu pai o amava. Seus
meio-irmãos ficaram enciumados dele e passaram a odiá-
lo. Seu destino tinha sido traçado na visão. Iria ser
exaltado acima de seus onze irmãos (estrelas) e de sua
mãe e seu pai (sol e lua).
669. A história é logo trazida para o seu aspecto espiritual.
Aqueles irmãos corruptos nada mais eram do que joguetes
nas mãos do Mal. Eles permitiram que suas
masculinidades fossem subjugadas pelo Mal, não se
conscientizando de que o Mal era oponente ou inimigo
declarado da verdadeira natureza e dos instintos da
masculinidade.
670. Deus estava com José em todas as dificuldades, seus
pesares e sofrimentos, assim como está com todos os
Seus servos que n’Ele depositam confiança. O pobre rapaz
foi traído por seus irmãos, e deixado, talvez, para morrer
ou ser vendido como escravo. Porém, seu coração era
destemido. Sua coragem jamais o abandonou.
671. O aguadeiro ficou surpreso e estarrecido quando ele
trouxe para cima, não água, mas um jovem de aparência
donairosa, inocente como um anjo, com um semblante tão
resplandecente quanto o sol. E o aguadeiro se pôs a gritar,
como se aquilo fizesse parte de uma boa-nova.
672. Tratava-se de uma caravana de mercadores.
Pensaram: Que dinheiro poderia advir daquilo? Ali estava
um jovem desconhecido, não reclamado, de beleza rara,
aparentemente com uma imaginação tão refinada quanto a
sua beleza exterior. Ele bem podia ser vendido nos
opulentos mercados de escravos de Mênfis, ou fosse qual
fosse a capital da Dinastia Hykos, então o reinando no
Egito. E que preços ele poderia alcançar! Deveras, eles
haviam topado com um tesouro. Assim, tratavam de
escondê-lo, com medo de que se tratasse de um escravo
alheio, que havia fugido de seu dono, dono esse que
haveria de vir reclamá-lo. As circunstâncias eram
peculiares, e os mercadores tinham de ser cuidadosos.
673. A palavra ahádis deve significar histórias, coisas
imaginárias ou relatadas, coisas que acontecem na vida
real, ou em verdadeiros sonhos. Supor-se que os eventos
fenomenais sejam a única realidade constitui uma marca
de um materialismo unilateral. Os eventos exteriores
possuem a sua realidade limitada; todavia, há realidades
maiores por trás deles, as quais, às vezes, aparecem
anuviadamente nas visões dos homens comuns, porém,
mais claramente nas dos poetas, dos videntes, dos sábios
e dos profetas.
674. Perante a esposa de seu amo, com sua louca paixão,
a situação tornou-se intolerável, e José se dirigiu para a
porta. Ela correu atrás dele para detê-lo. Para tanto,
agarrou-se às suas vestes. Conforme ele se estava
retirando, ela somente pôde agarrar-se à parte de trás de
sua camisa, e, no esforço, a rasgou. Ele estava
determinado a abrir a porta e deixar o local, uma vez que
era inútil argumentar com ela, em sua louca paixão.
Quando a porta se abriu, aconteceu que Aziz não estava
muito longe. Nós não devemos presumir que ele estivesse
a espionar, ou que tivesse qualquer suspeita, tanto com
relação a sua esposa como com relação a José. À sua
exígua e limitada maneira, ele era um homem justo.
Podemos também imaginar a consternação de sua esposa.
Uma falta leva a outra. Ela devia recorrer a uma mentira,
não apenas para justificar, mas ainda para se vingar do
homem que havia desprezado seu amor. O amor
desfeiteado (o da espécie física) fê-la feroz, e ela perdeu
todo o senso do certo e do errado.
675. Quando o fato real tornou-se claro para todos, o Aziz,
como o cabeça da casa, tinha de decidir o que fazer. A sua
própria posição era difícil, e ele achava-se ridicularizado.
Ele era um alto dignitário do Estado, digamos um
economista da nobreza. Sua dignidade e seu status foram
reforçados pelo propalado casamento com uma princesa
de alta linhagem. Iria ele declarar ao mundo que sua
esposa havia corrido atrás de um escravo? Ele
provavelmente era muito apegado a ela, mas estava
cônscio da inocência, da lealdade e do elevado mérito de
José. Ele deveria tratar o assunto todo como uma
brincadeira feminina – loucura do amor passional, truques e
enredamentos ligados ao amor sexual. Não deveria tomar
nenhuma decisão antecipada; outrossim, deveria levar em
consideração a sua esposa, e fazer justiça.
676. A sua fala é sutil, e demonstra que qualquer
arrependimento ou contrição que talvez houvesse sentido
é encoberto pela mentalidade coletiva das pessoas, na
qual ela deliberadamente se deixou cair.
677. Dois homens foram presos, quase ao mesmo tempo
que José. Ambos eram aparentemente oficiais do rei (do
Faraó), que haviam incorrido na ira deste. Um deles era
um “copeiro” (criado ou chefe dos mordomos), cujo dever
consistia em preparar os vinhos e as bebidas do rei. O
outro era o padeiro do rei, cujo dever era preparar o pão
para este. Ambos haviam caído em desgraça. O primeiro
citado, sonhou que estava novamente desempenhando
suas funções, ou seja, pisando a uva; o segundo citado,
sonhou que estava transportando pães, mas não
conseguiu alcançar seu mestre, pois os pássaros os
comeram.
678. Estes homens era egípcios, talvez arraigados ao
materialismo, à idolatria e ao politeísmo. José deveria
ensinar-lhes o Evangelho da Unicidade. E o fez de modo
simples, apelando para a sua própria experiência: “O
Senhor sempre foi bom para comigo: na prosperidade e na
adversidade eu tenho sido apoiado pela Fé; nesta vida,
homem algum pode viver em erro ou malevolência; talvez
um de vós tenha cometido algo de errado, pelo que se
encontra aqui; talvez um de vós seja inocente; de qualquer
modo, não aceitaríeis vós a Fé, para viverdes para
sempre?”
679. José jamais atribuiu a si a faculdade da interpretação
dos sonhos, nem tampouco disse provir de si a bondade
dispensada, na prisão, aos seus companheiros de
sofrimento. Depois, quando o sonho do “copeiro” se tornou
realidade, e ele foi solto e restaurado nos favores do rei,
podemos imaginá-lo despedindo-se afetuosamente de
José, e mesmo perguntando-lhe, em seu júbilo, se poderia
fazer algo por ele. José não necessitava de favores
terrenos, muito menos de reis ou dos seus favorecidos. A
graça divina lhe bastava. Contudo, ele tinha um grande
trabalho a fazer, que não poderia ser feito estando ele na
prisão – um trabalho pelo Egito com o seu rei, e pelo
mundo geral. Se o “copeiro” o mencionasse junto ao rei,
não por via de recomendação, mas porque a própria justiça
do rei estava sendo adulterada, ao manter no cárcere um
homem inocente, talvez isso ajudasse no desenvolvimento
da causa do rei e do Egito. E assim ele disse: “Fala de mim
ao Faraó.”
680. A conversa deve ter sido longa, para explicar as
circunstâncias. São-nos apenas fornecidos os pontos
essenciais. De José ele nada esconde. Ele está ciente de
que José sabe mais do que ele. Ele diz a José que se ele,
membro do Conselho, conseguisse o significado, iria
apresentá-lo a esse Conselho. Seria impertinente da parte
do “copeiro” oferecer a José, o dileto de Deus, como
suborno, a esperança da sua libertação.
681. José não apenas mostrou o que aconteceria, mas
ainda, sem isso lhe ser solicitado, sugeriu as medidas a
serem tomadas para o trato com a calamidade, se ela
chegasse. Haveria sete anos de abundantes colheitas.
Com um cultivo diligente e racional conseguir-se-iam
espigas colossais. Destas, tomar-se-ia o estritamente
necessário para o sustento, e armazenar-se-ia o resto na
própria espiga, constituindo isto a melhor medida para
preservá-lo das pestes que costumam atacar as medas,
quando passarem pela eira.
682. Este é o símbolo de um ano abundantíssimo, depois
de sete anos de seca. O Nilo deve ter trazido abundantes e
fertilizantes águas e sedimentos de sua cabeceira, e houve
provavelmente alguma chuva, também no baixo Egito. As
parreiras e as oliveiras, que deviam ter sofrido com a seca,
reviviam então, e produziam já o seu suco e o seu óleo.
683. O mensageiro do rei, com toda a certeza, esperava
que o prisioneiro ficasse muito contente com as
solicitações do monarca. José, porém, seguro de si, queria
alguma garantia de que ficaria a salvo de toda a espécie
de importunação e perseguição a que estivera sujeito por
parte das damas. Se o rei não tinha conhecimento de
todas as artimanhas lançadas contra José por elas, Deus
tinha conhecimento de todas as intenções e conspirações
deles.
684. Interpretamos os versículos 52 e 53 como sendo
continuação da fala da esposa do Aziz, e, de acordo com
isso, os traduzimos. Há tanto boa razão, como autoridade
para isso (por exemplo, Ibn Alcatir). Todavia, a maior parte
dos exegetas interpretam os versículos 52-53 como
constituindo a fala de José, em cujo caso eles estariam
querendo dizer que ele se estava referindo à sua fidelidade
para com Aziz, ao fato de que ele jamais tirara vantagem
da ausência dele para assediar a sua esposa, embora ele,
José, fosse humano e afeito ao erro. A nosso ver, a esposa
de Aziz, conquanto reprovasse a sua conduta culposa,
esperava misericórdia e perdão, e pela capacidade, por
fim, compreender o que era o verdadeiro amor. Fossem
quais fossem as acusações que ela fizera, fizera-o num
momento de paixão, e na presença dele, jamais a sangue
frio, ou nas suas costas.
685. Ver a nota do versículo 52. Vemos este versículo
como constituindo uma continuação da fala da esposa de
Aziz. Isso é mais apropriado a ela do que a José. Como é
do nosso entendimento, ela chegou, por fim, à
conscientização de tudo o que havia de errado em sua
conduta, bem como vislumbrou um lampejo do verdadeiro
significado do amor espiritual, que tem algo de divino, e
não pode ser obtido, a não ser com a infusão de toda
nossa alma em Deus.
686. José não havia aparecido perante o rei. A ordem do
rei, nos mesmos termos do versículo 50, referia-se a uma
mensagem vinda de José, e ao subseqüente
prosseguimento, quanto às damas. Agora que a inocência,
a sapiência e a fidedignidade de José haviam sido
provadas – e confirmadas pelos esplêndidos atributos da
esposa do Aziz -, e a própria atitude máscula de José,
perante o rei, havia sido evidenciada, o rei ficou
impressionadíssimo e chamou-o para especialmente servir
à sua própria pessoa com seu fidedigno e confidencial
Vizir. Se, como é provável, o Aziz, por esse tempo,
estivesse morto (porquanto nunca mais foi mencionado),
José o iria substituir nesse cargo; com efeito, ele é tratado
como Aziz, no versículo 78, mais adiante. Porém, José
adquiriu mais dignidade e poder, uma vez que foi
designado para encetar uma grande política de
emergência, para contrabalançar os dificílimos tempos de
depressão, que haviam sido previstos. Foram-lhe dados
plenos poderes e a mais plena confiança que um rei
poderia conceder ao seu mais creditado homem, que
provou ser o melhor Vizir ou Primeiro-Ministro, com
especial acesso à sua Pessoa, como um economista da
nobreza.
687. José tratou seus irmãos liberalmente. Talvez ele
tivesse condescendido em entrar em conversação com
aqueles estranhos, e inquirido sobre a sua família. Os dez
irmãos ali estavam. Haviam eles deixado um pai atrás
deles? Que espécie de pessoa era ele? Muito idoso? Bem,
certamente ele não poderia ter vindo. Tinham eles outros
irmãos? Sem dúvida, os dez irmãos nada disseram sobre o
seu irmão que se perdera, José, nem tampouco contaram
mentira alguma sobre ele. Porém, talvez a solícita
insistência do hospedeiro houvesse trazido o nome de
Benjamim à sua baila. Como estava ele? Trá-lo-iam da
próxima vez? Isso eles deveriam fazer, ou não
conseguiriam mais trigo, e ele nem mesmo os haveria de
ver.
688. Bidháat = sortimentos; capital com o qual os negócios
são realizados; dinheiro, quando usado como capital de
giro. Aqui é melhor supormos que eles estavam trocando
mercadorias por cereais. Comparar com o versículo 19
desta surata.
689. Os exegetas referem-se a uma superstição ou
costume judaico ou oriental, o qual prescreve que os
membros de uma família numerosa jamais apareçam
juntos, em massa, por temor de “mau-olhado”. Todavia,
independentemente de Ocidente ou Oriente, ou de
costume ou superstição, seria ridículo que os membros de
qualquer família numerosa, dez ou onze, desfilassem
juntos, numa procissão, entre estranhos. Porém, havia
neste caso uma razão particular e melhor, que tornava o
conselho de Jacó viável; e ele era, como constatado no
versículo seguinte, um homem de sabedoria e experiência.
Entrando separadamente, eles atrairiam menos atenção.
Jacó mui sabiamente lhes disse que tomem a precaução
humanamente possível. Contudo, como um dileto de Deus,
eles os previne de que todas as precauções humanas não
funcionariam, caso eles negligenciassem ou corressem
opostos às questões bem mais impressionantes – uma
delas, a vontade e a lei de Deus.
690. Aquele era o costume de sua família. Certamente, era
bem anterior à Lei mosaica, a qual estabelecia bem
claramente a restituição do roubo, e que se o culpado
fosse encontrado sem nada, deveria ser vendido, pelo
valor do roubo (Êxodo, 22:3). Mas então, o crime constituía
mais do que simples roubo: constituía roubo, mentira, e o
mais descarado abuso de confiança e hospitalidade.
Enquanto os dez sentiam uma satisfação íntima em sugerir
o castigo, estavam inconscientemente dando expansão ao
plano de José. Deste modo, as mais vis intenções,
freqüentemente, podem ajudar e dar expansão aos mais
benéficos planos.
691. O pronome “ele” pode referir-se somente a José. Ele
deve ter estado presente durante todo o tempo da ação, ou
talvez tivesse acabado de entrar em cena, uma vez que o
roubo da taça do próprio rei (versículo 72 da 12ª Surata,
acima) era um caso sério e importantíssimo, e que a
investigação requeria a sua supervisão pessoal. Tudo o
que seus oficiais faziam era com ordem dele. É como os
advogados dizem: Quem faz algo através de outrem, fá-lo
por si.
692. A palavra Kabir talvez signifique “o mais velho”.
Contudo, no versículo 78 desta surata, acima, a palavra
em questão difere de Chaikh, e por isso nós traduzimos
uma como “respeitável” e a outra como “ancião”. No
versículo 71 da 20ª Surata, a palavra Kabir obviamente
significa “mestre” ou “chefe”, não mantendo nenhuma
relação com a idade. Portanto, traduzimos aqui por “chefe”,
ou seja, dentre eles, o irmão que tomava a parte mais ativa
naquelas transações. Seu nome não é mencionado no
Alcorão. O irmão mais velho chamava-se Rubem. Porém,
de acordo com a história bíblica, o irmão que tomou a parte
mais ativa naquelas transações foi Judá, um dos irmãos
mais velhos, sendo o quarto filho depois de Rubem,
Simeão e Levi, sendo, ainda, filho da mesma mãe destes.
Foi Judá quem deu o voto de confiança a Jacó, quanto a
Benjamim (Gênesis, 93:9). Portanto, é natural que Judá se
oferecesse, como aqui, para ficar para trás.
693. Jacó ficou positivamente estupefato com a história.
Ele conhecia muito bem o seu querido Benjamim, para que
pudesse acreditar que ele tinha roubado. Ele simplesmente
se recusava a acreditar naquela história, tachando-a de
“mal contada”, o que realmente era, embora não no
mesmo sentido pelo qual ele refutava os nove irmãos. Com
os olhos da fé ele via claramente a inocência de Benjamim,
embora não atinasse com todos os detalhes do que havia
acontecido.
694. A palavra, em árabe, é rauh, não ruh, como alguns
tradutores têm erroneamente interpretado. A palavra rauh
inclui a idéia de uma misericórdia que amaina ou acalma o
nosso estado de perturbação, e que, aqui, é especialmente
apropriada, partindo de Jacó.
695. José então desejava revelar-se e tocar as suas
consciências. Ele tão-somente tinha que relembrar-lhes os
verdadeiros fato, quanto ao trato com seu irmão José, que
eles pretendiam ter perdido. Ele ficou então ciente de que
Benjamim fora vítima de desconsideração e injustiças, e de
que também havia sofrido nas mãos deles, após a
proteção de José haver sido retirada dele e da casa. Não
havia, acaso, o próprio José visto que eles estavam muito
propensos a crer no pior e a respeito de Benjamim e a
dizer o pior de José? Todavia, José seria caridoso – não no
sentido que eles tomavam, ao pedir por uma caritativa
concessão de cereais, mas num sentido muitíssimo mais
altruístico. Ele os perdoaria e poria a mais caritativa
interpretação no que eles haviam feito – ou seja, que eles
não sabiam o que estavam fazendo!
696. Literalmente, “Sinto o odor, ou o ar, ou a atmosfera,
ou a respiração de José”, uma vez que a palavra rih possui
todos esses significados. Ou ainda, podemos traduzir:
“Sinto a presença de José no ar”.
697. Acabou-se a história; mas trata-se realmente de uma
história? Trata-se, outrossim, de um recital de forças e
intenções, de pensamentos e sentimentos, de implicações
e resultados, incomumente vistos pelos homens. Por mais
que eles concertem os seus planos e unam as suas forças,
sejam quão negros forem os complôs nos quais apoiem os
seus recursos, o plano de Deus funcionará
irresistivelmente, e se dissiparão todas as suas
maquinações. No fim, o bem triunfará, e nunca como a
gente planejou; o mal fica frustrado, e, freqüentemente, os
seus próprios complôs auxiliam o bem.
698. O Islam se apega ferrenhamente ao único fato central
do mundo espiritual – a unicidade de Deus, com toda a
realidade que emana d’Ele, e tão-somente d’Ele. Não pode
haver ninguém nem nada em competição com essa
exclusiva e única Realidade. Ela constitui a essência da
Verdade. Todas as outras idéias ou existências, incluindo a
nossa percepção do Ser, são meramente relativas – são
meramente projeções das maravilhosas faculdades que
Ele nos concedeu. Isto não é, para nós, simples hipótese.
Isso se encontra na mais recôndita experiência. No mundo
material diz-se que ver é crer. No nosso mundo interior,
este senso de Deus é tão claro como a visão do mundo
material. Portanto, Mohammad e todos aqueles que
realmente o seguiram, no mais verdadeiro senso terreno,
conclamam o mundo de que veja esta Verdade, sinta esta
experiência, siga este caminho.
699. Uma história como a de José não pode ser
meramente uma fábula imaginária. Os povos das
Escrituras têm-na em sua literatura sagrada. Aqui, ela é
confirmada em suas principais delineações, contendo,
porém, numa detalhada exposição espiritual que não é
encontrada em lugar algum das primitivas literaturas. A
exposição cobre todos os aspectos da vida humana. Se
adequadamente compreendida, ela fornece valiosas lições
de diretriz e conduta – uma instância da graça e
misericórdia de Deus para com as pessoas que se voltam
para Ele, e que Lhe depositam nas mãos os seus
assuntos.
700. Quanto às letras, Alef. Lam. Mim., ver a nota do
versículo 1 da 2ª Surata. Aqui nós não só levamos em
consideração o A (começo), o L (meio) e o M (fim) da
história espiritual do homem, como também o futuro
imediato do interior da nossa comunidade quando se
aproximava o fecho do período de Makka.
701. Achamos que isto se refira ao sexo das plantas,
porquanto temos visto outros assim traduzirem. As plantas,
como os animais, possuem seus aparelhos reprodutores –
as masculinas, estames, as femininas, pistilos. Na maioria
dos casos uma mesma flor combina tantos os estames;
como os pistilos, mas em alguns casos tais órgãos se
particularizados em flores distintas e, em alguns casos,
ainda, mesmo em árvores separadas. A tamareira da
Arábia e o mamoeiro da Índia são exemplos de árvores
frutíferas unissexuadas ou assexuadas.
702. Será que “sementes e diferentes” qualifica tanto as
“tamareiras”, como as “videiras”, e as “sementeiras”? esta
última qualificação é adotada pelos exegetas clássicos;
neste caso, a referência é o fato de que duas ou mais
palmeiras ocasionalmente crescem de uma raiz, ou que as
palmeiras às vezes crescem como árvores singelas e às
vezes em touceiras. Caso as duas primeiras qualificações
sejam adotadas, a referência seria ao fato de que as
tamareiras (e as palmeiras, generalizando), e algumas
outras plantas, crescem de uma singela raiz principal, ao
passo que a maioria das árvores crescem de um complexo
de raízes, que se encontram extensivamente espalhadas.
703. A tamareira, as espigas de grãos alimentícios e as
videiras, tudo é alimentado pela mesma espécie de água;
não obstante, quão diferentes são as colheitas que
proporcionam! E isso se aplica a toda vegetação. As frutas
e frutos são produzidos em várias formas, tamanhos,
cores, sabores etc., em infindáveis variedades.
704. A última sentença deste versículo tem sido
costumeiramente interpretada como significando que a
função do Mensageiro era meramente a de admoestar, e
que a diretriz era fornecida por Deus para todas as nações,
por meio de seus mensageiros. Achamos que a seguinte
interpretação é igualmente possível: “Constitui, por si só,
um Sinal, o fato de Mohammad admoestar e pregar, além
de apresentar o Alcorão, sendo que a diretriz que ele
proporciona é universal, como toda a que procede de
Deus”.
705. O útero feminino e das fêmeas constitui apenas um
exemplo, um tipo, de reserva extrema. Nem mesmo a
própria mulher ou fêmea sabe o que está em seu útero – se
se trata de um menino ou macho, de uma menina ou
fêmea, se se trata de um ou mais, de uma ou mais, se
nascerá no tempo certo, se antes do tempo, ou depois do
tempo. Todavia, as coisas mais ocultas e aparentemente
desconhecíveis são claras ao conhecimento de Deus.
Todas as coisas são regulamentadas por Deus, na justa
medida e justa proporção. A proposição geral está clara na
última sentença: “…e com Ele tudo tem sua medida
apropriada.”
706. Em árabe, um versículo de ritmo incomparável.
707. Aqui, então, encontra-se o clímax da resposta aos
sarcásticos desafios dos incrédulos quanto ao castigo, e
em uma linguagem de grande sublimação: por que
procurarmos o mal em vez do bem, o castigo em vez da
misericórdia, temermos a força e as chispas do relâmpago
em vez de esperarmos pela benevolência e abundância
das colheitas que a chuva proporcionará, chuva essa que
virá com nuvens que ocasionam o relâmpago?
708. Qual o quê, o próprio trovão que vos atemoriza nada
mais é do que uma força controlada e beneficiente perante
Ele, a qual proclama os Seus louvores, como o resto da
criação. De maneira que o trovão, adequadamente, dá
nome a esta surata de contrastes, em que se vê que o que
se nos apresenta terrível é, na verdade, um submisso
instrumento do bem nas mãos de Deus.
709. Este versículo é rico em parábolas: (1) é Deus Quem
envia a chuva, e a envia para todos. Vede como ela flui por
diferentes canais, de acordo com a capacidade destes. Em
alguns, de maneira morosa; em outros, em torrente. Alguns
formam grandes rios que irrigam grandes tratos de
território; alguns são regatos claros como cristal,
ribanceiras com leitos de pedregulhos, os quais podemos
ver através da água. Alguns rios produzem deliciosos
peixes comestíveis; outros são infestados de crocodilos e
monstros danosos. E há graus de rios, riachos, arroios,
lagos, lagoas, e mares. Assim é a chuva, que a
misericórdia, o reconhecimento, a sabedoria e a diretriz de
Deus envia. Todos podem recebê-la. Diferentes pessoas
reagem de acordo com as suas capacidades; (2) no mundo
material a água é pura e benéfica. Porém, a espuma e a
escória se formam, de acordo com as condições locais.
Assim como as enchentes levam embora as escórias e
purificam as águas, também a enchente da misericórdia
espiritual de Deus leva embora a nossa “escória” e purifica
as nossas “águas”;(3) a espuma talvez forme uma grande
mancha na água, mas desaparecerá. Porém, a Verdade de
Deus perdurará.
710. Nesta seção, o contraste entre a Fé/Retidão por um
lado, e a Infidelidade/Mal por outro, é estabelecido. O
homem reto é conhecido como aquele que (1) acata a
admoestação; (2) é verdadeiro para com os seus
compromissos; (3) segue a Religião Universal da Fé e da
prática, juntando-as; (4) é paciente e perseverante na
busca de Deus; e, quanto aos assuntos práticos, é
conhecido como sendo (5) regular na prática das orações;
(6) generoso na verdadeira caridade, seja ela aberta ou
secreta; e (7) não é vingativo, mas sim, está ansioso em
transformar o mal em bem, rompendo desse modo as
cadeias do mal, o qual pretende perpetuar-se.
711. As relações desta vida são efêmeras; mas o amor, em
retidão, é perene. No eterno Jardim da Bem-aventurança
os virtuosos serão reunidos com todos aqueles que lhes
foram caros e achegados, a quem eles amaram, bastando
para isso tão-somente que também tenham sido virtuosos,
porquanto na eternidade nada mais conta. Relações
consangüíneas e matrimoniais criam certos laços físicos
nesta vida, que poderão levar tanto ao bem como
possivelmente ao mal. Todo mal material passará;
entretanto, o bem se evidenciará com um novo significado,
no reconhecimento final. Assim, antepassados e
descendentes, esposos e esposas, irmãos e irmãs
(porquanto o termo zurriyat inclui todos eles), cujo amor
era puro e santificado, encontrarão uma nova bemaventurança
na perfeição do seu amor, e verão um novo e
místico significado nos antigos e efêmeros laços.
712. Em relação aos outros profetas, o nosso Profeta veio
mais tarde no tempo, a fim de lhes completar a Mensagem
e universalizar a Religião. E, decididamente, foi depois da
era dele que o processo de unificação do mundo se iniciou.
O processo ainda não está completo, mas está andando a
passos largos.
713. Que os incrédulos não pensem que, se prosperarem
por um certo tempo, isso será o fim da questão. Eles serão
admoestados acerca de três coisas: (1) seus malfeitos
deverá portar conseqüências malignas para eles, todo o
sempre, embora por um certo tempo eles não o percebam;
(2) seus lares, seus locais de afluência, os círculos nos
quais se movimentam, serão também atingidos pelas suas
más ações e respectivas conseqüências. Porque o mal faz
do seu ambiente um complexo. Quando as muralhas de
Jericó caírem, deverão trazer toda a Jericó em suas ruínas;
(3) o Desastre primordial, o Reconhecimento final deverá
vir, porquanto Deus jamais falha em Sua promessa. Os
verdadeiros valores deverão ser restabelecidos: o bem
com o bem, o mal com o mal. Os exegetas extraem
ilustrações da vida do Mensageiro quanto ao exílio que
obteve em Madina, em sua restauração. Milagres
semelhantes acontecem em toda a história. Porém, o
comando pertence a Deus.
714. O Alcorão é escrito em árabe; portanto, os árabes,
entre os quais ele foi promulgado, não deveriam ter
dificuldades em entender os seu preceitos e usá-los para
julga o que é de caráter universal, e ninguém deveria dar
preferência às suas fantasias, em detrimento desta
Declaração autorizada.
715. Todos os mensageiros de quem temos qualquer
conhecimento detalhado, com exceção de um, tiveram
esposas e filhos. A exceção é concernente a Jesus, o filho
de Maria. Porém, sua vida apostolar foi incompleta; seu
sacerdócio durou escassamente três anos; sua missão foi
limitada, sendo que ele não foi convocado a lidar com
problemas multilaterais, que avultam numa sociedade ou
Estado organizado. Nós devotamos igual respeito a ele,
porque ele foi um Mensageiro de Deus, mas não há que
presumir que a sua mensagem cubra o mesmo âmbito
universal da de Mohammad. Não haverá reprovação
quanto a um ser humano comum, desde que ele viva uma
vida humana normal; haverá, sim, glória, se ele magnificar
e estabelecer exemplos de virtude, mais nobres que os dos
outros homens, como fez Mohammad.
716. Um-mul-quitab = Livro-matriz; a fundação original de
toda a revelação; a Essência da Vontade e da Lei de Deus.
Comparar com o versículo 7 da 3ª Surata, e respectiva
nota.
717. Ver a nota do versículo 1 da 2ª Surata.
718. Os incrédulos estão aqui caracterizados de três
maneira: (1) eles adoram esta vida efêmera, com as suas
vaidades, mais do que a Verdadeira Vida, que perdurará
por toda a Eternidade; (2) eles não apenas causam dano a
si mesmos, mas ainda desviam outros; (3) as suas mentes
distorcidas procuram por algo distorcido na Senda reta de
Deus (comparar com o versículo 45 da 7ª Surata). Todavia,
agindo assim, eles se distanciam cada vez mais da
Verdade.
719. “Os dias de Deus”: os dias em que a misericórdia de
Deus lhes será mostrada de modo especial. A cada dia, a
cada hora, a cada minuto, a Graça de Deus flui
abundantemente até nós; porém, há eventos na história
pessoal ou coletiva em que os Dias devem ser marcados a
vermelho. Para os israelitas, tais Dias foram estabelecidos
com grande detalhes nos versículos 30-61 da 2ª Surata, e
em outros locais.
720. Mesmo os nomes de todos os profetas não são
conhecidos dos homens; muito menos os detalhes de suas
histórias. Se algumas “notícias” (porquanto a palavra
traduzida por “história” deve também ser traduzida por
“notícia”) chegam até nós, é para fornecerem instruções
espirituais para as nossas vidas.
721. Comparar com o versículo 62 da 11ª Surata. A
distinção entre as palavras Chac e raib deve ser notada.
Chac trata de uma dúvida intelectual, uma dúvida quanto
ao falo: “É assim, ou não?” Raib trata de algo mais
consistente do que nossa crença moral, além de nos
causar uma inquietação na alma. No versículo 30 da 52ª
Surata, ela é usada como equivalente a “calamidade” ou
“desastre”, ou algum castigo ou mal. Ambas as espécies
de dúvidas são insinuadas contra os diletos de Deus.
722. Eis aqui uma figura gráfica e dissuasiva da pregação
dos primeiros profetas em relação aos desatenuantes
horrores dos tormentos do inferno. Mesmo a válvula de
escape do “aniquilamento” está fechada para os iníquos.
723. Quando a hora do julgamento vier, haverá duas
espécies de desilusões à espera dos ímpios: (1) aqueles
que foram desviados e fracassaram em ver que cada alma
tem a sua responsabilidade pessoal (versículo 134 da 2ª
Surata), e não pode descarregá-la sobre outrem, voltar-se-
ão para aqueles que os desviaram, na expectativa de que
estes intercedam por eles ou façam algo para os ajudar.
Eles recebem uma resposta manifesta como na última
parte deste versículo; (2) aqueles que se colocaram ao
lado de Satanás, o Poder do Mal. A resposta deste (no
versículo 22 desta surata, acima) é direta, cínica e brutal.
724. A árvore nobre é conhecida por: (1) sua beleza; ela
proporciona prazer a todos os que a vêem; (2) sua
estabilidade; ela permanece firme e inabalável nas
tormentas, porque as suas raízes estão firmemente fixas
na terra; (3) sua ampla copa; seus galhos altaneiros
absorvem todo o sol, proporcionando sobra para
incontáveis pássaros, animais e homens, que se abrigam
sob ela; (4) os frutos abundantes que ela dá
constantemente. Assim é a Boa Palavra. Ela é tão
magnífica quanto a verdadeira. Ela perdura em todos os
cambiantes e contingências desta vida, e mesmo depois
dela (ver versículo 27, acima), jamais é abalada por
pesares, ou pelo que nos parecem calamidades; suas
“fundações” estão profundamente enterradas nos
consistentes fatos da vida. Seu alcance é universal, está
por cima, em torno e por baixo; é iluminada pela Luz divina
do céu, e o consolo que proporciona alcança
incomparáveis seres, de todos os graus da vida. Seus
frutos – as alegrias das suas bênçãos – não se restringem a
uma estação ou a um conjunto de circunstâncias;
outrossim, o afortunado que constitui o veículo dessa
Palavra não possui orgulho; ele atribui à Vontade e Vênia
de Deus, toda a sua bondade e o seu ato de disseminar
essa bondade.
725. Há, aqui, um significado particular e um geral. O
significado particular é compreendido como uma referência
aos idólatras de Makka, que transformaram a Casa de
Deus num local de adoração a ídolos horríveis, e de
práticas de inusitados rituais e cultos. Realmente, não há
dificuldade alguma em aceitar isto como constituindo parte
de uma Surata anterior revelada em Makka, mesmo sem
supor que se trate de uma profecia. Os idólatras de Makka
transformaram a Religião em uma superstição blasfema,
resultando que desvirtuaram o seu povo e perseguiram o
verdadeiro Mensageiro de Deus, e todos aqueles que lhe
seguiam os ensinamentos. A sua taça de iniqüidade
parecia quase cheia, e eles estavam caminhando para a
perdição, como os acontecimentos posteriores mostraram.
726. Se nos colocarmos na posição em que a comunidade
muçulmana se encontrava em Makka, pouco antes da
Hégira, poderemos imaginar o quanto eles necessitavam
de encorajamento e consolo, os quais provinham das
pregações, da fé e da firmeza de caráter de Mohammad.
Uma perseguição intolerante era a ordem do dia; nem a
vida, nem as propriedades ou reputações do muçulmanos
estavam seguras. Era-lhes pedido que buscassem
revigoramento e tranqüilidade nas orações e na ajuda
mútua, de acordo com as suas necessidades e recursos.
727. Aqui, como em outros lugares, deve-se dar à palavra
“agraciar” os sentimentos literal e metafórico. Entre os
muçulmanos havia muitos pobres, ou escravos, ou
deprimidos, e que eram desprovidos de meios de
subsistência por causa das suas crenças. Eles tinham de
ser alimentados, vestidos e abrigados por aqueles que
possuíssem meios para isso. Havia ignorantes que
precisavam de apoio espiritual; tinham de ser revigorizados
por aqueles a quem Deus havia dispensado sabedoria e
firmeza de caráter. Comumente, a caridade tinha de ser
secreta, para que se evitassem as ostentações e
especulações, ou, talvez para que o inimigo não pudesse
minar tais recursos, através de sórdida violência; porém,
deveria ter havido mais expedientes abertos ou
organizados, a fim de que todos os necessitados a eles
pudessem recorrer, para que pudessem ser aliviados.
728. O sol desprende calor, que á fonte de toda a vida e
energia neste planeta; o sol, dada a inclinação do eixo da
Terra, produz as estações do ano, fazendo com que o
homem supra as suas necessidades, não apenas materiais
como também imateriais, na forma de luz, saúde e outras
bênçãos. O sol e a lua, juntos, provocam as marés, cosia
que é de grande importância na vida de homem. A
sucessão do Dia e da Noite é devida ao aparente percurso
diário do sol através do céu. Pelo fato de haver leis aqui,
que o homem pode entender e calcular, ele está apto a
usar todas estas coisas para os seus próprios serviços,
sendo que, nesse sentido, os corpos celestes ficam
submetidos a ele, pela ordem de Deus.
729. O vale de Makka é rodeado de montes por todos os
lados, ao contrário de Madina, que possui planuras
niveladas e cultivadas. Porém, por causa do seu
isolamento natural, é próprio para ser o centro de Oração e
Louvação.
730. Abraão contava 100 anos quando Isaac nasceu
(Gênesis 21:5); e como Ismael contasse 13 anos quando
Abraão contava 99 (Gênesis 17:24-25), foi também um
filho na idade avançada de seu pai, tendo nascido quando
Abraão estava com 86 anos de idade. A progênie do filho
mais moço desenvolveu a Fé de Israel e a de Cristo; a
progênie do mais velho aperfeiçoou a universalíssima Fé
do Islam, a Fé de Abraão, o Veraz.
731. Meus pais. O pai de Abraão foi um idólatra (versículos
74 da 6ª Surata e 26 da 43ª Surata). Não apenas isso, mas
também perseguiu a Fé da Unidade e ameaçou Abraão
com o apedrejamento e o exílio (versículo 46 da 19ª
Surata); e ele e seu povo arrojaram-no ao fogo, para que
fosse queimado (versículos 52 e 68 da 21ª Surata).
Contudo, o coração de Abraão era terno, e ele suplicava
por perdão para o seu pai, por causa de uma promessa
que havia feito (versículo 114 da 9ª Surata), embora
houvesse renunciado à terra de seus pais (Caldéia).
732. A expressão “trocada por outra, como também os
céus”, refere-se à completa mudança de condições, no
final, das coisas como as conhecemos agora, para que
tão-somente possamos ter o novo mundo, o qual é-nos
descrito por meio de símbolos e metáforas nos versículos
seguintes; e ao mundo espiritual das mudanças de valores,
mesmo com o passar do tempo, para que o julgamento do
homem comece gradativamente a surtir efeito, mesmo
enquanto ele se encontre extremamente no mundo de
fenômenos; porque, em seu ser interior, ele estará
experimentando os efeitos, bons ou maus, da sua conduta
na terra. No último caso, também, a sua experiência
mística somente pode ser descrita por símbolos.
733. Ver a nota do versículo 1 da 10ª Surata.
734. Mohammad foi acusado, pelos ímpios, de ser louco
ou estar possesso, porque falava de coisas mais elevadas
do que eles podiam conhecer. Assim, em um grau menor,
se dá com todos os virtuosos na presença de um mundo
ímpio. Seus motivos, suas ações, suas palavras, suas
esperanças e aspirações são ininteligíveis para os seus
confrades, e eles são acusados de serem loucos ou de
estarem privados das suas faculdades. Mas eles sabem
que estão no caminho reto, e que são os ímpios que,
realmente, estão agindo contra os seus próprios e
melhores interesses.
735. A pureza do texto do Alcorão, através de quatorze
séculos, constitui a prelibação do desvelo eterno com o
qual a Verdade de Deus é guardada por todas as eras.
Toda a corrupção, a invencionice e a criação passarão,
mas a Verdade pura e santa de Deus jamais será
eclipsada, muito embora o mundo inteiro zombe dela, e
diligencie no sentido de destruí-la.
736. Quando atentamos para os incontáveis milhões de
astros, no universo visto por nós, o primeiro
comportamento em nosso conhecimento astronômico é
encontrar a maravilhosa ordenação, a beleza e harmonia,
numa escala de grandiosidade que cada vez mais nós
apreciamos, à medida em que o nosso conhecimento
aumenta. O primeiro grande cinturão que distinguimos é o
Zodíaco. Cada uma marca o caminho solar através dos
céus, ano após ano, bem como o limite do curso errático
dos planetas. Nós fazemos doze divisões dele, e as
denominamos Signos do Zodíaco. Cada uma marca o
caminho solar através dos céus, como vemos, mês após
mês. Nós podemos destacar as estações em nosso
sistema solar, e expressar, em leis definidas, os mais
importantes fatos da meteorologia, da agricultura, os
ventos estacionais e as marés. Há, então, as casas da lua,
o cartograma das Constelações, e outros fatos dos céus,
alguns dos quais afetam a nossa vida física, nesta terra.
Contudo, as lições mais elevadas que podemos tirar deles
são as espirituais. O autor desta maravilhosa Ordenação e
Beleza é Um. Ele, e tão-somente Ele é digno de nossa
adoração.
737. Quanto aos céus materiais, podemos imaginar a
suprema melodia ou harmonia – a Música das Esferas –
salvaguardada de toda e qualquer força perturbadora. Se,
por acaso, uma força rebelde do mal procurar obter
furtivamente um som daquela harmonia, será perseguida
por um meteoro, uma vez que não há consonância entre o
bem e o mal.
738. Todas as maravilhosas dádivas, forças e energias que
vemos no mundo, em torno de nós, têm as suas fontes e
os seus mananciais de Deus, o Criador e o Sustentador do
Universo. E aquilo que vemos ou percebemos ou
imaginamos é apenas uma pequena porção do que na
realidade existe.
739. Aparentemente, a arrogância de Iblis tinha dois
pretextos: (1) o de que o homem havia sido feito de argila,
ao passo que ele havia sido feito do fogo; (2) o de que ele
não desejava fazer o que os outros faziam. Ambos os
pretextos eram falsos: (1) porque o homem tinha o espírito
de Deus alentado nele; (2) porque o desprezo, em relação
aos anjos que obedeciam à palavra de Deus, não mostrava
a superioridade de Iblis, mas sim a sua inferioridade. A
palavra bachar, designando “ser humano” (versículo 33)
sugere um grande corpo físico.
740. Aghwaitani: Tiraste-me do caminho, colocaste no erro.
Comparar com o versículo 16 da 7ª Surata. Satã, como
poder do mal que é, não pode ver veraz, nem mesmo na
presença de Deus. Por sua própria arrogância e rebeldia
ele caiu; e atribui isso a Deus. Entre o julgamento criterioso
de Deus e as armadilhas e tentações de Satã não pode
haver a mais remota comparação.
741. Ser o indivíduo sincero no culto a Deus significa estar
propenso à purificação de toda a mácula do mal, bem
como a isenção de toda a influência dele. Isso muda toda a
natureza do homem. Depois disso o mal não pode atingi-lo.
O mal se aperceberá de que ele está além do seu poder, e
nem mesmo o tentará. Sem mencionar essas almas
purificadas, todo aquele que adora a Deus faz o convite
para que Sua graça o proteja. Porém, se ele se coloca no
caminho errado e deliberadamente escolhe o mal, deve
arcar com as conseqüências. A culpa não recairá nem
mesmo sobre Satanás, o poder do mal; é o próprio
pecador quem se coloca no poder dele.
742. Os corações e as mentes estarão tão purificados, que
todos os rancores, ciúmes, ou sensos de injúria passados
ficarão obliterados. A verdadeira Irmandade será
estabelecida num lugar onde cada um terá a sua própria
dignidade; não haverá questionamento algum de
comparações invejosas; cada um olhará para o outro com
alegria e confiança. Não haverá sentimento algum de
porfia ou estafa, e a alegria durará para sempre.
743. Para um homem sem prole e com idade já avançada,
o nascimento de um filho, por si só, constitui uma boa
nova; porém, o nascimento de um filho que fosse dotado
de sapiência prometia algo infinitamente mais consistente.
Considerando-se que os anjos eram mensageiros divinos,
a referia sapiência era divina, e o evento tornou-se de
importância primordial para a história do mundo religioso.
Porque Abraão tornou-se, através de sua progênie, a raiz
das três grandes religiões universais, espalhadas pelo
mundo.
744. As cidades da Planície, em torno do Mar Morto, que
até hoje é chamado de Bahr Lut. Elas se deram a
inenarráveis abominações. A este respeito ver os
versículos 77-83 da 11ª Surata.
745. As cidades do Sodoma e Gomorra foram totalmente
destruídas, sendo que as suas posições precisas não
podem ser identificadas. Contudo, a planície contendo
enxofre, naquela parte do território, ainda existe, bem na
estrada entre a Arábia e a Síria.
746. “Os habitantes da floresta”: ashab ul aicati. Ademais,
talvez aica seja um nome próprio, o nome de uma cidade
ou território. Quem eram os habitantes da floresta? São
mencionados quatro vezes no Alcorão, a saber: nos
versículos 176 a 191 da 26ª Surata, no versículo 13 da 38ª
Surata, e no versículo 14 da 50ª Surata. A única passagem
com detalhes é a fornecida nos versículos 176 a 191 da
26ª Surata. Aí é-nos dito que o seu Profeta era Xuaib. Os
outros detalhes fornecidos correspondem ao povo de
Madian, a quem Xuaib foi enviado como mensageiro.
747. “Alhijr” é sem dúvida um nome geográfico. Nos mapas
da Arábia será encontrado um trato de território
denominado Hijr, ao norte de Madina. Jabal Hijr fica a
cerca de 240 km ao norte de Madina. O trato de território
nasceria na estrada para a Síria. Esse seira o país de
Samud. Quanto a esse país e seus habitantes, ver o
versículo 73 da 7ª Surata, e respectiva nota.
748. Os resquícios desses edifícios de pedra, em Hijr,
ainda são encontrados, e a cidade de Petra não fica a mais
de 600 km de distância de Jabal Hijr. Ver a nota do
versículo 73 da 7ª Surata. “Petra”, em grego, significa
“Rocha”.
749. Os sete versículos reiterativos são usualmente
compreendidos como sendo a Surata de Abertura, Alfátiha.
Eles sumariam todo o ensinamento do Alcorão. Que dádiva
poderá ser a mais preciosa para o muçulmano, do que o
glorioso Alcorão ou quaisquer das suas suratas? A riqueza,
a honra, as posses terrenas, ou qualquer coisa mais,
desaparecem na insignificância, em comparação a ele.
750. A metáfora refere-se a uma ave que abre as suas
asas em terna solicitude para com a sua ninhada.
Comparar com o versículo 24 da 17ª Surata, onde a
metáfora é aplicada a “abaixar as asas” para os pais
idosos.
751. Os exegetas diferem à precisa significação dos
versículos 90-91. Serão as pessoas citadas nos dois
versículos as mesmas, ou diferentes? Em quem são elas?
Nós adotamos o ponto de vista, para o qual há muita
autoridade, de que as duas classes de pessoas eram
diferentes, porém semelhantes. O versículo 90, achamos,
refere-se aos judeus e cristãos, os quais tiraram as
Escrituras o que lhes foi conveniente, e ignoraram e
rejeitaram o resto (versículos 85 e 101 da 2ª Surata).
752. Os idólatras de Makka, nos primórdios do Islam, a fim
de desvirtuarem e ridicularizarem o Alcorão, dividiam em
partes o que havia sido revelado, e as repartiam com as
pessoas que iam a Makka para a peregrinação, por
diferentes vias, difamando e injuriando o Mensageiro de
Deus.
753. Ou seja, a morte.
754. Isto constitui uma resposta ao escárnio dos idólatras,
que disseram: “Se é eu há um Deus, o Único e Verdadeiro
Deus, como tu dizes, com controle unificado, por que Ele
não castiga os malfeitores de uma vez?” A resposta é: “O
decreto de Deus cumprir-se-á inevitavelmente; chegará
suficientemente cedo; quando chegar, vós desejareis que
ele seja adiado; quão tolo de vossa parte quererdes
mesmo cortar o vosso último fio de esperança de perdão!”
755. Se examinarmos a história dos transportes,
constataremos que tem havido grandes mudanças através
das eras; desde os rudes animais de carga até aos mais
finos equipamentos, depois até os dispositivos mecânicos,
aos meios de transporte elegantes como carruagens,
bondes, trens, aos utilíssimos caminhões, carros Rolls
Royce, aeronaves e aeroplanos de todas as espécies.
Porém, não devemos supro que o limite tenha sido
alcançado ainda, e que ainda será num tempo futuro. É por
meio da mente e da genialidade do homem que Deus cria
as novas coisas, até então desconhecidas para ele.
756. Não procede assim, para que os humanos tenham
oportunidade de escolher entre os caminhos do bem e do
mal.
757. A noite e o dia são causados por rotações planetárias.
Ou mais importante, para os humanos, é notarem como
Deus lhes deu inteligência, para que fizessem uso dessa
alternação, para descansarem e trabalharem; como o
homem, ao sair do estado primitivo, pôde balancear a
desigualdade do dia e da noite, por meio de iluminação
artificial, com óleos vegetais ou minerais, carvão, gás, ou
eletricidade, que são primordialmente provenientes da
energia do sol armazenada; como o calor do sol pôde ser
temperado pelos vários meios artificiais, e armazenado
para o uso, conforme o homem o desejasse; como o
homem pôde desembaraçar-se das marés causadas pela
lua e pelo sol, que antes ofereciam obstáculos à
navegação, mas que não mais se colocavam no caminho
dele; como a navegação, antes estava sujeita à
observação direta da Estrela Polar e de outras, mas como
a bússola e as cartas geográficas alteraram, então,
completamente a situação, de maneira que o sul, a lua e
as estrelas se tornaram servos úteis do homem e para o
homem, tudo pela dádiva de Deus e por Seu comando,
sem o que não haveria leis que governassem os astros,
nem tampouco inteligências que fizessem uso deles.
758. Os apreciadores sabem dos delicados sabores dos
peixes do mar, tais como o arenque do Atlântico Norte, o
salmoneto dos mares de Marselha, e muitas outras
espécies. A palavra Tari, traduzida por “fresca”, refere-se
também à natureza macia e hidratante do peixe fresco.
Constitui um outro portento de Deus o fato de que a água
salgada possa produzir esse sabor fresco, terno e
delicado.
759. Deus é o único Criador e a única Realidade
Primordial. Tudo o mais é criado por Ele, e reflete a Sua
glória. Quão tolo é, então, adorarmos a qualquer outro que
não seja Deus!
760. O mal sempre tramará insurreições contra os diletos
de Deus. Assim foi com Mohammad, assim foi com os
mensageiros antes dele. Porém, as imponentes estruturas
que os ímpios constróem (metaforicamente) ruem, por
ordem de Deus, e eles são castigados com punições
vindas dos redutos dos quais menos esperavam punição.
Por exemplo, os coraixitas estavam confiantes em sua
superioridade numérica, em sua organização, e em seu
equipamento superior. Contudo, no campo de Badr, onde
esperavam a vitória, encontraram a derrota.
761. “Estado de pureza”; divorciados dos males deste
mundo, da carência de fé e de graça. A pureza, quanto a
tais males, constitui a marca do verdadeiro Islam,
acontecendo com aqueles que morrem com tal pureza são
recebidos na Felicidade, com a saudação da Paz.
762. Isto é, até que a morte lhes ocorra, ou ocorra algum
castigo nesta mesma vida, coisa que os impossibilite do
arrependimento e, consequentemente, da Graça de Deus.
763. Os árabes idólatras prescreviam várias proibições
arbitrárias quanto à questão da carne; ver os versículos
143-145 da 6ª Surata. Estas, certamente, não são
reconhecidas pelo Islam, o qual ainda retirou algumas das
restrições da lei judaica (versículo 146 da 6ª Surata). O
significado geral, contudo, é bem mais amplo. Os homens
constróem as suas próprias injunções e proibições,
barreiras e restrições, e as atribuem à Religião. Isto
constitui um erro, e é mais consistente com as práticas
idólatras do que com o Islam.
764. Muito embora os Sinais de Deus estejam em toda
parte, na natureza e na própria consciência dos homens,
assim mesmo, em adição, Deus tem enviado Mensageiros
a todos os povos, para os chamar à atenção quanto ao
bem, e fazer com que abandonem o mal. Assim, eles não
podem fingir que Deus os abandonou, ou que Ele não Se
importa com o que eles fazem. A sua Graça divina sempre
os exorta a que escolham o certo.
765. A “Palavra” de Deus é por só o Feito. A “Promessa”
de Deis é por si só a Verdade. Na há interposição alguma
de tempo ou condição entre a Sua Vontade e as suas
conseqüências, porquanto Ele constitui a Realidade
Primordial. Deus é independente das causas próximas ou
materiais, porquanto Ele Próprio as cria, estabelecendolhes
as Leis, como Lhe apraz.
766. Tomamos a palavra “coisas”, aqui, como se tratando
de inanimadas, porquanto o versículo seguinte fala de
criaturas “viventes” e de anjos. Metaforicamente mesmo as
coisas inanimadas reconhecem Deus, e humildemente O
cultuam. Até as sombras que essas coisas projetam se
movem da esquerda para a direita, de acordo com a luz
vinda de cima, e humildemente se prostram no chão, para
louvar Deus. As “sombras” sugerem que todas as coisas
desta vida são meras sombras da verdadeira Realidade
dos céus; e elas giram e se movimentas, de acordo com a
divina luz, como as sombras das árvores e dos edifícios,
que se movem de uma direção para outra, e se alongam
ou encurta, de acordo com a luz vinda do céu.
767. Os persas antigos acreditavam em duas forças no
Universo, sendo uma boa e outra má; os árabes idólatras
tinham também um par de deidades: Jibit (bruxaria), e
Tagut (o Mal), a que se refere o versículo 51 da 4ª Surata,
e respectiva nota, ou os ídolos Assafa e Almárwa, a que se
refere o versículo 158 da 2ª Surata, e respectiva nota; seus
nomes eram Is’af e Naila.
768. Os idólatras talvez possuíssem um lampejo do Único
e Verdadeiro Deus, mas possuíam também um temor
mórbido das malévolas Forças do Mal. É-lhes dito que tais
temores são infundados. O mal não tem poder sobre
aqueles que confiam no Senhor (versículo 42 da 15 ª
Surata). O único temor que deveriam ter é o da ira de
Deus. Para os virtuosos todas as coisas provêm d’Ele, e
não possuem medo em seus corações.
769. Alguns dos árabes idólatras chamavam os anjos de
as filhas de Deus. Em suas próprias vidas eles odiavam ter
filhas, como é explicado nos dois versículos seguintes.
Praticavam o infanticídio feminino. Em seu estado de
permanente guerra, os filhos constituíam uma fonte de
reforço para eles, ao passo que as filhas tornavam-nos
sujeitos a humilhantes incursões!
770. O decreto de Deus funciona sem falhar. Se Ele fosse
punir por cada erro ou deficiência, nenhuma simples
criatura vivente escaparia à Sua punição. Porém, em Sua
infinita misericórdia e indulgência, Ele concede um prazo;
Ele concede tempo para o arrependimento. Caso o
arrependimento se faça presente, a misericórdia de Deus
também se faz presente, sem falta. Caso contrário, a
punição se fará inevitavelmente presente, na expiração do
Termo. O pecador não pode antecipá-la por desafios
insolentes, nem tampouco poderá retardá-la, quando ela
chegar. Que ele não pense que o prazo que lhe foi
concedido quer dizer que poderá fazer o que quiser, e que
poderá escapar ileso das conseqüências.
771. O leite é uma secreção do corpo das fêmeas, tal qual
outras secreções, porém, bem mais especializada. Não é
maravilhoso o fato de que a mesma alimentação,
absorvida por machos e fêmeas, produza nestas, quanto
as crias, o integral e completo alimento, conhecido por
leite? Então, quando o gado é domesticado e
especialmente criado para produzir leite, o suprimento
desse alimento é bem maior do que o necessário para os
seus filhotes, e dura por um tempo maior do que aquele
em que lhes é de mamar. E note-se que ele constitui uma
dieta integral e agradável para o homem. É puro, como o
caracteriza a sua brancura. Contudo, trata-se de uma
secreção como qualquer outra, que flui por entre as
excreções que o corpo rejeita (por inúteis) e a preciosa
corrente sangüínea que circula pelo corpo; e é o símbolo
da própria vida para o animal que a produz.
772. Existem bebidas e comidas saudáveis, que podem ser
conseguidas da tamareira e da videira, como por exemplo,
bebidas sem álcool da tâmara e da uva, o vinagre, os
açúcares da tâmara e da uva; e as próprias tâmaras e
uvas. Se a palavra sácar for tomada com sentido de vinho
fermentado, ela deverá referir-se ao tempo em que as
bebidas inebriantes não haviam sido proibidas; esta é uma
Surata revelada em Makka, e a proibição deu-se em
Madina.
773. A palavra Auha, comumente, significa inspiração, a
Mensagem colocada na mente ou no coração, por Deus.
Aqui, o instinto da abelha refere-se aos ensinamentos de
Deus, coisa que indubitavelmente é. No versículo 5 da 99ª
Surata, ela é aplicada à terra; discutiremos o significado
preciso quando chegarmos àquela passagem. O próprio
favo de mel, com as suas células hexagonais
geometricamente perfeitas, constitui uma estrutura
portentosa, sendo adequadamente denominado buiut –
lares. E o modo como as abelhas encontram locais
inacessíveis nos montes, nas árvores, e mesmo entre as
habitações humanas, é uma das maravilhas da natureza,
isto é, a obra de Deus na Sua Criação.
774. A abelha assimila o pólen de várias espécies de flores
e frutos, e forma em seu corpo o mel, que armazena nas
células de cera. As diferentes espécies de alimentação,
das quais ela faz o seu mel, causam as diferentes cores do
mesmo; ele pode ser marrom escuro, marrom claro,
amarelo, branco etc.. O gosto e o aroma também variam,
como no caso do mel de urze, do mel de flores odoríferas
etc.. Como alimento, é doce e saudável, sendo
amplamente usado como remédio. Note-se que, conquanto
os atos individuais instintivos estejam descritos no singular,
os produtos de “seus abdomens” estão descritos no plural,
como resultado dos seus esforços coletivos.
775. “De vossa espécie”, ou de vós mesmos. Ser,
personalidade, ou alma, tudo isso implica num feixe de
atributos, capacidade, predileções e disposições, que
podemos sintetizar na palavra Nafs, ou natureza. A mulher
foi feita: (1) parceira e companheira do homem; (2) a não
ser pelo sexo, é da mesma natureza do homem e,
portanto, com os mesmos direitos e deveres morais e
religiosos; e (3) não considerada como fonte de todo o mal
ou pecado, como os monges cristãos a caracterizavam,
outrossim como uma bênção, como um dos favores de
Deus.
776. A primeira parábola é a de dois homens, um dos
quais é um escravo, completamente sob o domínio de
outrem, sem poderes de qualquer espécie, tratando-se, o
outro, de um homem livre, de tal maneira dotado, que é
generosíssimo em dar a sua opulenta riqueza (tanto
tangível como intangível), privativa e publicamente, sem
empecilho ou obstáculo; porque ele é auto-suficiente, sem
ter que prestar contas a ninguém. O primeiro é como os
deuses imaginários, que os homens estabeleceram, quer
se trate das forças da natureza, que não têm existência
independente, mas constituem manifestações de Deus,
quer se trate de heróis ou homens deificados, que nada
podem fazer com as suas autoridades, mas que estão
sujeitos à Vontade e ao Poder de Deus; o segundo
caracteriza, de modo justo, a posição de Deus, o AutoSubsistente,
a Quem pertence o domínio de tudo o que
existe nos céus e na terra, o Qual concede gratuitamente
as Suas dádivas e todas as Suas criaturas. Na segunda
parábola, um dos homens é mudo; ele nada pode explicar
e, certamente, nada pode fazer; ele constitui um fardo para
o seu amo, no que quer que seja que este lhe mande
fazer; ou pode ocorrer que ele seja realmente mais danoso
do que útil; tais são os ídolos (literal ou metaforicamente),
quando tomados como falsos deuses. O outro está em
posição de mando e ordena o que é justo e correto.
777. A referência imediata poderá não ser quanto ao
juramento de fidelidade feito ao Profeta, tomado por este
em Ácaba, 14 meses antes da Hégira, e repetido um pouco
mais tarde; ver o versículo 8 da 5ª Surata, e respectiva
nota. Contudo, o significado geral é muitíssimo mais
amplo. Isto deve ser visto sob dois aspectos: (1) todo
juramento feito ou compromisso assumido constitui um
pacto perante Deus, devendo ser fielmente observado.
Nisto, ele se aproxima do significado do versículo 1 da 5ª
Surata; (2) de modo particular, todos os muçulmanos, pela
profissão de sua Fé, assuem um compromisso com Deus,
compromisso esse que eles confirmam cada vez que
repetem essa profissão. Por conseguinte, eles devem
observar fielmente os deveres que lhes foram impostos
pelo Islam.
778. Não façais da vossa religião um mero instrumento
para tornardes a vossa facção numericamente mais forte,
guarnecendo-a pelos pactos que estareis ávidos em
quebrar, quando um grupo mais numeroso oferecer a sua
adesão. Os coraixitas estavam entregues a esse vício; e
hoje em dia, na política internacional, isto parece quase
constituir um padrão de dignidade e de tirocínio
internacional. O Islam ensina as nobres normas de ética
aos indivíduos e às nações. Um pacto deve ser
considerado como uma coisa solene, e não deve ser feito
sem a mais sincera das intenções de cumpri-lo; ele deve
ser obrigatório, ainda que um grande número de pessoas
cerre fileiras contra isso.
779. Trata-se do título do Anjo Gabriel, por meio de quem a
mensagem foi dada a conhecer.
780. Os idólatras, bem como aqueles que eram hostis à
revelação de Deus, no Islam, não podiam entender, como
ainda hoje não entendem, como tais palavras maravilhosas
pudessem cair na boca do Profeta. Mesmo o mais
eloqüente dos árabes não podia, como ainda hoje não
pode, produzir algo com eloqüência, a amplitude e a
profundidade dos ensinamentos alcorânicos, como é
evidenciado em todos os versículos do Livro.
781. A exceção refere-se a casos com o de Ammar, cujo
pai, Iasis e a mãe Sumaiya, foram objetos de inenarráveis
torturas por sua crença no Islam, mas que jamais se
retrataram. O próprio Ammar era de idade imatura e, com a
mente voltada para o sofrimento dos pais, proferiu umas
palavras interpretadas como retratação, embora o seu
coração jamais retrocedesse, voltando de pronto ao
Profeta, que o consolou em sua dor e o revigorou em sua
fé.
782. Achamos que este versículo se refira os homens que,
originariamente, estavam com os idólatras, mas que depois
passaram para o Islam, sofreram asperezas e exílio, e
combateram e porfiaram pela Causa, com paciência e
constância. Suas ações passadas seriam esquecidas e
perdoadas. Homens como Khalid Ibn Alwalid, e outros,
foram contados entre os mais destacados heróis do Islam.
783. A referência talvez seja a qualquer uma das cidades
ou populações dos tempos antigos, que se rebelaram
quanto à lei de Deus, resultando-lhes o castigo inevitável,
mesmo em meio a suas iniqüidades. Alguns exegetas
vêem aqui uma referência à cidade de Makka, sob o
controle dos idólatras.
784. O Evangelho da Unidade tem sido a pedra
fundamental da Verdade, por todo o mundo. A este
respeito, Abraão constitui o modelo e a origem do mundo
da Ásia ocidental e de seus descendentes, por todo o
mundo. Abraão viveu entre um povo (os caldeus) que
adora os astros, e que abandonara o Evangelho da
Unidade. Ele viveu entre eles, mas não foi um deles.
Sofreu perseguições, abandonou o seu lar e o seu povo, e
se estabeleceu na terra de Canaã.
785. “Se o procedimento de Abraão era certo”, diziam os
judeus zombeteiramente, “então por que tu não guardas o
Sábado?” A resposta é dupla: (1) o Sábado nada tem a ver
com Abraão; foi instituído pela Lei Mosaica, por causa da
dureza dos corações do povo de Israel (2ª Surata,
versículo 74); porque eles disputavam constantemente
com o seu profeta, Moisés (2ª Surata, versículo 108); e
havia constantemente, entre eles, homens que
desrespeitavam o Sábado (2ª Surata, versículo 65); (2)
Qual era o verdadeiro Dia de Sábado? Os judeus
observam o próprio Sábado. Os cristãos, que incluem o
Antigo Testamento em sua inspirada Escritura, guardam o
domingo, sendo que uma seita entre eles (os adventistas
do Sétimo Dia) discorda, e guardam o sábado. Assim, há
discordância entre os adeptos do Livro. Que disputem
entre eles! A sua disputa não será apaziguada até ao Dia
do Julgamento. Enquanto isso, que os muçulmanos sejam
emancipados quanto a tais restrições rigorosas. Para eles,
há certamente o Dia da Oração em Congregação nas
sextas-feiras, não sendo, contudo, de maneira alguma,
igual ao Sábado judaico ou ao protestante.
786. No contexto, esta passagem se refere às
controvérsias e discussões; todavia, as palavras são
suficientemente amplas para cobrirem todas as porfias,
disputas e lutas humanas. Na mais estrita eqüidade, não
devemos desferir golpe maior do que aquele que
recebemos. Porém, aqueles que tenham alcançado o mais
elevado padrão espiritual, nem mesmo isso farão. Refrearse-ão
e serão pacientes.
787. É com respeito à Mi’raj, ou seja, a ascensão, sobre a
qual há diversificadas versões; alguns exegetas afirmam
tratar-se da visão que ele teve.
788. Masjid; é um local para a oração. Aqui, refere-se à
Caaba, em Makka. Ela não havia sido expurgada dos seus
ídolos, nem novamente dedicada exclusivamente ao Único
e Verdadeiro Deus. Constituía um símbolo da nova
Mensagem que estava sendo dada a conhecer à
humanidade.
789. A Mesquita de Alacsa deve referir-se ao Templo de
Salomão, em Jerusalém, no monte de Moriah, sobre o qual
ou perto do qual se encontra o Domo da Rocha, também
denominado Mesquita de Ômar. Esta, mais a mesquita
conhecida como a Mesquita Longínqua, ( Masjid-ul-Acsa),
foram completadas pelo Califa Abdul Málik no ano 68 H..
Longínqua, porque se tratava do mais longínquo local de
adoração, no oeste, que foi conhecido pelos árabes nos
tempos do Profeta; era um local sagrado, tanto para os
judeus como para os cristãos, acontecendo, porém, que os
cristãos tinham a primazia, uma vez que tal local fazia
parte do Império Bizantino (Romano), império esse que
mantinha um patriarca em Jerusalém. Os principais dados
com relação ao Templo são: ele foi terminado por Salomão
por volta de 1004 a.C.; foi destruído pelos babilônios sob o
governo de Nabucodonosor, por volta de 586 a.C.; tornou-
se um tempo dos ídolos pagãos, sob um dos sucessores
de Alexandre, Antiochus Epiphanis, em 167 a.C.; foi
restaurado por Herodes, de 17 a.C. a 29 d.C.; e foi
completamente destruído pelo Imperador Tito, no ano 70
d.C.. Tais altos e baixos constituem grandes marcos na
história da Religião.
790. Ao que se referem as duas ocasiões? Pode ser que
“duas vezes” se trate de uma figura de retória para “mais
de uma vez”, “freqüentes vezes”. Ou pode ocorrer que as
duas ocasiões se refiram: (1) à destruição do Templo, sob
o babilônio Nabucodonosor em 586 a.C., quando os judeus
foram levados em cativeiro, e (2) à destruição de
Jerusalém por Tito no ano 70 d.C., após que o Templo
nunca mais foi reconstruído. Ver 3, acima. Em ambas as
ocasiões isso constituiu um julgamento de Deus quanto
aos pecados dos judeus – seus deslizes e sua arrogância.
791. Uma boa descrição do beligerante Nabucodonosor,
com seu exército babilônico. Eles eram servos de Deus, no
sentido de que constituíam instrumentos por meio dos
quais a ira do Senhor foi derramada sobre os judeus,
porquanto penetraram suas terras, invadiram o seu Templo
e os seus lares, levando os judeus, homens e mulheres,
em cativeiro. A respeito das “filhos de Sião”, ver as
acerbas condenações em Isaías, 3: 16-26.
792. O retorno do cativeiro, por parte dos judeus, deu-se
por volta do ano 520 a.C.. Eles reiniciaram as suas vidas.
Reconstruíram o seu Templo. Encetaram várias reformas,
e erigiram um neo-judaísmo, em associação com Ezra. Por
um certo tempo, prosperaram. Enquanto isso seus
opressores, os babilônios, foram absorvidos pela Pérsia.
Subseqüentemente, os persas foram absorvidos pelo
Império de Alexandre. A totalidade da Ásia Ocidental foi
helenizada, assim acontecendo com a nova escola judaica,
que possuía um consistente centro de Alexandria. Porém,
o seu pisotear das terras palestinas continuou, resultando
que, sob o governo da dinastia asmoniana (167-63 a.C.),
os judeus tiveram um revivescimento nacionalista,
acontecendo que os nomes dos macabeus são lembrados
como heróicos. Uma outra dinastia, da Iduméia (de 63 a 4
a.C.), à qual Herodes pertencia, também desfrutava de
algum poder semi-independente. O cetro da Síria
(incluindo a Palestina) passou para os romanos no ano 65
a.C., sendo que os reis feudais judaicos tinham uma
autonomia em relação a eles. Porém, os judeus novamente
mostraram uma resistência empertigada quanto ao
mensageiro de Deus, no tempo de Jesus, resultando que o
que se seguiu foi o inevitável destino da completa
destruição do Templo, sob o governo de Tito, no ano de 70
d.C.
793. A destruição de Jerusalém, por Tito, no ano 70 d.C.,
foi completa. Tito era filho do imperador romano
Vespasiano; no tempo da destruição de Jerusalém possuía
o título de César, como herdeiro que era do trono. Ele
governou o Império Romano de 79 a 81 d.C.. Merivale, em
sal obra Romans Under The Empire (Os Romanos sob o
Império), fornece um cômputo gráfico do assédio e da
destruição final de Jerusalém (ed. 1890, VII. 221-225). A
população de Jerusalém era de 200.000 habitantes. De
acordo com o historiador latino Tácito, era para perto de
600.000. Houve fome e houve massacres. Havia muito
fanatismo. A assertiva de Merivale é: “Eles (os judeus)
estava judicialmente abandonados às suas próprias
paixões e, naturalmente, ao castigo que esperava por
eles”.
794. A doutrina da expiação vicária é condenada. A
salvação dos iníquos não poderá ser alcançada por meio
da punição dos inocentes. Uma pessoa não poderá arcar
com a carga de outra; isso seria injusto. Cada um deverá
arcar com a sua própria responsabilidade pessoal.
795. A metáfora é a de uma ave altívola que, levada pela
ternura, abre as suas asas para abrigar a ninhada. Há uma
dupla adequabilidade; (1) quando os pais eram fortes, e a
criança indefesa, afeições paternas foram dispensadas a
ela; quando a criança cresce e fica forte, e os pais
indefesos, pode ela fazer menos do que dispensar
semelhante carinho aos pais?; (2) ainda mais: deve
abordar os assuntos com gentil humildade; porque, por
acaso o amor dos pais não lhe lembra o grande amor com
o qual Deus vela as suas criaturas? Aqui há algo maior do
que a simples gratidão humana; isto ascende às mais
elevadas regiões espirituais.
796. Note-se que nos é pedido que honremos nossos pais
e mães, não “para que se prolonguem os teus dias na terra
que o Senhor Deus te dá”(Êxodo, 20:12), mas em termos
mais altruísticos e universalizados, condizentes com uma
revelação perfeita. Em primeiro lugar, é-nos ordenado não
apenas respeito para com os pais, mas ainda benevolência
desvelada, bem como humildade. Em segundo lugar, tal
ordem é ligada àquela de adorar o Único e Verdadeiro
Deus; o amor paterno (materno) deve ser, para nós, o tipo
do amor divino; nada que possamos fazer poderá jamais
compensar o que recebemos.
797. No Decálogo judaico, dado a um povo primitivo e de
coração endurecido, tal refinamento e benevolência – para
com aqueles carentes e viajantes (ou seja, todos os
forasteiros que venhamos a encontrar) – não encontrava
guarida. Nem tampouco havia o perigo de eles
desperdiçarem as suas substâncias, provenientes da
exuberância. Mesmo o mandamento “honrar pai e mãe”
não tem prioridade da cerimoniosa observação do Sábado.
Entre os muçulmanos, a adoração a Deus está ligada à
benevolência – para com os pais, parentes, necessitados, e
aqueles que se encontram longe de seus lares, embora
nos sejam totalmente estranhos. E não se trata de mera
benevolência verbal; estes últimos têm direitos que devem
ser respeitados.
798. Toda a caridade, benevolência e ajuda estão
condicionadas aos nossos próprios recursos. Não haverá
mérito algum se meramente gastarmos demonstrado
bravatas ou espetaculosidades. Quantas famílias não
ficam arruinadas com gastos extravagantes, dispendiosos
casamentos, funerais, etc., (como dizem) para
“obsequiarem parentes e amigos” ou, ainda, dando
dinheiro para mendigos capazes e itinerantes?
Apropriadamente, para ninguém mais do que para os
muçulmanos dos dias presentes, esta ordem foi dada.

799. Comparar com a frase quanto à avareza, no versículo
67 da 5ª Surata. Não devemos ser tão liberais a ponto de
nos tornarmos carentes, e incorrermos, assim, na censura
dos homens de bom-senso, nem tampouco é plausível que
neguemos os nossos recursos às devidas necessidades
daqueles que têm direito à nossa ajuda. Até os estranhos
têm tal direito, como vimos no versículo 26 desta Surata,
acima. Portanto, devemos manter uma justa medida entre
a nossa capacidade e a necessidade dos outros.
800. Os árabes pré- islâmicos eram afeitos ao infanticídio
feminino. Numa sociedade permanentemente em estado
de guerra, um filho homem constituía uma fonte de
reviramento, ao passo que uma filha constituía uma fonte
de enfraquecimento. Mesmo agora, o infanticídio, por
razões econômicas, não é desconhecido em outros países.
Esse crime contra as vidas das crianças é aqui tido como
um dos maiores pecados.
801. Literalmente, “é mau como uma estrada (ou
caminho)”. O adultério não apenas é, por si só, vergonhoso
e incompatível com qualquer respeito próprio ou respeito
para com os outros, mas também abre caminho para
muitos pecados. Ele destrói a base da família; vai contra os
interesses dos filhos nascidos ou por nascer; pode causar
assassinatos, contendas entre famílias, perda da
reputação e mesmo de propriedades, além de afrouxar
permanentemente os laços da sociedade. O adultério não
somente deve ser evitado como um pecado, como ainda
qualquer tentativa, ou tentação a ele deve ser evitada.
802. Quanto à questão do Quisas (talião), ver o versículo
178 da 2ª Surata, e respectiva nota. Sob as estritas
limitações lá expostas, uma vida deve ser tirada para pagar
outra vida. Ao herdeiro é dado o direito de demandar por
essa vida; contudo, não deve ultrapassar os devidos
limites, porquanto é auxiliado pela Lei. Exegetas há que
entendem que “ele” (oculto) em “estando favorecido (pela
lei)” se refere ao herdeiro da pessoa contra a qual se
procura aplicar o Quisas. Ele também será favorecido pela
lei, caso o herdeiro do referido morto exceda as limitações
da lei.
803. Comparar com o versículo 152 da 6ª Surata e com
outras passagens relacionadas com os órfãos, por
exemplo, o versículo 220 da 2ª Surata. Caso se mexa na
propriedade de um órfão, deverá ser para aumentá-la, ou
para acrescentar-lhe algo que a deixe melhor do que
estava antes – jamais para tirar vantagem em benefício
próprio. Uma barganha que talvez pareça bem justa, entre
duas pessoas independentes, seria, sob o ponto de vista
deste versículo, injusta entre um custódio e o órfão, até
que este atinja a maioridade.
804. A palavra achudun significa a idade em que o órfão
atinge a sua plena maturidade de vigor e compreensão,
digamos, entre os 18 e 30 anos. A idade legal para a
emancipação poderá ser aos 18 anos (para certos
propósitos, em alguns países) ou aos 21 (em outros
países). Para certos propósitos, pela lei muçulmana, a
maioridade poderá dar-se com menos de 18 anos. No
interesse do órfão, um padrão muito mais restrito é
requerido, quando a este caso.
805. Segundo o contexto, as circunstâncias referidas
relacionar-se-iam aos contratos beneficiários ligados à
propriedade do órfão, ou às promessas e incumbências,
por parte do custódio ou implicado, em termos de sua
ordenação. Todavia, as palavras são de cunho geral,
devendo ser interpretadas neste sentido.
806. Proporcionar peso e medida exatos não é apenas
correto, mas ainda resulta na melhor vantagem material e
espiritual que a pessoa que assim procede pode usufruir.
807. A curiosidade fútil poderá levar-nos a nos metermos
com o mal, através da nossa ignorância, ignorância esta
que já constitui um mal. Devemos nos resguardar deste
perigo. Devemos tão-somente ouvir coisas que saibamos
serem de boa comunicação, ver coisas boas e instrutivas,
e aliciar em nossos corações sentimentos, ou que, em
nossas mentes e idéias, tenhamos razão para esperar que
sejam espiritualmente proveitosos para nós. Seremos
chamados a prestar contas pelo exercício de cada
faculdade que nos foi concedida. Isto vai um pouco mais
além do que aquela famosa escultura de um templo
japonês, onde são mostrados, em três atitudes diferentes,
macacos, colocando as mãos respectivamente sobre os
ouvidos, os olhos e as bocas, numa demonstração de que
estão prontos a não ouvir, não ver e não falar coisas
malignas. Aqui, a curiosidade fútil é condenada. A
futilidade deve ser evitada, ainda que não atinja o grau do
mal positivo.
808. A insolência, ou arrogância, ou jactância indevida dos
nossos poderes ou capacidades, constitui o primeiro passo
para muitos males. Além do mais, isso não se justifica;
todas as nossas dádivas e dotações provêm de Deus.
809. A lei moral, como explanada nos versículos 23-29
desta surata, inicia-se com uma menção de adoração do
Único e Verdadeiro Deus, e termina com uma menção
semelhante, a fim de fechar o argumento, desse modo
imprimindo ênfase ao fato de que o amor de Deus abrange
o amor do homem, bem como a ajuda prática aos nossos
semelhantes.
810. Toda a criação, animada ou inanimada, proclama os
louvores de Deus, e Lhe celebra a glória – a animada, com
a consciência de Deus, e a inanimada, na evidência que
favorece quanto à unicidade e à glória de Deus. Portanto,
toda a Natureza dá testemunho do Seu poder, da Sua
sapiência e benevolência. Tão-somente “vós” (isto é, que
rejeitais toda a inclinação da vossa natureza e negais a Fé,
simplesmente porque vos foi concedida uma limitada
possibilidade de escolha e livre-arbítrio) sois os que não
compreendeis aquilo que todas as outras criaturas
compreendem, proclamando isso um júbilo e orgulho.
811. Véu invisível; alguns exegetas acham que mastur,
aqui, é equivalente a sátir, um véu que torna as coisas
invisíveis, um véu espesso e escuro. Contudo, achamos
que o significado de mastur (na voz passiva), como
“oculto” ou “invisível”, é mais condizente com o significado
de toda a passagem. Se toda a natureza, exterior e dentro
de nós mesmos, declara a glória de Deus, aqueles
desafortunados que se divorciam do melhor que há em
suas naturezas, têm de ficar isolados dos diletos de Deus e
da revelação que estes dão a conhecer, porque: (1) não
são dignos de fiar na companhia destes; e (2) os diletos de
Deus, com a revelação que dão a conhecer, devem ser
protegidos da atribulação que a blasfêmia ou a rebeldia
fatalmente causam à sua natureza imaculada. O véu,
todavia, é real, mesmo que esteja invisível.
812. Não somente não devemos não julgar os outros
homens comuns, nem criticá-los, como ainda não devemos
estabelecer falsos padrões de julgamento quanto aos
diletos de Deus. Se um deles nasceu da raça árabe
iletrada, foi, contudo, uma misericórdia para toda a
humanidade. Se um deles falava com Deus, e a vida de
outro começou como um milagre espiritual, isso não
implica em superioridade. Isso apenas significa que a
sapiência de Deus é mais profunda do que tudo aquilo que
possamos esquadrinhar.
813. Alguns exegetas acham que isto se refira ao Mi’raj
(versículo 1 desta surata), e outros às visões espirituais.
Tais visões constituem milagres, acontecendo que se
tornam uma pedra de tropeço no caminho dos incrédulos.
Entretanto, constituem um encorajamento para os homens
de fé. Por isso, constituem “uma prova para os humanos”.
814. A árvore do zacum, uma árvore cujas folhas e cujos
frutos são amargos e pungentes, e crescem no fundo do
inferno, constituindo o tipo de tudo o que é desagradável.
Ver os versículos 62-65 da 37ª Surata, e 52 da 56ª Surata.
Todas essas suratas são cronologicamente anteriores a
esta. A aplicação do nome de uma árvore da espécie
mirabólano, encontra na região de Jericó, data, acham, da
era pós-alcorânica. Ela representa uma provação para os
malfeitores. Ver o versículo 63 da 37ª Surata, e respectiva
nota.
815. Nós discutimos as várias significações da palavra
Imam no versículo 124 da 2ª Surata, e respectiva nota.
Qual é o significado, aqui? As opiniões dos exegetas se
dividem. Alguns compreendem-no como sendo o líder com
a qual cada grupo aparecerá, líder esse que prestará
testemunho quanto às virtudes ou pecados dele (do
grupo). Comparar com o versículo 84 da 16ª Surata. Outro
ponto de vista é que o Imam será a revelação, o livro de
cada povo ou grupo. Um terceiro ponto de vista é que o
Imam será o registro dos seus feitos, relatados na cláusula
seguinte. Nós preferimos a primeira opinião.
816. Literalmente, algo com o valor de um fatil, uma
película na fissura de um caroço de tâmara, ou seja, sem
valo algum. No dia do julgamento, os filhos da luz
receberão e lerão com atenção os seus registros, e
renderão jubilosas graças a Deus por Suas Misericórdias.
E quanto aos filhos das trevas? Eles já haviam estado
cegos na vida deste mundo, e não receberão luz alguma
do Semblante de Deus, então. Pelo contrário, notarão que
quanto mais longo o tempo em que viajaram, tanto se
distanciaram da Senda. Note-se a associação de idéias –
cegueira, não ver a luz, e distanciar-se cada vez mais da
verdadeira Senda.
817. Os exegetas entendem que aqui a ordem é quanto às
cinco orações canônicas diárias, a saber, as quatro que se
praticam desde o declínio do sol do zenite, até à completa
escuridão da noite, e a oração que se pratica cedo, pela
manhã (fajr), que é costumeiramente acompanhada pela
recitação do Alcorão Sagrado. As quatro orações da tarde
são: Duhr, imediatamente depois que o sol principia a
declinar, ao meio-dia; ‘Asr, bem à tarde; Maghrib, logo
após o pôr-do-sol; e Ichá, depois que a claridade do dia
desaparece, e a escuridão da noite se faz presente. Existe
diferenças de opinião quanto ao significado de palavras ou
frases particulares, mas isso não chega a mudar o efeito
da passagem.
818. Sabe-se que as ciências desenvolvidas, após o
advento do Islam, bem como todo e qualquer
desenvolvimento científico no Oriente, tiveram como fonte
inspiradora o Alcorão. A filologia, as leis, a origem da
jurisprudência e o estudo da religião foram conseqüências
da observação e do estudo do Alcorão.
819. A prova do Alcorão consiste da sua própria beleza e
natureza, e das circunstâncias em que foi promulgado. O
mundo é desafiado a produzir um Livro como ele, sendo
que ainda não produziu nenhum. É o único Livro revelado,
cujo texto permanece puro e imaculado até hoje. Para um
desafio semelhante, ver 2ª Surata, versículo 23, 10ª
Surata, versículo 38 e 11ª Surata, versículo 15.
820. No Alcorão, tudo é explicado em detalhes, segundo
vários pontos de vista, por ordens, comparações,
exemplos, narrativas, parábolas, etc.. Ele não conta
meramente histórias, ou expõe vagas proposições
abstratas. Proporciona ajuda detalhada, quanto à vida
interior e exterior.
821. Nove Sinais Evidentes; ver o versículo 133 da 7ª
Surata, e respectiva nota. A história do Faraó (ou uma fase
dela) é aqui narrada, com vistas a exibir declínio de uma
alma adstrita ao orgulho do poder e às dignidades
materiais.
822. A segunda cominação; a primeira, provavelmente foi
mencionada no versículo 5 desta Surata, acima, a
segunda, no meio do versículo 7, também desta surata.
Quando esta segunda cominação, devida à rejeição a
Jesus, aconteceu, os judeus foram arrebanhados em uma
aglomeração heterogênea, sendo que deste então nunca
mais tiveram uma nacionalidade judaica. Alguns exegetas
entendem a segunda cominação como se tratando do Dia
do Julgamento, a Promessa da Vida Futura.
823. Comparar com o versículo 180 da 7ª Surata. A
palavra Rahman descreve um dos atributos de Deus – sua
Graça e Misericórdia, que chegam ao pecador mesmo
antes de ele se aperceber da necessidade delas -, qual
seja a Graça preventiva, que salvaguarda do pecado os
servos de Deus. Ver a nota do versículo 1 da 1ª Surata.
Deus pode ser chamado, tanto simplesmente pelo Seu
nome, que inclui todos os atributos, como por um dos
nomes que implicam os atributos com os quais tentamos
explicar a Sua natureza com a nossa limitada
compreensão. O atributo Misericordioso, na palavra
Rahman, era particularmente repugnante para os árabes
idólatras (ver o versículo 60 da 25ª Surata e o 36, da 21ª
Surata); eis porque uma importância especial é dada a ele,
no Alcorão.
824. Ver a 7ª Surata, versículo 180, e nota.
825. Comparar com o versículo 205 da 7ª Surata. Todas as
orações devem ser praticadas com sinceridade e
humildade, sejam elas em congregação, ou constituam
uma efusão da própria alma da pessoa. Tal atitude é
incompatível com uma pronunciação muito alta das
palavras, embora, nas orações em público, os padrões
permissíveis de tonalidade sejam naturalmente mais
volumosos do que no caso de orações privativas. Nas
orações em público, certamente, o adan, ou chamamento
para a oração, deve ser feito num tom de voz elevado,
para que seja ouvido, tanto pelos que estão próximos,
como pelos que se encontram mais afastados; todavia, as
recitações do Alcorão Sagrado não devem ser feitas nem
em um tom alto, para que não atraiam as atenções hostis
daqueles que não crêem, nem em um tom baixo, a ponto
de não poderem ser ouvidas por toda a congregação.
826. O tema da Surata anterior, de que Deus é Magnânimo
e digno de todo o louvor por parte das Suas criaturas, as
quais Ele concedeu uma clara revelação, é continuado
nesta surata.
827. A advertência não é dirigida apenas àqueles que
negam Deus ou a Sua Mensagem, mas também àqueles
cujas falsas idéias de Deus degradam a religião, na
suposição de que Deus gerou um filho, quando se sabe
que é Uno, e está acima de qualquer idéia de reprodução
física.
828. A atribuição a Deus de um filho “gerado” não possui
bases em fatos ou na razão. Nem mesmo é um dogma
racionalizado ou que possa ser explanado de um modo
consistente com a natureza espiritual de Deus.
829. Raquim = inscrição. Essa palavra é assim
interpretada pelo Jalalain, sendo que a maioria dos
exegetas com isso concordam. Ver a nota seguinte. Outros
acham que se tratava do nome de um cão; ver o versículo
18 desta surata, mais adiante.
830. A história cristã é contada na obra de Gibbon, Decline
and Fall of the Roman Empire (Declínio e queda do Império
Romano – fim do capítulo 33). No reinado de um imperador
romano que perseguia os cristão, sete jovens de Éfeso,
fiéis ao cristianismo, deixaram a cidade e foram esconderse
numa caverna de uma montanha das proximidades.
Eles caíram no sono, e permaneceram em estado de
sonolência por algumas gerações ou séculos. Quando a
muralha que selava a caverna estava sendo demolida, os
jovens acordaram. A concepção deles quanto ao mundo
era a mesma do tempo em que haviam vivido; não tinham
idéia alguma da passagem do tempo. Porém, quando um
deles foi à cidade para adquirir provisões, constatou que o
mundo havia mudado completamente. A religião cristã, ao
invés de estar sendo perseguida, era a que estava em
voga; com efeito, era então a religião estatal. Sua
vestimenta, sua fala e o dinheiro que portava pareciam
pertencer a um outro mundo; isto atraiu as atenções. Os
maiorais da terra visitaram a caverna e verificaram a
veracidade da narrativa ao questionarem os companheiros
do homem. Ao tornar-se a história popularíssima, a ponto
de circular por todo o Império Romano, podemos muito
bem supor que uma inscrição foi colocada na entrada da
caverna.
831. Os jovens esconderam-se na caverna, mas confiaram
em Deus, entregando a Ele, em oração, todo o seu caso.
Eles, então, aparentemente caíram no sono, e nada
sabiam do que estava acontecendo no mundo exterior.
832. Isto é, selamos os seus ouvidos, para que nada
pudessem ouvir. Assim eles ficaram completamente
desligados do mundo exterior. Foi como se eles tivessem
morrido, permanecendo os seus conhecimentos e idéias
no ponto do tempo em que eles haviam entrado na
caverna.
833. Quando recobraram a consciência, haviam perdido a
contagem do tempo. Embora tivessem entrado juntos, e
jazido juntos no mesmo local pelo mesmo espaço de
tempo, suas impressões, quanto ao tempo que havia
passado, eram bem diferentes. Deste modo é o tempo
relacionado com as nossas próprias experiências
interiores. Nós temos de nos conscientizar de que homens,
tão bons como nós mesmos, diferem quanto às reações a
certos fatos, e de que as disputas em tais assuntos são
inconvenientes. É preferível dizer: “Deus sabe mais”
(versículo 19 desta Surata).
834. Para que eles não tivessem medo de falar
abertamente, e de proclamar a verdade da Unicidade que
eles viam claramente em seus próprios corações e mentes.
835. Talvez suponhamos que eles tivessem tomado suas
decisões e feito uma proclamação pública, antes de se
retirarem para a caverna (versículo 16 desta surata). A
história realmente começa no versículo 13 desta surata,
sendo que os versículos 9-12 podem ser considerados
como introdutórios. Como queremos dar ênfase às lições
espirituais, os fatos relatados na parte introdutória são, na
história, levemente analisados por cima.
836. Além dos cultos aos deuses pagãos, o culto aos
imperadores esteve também em voga, no Império Romano,
nos três primeiros séculos da era cristã. A estátua de
Diana (Ártemis), em Éfeso, foi uma das maravilhas do
mundo antigo. A cidade era um grande porto de mar, e a
capital da Ásia romana. Portanto, podemos imaginar como
os cultos pagãos deveriam ter aí florescido. O apóstolo
Paulo passou três anos aí pregando, e foi agredido e
assaltado, e compelido a ir-se embora (Atos 19:1-4)
837. Na latitude de Éfeso (38º de latitude Norte), ou seja,
bem acima da declinação setentrional do sol, uma vez que
o lado ensolarado fica ao sul. Caso os jovens estivessem
deitados de costas, com os rostos voltados para o norte,
ou seja, em direção à entrada da caverna, o sol levantarse-ia
pelo lado direito deles, e pôr-se-ia do lado esquerdo,
deixando-os refrescados e em conforto.
838. O nome do cão deles é tradicionalmente conhecido
como Quirmir; porém, ver a nota 829.
839. Este é o ponto culminante da história. Suas
impressões humanas haviam de ser comparadas umas
com as outras. Eles haveriam de ver que: com a melhor
boa vontade e com a mais honesta inquirição, talvez
chegassem a diferentes conclusões; não deveriam
desperdiçar o seu tempo em vãs controvérsias, mas
entregar-se aos principais afazeres da vida; e apenas Deus
possui pleno conhecimento das coisas que, para nós,
parecem estranhas ou inconsistentes, ou inexplicáveis, ou
que produzem diferentes impressões em diferentes
mentalidades. Se eles tivessem entrado na caverna pela
manhã e acordado na parte da tarde, um deles bem
poderia pensar que estivessem lá havia apenas umas
poucas horas – apenas uma parte do dia. Esta relativa ou
ilusória impressão de tempo ainda nos dá uma vaga idéia
do estágio da Ressurreição, quando não haverá tempo,
quando as nossas imperfeitas impressões desta vida serão
corrigidas pela Realidade final. Este mistério do tempo tem
pasmado muitas mentes contemplativas.
840. Eis que eles abandonam as barreiras controvertíveis e
se entregam aos afazeres práticos da vida. Contudo, seus
pensamentos encontram-se condicionados pelo estado de
coisas que existia quando eles entraram na caverna. O
dinheiro que portavam era dinheiro cunhado do reinado do
monarca que perseguia a Religião da Unicidade e
favorecia os falsos cultos da idolatria.
841. Eles pensavam que o mundo não houvesse mudado,
e que a ferrenha perseguição de que tinham conhecimento
ainda estivesse grassando, sob a qual a pessoa tinha de
pagar com a vida a sua fé religiosa, uma vez que não
conformasse com o culto idólatra.
842. Suas vestimentas fora de moda, sua fala antiquada,
sua aparência inusitada o seu dinheiro fora de circulação,
tudo isso de pronto atraiu a atenção das pessoas sobre
ele. Quando tomaram conhecimento da história,
aperceberam-se de que Deus, Que pode proteger Seus
servos, acordando-os de um sono após um longo tempo,
tem poderes de acordar os homens para a Ressurreição, e
de que a Sua promessa de benevolência e misericórdia
para com aqueles que O seguem, é verdadeira, e foi
exemplificada daquela maneira estarrecedora. Além disso,
tornou-se claro que Deus pode mudar a situação, antes
que estejamos conscientes, e que a nossa confiança n’Ele
não é fútil, e que mesmo quando nos encontramos à beira
do desespero, uma revolução poderá estar tomando vulto
no mundo, antes que este se conscientize disso.
843. Mesmo depois de muito tempo a controvérsia
alastrou-se, acerca do número dos sonolentos: eram eles
em número de três, cinco, sete? As pessoas respondiam,
não guiadas pelo conhecimento, mas pela conjectura. A
versão de Gibbon, que é agora a mais conhecida,
estabelece em sete os números dos sonolentos. O ponto é
imaterial; o ponto real consistia na lição espiritual.
844. Os historiadores vulgares pouco ou nada sabem do
verdadeiro significado das histórias e das parábolas. Nós
temos uma clara exposição, no Alcorão. Que necessidade
há de entrar em detalhes quanto ao número de jovens na
caverna, ou do tempo que eles lá permaneceram?
845. Na geometria, um círculo perfeito constitui uma figura
ideal. Qualquer círculo que desenhemos não é tão perfeito,
a ponto de não podermos desenhar um outro, que mais se
aproxime do ideal. Assim, em nossa vida, há sempre a
esperança de nos aproximarmos, cada vez mais, de Deus.
846. Este versículo deve ser lido juntamente com o
versículo seguinte. Na flutuante tradição oral, a duração do
tempo na caverna foi dada diferentemente em
diversificadas versões. Quando a tradição foi assentada
em escritos, alguns escritores cristão (por exemplo,
Simeão Metaphrates) apontaram 372 anos, alguns menos.
Em números redondos, 300 anos do calendário solar
dariam um total de 309 anos do calendário lunar. No
entanto, o versículo seguinte ressalta que tudo isto são
meras conjecturas; o número, só por Deus é conhecido. A
autoridade de Gibbon, se válida, menciona dois reinados
definidos: o de Décio (249-252 d.C.) e o de Teodósio II
(409-450 d.C.). Tomando por base os 250 e 450, temos um
intervalo de 200 anos. Porém, o ponto culminante da
história não se apoia no nome de um determinado
imperador, mas no fato de que o início do período coincidiu
com o do imperador perseguidor; o nome do imperador, no
final do período deve ser tomado como sendo
aproximadamente correto, porquanto a história foi
registrada por duas gerações posteriores. Um dos mais
ferrenhos imperadores perseguidores dos cristãos foi Nero,
que reinou de 54 a 68. Se tomássemos o final de seu
reinado (68 d.C.) como ponto de partida, e (digamos) o ano
de 440 d.C. como ponto final, teríamos os 372 anos de
Simeão Metaphrates. Porém, nenhum desses escritores
sabia mais do que nós sabemos. Nosso melhor alvitre é
seguir a injunção alcorânica: “Dize-lhes: Deus sabe melhor
do que ninguém o quanto permaneceram” (versículo 26
desta surata). Há ainda uma refutação implícita: “não
imiteis estes homens que adoram controvérsias
maquiavélicas!” Por fim, é-nos fornecida uma narrativa,
mais como parábola do que como história.
847. Eis aqui uma parábola simples do contraste entre dois
homens. Um estava orgulhoso de sua bolsa, esquecendose
de que tudo o que possuía provinha de Deus,
constituindo-se tão-somente num custódio e num teste
para esta sua vida. O outro de nada se ufanava; sua
confiança estava depositada em Deus. A riqueza terrena
do primeiro foi destruída, nada restando. O seguindo foi
mais feliz, no final.
848. Os dois homens começaram a comparar dados. O
arrogante empertigava-se com suas posses, seus
rendimentos, sua enorme família e seus seguidores, sendo
que pensava, em sua vaidade, que aquilo duraria para
sempre. Ele ainda errou em olhar de cima para o seu
companheiro, o qual, embora menos afluente, era o melhor
dos dois.
849. Entra em cena o espírito ganancioso do materialista.
Em sua mente, o termo “melhor” significa mais riqueza e
mais poder, da espécie que ele estava desfrutando na
vida, embora, na realidade, mesmo o que ele possuía se
assentasse em fundações oscilantes, e estivesse
destinado a ruir e a traze-lo para baixo, juntamente com as
ruínas.
850. A água da chuva é, por si só, uma coisa boa, mas ela
não dura, e nós não podemos erigir sólida fundação
alguma acerca disso. Ela é logo absorvida pela terra, que
produz a aparente florescência de relva e vegetação – por
certo tempo. Logo estas se deterioram, tornando-se secas
como palha, a qual o menos vento de qualquer quadrante
da terra soprará daqui para ali, como uma coisa sem
importância. A água vai-se, e com ela também a
vegetação, à qual é emprestado, temporariamente, um
intrépido espetáculo de luxúria. Tal é a vida neste mundo,
contrastada com a vida verdadeira e interior que se volta
para a Vida Futura. Deus é a única Força duradoura, para
a qual nós nos devemos voltar, superior a todas as coisas.
851. Os diletos de Deus não são enviados para nos animar
com dialéticas, ou para satisfazerem a nossa vulgar
curiosidade, concernente a milagres ou as coisas
obscuras, ou inusitadas. Não há “contradição” em sua
pregação. Eles vêm para pregar a Verdade – não de uma
maneira abstrata, mas com sua referência especial à
nossa conduta. Eles nos fornecem as boas-novas da
salvação, a menos que sucumbamos na presença do
pecado, e nos admoestam quanto aos perigos do Mal. Vãs
controvérsias, acerca das palavras, apenas enfraquecem a
sua missão, ou tornam-na ridícula. Os ímpios usam,
também, de um truque, tratando a pregação deles com
escárnio, ridicularizando-a.
852. Este episódio da história de Moisés pretende ilustrar
quatro tópicos: (1) Moisés era versado na sabedoria dos
egípcios. Mesmo assim essa sabedoria não englobava
tudo, tal qual todo o acúmulo de sabedoria, hoje em dia,
nas ciências, nas artes e na literatura 9se é que se pode
supor que seja adquirido por um indivíduo), não inclui todo
o conhecimento. O conhecimento divino, por outro lado, é
ilimitado. Mesmo depois que Moisés recebeu a sua missão
divina de mensageiro, o seu conhecimento não era tão
perfeito que não precisasse receber outras adições; (2) um
constante esforço é necessário para mantermos o nosso
conhecimento paralelo à marcha do tempo, e tal esforço é
mostrado pelo que Moisés está fazendo; (3) o misterioso
homem que ele encontra (versículo 65 desta surata e
respectiva nota), ao qual a tradição dá o nome de Khidr
(literalmente, Verde), é o tipo daquele cujo conhecimento é
sempre recente, renovado e florescente, sempre em
contato com a vida que é realmente vivida, não meramente
cristalizado em livros ou em dísticos de segunda mão. A
segunda espécie de conhecimento possui o seu uso,
sendo, contudo, apenas um degrau para a primeira
espécie de conhecimento, a qual constitui o verdadeiro
conhecimento, e provém diretamente de Deus (versículo
65 desta surata); (4) há paradoxos na vida; a perda
aparente pode constituir-se num verdadeiro ganho; a
aparente crueldade pode constituir-se numa misericórdia
real; retribuir o mal com o bem pode ser justiça, não
generosidade (versículos 79-82 desta). A sabedoria de
Deus transcende todos os cálculos humanos.
853. A mais provável localização geográfica (se é que
alguma é requerida numa história que constitui uma
parábola) é aquela em que os dois braços do Mar
Vermelho se encontraram, a saber, o Golfo de Ácaba e o
Golfo de Suez. Eles formam a Península do Sinai, na qual
Moisés e os israelitas passaram anos, vagueando. Há
também autoridade para se interpretar os dois mares como
sendo os dois grandes ramos do conhecimento, os quais
encontrar-se-iam nas pessoas de Moisés e de Khidr.
854. Era para Moisés ir ao encontro de um servo de Deus,
que o instruiria com conhecimentos tais que ele ainda não
tinha adquirido. Era para ele levar um peixe consigo. O
local onde ele iria encontrar o seu misterioso Mestre seria
indicado pelo fato de que o peixe desapareceria quando
ele ali chegasse. O peixe constitui um símbolo do
conhecimento secular, que se junta ao conhecimento
divino, no ponto em que a inteligência humana está pronta
para a junção dos dois. Mas a mera junção do
conhecimento secular, por si só, não produz o
conhecimento divino. Este último, há que ser procurado
pacientemente.
855. Quando eles chegaram à junção dos mares, Moisés
se esquecera do peixe, e seu auxiliar se esquecera do fato
de que ele havia visto o peixe escapar para o mar, de um
modo maravilhoso. Eles prosseguiram, mas os estágios
então se tornaram cada vez mais exaustivos e fatigantes
para Moisés. Assim, quando o nosso conhecimento antigo
se torna obsoleto, e nós chegamos à beira de um novo
conhecimento, temos um sentimento de estranheza, de
monotonia e de dificuldades, especialmente quando
queremos passar por cima do novo conhecimento, sem
desejarmos torná-lo nosso. Algumas inovações, mesmo
que sejam feitas da nossa velha e tradicional maneira, são
requeridas, para nos mantermos. Contudo, devemos retrair
os nossos passos, e procurar o repositório creditado do
conhecimento, que constitui a nossa procura. É da nossa
alçada procurá-lo. Mas saibamos que não o encontraremos
sem esforço.
856. O auxiliar realmente viu o peixe nadar para o mar, e
mesmo assim “esqueceu-se” de dizê-lo ao seu mestre.
Nesse caso, o “esquecimento” foi mais do que
esquecimento. A inércia fê-lo deixar de contar a importante
novidade. Em tais assuntos, a inércia é quase tão danosa
quanto a malevolência ativa, a sugestão de Satanás.
Assim sendo, o novo conhecimento, ou conhecimento
espiritual, não apenas é ultrapassado pela ignorância, mas,
às vezes, pela negligência culposa.
857. Um dos nossos servos; seu nome não é mencionado
no Alcorão, mas a tradição menciona-o como Khidr. Em
torno dele acumulou-se um bom número de contos
populares pitorescos, com os quais não nos preocupamos
aqui. “Khidr” significa “Verde”; seu conhecimento é recente
e renovado, tirado das vivas fontes de vida, uma vez que é
tirado da própria Presença de Deus. É um ser misterioso,
que deve ser procurado. Ele possui os segredos dos
paradoxos da vida, que as pessoas comuns não
compreendem, ou compreendem num sentido errôneo,
como veremos mais adiante.
858. Eles tomaram um barco que fazia viagens de aluguel.
Seus donos nem mesmo eram gentes comuns que se
preocupavam com o comércio. Eles haviam sido reduzidos
à pobreza, talvez devido à circunstâncias adversas, e eram
alvo de grande comiseração, tanto que preferiram uma
ocupação honesta à mendicância. Eles não sabiam, mas
Khidr sim, que o barco, talvez um barco novo, estava
marcado para ser confiscado por um rei injusto, que
tomava posse de todos os barcos que pudesse conseguir –
talvez para propósitos guerreiros. Se o barco fosse tirado
daqueles homens que têm amor-próprio, eles teriam sido
reduzidos à mendicância, sem lhes restar recurso algum.
Os donos poderiam consertá-lo, tão logo o perigo
passasse. Khidr provavelmente pagou as passagens; e o
que parecia uma ação enigmaticamente cruel, constituiu o
maior ato de benevolência que ele poderia realizar em tais
circunstâncias.
859. Àqueles que agem, não levados por capricho ou por
um impulso próprio, mas levados pela autoridade, são
imputados, por parte da plebe vulgar, atos da mais alta
sabedoria e utilidade. Nos assuntos humanos, muitas
coisas são inexplicáveis, coisas essas que são da mais
elevada sabedoria no Plano Universal.
860. Literalmente, “aquele de dois chifres ou cornos”, o rei
com os dois cornos, ou o Senhor das Duas Épocas. Quem
foi ele? Quando e onde viveu? O Alcorão não nos fornece
matéria, na qual possamos nos basear para uma resposta
positiva. Nem tampouco é necessário que se encontre uma
resposta, uma vez que a história é apresentada como uma
parábola. A opinião popular identifica Zul Carnain com
Alexandre, o Grande. Zul Carnain foi um rei poderosíssimo;
mas foi Deus Quem, em Seu Plano Universal, lhe deu
poder, e o proveu com modos e meios para que ele
realizasse a sua grande obra. Sua influência fez-se sentir
sobre o Oriente e o Ocidente, e sobre os povos de diversas
civilizações.
861. Este é o primeiro dos três episódios aqui
mencionados, ou seja, a sua expedição para o Ocidente. A
expressão “chegando ao poente do sol” não quer dizer o
extremo Oeste, pois não há tal coisa. Oeste e Leste são
termos relativos. Significa uma expedição ocidental,
limitada por uma “fonte fervente”. Se Zul Carnain era
Alexandre, o Grande, a referência poderá ser facilmente
compreendida como sendo a Lychnitis (agora Ochrida), a
oeste da Macedônia. Ela é inteiramente alimentada por
fontes do subsolo, numa região calcária, onde a água
nunca é muito cristalina.
862. Quem era o povo de Gog e Magog? Esta pergunta
está ligada à pergunta “Quem era Zul Carnain?” O que
principalmente nos interessa, aqui, é a interpretação
espiritual. O Conquistar havia, então, chegado a um povo
diferente do dele, em fala e raça, mas não tão primitivo,
porquanto era habilidoso em trabalhar metais, e podiam
fazer blocos (ou tijolos) de ferro, derreter metais com foles
ou assopradores, e trabalhar com chumbo derretido
(versículo 96 desta Surata). Aparentemente, eles
constituíam um povo pacífico e industrioso, sujeito, em
muito, às incursões de tribos selvagens, que eram
denominadas Gog e Magog. A proteção que eles queriam
era o fechamento de uma garganta na montanha, através
da qual as incursões eram feitas.
863. “Até que se tornem fogo”. O que quer dizer isso?
Provavelmente, refere-se às barras de ferro que,
liqüefeitas, tornam-se vermelhas como fogo, para serem
ligadas com o chumbo.
864. As muralhas, as portas e as torres de ferro eram
suficientemente altas para que fossem escaladas, e
suficientemente fortes, com metal soldado, para resistirem
a qualquer tentativa de arrombamento.
865. A palavra Firdaus, em persa, significa um local
cercado, um parque. Na linguagem “técnico-teológica”, a
palavra é empregada para especificar o círculo interno do
Céu, ou o Céu mais elevado, o destino daqueles que
preenchem estes dois requisitos, a saber, uma fé sadia, e
uma conduta perfeitamente virtuosa. As faltas pequenas,
em ambos os respeitos, serão perdoadas; a Misericórdia
de Deus entre em cena. Talvez haja um desenvolvimento
espiritual e um progresso, mesmo após a morte.
866. Esta é a única Surata que se inicia com as letras Kaf,
Ha, Ya, Ain, Sad. Como foi relatado na nota do versículo 1
da 2ª Surata, tais letras constituem símbolos, cujos
significados verdadeiros só Deus conhece. Não devemos
ser dogmáticos quanto a quaisquer conjecturas que
fizermos.
867. A misericórdia de Deus para com Zacarias foi de
muitas maneiras demonstrada: (1) na aceitação de suas
orações; (2) em lhe conceder um filho com Yahia (João); e
(3) no amor existente entre pai e filho, em adição à obra
que Yahia realizou para o mundo, como mensageiro de
Deus – comparar com os versículos 38-41 da 3ª Surata, e
respectivas notas. Naquele caso, o sacerdócio público foi o
ponto acentuado; neste, são acentuadas as magníficas
relações entre filho e pai.
868. Intimamente; porque ele temia que sua própria família
e parentela se desviasse (19ª Surata, versículo 5), e
desejava conservar a lâmpada de Deus consistentemente
acesa. De modo algum ele iria mencionar publicamente o
temor que havia em seus colegas (que eram seus
parentes).
869. Este prefácio mostra a ardente fé de Zacarias. Ele era
um sacerdote do Altíssimo Deus. Seu ofício era o Templo,
seus parentes eram os colegas. Contudo, ele não
encontrava neles o verdadeiro espírito da prestação do
serviço a Deus e ao homem. Estava cheio de ansiedade,
quanto a quem iria apoiar as idéias piedosas que tinha em
mente, as quais eram estranhas aos seus colegas ímpios.
870. Seu desejo por um filho era um desejo meramente
vulgar. Se fosse, teria orado muitíssimo, bem antes, em
sua vida, quando era ainda jovem. Ele se encontrava
demasiado impregnado da verdadeira piedade, para que
colocasse coisas meramente egoístas em suas orações.
Porém, tratava-se de uma necessidade pública, no serviço
do Senhor. Ele era muito velho, mas talvez pudesse ter um
filho – que seria um herdeiro, “proveniente de Deus” (ver a
nota do versículo 38 da 3ª Surata).
871. Trata-se de João Batista, o precursor de Jesus. De
acordo com as orações de seu pai, ele e Jesus (para quem
ele preparou o caminho) reativaram a Mensagem de Deus,
que havia sido conspurcada, e estava perdida entre os
israelitas. A forma árabe Yahia sugere “Vida”. Deus, pela
primeira vez, chamou um dos Seus eleitos por aquele
nome.
872. Cada homem nada era antes de ser criado, isto é, as
existências da sua personalidade foi ordenada por Deus.
Mesmo em se sabendo que há um processo material para
a formação do corpo, de acordo com as leis da natureza,
saiba-se que a real força criadora está em Deus. Porém,
aqui, o significado é mais sutil. João foi o anunciador de
Jesus, preparando o caminho para eles; e esta sentença
também nos prepara para o milagroso nascimento de
Jesus – ver o versículo 21, mais adiante. Para Deus tudo é
possível.
873. Entendemos que a “prova” não seria convencer
Zacarias de que a promessa do Senhor era verdadeira,
porque ele tinha fé; mas tratava-se de um símbolo, pelo
qual ele teria de mostrar, em sua conduta, que iria
conformar-se com o seu novo destino, como pai de Yahia,
que haveria de vir. Yahia deveria ser posto a trabalhar, e
Zacarias deveria ficar em silêncio, embora ele fosse são e
nada houvesse que o impedisse de falar.
874. O tempo passa. Nasce o filho, neste ponto da surata,
o centro de interesse é Yahia, e a instrução então dada a
ele: “Ó Yahia, observa fervorosamente o Livro!”, porque
um mundo incrédulo o havia tanto conspurcado como
negligenciado, e Yahia (João Batista) iria preparar o
caminho para Jesus, que viria renová-lo, e reinterpretá-lo.
875. João Batista não viveu muito. Foi aprisionado por
Herodesm, o tetrarca (governador provincial do Império
Romano), que ele havia recriminado por seus pecados, e
por isso foi decapitado, por instigação da mulher pela qual
Herodes estava apaixonado. Mas, mesmo na sua jovem
vida, foi-lhe dado: (1) sabedoria, com a qual intrepidamente
denunciava o pecado; (2) piedade gentil e amor por todas
as criaturas de Deus, pois só andava entre os humildes e
simples, e desprezava as “vestimentas aparatosas”; (3)
pureza de vida, pois renunciou ao mundo, e passou a viver
no deserto. Toda a sua obra, ele a realizou na juventude.
Sua obra mostrou-se por si mesma, na sua conduta, pois
ele era devotado, demonstrando amor para com as
criaturas de Deus, e, mais particularmente, para com os
seus pais (pois nós estamos considerando esse aspecto
da sua vida); isto foi, ainda, demonstrado pelo fato de que
ele jamais usou de violência, jamais teve uma atitude de
arrogância, nem tampouco alimentou um espírito de
rebeldia contra a Lei, humana ou divina.
876. Para um compartimento privado que dava para o
leste, talvez um templo. Ela se separou das pessoas de
sua família, e das pessoas em geral, e foi para a sua
privacidade, por devoção, para orar. Foi nesse estado de
pureza que o anjo apareceu a ela na forma de um homem.
Ela pensou tratar-se realmente de um homem; ficou
assustada, e implorou-lhe que não invadisse a privacidade
dela.
877. Deus a havia destinado a ser a mão do profeta Jesus
Cristo, e então chegara o tempo em que isso deveria ser
anunciado a ela.
878. A missão de Jesus é anunciada de duas maneiras: (1)
ele iria ser um Sinal para os homens; seu maravilhoso
nascimento e sua maravilhosa vida iriam trazer a volta de
Deus a um mundo ateu; e (2) sua missão iria trazer
consolo e salvação aos que se arrependessem. Este, de
um modo ou de outro, é o caso que se passa com todos os
mensageiros de Deus, e foi, predominantemente assim, no
caso do Mensageiro Mohammad. Mas o ponto principal,
aqui, é que os israelitas, para os quais Jesus foi enviado,
para quem a mensagem de Jesus era verdadeiramente um
Evangelho de Misericórdia, eram um povo de coração
duro.
879. Para qualquer coisa que Deus deseja criar, Ele diz:
“Seja!”, e é (comparar com o versículo 47 da 3ª Surata).
Não há intervalo algum entre o Seu decreto e a
consumação deste, exceto se Ele assim o estipular, no
próprio decreto. Pode ser que o tempo seja apenas uma
projeção de nossas mentes, neste mundo de relatividade.
880. A anunciação da concepção, podemos supor, teve
lugar em Nazaré (da Galiléia), digamos, a 100 km ao norte
de Jerusalém. O parto deu-se em Belém, cerca de 10 km
ao sul de Jerusalém. Foi num lugar longínquo, não apenas
com relação à distância de 110 km, mas porque em Belém
o nascimento deu-se num local obscuro, sob uma
palmeira, de onde talvez a criança foi depois removida
para uma manjedoura, em um estábulo.
881. Ela era tão-somente humana, e sofria as dores de
uma mãe que está esperando, e sem ninguém para olhar
por ela. Porque a circunstância era peculiar, ela teve de ir
para longe do seu povo.
882. Literalmente! Refresca teus olhos; uma frase
idiomática para “consola-te”. O significado literal, contudo,
não deve ser esquecido. Ela teria de refrescar os seus
olhos (talvez marejados de lágrimas) com a água fresca do
regato, e consolar-se com a notável criança que havia
nascido dela. Ela teria, também, de olhar ao seu redor, e,
se alguém se aproximasse, teria de declinar qualquer
conversa. Aquilo era bem a verdade: ela se encontrava sob
juramento, e não podia conversar com ninguém.
883. Ela teria de evitar toda a conversa, com homem ou
mulher, com a justificativa de um juramento de Deus. O
jejum, no original, não significa, literalmente, a abstinência
quanto ao comer e ao beber. Foi-lhe aconselhado que
comesse tâmaras e que bebesse do regato. Outrossim,
significa abstinência das costumeiras refeições caseiras, e,
de modo geral, das relações com os humanos.
884. A admiração das pessoas não tinha limites. De
qualquer maneira, as pessoas estavam propensas a
pensar o pior, uma vez que ela desapareceu do seio de
seus familiares por algum tempo. E agora, lá vinha ela,
desavergonhadamente desfilando com um filho do colo! E
como ela havia desgraçado a casa de Aarão, a fonte do
sacerdócio! Podemos supor que a cena se desenrolou no
Tempo, em Jerusalém, ou em Nazaré.
885. Aarão, o irmão de Moisés, foi o primeiro, na linhagem
do sacerdócio israelita. Maria e sua prima, Isabel (mãe de
Yahia) vinham de uma família sacerdotal, e, portanto, eram
“irmãs de Aarão”, ou filhas de Imran (que era pai de
Aarão). Ver a nota do versículo 35 da 3ª Surata. Maria é
conscientizada da sua alta linhagem, e das irrepreensíveis
qualidades morais do seu pai e da sua mãe. Como foi,
disseram as pessoas, que ela se perdeu, e desgraçou o
nome dos seus progenitores?
886. Que podia Maria fazer? Como poderia ela explicar?
Iriam as pessoas, com seus modos de censura, aceitas a
explicação dela? Tudo o que ela podia fazer era apontar
para a criança, a qual, ela sabia, não era uma criança
comum. E a criança viera para a salvação dela. Por um
milagre a criança falou, e defendeu a sua mãe, e pregou a
um público incrédulo.
887. Há um paralelismo por todo o relato da história de
Jesus e Yahia, com algumas variações. Por exemplo,
Jesus declara, desde o princípio, que era um servo de
Deus, negando, desse modo, a falsa noção de que era
Deus ou filho de Deus. A grandiosidade de Yahia é
descrita nos versículos 12-13 da 19ª Surata, em termos
não aplicáveis a Jesus; porém, os termos dos versículos
14-15 da 19ª Surata, aplicáveis a Yahia, são quase
idênticos àqueles aplicáveis a Jesus, aqui (versículos 32-
33).
888. A violência arrogante não é apenas injuriosa e danosa
para a pessoa contra quem é praticada; ela é, talvez, ainda
mais danosa para a pessoa que a pratica, porque sua alma
torna-se turva, insegura, infeliz e arruinada – o estado das
almas que se encontram no Inferno.
889. Cristo não foi crucificado (versículo 157 da 4ª Surata).
Contudo, aqueles que crêem que ele jamais morreu devem
ponderar sobre este versículo.
890. As discussões quanto à natureza de Jesus Cristo
foram em vão, mas persistentes e sanguinolentas. Os
cristãos modernos deixam-nas para trás; e fariam muito
bem se, juntamente com isso, abandonassem os dogmas
tradicionais.
891. Gerar um filho é um ato fisiológico que depende das
necessidades da natureza animal do homem. Deus, o
Altíssimo, é independente de todas as necessidades, e é
derrogatório atribuir-Lhe tal ato. Isso constitui meramente
uma relíquia das superstições pagãs, antropomórficas e
materialistas.
892. Em oposição às superstições fraudulentas, que se
apoiam em toda a sorte de sofismas metafísicos, para
provar que dois e dois são cinco. No Alcorão não há
fraudulência alguma (versículo 1 da 18ª Surata). O
ensinamento de Cristo era simples, como simples era a
sua vida, mas os cristãos tornaram-no fraudulento.
893. Abraão deixou seu pai e a terra de seus pais (Ur na
Caldéia), e nunca mais regressou. Ele partiu porque foi
escorraçado, e porque não lhe era possível fazer
concessões a respeito do que era falso, em matéria de
religião. Em resposta aos abusos, ele proferiu palavras
gentis. E expressou a sua fervorosa esperança de que,
pelo menos ele (Abraão) obteria a bênção de Deus, em
resposta às suas orações. Aquilo foi uma prefiguração de
uma outra Hégira, que se daria muitos séculos mais tarde!
Em ambos os casos, as orações foram abundantemente
atendidas.
894. Isaac e seu filho, Jacó, são mencionados como a dar
continuidade à linha de tradições de Abraão. Outra linha foi
continuada por Ismael, que é mencionado,
independentemente, cinco versículos mais adiante, da
mesma maneira que a sua linhagem é tratada com
especial honraria quanto ao Profeta do Islam. Eis porque a
menção a ele vem depois da de Moisés. Comparar com o
versículo 72 da 21ª Surata.
895. Abraão, seu filho Isaac e seu neto Jacó, em sua
linhagem, mantiveram o estandarte da verdade espiritual
de Deus por muitas gerações, e conseguiram,
merecidamente, ganhar louvor – o louvor da verdade -, nas
línguas dos homens. Abraão orou para que fosse louvado
pela língua da verdade, entre os homens que viriam em
eras posteriores. O louvor comum talvez nada signifique:
pode ser devido à bajulação egoística da parte dos outros,
ou a um expediente astuto da pessoa a ser louvada. O
louvor vindo da boca da verdade sincera, é deveras o
louvor!
896. Moisés foi (1) especialmente escolhido, e preparado e
instruído na sabedoria dos egípcios, para que pudesse
libertar o seu povo do cativeiro do Egito; deve ainda haver
uma referência ao título de Moisés, Kalimulah, ou seja,
aquele a quem Deus falou, sem a intervenção de anjos,
mas de trás de uma nuvem; (2) foi um profeta (nabi), e
recebeu a inspiração; e (3) foi um mensageiro (rassul),
sendo que possuía um livro de Revelação e uma
Comunidade (Ummat) organizada, nesta instituindo as leis.
897. Achamos que o incidente aqui descrito refere-se aos
incidentes mais plenamente descritos nos versículos 9-36
da 20ª Surata. O tempo é aquele em que Moisés (com sua
família) estava viajando e apascentando o rebanho de seu
sogro, Jetro, um pouco antes de ele receber a comissão de
Deus. O local é em algum lugar próximo ao Monte Sinai
(Jabal Musa). Moisés lobrigou ao longe uma áscua, e,
quando chegou perto, ouviu uma voz, que lhe disse que
aquele solo era sagrado. Deus pediu-lhe que tirasse os
sapatos e que se aproximasse; e quando se aproximou,
grandes mistérios lhe foram revelados. Foi-lhe dado o seu
comissionamento, e seu irmão, Aarão, deveria partir com
ele, e ajudá-lo. Foi depois disso que ele e Aarão foram ter
com o Faraó do Egito. O lado direito do monte talvez
signifique que Moisés ouviu a voz, vinda do lado direito do
monte, quando ele foi ter com ela; ou talvez tenha o
significado metafórico de “certo”, em árabe, o lado que era
abençoado ou constituía o solo sagrado.
898. Moisés estava difidente e relutante em ir ter com o
Faraó, porque possuía uma deficiência em sua língua;
assim sendo, ele pediu ao seu irmão, Aarão, que se
associasse a ele naquela missão.
899. Ismael era um Dabihulah, ou seja, o escolhido para o
sacrifício de Deus, na tradição muçulmana. Quando
Abraão lhe contou sobre o sacrifício, ele ofereceu-se
voluntariamente para isso, e jamais se furtou à promessa,
até que o sacrifício foi redimido por um carneiro, segundo
as ordens de Deus. Ele foi o manancial da comunidade
árabe, e sua posteridade chegou até ao Mensageiro de
Deus. A comunidade e o Livro do Islam remontam ao
apostolado de Ismael, versículo 85 da 21ª Surata, onde ele
é mencionado entre os perseverantes.
900. Tudo quanto nos é dito é que ele era um homem da
verdade e da sinceridade, e um profeta, e que desfrutava
de uma elevada posição entre o seu povo. Este é o ponto
que o junta com uma série de homens apenas
mencionados; ele se conservou em contato com o seu
povo, e foi por ele honrado. O progresso espiritual não faz
com que nos divorciemos das pessoas a nós achegadas;
outrossim, nós devemos ajudá-las e guiá-las. Ele se ateve
à verdade e à piedade, no mais alto grau.
901. As gerações mais antigas são agrupadas em três
épocas, partindo-se de um ponto de vista espiritual: (1) de
Adão a Noé; (2) de Noé a Abraão; e (3) de Abraão a um
tempo indefinido, digamos, ao tempo em que a mensagem
de Deus foi conspurcada, e adveio a necessidade de um
derradeiro Mensageiro da Unidade e da verdade. Israel é
outro nome para Jacó.
902. Duas interpretações são possíveis: (1) a interpretação
genérica é que as almas devem passar através, ou sobre o
Fogo, ou perto dele. Pode ser o fogo da tentação, ou da
ansiedade, ou da angústia; mas elas devem ver o inferno.
Aqueles que são tementes (ver o versículo 2 da 2ª Surata,
e respectiva nota) serão salvos pela Misericórdia de Deus,
ao passo que os pecadores irretratáveis sofrerão os
tormentos em ignomínia; (2) se o pronome “vós” se referir
“àqueles que tiverem sido mais rebeldes para com o
Clemente”, no versículo 69, acima – tanto os líderes no
pecado, como seus seguidores -, este versículo se aplicará
apenas aos corruptos.
903. A crença em que Deus gerou um filho não é uma
questão meramente de palavras ou de pensamento
especulativo. É uma espantosa blasfêmia contra Deus.
Isso abaixa Deus ao nível de um animal. Se combinado
isso com a doutrina da expiação vicária, chega às raias da
negação da justiça de Deus e da responsabilidade pessoal
do homem. É destrutivo, quanto à ordem moral e espiritual,
e é condenado nos termos mais consistentes possíveis.
904. Este princípio básico foi posto no início do argumento
(versículo 35 desta surata). Ele foi ilustrado por uma
referência à história pessoal de muitos mensageiros,
incluindo o próprio Jesus, que se comportava tal qual um
homem, em relação aos seus familiares, e humildemente
servia a Deus. Os resultados malignos de tais superstições
foram apontados, como no caso de muitas gerações
anteriores que encontraram a sua ruína, por terem
desonrado Deus. E o argumento é agora completado no
fecho da surata.
905. Deus não tem filhos favoritos ou parasitas, conforme
os associamos com seres humanos. Por outro lado, todas
as Suas criaturas obtêm o Seu amor e o Seu cuidado
carinhoso. Todas elas, conquanto humildes, são
individualmente marcadas perante o Seu Trono de Justiça
e Misericórdia, e comparecerão perante Ele, de acordo
com o seu próprio merecimento.
906. Tudo parece indicar que é um dos nomes do Profeta,
como mostra a seqüência da surata. Se o significado
dessa palavra é “Ó homem”, esse é, por si só, um
significado místico, como já explicado; porém, as letras
formam uma só palavra, e não devem ser classificadas
como letras abreviadas (ver o versículo 1 da 2ª Surata, e
respectiva nota). Isto, contudo, é uma questão de
classificação, e não afeta o significado. É apenas
conjectura, e ninguém pode ser dogmático, nesse
particular.
907. Deus está em tudo, e as coisas belas que podemos
pensar referem-se a Ele. Seus nomes, os quais sumariam
os atributos, são como títulos de Honra e Glória.
908. A história de Moisés, em seus diferentes incidentes, é
contada em muitos lugares no Alcorão, e, em cada caso, a
fase mais apropriada, no contexto, entre em referência ou
é enfatizada. Nos versículos 49-61 da 2ª Surata, alude-se
a fase da história religiosa da humanidade; nos versículos
103-162 da 7ª Surata, aparece a fase da formação da
nação de Israel, e a história tem continuidade até aos
tempos posteriores a Moisés; nos versículos 101-103 da
17ª Surata, temos um retrato do declínio de uma alma, na
arrogância do Faraó; aqui, nos versículos 9-24 desta
surata, temos o retrato da ascendência de uma alma, no
comissionamento dado por Deus a Moisés.
909. A história espiritual de Moisés principia aqui. Deu-se
um nascimento espiritual. Sua vida física, sua infância e
sua educação são relatadas depois, a fim de ilustrar um
outro ponto. Moisés cresceu, deixou o palácio do Faraó e
foi para junto do povo madianita, na península do Sinai.
Casou-se entre eles, e encontrava-se, então, viajando com
a sua família e com os seus rebanhos, quando foi
chamado por Deus, para receber a sua missão. Ele foi até
ao fogo, por causa do conforto e da orientação. Ele
encontrou um conforto e uma orientação bem mais
elevados e santificados. A passagem toda está cheia do
mais elevado significado, no original, nos curtos versículos
rimados.
910. Trata-se do vale logo abaixo do Monte Sinai, onde
subseqüentemente ele iria receber a Lei. No significado
místico paralelo, somos selecionados por privações nessa
vida humilde, cujo “vale” é igualmente sagrado, a ponto de
receber a glória de Deus, tanto quanto o cume do Monte
(Tur), caso tenhamos suficiente introspecção para
percebê-lo.
911. “Desata o nó de minha língua” é tradução literal.
912. A tradução literal seria: “Endireita minhas costas com
as dele”. O vigor de um homem está em suas costas e em
um espinhaço, que conserva ereto, e faz com que
intrepidamente se desincumba de suas tarefas.
913. Imbuído de sua desordenada vaidade, o Faraó se
esquecera de quão insignificante criatura era perante
Deus. Isto teria de ser trazido, novamente ao seu
conhecimento, para que talvez se arrependesse e
passasse a crer, ou, pelo menos, e por temor, se
contivesse de “passar do limites”. Algumas pessoas
abstêm-se de agir errado, por sincero amor a Deus e por
compreensão para com os seus semelhantes; e outras (de
mentes tacanhas), por temor das conseqüências. Mesmo a
segunda conduta pode ser um passo para a primeira.
914. Moisés não caiu na armadilha. Ele se lembrou da
injunção que lhe foi dada, no sentido de falar mansamente
(versículo 44 desta surata). Ele falou mansamente, mas
não de modo a tolher a verdade. Com efeito, ele disse: “O
conhecimento de Deus é perfeito, como se, entre os
homens, fosse um registro. Porque os homens se
enganam ou não se lembram; mas Deus jamais Se engana
ou Se esquece. Deus, ainda, não é apenas Sapientíssimo;
é também Beneficiário. Olha em torno de ti: a terra toda se
estende, como um tapete. Os homens andam nela
livremente; Ele envia água em abundância do céu, a qual,
em forma de chuva, causa as cheias do Nilo e fertiliza todo
o solo do Egito, que dá de comer aos homens e aos
animais.”
915. O grande dia de um festival do Templo; quando os
palácios e suas ruas estivessem ornamentados, e o povo
estivesse gozando um feriado, sem trabalhar. Moisés
organiza o encontro nesse dia para que o presencie o
maior número possível de pessoas, porquanto o seu dever
primeiro é pregar a Verdade. E ele aparentemente o fez
com algum efeito sobre alguns egípcios (versículos 70 e
72-76 da 20ª Surata), embora o Faraó e os seus
poderosos oficiais rejeitassem a Verdade, recebendo
depois o castigo.
916. O ataque concentrado do mal é, às vezes, tão bem
planejado, em todos os pontos, que a falsidade aparece, e
é aclamada como sendo a verdade. O crédulo, na verdade,
fica isolado, e uma espécie de vertigem moral toma conta
de sua mente. Porém, pela graça de Deus a Fé se afirma,
dá-lhe confiança, e aponta as verdades específicas que
dissiparão e destruirão a prolífera ninhada da falsidade.
917. A magia, a farsa e a fraude, que pertenciam à religião
pagã, tornaram-se um credo, um Estado, uma profissão de
fé, aos quais os cidadãos tinham de se curvar, e os quais
seus sacerdotes tinham ativamente de praticar. E o Faraó
estava à testa de todo o sistema. Com justiça, contudo, os
magos convertidos põem a culpa no Faraó, negando
veementemente a falsa acusação de que eles haviam
estado em conluio com Moisés.
918. Isto foi quando Moisés se encontrava no cimo do
Monte, quarenta dias e quarenta noites. Enquanto ele se
encontrava num estado de honra estática, no cimo do
Monte, seu povo estava-se entregando a estranhas cenas,
lá em baixo. Eles estavam sendo testados, e fracassaram
no “teste”. Eles fizeram a imagem dourada de um bezerro
para a adoração, como descrito adiante.
919. Quem era esse samaritano? Se esse era o seu nome
pessoal, estava suficientemente próximo ao significado da
palavra-raiz original para ter um artigo definido ligado a ele.
Qual era a raiz para “Sámari”? se olharmos para o antigo
idioma egípcio, encontraremos “Shemer” = um estranho,
um estrangeiro. Como os israelitas tinham deixado o Egito
havia pouco, eles muito bem poderiam ter entre eles um
judeu egiptizado, que portava aquele apelido. Que o nome
Shemer não foi subseqüentemente desconhecido entre os
hebreus, está claro, a julgar pelo Antigo Testamento. Em
Reis 16:24, nós lemos sobre o tal Omri, rei de Israel, na
parte setentrional do reino dividido, que reinou por volta de
903-896 a.C., e construiu a nova cidade de Samaria, numa
colina que ele comprara de Shemer, o seu dono, por dois
talentos de prata. (ver também History of Israel, de Renan
II, 210). Para uma discussão mais esclarecedora da
palavra, ver a nota 921, mais adiante.
920. Comparar com Êxodo 12:35-36. Antes de deixarem o
Egito, os israelitas tomaram emprestadas dos egípcios
“jóias de prata e jóias de ouro, e vestimentas”; e “eles
estragaram os egípcios”, ou seja, tiraram-lhes a sua
valiosa joalheria. Note-se que as respostas dos apóstatas
são de várias maneiras maliciosas: (1) o samaritano, sem
dúvida alguma, foi responsável por sugerir que fizessem o
bezerro de outro, mas eles não poderiam, por causa disto,
tirar a responsabilidade de si próprios; a carga do pecado
está sobre aquele que o comete e ele não pode pretender
que estivesse impotente para evitá-lo; (2) quando muito, o
peso do ouro que eles carregavam não podia ter sido
excessivo, mesmo que um dos dois homens o
carregassem, mas teria sido insignificante, se distribuído;
(3) o ouro é valioso, e não é nada provável que se eles
quisessem desfazer-se dele, tivessem necessidade de
acender uma fornalha e, derretê-lo para dar-lhe a forma de
um bezerro.
921. A efígie fundida foi derretida e destruída. Assim
termina a história do Sámiri. Deve ser de interesse
examinarmos as transformações por que a palavra Sámiri
passou nos últimos tempos. Para a sua origem, ver a nota
919. Se a raiz da palavra Sámiri era originalmente egípcia
ou hebraica, isso não afeta a história posterior. Quatro
fatos devem ser notados: (1) Havia um homem que portava
um nome dessa espécie no tempo de Moisés, que liderou
uma revolta contra Moisés, e foi por este esmagado. (2) No
tempo do rei Omri (903-896 a.C.), do reino setentrional de
Israel, havia um homem chamado Shemer, de quem, de
acordo com a Bíblia, foi comprada uma colina, na qual foi
construída a nova capital do reino, a cidade de Samaria.
(3) O nome da colina era Shomer (= vigia, vigilante,
guardião), e dessa forma também aparece como nome de
homem (ver Reis II 12:21): alguns exegetas acham que o
nome da cidade foi tirado da colina, e não do homem, mas
isso é, para o nosso propósito presente, irrelevante. (4)
Havia, e ainda há, uma divergente comunidade de
israelitas (denominados samaritanos), os quais possuem
seus próprios e separados Pentateuco e Targum; dizem
ser os verdadeiros filhos de Israel, e que desprezam os
judeus ortodoxos, tal como estes os desprezam; eles
dizem ser os verdadeiros guardiães (shomerinos) da Lei, e
essa é provavelmente a origem do nome samaritano, o
qual adentra no tempo, antes da fundação da cidade de
Samaria. Achamos provável que o cisma se tenha
originado no tempo de Moisés, e que a imprecação de
Moisés quanto ao samaritano explica a posição.
922. Zurc = ter olhos com uma cor diferente da cor normal,
que no Oriente é preto; ter olhos azuis, ou olhos afetados
pela penumbra, pelo estrabismo, ou pela cegueira;
consequentemente, metaforicamente, de olhos turvos
(atônitos).
923. A pergunta foi literalmente feita ao Profeta: que será
das sólidas montanhas? Elas não são mais substanciais do
que qualquer outra coisa, neste mundo passageiro.
Quando o “novo mundo” ( versículo 5 da 13ª Surata), do
qual os incrédulos duvidaram, estiver realmente
acontecendo, as montanhas deixarão de existir. Nós
podemos imaginar a cena do julgamento como numa
planície nivelada, na qual não haverá altos e baixos, e
nenhum luar para ninguém se esconder. Tudo será reto e
nivelado, sem cantos, esquinas, mistérios, ou esconderijos
duvidosos.
924. O Alcorão foi escrito em língua árabe castiça, para
que mesmo um povo inculto como o árabe pudesse
compreendê-la e tirar proveito de suas admoestações, e
para que o resto do mundo pudesse aprender através dele
(o Alcorão), como o fez nos primeiros séculos do Islam, e
pode fazê-lo agora, quando nós, muçulmanos, mostamonos
dignos de explicar e exemplificar o seu significado.
925. As conseqüências da rejeição à diretriz de Deus são
aqui expressas mais distintamente: uma estreiteza e uma
cegueira que persistirão além desta vida. “Uma mísera
vida” possui muitas implicações: (1) trata-se de uma vida
da qual as influências beneficentes do vasto mundo de
Deus são excluídas; (2) é uma vida para a personalidade,
não para todos; (3) ao olhar exclusivamente para as “boas
coisas” desta vida, a pessoa se afasta da verdadeira
Realidade.
926. A palavra Taraf, plural atráf, pode significar lados,
pontas, extremidades. Se o dia for comparado à uma figura
tubiforme, posta em pé, o topo e a base serão claramente
demarcados, o mesmo não acontecendo com os lados;
estes seriam atráf, e não tarafain (dual). Então, a Oração
da Alvorada é claramente Fajr; a de antes do pôr-do-sol é
Asr; a “parte das horas da noite” indicaria Maghrib
(tardezinha ou noitezinha, logo depois do pôr-do-sol); e
Ichá, antes de se ir para a cama. Foi deixado do Zênite; há
que se considerar a latitude quanto à hora precisa. A
maioria dos exegetas é a favor das cinco orações
canônicas, e alguns incluem orações opcionais. Mas nós
achamos que as palavras são até mais compreensíveis. A
vida de um homem bom é toda ela uma doce canção de
louvor a Deus.
927. Cada minuto os vês mais das suas sentenças, e,
contudo, eles se mantêm tristemente negligentes, e até
viram as costas para a Mensagem que os salvaria.
928. Literalmente, “num estado no qual vós (realmente)
vedes (que é feitiçaria)”. Quando o Mensageiro de Deus
provou estar acima deles em dignidade moral, em
verdadeira introspecção, em sinceridade e eloqüência, eles
o acusaram de feiticeiro, uma palavra que nada pode
significar, ou talvez signifique algum truque misterioso e
fraudulento.
929. As arremetidas dos inimigos contra o inspirado
Mensageiro de Deus estão amontoadas. “É magia!”, diz
um, o que significa, “Nós não a entendemos!” Diz outro:
“Ora, mas nós sabemos! Ele é um mero sonhador de
sonhos confusos!”
930. Ver o versículo 43 da 16ª Surata, e respectiva nota.
Isto responde ao sarcasmo dos incrédulos, que diziam:
“Ele é apenas um homem como nós!” Isto era verdade,
mas acontece que todos os Mensageiros, enviados por
Deus, foram homens, não anjos ou qualquer outra espécie
de entidades, que não podiam entender os homens, aos
quais os homens não podiam entender.
931. Quando eles tiveram toda a chance de se
arrependerem e se reformarem, rejeitaram a Mensagem de
Deus, e mesmo talvez encetassem um desafio em aberto.
Quando começaram literalmente a sentir a Ira a chegar,
começaram a fugir, mas já era muito tarde! Ademais, para
onde poderiam ir, fugindo da Ira de Deus? Daí o irônico
apelo a eles, no versículo seguinte: é melhor que
renuncieis as vossa luxurias, e o que julgastes ser o vosso
lar permanente! Comparar com o dizer de Cristo, em
Mateus (3:7): “Raça de víboras, que vos ensinou a fugir da
ira futura?”
932. As diferentes espécies de falsos deuses, que as
pessoas tiram das suas imaginações, são agora citadas.
Nos versículos 21-23, é feita referência aos deuses da
terra, quer se trate de ídolos ou deuses locais, ou de heróis
deificados ou animais ou plantas ou forças da natureza que
nos rodeiam, as quais os homens têm adorado de tempos
em tempos. Estas, como deidades, não têm vida, a não ser
aquela que os seus adoradores lhes dão.
933. Após os falsos deuses da terra (versículo 21), são
mencionados os falsos deuses dos céus e da terra, como
aqueles do Panteão Grego, que discutiam e lutavam e
difamavam uns aos outros, fazendo do Olimpo uma
perfeita rinha!
934. Isto se refere tanto à superstição trinitária, dizendo
que Deus gerou um filho, como à superstição árabe de que
os anjos eram as filhas de Deus. Todas essas superstições
são derrogatórias da glória de Deus. Os profetas e os
anjos nada mais são do que servos de Deus; eles são
altamente elevados em honra, e, portanto, merecem o
nosso mais alto respeito, mas não a nossa adoração.
935. Eles nunca dizem nada, antes que recebam ordem de
Deus, e suas orações são igualmente condicionadas. Este
é, também, o ensinamento de Jesus, como está relatado
no Evangelho de João (12:49-50) “Porque eu não falei por
mim mesmo, mas o Pai, que me enviou, me deu a ordem
no tocante ao que eu deveria dizer, ao que eu deveria
falar. E eu sei que a Sua ordem é para a vida toda; o que
quer que eu fale, portanto, é o que o Pai disse que eu
falasse”. Se corretamente compreendido, “Pai” tem o
mesmo significado de “Rabb”, – Sustentador e Velador, e
não Procriador, ou Progenitor.
936. A evolução dos mundos ordenados, como os vemos,
é dada a entender. À medida em que o olhar intelectual do
homem sobre o mundo físico se expande, ele vê cada vez
mais como a unidade é a nota dominante no maravilhoso
Universo de Deus. Tomando tão-somente o sistema solar,
nós sabemos que a intensidade máxima das manchas
solares corresponde à intensidade máxima das manchas
solares corresponde à intensidade máxima das
tempestades magnéticas na Terra. A lei universal da
gravidade parece unir as massas todas juntas. Os fatos
físicos apontam para a formação dos planetas a partir de
vastas quantidades de matéria nebular difusa, da qual o
núcleo central condensado é o sol.
937. Cerca de 72 por cento da superfície do nosso globo é
coberto por água, e tem sido estimado que se as
diferenças da superfície fossem niveladas, toda a
superfície ficaria sob a água, uma vez que a principal
elevação do nível da terra, seria de 2.000 a 3.000 m abaixo
da superfície do oceano. Isso mostra o predomínio da água
no nosso globo. Que toda a vida começou na água é
também uma conclusão para a qual os nossos últimos
conhecimentos da biologia apontam. À parte o fato de que
o protoplasma, a base original da matéria viva, é um
líquido ou semi-líquido, num estado de constante fluxo e
instabilidade, há o fato de que os animais terrestres, como
os vertebrados superiores, incluindo o homem, mostram,
em sua história embriológica, órgãos como os dos peixes,
indicando que o seu habitat original era na água. A
constituição do protoplasma é de 80 a 85 por cento de
água.
938. “…para que esta não oscilasse com eles”; “eles”, aqui,
refere-se outra vez ao “ele” do final do versículo anterior,
querendo dizer “os incrédulos”. Poderia ser a humanidade
em geral, mas é destacado, para dirigir-se àqueles que não
se conscientizam da Misericórdia de Deus, e não a
compreendem; é apropriado para levar às terras deles o
fato de que é a providência bem ordenada de Deus, que
normalmente os protege de cataclismos, como terremotos,
mas que eles poderiam, por sua iniqüidade, ser destruídos
num instante, como os povos de Ad e de Tamud foram
destruídos antes deles. Como apontado na nota anterior,
se a superfície da Terra fosse nivelada, ela estaria toda
debaixo d’água; portanto, as firmes montanhas são as
mais vantajosas fontes de segurança que evoluíram nas
formas terrestres. Embora as montanhas pareçam
barreiras intransponíveis, contudo a providência de Deus
proporcionou largas gargantas entre elas, que servem de
estradas para as comunicações humanas.
939. Nós indicamos, ao contrário da maior parte dos
tradutores, a metáfora da gravitação implícita nas palavras
originais; quão belo é contemplarmos os corpos celestes
gravitando, através do espaço, em suas órbitas elípticas!
940. A vida sem a morte, neste planeta, não tem sido
concedida a qualquer homem. As lendas sobre o Khidher
constituem contos populares. Suas vida sem morte, nesta
terra, não é mencionada em lugar algum do Alcorão. O
escárnio dos incrédulos quanto o Profeta, portanto, era
fútil. Poderia qualquer um deles viver sem morrer, num
tempo ou noutro? Poderiam eles citar alguém com quem
isso tivesse acontecido?
941. A pressa está no sangue do homem. Se lhe é dada
uma folga para o seu próprio bem, a fim de que tenha uma
chance de se arrepender e voltar para Deus, ele diz,
incrédula e impacientemente: “Que venha depressa o
castigo, para que eu veja se o que dizes é verdade!” Qual,
como é verdade! Quando o castigo realmente chegar, e ele
o vir, não quererá que lho apressem. Pobre criatura
apressada!
942. Comparar com o versículo 41 da 13ª Surata, e
respectiva nota. O significado especial é que o Islam se
expandiu, social e geograficamente, das fronteiras
exteriores, gradativamente, para o núcleo interior. A fímbria
social era constituída de pessoas humildes, tais como
escravos e gente pobre. A referência geográfica é Madina,
e a demográfica é quanto às tribos em torno do centro de
Makka. Os orgulhosos e descrentes coraixitas foram os
últimos a chegar, quando o círculo se estava apertando,
mais e mais, em torno deles. A significação geram aplicase
a todos os tempos. A Verdade de Deus abre seu
caminho, primeiramente entre os pobres e os humildes,
gente cuja mente não está conspurcada por preconceitos,
ou falso orgulho, ou falso conhecimento, mas
gradativamente encurrala os obstinados, até que, por fim,
prevalece.
943. O literalismo de George Sale excedeu-se aqui; ele
traduz: “…e haverá suficiente prestação de contas junto a
Nós!” O que isso quer dizer é que quando há prestação de
contas junto a Deus, o Seu cômputo é perfeito; não há
falha nele, como acontece com os contadores terrenos,
que requerem o auxílio de outras pessoas em alguns
assuntos de contabilidade que eles não entendem, por
carecerem de conhecimento daquele departamento
particular como qual estão tratando. O conhecimento de
Deus é perfeito, e portanto Sua justiça é também perfeita
porque ele não deixará de levar em conta as coisas mais
intangíveis, as quais determinam a conduta e o caráter.
Ver a nota anterior. Não há contradição alguma entre isto e
o que dizem os versículos 104-105 da 18ª Surata, onde se
lê que os homens de obras vãs, de feitos superficiais e
hipócritas, não terão peso algum, relacionado com, seus
feitos. Em verdade, os dois casos se correspondem.
944. Eles lhe fizeram uma pergunta formal. Não houve
mistério sobre isso. Ele havia já abertamente ameaçado
fazer algo aos ídolos, e as pessoas que haviam ouvido as
suas ameaças lá estavam. Ele, então, continua com a sua
irônica zombaria, quanto aos idólatras: “Vós perguntais a
mim! Por que noa perguntais aos ídolos? Não vos parece
que o grandalhão, aqui, esmagou os menores, numa
turra?” Se eles não perguntavam aos ídolos, confessavam
que os seus ídolos não eram suficientemente inteligentes
para responder! Este argumento é desenvolvido nos
versículos 64-67. Note-se que, enquanto os falsos
adoradores de ídolos se riam da sua franqueza, ele lhes
pagava na mesma moeda, com uma brincadeira de mau
gosto, o que, ao mesmo tempo, favorece a causa da
Verdade.
945. A natureza do fogo, por todas as leis físicas da
matéria, é ser quente. A supremacia da mente sobre a
matéria é uma frase muitíssimo usada; mas a supremacia
espiritual sobre a material é tão comumente compreendida.
Todavia, ela constitui o maior fator, na estimativa da
Realidade. O material é efêmero e relativo. O espiritual é
eterno e absoluto. Em meio ao fogo da perseguição e do
ódio, Abraão permaneceu ileso. O fogo tornou-se frescor, e
um meio de segurança para Abraão.
946. Podemos, acaso, formar uma idéia vaga do lugar
onde ele passou pela fornalha, e do estágio de sua carreira
em que isso aconteceu? Ele nasceu em Ur, na Caldéia, um
local dos baixos do Eufrates, não chegando a 160 km do
Golfo Pérsico. Esse foi um dos berços da civilização. A
astronomia era ali estudada nos tempos mais remotos, e a
adoração ao sol, à lua, e às estrelas era a forma
predominante de religião. Abraão se revoltou contra aquilo,
bem cedo em sua vida, e o seu argumento é citado nos
versículos 74-82 da 6ª Surata. Eles também tinham ídolos
em seus templos, provavelmente ídolos que
representavam corpos celestes e criaturas celestiais
aladas. Ele era, ainda, um adolescente (versículo 60 desta
surata), quando destruiu os ídolos. Após aquilo, ele ficou
marcado como um rebelde, e foi perseguido. Talvez alguns
anos se tivessem passados antes do incidente de ele ter
sido atirado ao Fogo (versículos 68-69 desta Surata), ou o
incidente pode ser alegórico. Tradicionalmente, o Fogo é
relacionado com um certo rei, denominado Nemrod, sobre
o qual, ver a nota do versículo 69 da 11ª Surata; se a
capital de Nemrod era na Assíria, perto de Nínive (situada
perto da moderna Mosul), podemos tanto supor que o
governo do rei se estendeu por sobre a Mesopotâmia,
como que Abraão derivou para o norte, através da
Babilônia, até à Assíria. Vários estratagemas foram
planejados para o matar (ver o versículo 70 desta surata),
mas ele foi sempre salvo pela misericórdia de Deus.
947. A terra de Aram, ou Síria, que em sua mais ampla
conotação inclui Canã ou a Palestina, a Síria e o Líbano, é
uma terra bem irrigada e fértil, com um litoral mediterrâneo,
no qual as famosas cidades comerciais de Tiro e Sidon
estão situadas. Sua população é muito mesclada, uma vez
que tem sido a espinha dorsal da disputa entre todos os
grandes reinos e impérios da Ásia Ocidental e do Egito; e o
interesse europeu nela data dos tempos mais remotos.
948. As ovelhas, por causa da negligência do pastor,
entraram em um campo cultivado (ou num parreiral), à
noite, e comeram as plantas novas, e seus brotos tenros,
causando, talvez, danos do montante da colheita de um
ano. Davi era o rei, e, do seu trono de julgamento, ele
considerou o assunto tão sério, que premiou o dono
daquele campo com as mesmas ovelhas, como
compensação pelo dano. Seu filho, Salomão, um mero
rapaz de onze anos, pensou numa decisão melhor, em que
a penalidade condizia melhor com a ofensa. O prejuízo
fora a perda dos frutos ou do produto do campo; o corpus
da propriedade não fora perdido. A sugestão de Salomão
foi de que dono do campo não deveria tomar as ovelhas
todas, mas tão-somente retê-las o tempo suficiente para
que recuperasse o dano real, usufruindo do leite, da lã e
possivelmente das crias, e então devolvendo as ovelhas ao
pastor. O mérito de Davi está em ele ter aceito a sugestão,
embora ela tivesse partido de um rapazinho. O mérito de
Salomão está em ele ter distinguido entre corpus e
produção, e, embora muito jovem, não ter vergonha de
expor o caso perante o seu pai.
949. A fabricação das couraças é atribuída a Davi. Trata-se
de uma arma defensiva, e, portanto, sua descoberta e
suprimento está associada aos feitos dos virtuosos, de que
tratam os versículos 10-11 da 34ª Surata, em contraste
com as armas mortíferas, que os homens inventaram para
propósitos ofensivos. Em verdade, toda a luta, que não
seja em defesa dos virtuosos, é mera “violência”.
950. Isto foi interpretado como a significar que Salomão
tinha poderes milagrosos sobre os ventos, e podia fazer
com que eles obedecessem às suas ordens. Podemos
dizer o mesmo dos aeronautas de hoje. Em todo o caso, o
poder, por trás dele, provinha, e provém de Deus, o Qual
concedeu ao homem inteligência, e as faculdades, com as
quais ele pode domar as mais incontroláveis forças da
natureza.
951. Jó (Aiub) foi um homem próspero, com fé em Deus,
que viveu algures, no quadrante nordeste da Arábia. Ele
sofreu um sem-número de calamidades: seu gado foi
destruído, seus servos, mortos pela espada, e sua família,
esmagada sob o seu teto. Mas ele se apegou
ferrenhamente à sua fé em Deus. Deus fez recair sobre ele
a Sua misericórdia, e ele reassumiu a sua humildade e
abandonou a justificativa. Foi-lhe restabelecida a
prosperidade, duas vezes mais consistente do que antes;
seus irmãos e seus amigos voltaram a dar-lhe atenção; ele
passou a ter uma nova família, com sete filhos e três
bonitas filhas. Ele chegou a uma velhice razoável, e viu
quatro gerações de descendentes.
952. “Dulkifl”, poderia, literalmente, significar “possuidor, ou
concessor de uma dupla recompensa ou quinhão”; ou
também “aquele que usava uma vestimenta duplamente
espessa”, sendo este um dos significados de Kifl. Os
exegetas diferem em opinião quanto a quem é feita a
referência, porquanto o título é aplicado a ele, e ao fato de
ele estar agrupado com Ismael e Idris, pela constância e
paciência. Se aceitarmos “Dulkifl”, não como um epíteto,
mas como uma forma arabizada de “Ezequiel”, isso se
coadunará no contexto. Ezequiel foi um profeta em Israel,
que foi levado para a Babilônia por Nabucodonosor, após o
seu segundo ataque a Jerusalém (por volta do ano 599
a.C.). O seu Livro está incluído no Antigo Testamento.
Dulkifl é novamente mencionado no versículo 48 da 38ª
Surata, juntamente com Ismael e Eliseu.
953. Dun-nun (o homem do Peixe, ou da Baleia) é o título
dado a Jonas (Yunus), porque ele foi engolido por um
enorme peixe ou baleia. Ele foi o profeta enviado para
admoestar a capital assíria, Nínive. Quando a sua primeira
admoestação foi desconsiderada pelas pessoas, ele
anunciou a Ira de Deus sobre elas. Porém, elas se
arrependeram, e Deus as perdoou por algum tempo.
Jonas, no entanto, partiu zangado, desencorajado com o
aparente fracasso da sua missão. Ele foi embora para o
mar, e tomou um navio; mas aparentemente os
marinheiros o atiraram à água, como homem de mau
augúrio, em meio a uma tempestade. Ele foi engolido por
um enorme peixe (ou uma baleia); porém, nas profundezas
da escuridão, ele implorou a Deus, e confessou a sua
fraqueza. Deus, o Graciosíssimo, o perdoou. Ele foi
arremessado à praia; foi-lhe dado, como abrigo, em seu
estado de lassidão física e mental, uma planta. Ele ficou
renovado e revigorado, e o trabalho da sua missão
prosperou. Assim, ele sobrepujou todos os seus
desapontamentos pelo arrependimento e pela Fé, e Deus o
aceitou.
954. Aqui não se trata de uma questão de povo ou nação,
de um “povo escolhido”, ou da “semente de Abraão”, ou da
“semente de Davi”; dos judeus ou gentios, os árabes ou
persas, dos turcos ou dos europeus ou asiáticos, dos
brancos ou dos pretos, dos arianos, dos semitas, dos
mongóis, ou dos africanos, ou dos americanos, dos
australianos, ou dos polinésios. Para todos os homens e
para todas as criaturas, além dos homens, que possuam
alguma responsabilidade, os princípios se aplicam
universalmente.
955. Se eles realmente têm dúvidas quanto à vida após a
morte, tão-somente têm de voltar as suas atenções para a
sua própria natureza, e para a natureza, em torno deles.
Quão maravilhoso é o seu próprio crescimento físico, da
matéria inerte ao sêmen, ao óvulo fecundado, ao feto, à
infância, à juventude, à velhice, à morte! Como podem
duvidar de que o Autor desses maravilhosos estágios de
suas vidas também pode lhes dar uma espécie de vida no
final desta? Ou, se atentarem para a natureza externa,
verão a terra morta e estéril, e os aguaceiros fertilizadores
de Deus darem-lhe a vida, o crescimento e a beleza, de
variadas formas. O Criador desse grande desfile de
Beleza, pode, certamente, criar um outro mundo novo.
956. Os estágios do crescimento físico do homem, a partir
do nada, até que se completa o ciclo desta vida, são
descritos com palavras cuja acuidade, beleza e
compreensibilidade somente podem ser plenamente
estendidas pelo biólogos. Paralelamente ao crescimento
físico, pode ser entendido o crescimento interior, também
por estágios, e pelo artesanato criativo de Deus.
957. Isto é, uma criança do sexo masculino ou feminino,
uma criança bonita ou feia, uma criança dócil ou rebelde,
etc., envolvendo incontáveis mistérios de genética e
hereditariedade.
958. Alguns exegetas acham que isto se refira a Abu Jahl,
mas as palavras são perfeitamente generalizadas, sendo
que este tipo de homem é comum em todas as eras. O
mesmo se diga quanto ao versículo 3, acima; os exegetas
dão uma referência imediata a um tal Nadhr Ibn Haris.
959. Há alguma diferença de opinião quanto à
interpretação deste versículo. A maior parte dos exegetas
concorda em que o pronome “o” (jamais o socorrerá) se
refira ao Profeta, e em que o pronome “quem” se refira aos
inimigos dele, os quais desejavam vê-lo destruído e
retirado do cenário do seu jogo. Ibn Abbás, que nós
seguimos aqui, e que um grande número de exegetas
segue, constrói as últimas cláusulas com sentido dado no
texto. Livremente parafraseado, significa: se os inimigos do
Mensageiro de Deus estão enfurecido com o sucesso dele,
que pendurem uma corda nos tetos de suas casas e se
enforquem.
960. Para os sabeus, ver a nota do versículo 62 da 2ª
Surata; o versículo 72, da 5ª Surata, também se refere a
eles. Em ambas as passagens os muçulmanos são
mencionados, juntamente com os judeus, os cristãos e os
sabeus, recebendo a proteção e a misericórdia de Deus.
Aqui, além as quatro religiões, há uma menção mais
consistente aos Magos e aos Politeístas; não é dito que
eles deverão receber a Misericórdia de Deus, mas tãosomente
que Deus julgará entre as várias formas de fé. A
adição dos politeístas – aqueles que juntam deuses a Deus
– pode parecer um pouco surpreendedora. Porém, a
argumentação é que todas as formas de fé que são
sinceras (e não meramente contumazes) são assuntos em
que nós, como homens, não podemos interferir. Nosso
dever é sermos tolerantes, dentro dos limites da tolerância
– isto é, desde que não haja opressão, injustiça e
perseguição. Quando pudermos corrigir um erro óbvio, é
nosso dever tratar de fazê-lo; contudo, seria errado da
nossa parte querermos alvoroçar-nos, sem poder nem
autoridade, simplesmente porque as outras pessoas não
acatam o nosso ponto de vista.
961. Este é o único lugar onde os Magos (Majus) são
mencionados no Alcorão. O culto deles é muito antigo.
Eles consideram o Fogo como o mais puro e o mais nobre
elemento, e o cultuam como um adequado emblema de
Deus. O local era a Pérsia, os planaltos de Madian e os
vales da Mesopotâmia. A sua religião foi formada pelo
Profeta Zaratrusta (data incerta, por volta do ano 600 a.C.).
A sua escritura é o Zend-Avesta, a bíblia dos persas. Eram
“os Sábios do Oriente”, mencionados nos Evangelhos.
962. O terreno de Makka foi concedido a Abraão (a seu
filho Ismael) para um local de culto que deveria ser puro
(sem ídolos, sendo que o culto deveria ser feito ao Único e
Verdadeiro Deus), e universal, sem ser reservado (como o
Templo de Salomão, de tempos mais tarde) a qualquer
povo ou raça.
963. Quando a peregrinação era conclamada, as pessoas
vinham a ela de todos os quadrantes, de perto ou de longe,
a pé ou montadas. Os “camelos” cansados, que chegavam
após uma fatigante jornada, através da longínquas
montanhas, patenteiam as dificuldades da viagem, a quais
os peregrinos não levavam em consideração, dados os
benefícios materiais e espirituais, a que se refere o
versículo seguinte.
964. Os três dias especiais do Hajj são 8, 9 e 10 do mês de
dul-hijja, e os dois ou três dias subseqüentes ao Tachric;
ver os rituais que são explicados na nota do versículo 197
da 2ª Surata. Contudo, devemos, ordinariamente, incluir os
primeiros dez dias do mês de dul-hijja no termo.
965. O grande dia do Sacrifício comemorativo (Id-ulAdhha)
é o dia 10 de dul-hijja; a carne do gado, nesse dia
abatido, deve ser comida e distribuída entre os pobres e
necessitados. Bahimat significa animal, de um modo geral;
an’am significa gado, especialmente o usado para a
alimentação, e aqui, para o sacrifício.
966. Taraf = o que cresce superfluamente no corpo da
pessoa, tal como, unhas, pêlos, cabelos, e que não é
permitido, no Ihram, aparar. Estes podem ser aparados no
dia 10, quando o Hajj estiver completo; esse é o ritual do
acabamento.
967. O espírito da Peregrinação não é completado pela
realização dos ritos externos. Os peregrinos devem ter em
mente algum voto de serviço espiritual e de diligência para
realizá-lo. Então, vem o Tawaf, que consiste em circundar
a Caaba por sete vezes.
968. As proibições gerais de alimentos serão encontradas
no versículo 173 da 2ª Surata, nos versículos 4-5 da 5ª
Surata e nos versículos 121, 138-146 da 6ª Surata. Elas
são estabelecidas, para o bem da saúde e da limpeza; mas
a pior das abominações a o evitar é aquela do falso culto e
da falsa alocução. Aqui a questão é sobre a comida,
durante a Peregrinação. A carne é lícita, mas a caça não é
permitida.
969. Chaá-ir = símbolos, sinais e marcas pelos quais se
sabe que algo pertence a algum grupo de homens
particular, tias como as bandeiras. No versículo 158 da 2ª
Surata, a palavra foi aplicada a Safa e Marwa (ver a
respectiva nota). Aqui, ela parece estar sendo aplicada aos
rituais do sacrifício. Tal sacrifício é simbólico; pode indicar
dedicação e piedade de coração (ver o versículo 37, desta
surata, mais adiante).
970. O sacrifício real não é realizado na Caaba, mas em
Mina, distante 8 ou 9 km do local onde os peregrinos
acampam (ver a nota do versículo 197 da 2ª Surata).
Tumma = então, finalmente, no final; isto é, após todos os
rituais serem realizados (Tawaf, Safa e Marwa, e Arafat).
971. Esta é a verdadeira finalidade do sacrifício, e não a
proporção de altos poderes, pois Deus é Único, e Ele não
Se delicia com carne ou sangue (versículo 37 desta
surata); e repartirmos a carne com os semelhantes
constitui um símbolo de rendição de graças a Deus. O
solene pronunciamento do nome de Deus, no sacrifício,
constitui parte essencial ao rito.
972. Ver a nota do versículo 33 desta surata. O que foi
expresso, em termos gerais, é aplicado aqui, mais
especificamente aos camelos, os mais preciosos e úteis
animais da Arábia, cujo modo de abate, para o sacrifício, é
diferente daquele dos animais menores; a palavra especial,
para tal sacrifício é Nahr (versículo 2 da 108ª Surata).
973. A essência do sacrifício foi explicada na nota 971
desta Surata. Ninguém deve supor que a carne ou o
sangue seja aceito pelo Único e Verdadeiro Deus. Vem da
fantasia pagã de que Deus deve ser aprazido com um
sacrifício sanguinário. Porém, Deus aceita as oferendas
dos nosso corações. Ele nos deu poder sobre a criação
animal, e permitiu que comêssemos carne, mas somente
se pronunciarmos o Seu nome no ato de tirar a vida,
porque, sem esta solene invocação, estamos afeitos a
esquecer a sacraticidade da vida. Por meio da invocação
lembramo-nos de que a crueldade dissoluta não está em
nossos pensamentos, mas apenas a necessidade de
alimento. Agora, se negarmos a nós mesmos a maior parte
do alimento (alguns teólogos fixam a proporção em três
quartos ou dois terços), para o bem dos nosso irmãos mais
pobres, em assembléia solene, nos recintos do Haram
(território sagrado), o nosso ato simbólico será a expressão
prática da benevolência, e essa é a virtude que se procura
ensinar.
974. A permissão para que um povo virtuoso lute contra
outro povo feroz e amante da desordem era plenamente
justificada, quando a pequena comunidade muçulmana
não apenas lutava pela sua própria existência, contra os
coraixitas de Makka, mas pela existência da Fé no Único e
Verdadeiro Deus. Eles tinham tanto direito de estar em
Makka e orar na Caaba quanto os coraixitas; contudo,
foram exilados por causa da sua Fé. Isso afetou, não a fé
de um povo em particular; o princípio envolvido era o de
todos os fiéis: judeus, cristãos e muçulmanos, e o de todas
as fundações, erigidas para usos religiosos.
975. “Recomendam o bem e proíbem o ilícito”, isto é um
dever essencial da comunidade muçulmana e um dos
principais propósitos para a qual foi criada.
976. Primeiramente caíram os telhados, então toda a
estrutura, incluindo as paredes, e tudo desmoronou depois,
como acontece nas ruínas. O local foi virado de pontacabeça.

977. A palavra “coração”, em árabe, implica tanto a sede
das faculdades da inteligência e da compreensão, como a
sede das afeições e emoções. Aqueles que rejeitam a
Mensagem de Deus podem ter os olhos e os ouvidos
físicos, mas seus corações são cegos e surdos. Caso as
sua faculdades de entendimento fossem ativas, não veriam
eles os Sinais da Providência do Senhor e a Ira de Deus,
na natureza, ao redor deles, e nas cidades e nas ruínas, se
viajassem inteligentemente?
978. A condição de Mártir representa o sacrifício da vida ao
serviço de Deus. A recompensa por isso é, portanto, ainda
maior que a boa vida comum. Os pecados dos mártires
são perdoados pelo próprio ato do martírio, o que implica
em rendição no mais lato sentido da palavra. Deus
conhece tudo da sua vida passada, mas abster-Se-á de
chamá-lo a prestar contas das coisas que seriam
estritamente da sua conta.
979. Comumente, aos muçulmanos é prescrito suportar as
injúrias com paciência, e retribuir o mal com o bem
(versículo 96 da 23ª Surata). Porém, há ocasiões em, que
os sentidos humanos obtêm o melhor de nossas sábias
resoluções, ou quando, num estado de conflito ou de
guerra, nós retribuímos “da melhor maneira que podemos”.
Nesse caso, a nossa represália é permitida, desde que a
injúria que infligirmos não seja maior do que a que
recebermos. Após tal represália, nós ficamos quites;
todavia, se o outro lado agir agressivamente de novo, e
exceder os limites ao nos atacar, seremos merecedores da
proteção de Deus, a despeito de todas as nossas faltas;
porque Deus é o Único Que pode apagar os nossos
pecados, e perdoar.
980. Os rituais e as cerimônias podem aparentar ser
assuntos sem importância, comparados “às questões de
peso da Lei”, e às elevadas necessidades da natureza
espiritual do homem. Contudo, são necessários para a
organização social e religiosa, e o seu efeito sobre os
próprio indivíduo não deve ser desprezado. Em todo o
caso, uma vez que constituem símbolos externos visíveis,
eles dão origem às mais acaloradas controvérsias. Tais
controvérsias devem ser deprecadas. Isso não quer dizer
que devamos fazer pouco caso dos nossos rituais e das
nossas cerimônias. Os rituais do Islam encontram-se entre
as mais altas necessidades sociais e religiosas do homem;
se estivermos convencidos de que estamos no Caminho
Certo, deveremos convidar todos a se unirem a nós, sem
entrarem em controvérsias acerca de tais questões.
981. Quanto à porfia estar em concernência com Jihad,
num sentido exíguo, ver as limitações na nota do versículo
190 da 2ª Surata e na nota do versículo 191, também da 2ª
Surata. Porém, são perfeitamente generalizadas, e se
aplicam a toda a verdade e à porfia desinteressada, para o
bem espiritual.
982. Os judeus se viam a braços com muitas restrições, e
a sua religião era racista. O cristianismo, como
originalmente pregado, era uma religião eremita: “vende
tudo o que possuis…” (Marcos, 10:21); “não penses no
amanhã” (Mateus, 6:34). O Islam, como originalmente
pregado, dá liberdade ao homem, e trata de desenvolver
as suas faculdades de todas as espécies. É universal, e
reivindica datar desde Adão; o pai Abraão é mencionado
como o grande ancestral daqueles entre os quais o Islam
foi primeiramente pregado (judeus, cristão e árabes
idólatras).
983. Humildade na oração, no que diz respeito à estimativa
da sua própria valia na presença de Deus; à estimativa dos
seus próprios poderes e vigor, a menos que sejam
ajudados por Deus; e às petições que fazem a Deus.
984. Os muçulmanos devem-se resguardar quanto a toda
espécie de abuso ou perversão sexual. A nova psicologia,
associada ao nome de Freud, traça muitos dos nossos
motivos ocultos quanto ao sexo, e é do conhecimento
comum que o nosso refinamento ou a nossa degradação
sexual pode ser medido pelas atividades ocultas dos
nossos instintos sexuais. Mas mesmo o natural e lícito
exercício do sexo é restringido aos limites do casamento,
sob o qual os direitos de ambas as partes são devidamente
regulamentados e mantidos.
985. Isto está bem mais explicado e aplicado no versículo
25 da 4ª Surata. Será ali visto que o status de uma cativa,
quando elevado à liberdade por meio do casamento, é o
mesmo de uma livre, com respeito a seus direitos, porém
mais leniente quanto ao castigo a lhe ser infligido se ela
deixar de observar as virtudes.
986. As responsabilidades devem ser expressas ou
implícitas; as expressas são aquelas em que a propriedade
é confiada ou os deveres são assinalados por alguém a
outro alguém em que ele confia, para ser desenvolvida,
tanto imediatamente como em contingências específicas,
como no caso de morte. As implícitas provêm do poder, ou
da posição, ou da oportunidade; por exemplo, um rei
governa o seu reinado em nome de Deus quanto aos seus
súditos. O assunto dos pactos, expressos ou implícitos, foi
discutido na nota do versículo 1 da 5ª Surata. Os pactos
criam obrigações e responsabilidades, expressas ou
implícitas, e reunidos, abrangem todo o campo das
obrigações.
987. No versículo 2, fomos orientados para o espírito da
humildade e do ardor, em nossas orações. Aqui é-nos dito
o quão necessário é o hábito das orações regulares, para o
nosso bem-estar e desenvolvimento espirituais, uma vez
que isso coloca mais perto de Deus, sumariando, assim, o
cintilar das variedades das sete jóias da nossa Fé, a saber:
a humildade, o banimento da vaidade, a caridade, a pureza
sexual, a fidelidade às responsabilidades e aos pactos; e o
sincero desejo de estarmos mais perto de Deus.
988. Nesta magnífica passagem, a obra criativa de Deus,
concernente ao homem, é recapitulada, a fim de mostrar a
verdadeira posição do homem nesta vida. Aqui não
entramos em concernência com o primeiríssimo estágio, a
criação, do nada, da matéria primeva. Esse foi também um
processo de criação, quando a matéria inorgânica se
transformou em matéria viva. Deste modo, os constituintes
inorgânicos da terra são absorvidos pela matéria viva, por
meio dos alimentos, e a matéria vida, se reproduz por meio
do esperma. Este é depositado no óvulo e o fertiliza,
permanecendo por um certo tempo em segurança, no
útero da mulher. A primeira mudança do óvulo fertilizado é
a conversão em espécie de invólucro de grosso sangue
coagulado. As células zigóticas crescem por segmentação;
então a massa disforme gradativamente vai assumindo
uma forma, em seu crescimento, de feto. Do montante
desenvolvem-se ossos, carne, órgãos e um sistema
nervoso. De qualquer modo, o desenvolvimento do feto do
homem é igual ao desenvolvimento do feto de um animal;
porém, depois acontece um processo diferente, que
transforma a criança animal numa criança humana. Isto é o
alento nela do espírito de Deus (versículo 29 da 15ª
Surata); tal processo não necessita acontecer
precisamente num dado ponto de tempo. Pode tratar-se de
um processo contínuo, paralelo ao crescimento físico. A
criança nasce, cresce, depois, como adulta entra em
declínio e morre; porém, após a morte, um outro capítulo
se abre para o indivíduo, e é para nos lembrarmos do mais
momentoso dos capítulos, que os estágios anteriores são
recapitulados.
989. O crescimento, no estágio fetal, é silente e invisível. O
feto é protegido no útero da mãe como um rei num castelo;
está firmemente fixo, e obtém a proteção do corpo da mãe,
do qual depende para o seu próprio crescimento, até ao
nascimento.
990. Partindo de um mero animal, consideramos agora o
homem como tal. O fato de que do pó seco (turab –
versículo 5 da 22ª Surata), ou da matéria inorgânica seja
feito o protoplasma (argila úmida ou matéria orgânica), por
si só, não constitui um sinal de maravilha; dele cresce uma
nova vida animal; e dele deve crescer a vida humana, com
todas as suas capacidades e responsabilidades. O homem
leva consigo os Sinais da sabedoria e do poder de Deus, e
ele pode vê-los todos os dias, no universo ao redor dele.
991. A nossa morte física, nesta vida mortal, parece
constituir uma interrupção. Porém, se fosse o fim de tudo,
as nossas vidas tornar-se-iam sem significado. Nossos
próprios instintos nos dizem que isso não pode ser assim,
e Deus nos assegura que haverá uma ressurreição, para o
julgamento.
992. Normalmente a chuva cai bem distribuída; ela molha o
solo; a umidade retida por um longo tempo, nos terrenos
altos; ela molha e penetra as muitas camadas do solo, e
forma a arquitetura, e a geografia física; o poder de
retenção dos solos altos faz com que os rios corram
perenemente, mesmo onde a precipitação é estacional, e
restrita a uns poucos meses por ano. Uma outra forma pela
qual a água desce do céu, nas devidas medidas, é por
meio da neve e do granizo; estes têm, também, o seu lugar
na temperança do ar e do solo. Se não fosse pela neve e
pelas geleiras, que ficam nas regiões montanhosas, alguns
rios deixariam de correr caudalosamente. Tão maravilhosa
como a precipitação da água e a presença da umidade é a
sua drenagem. A água volta para o mar e para o ar, das
mais variadas maneiras, sendo que a formação de
nevoeiros e de nuvens fazem repetir o ciclo. Se não fosse
pela drenagem e liberação das águas, teríamos enchentes
e inundações, como acontece quando o processo normal
da natureza é temporariamente obstruído.
993. Na Arábia, as melhores olivas crescem perto do
Monte Sinai. O figo, a oliva, o Monte Sinai e a sagrada
cidade de Makka são mencionados juntos e em
associação, nos versículos 1-3 da 95ª Surata. O azeite de
oliva é um ingrediente usado em ungüentos medicinais e
em unção empregadas em cerimônias religiosas, tal como
a unção de reis. Desse modo, ele tem um significado
simbólico. Se usada como alimento, a azeitona tem um
sabor delicioso.
994. Íbrat: o significado radical do verbo é interpretar, ou
expor, ou instruir, como no versículo 43 da 12ª Surata; o
substantivo significa: uma interpretação, ou exemplo, ou
sinal que instrui, como aqui e no versículo 66 da 16ª
Surata, ou que admoesta, como no versículo 13 da 3ª
Surata.
995. Ver o versículo 40 da 11ª Surata, e respectiva nota,
onde a palavra tanur (forno) é explicada.
996. Se isto se refere a qualquer profeta em particular,
deve ser a Hud, cuja missão era para com o povo de Ad,
ou a Sáleh, cuja missão era para com o povo de Tamud.
Esta é a seqüência após Noé, nos versículos 50-68 da 11ª
Surata. Porém, achamos que, como o nome não é
mencionado, devemos, geralmente, entender os tipos de
profetas pós-diluvianos, até chegar a Moisés e a Jesus. O
objetivo, aqui, não é recontar as histórias, mas mostrar que
a resistência dos iníquos não fez diferença alguma para o
triunfar da Verdade de Deus.
997. O tipo sibarita, de mente estreita, não desfruta das
coisas boas desta vida, nega a vida futura, e se rebela
contra qualquer um que queira alargar o seu horizonte, é
aqui descrito, em poucas mas magistrais pinceladas.
Agasta-se à menção das coisas sérias que estão além da
sua argúcia. Para que, diz ele, falar sobre o futuro?
Vivamos o presente. O ganho está todo no presente; e a
perda está toda no futuro.
998. Ghuçaa’, literalmente restolho de folhas mortas, ou a
espuma que corre numa torrente.
999. O nascimento de Jesus de uma virgem constituiu um
milagre, tanto para ele como para sua mãe. Ela foi
falsamente acusada de falta de castidade, mas o menino
Jesus, a vindicou por meio dos seus próprios milagres
(versículo 27 a 33 da 19ª Surata), e mostrou, com a sua
vida, a torpeza da calúnia contra a sua mãe.
1000. As pessoas que começaram a negociar com os
nomes dos profetas cortaram essa unidade e formaram
seitas; e cada seita se contenta com a sua própria doutrina
exígua, em vez de se apegar ao ensinamento universal da
Unicidade de Deus. Porém, essa confusão sectarista é
invenção do homem. Ela durará por um certo tempo, mas
os raios da Verdade e da Unicidade finalmente dissiparão.
1001. Samir, em árabe, aquele que fica acordado à noite;
aquele que passa a noite proseando, ou recitando histórias
de romances, entretenimento favorito dos dias de idolatria.
1002. A referência é a uma severíssima penúria que houve
em Makka, e que os incrédulos atribuíram à presença do
Profeta entre eles, e à sua pregação contra os seus
deuses. Sendo esta uma surata revelada em Makka, a
referida penúria deve ser aquela descrita por Ibn Alkatir
como tendo acontecido no 8º ano da Missão, digamos uns
quatro anos antes da Hégira; houve também uma penúria
após a Hégira, que é citada por Albukhari, mas este é um
evento posterior.
1003. Alguns exegetas acham tratar-se, aqui, da batalha
de Badr; se assim for este versículo particular seria do
período madinense. Contudo, é melhor que o entendamos
como se referindo à mesma “adversidade” do versículo
anterior, ou aos castigos em geral, os quais os pecadores
obstinados se recusam a tomar como admoestações, para
que se emendem, em arrependimento, a Deus.
1004. No primeiro exemplo, isto se aplicava ao
Mensageiro. A sua subseqüente Hégira de Makka e a
queda final da oligarquia maquense provaram amplamente
a realização da profecia. Todavia, o significado geral, isso
se aplica a todos. É-nos ensinado que o mal será açoitado
com um terrível castigo, não apenas na vida futura, mas
nesta mesmíssima vida, quando a taça de iniqüidade
estiver cheia, e chegar o tempo da punição, no Plano de
Deus. Se isso acontecer enquanto nós ainda estivermos na
cena desta vida, é-nos dito que oremos, para que não nos
encontremos na companhia daqueles que atraem tal
punição para si mesmos. Em outras palavras, devemos
evitar a associação com os malignos.
1005. Barzakh, em árabe, uma barreira, um obstáculo ou
uma partição; o local ou estado em que as pessoas ficarão,
após a morte e antes do julgamento (comparar com o
versículo 53 da 25ª Surata e com o versículo 20 da 55ª
Surata). Atrás deles está a barreira da morte, e na frente, o
Barazkh, a divisão, um estado quiescente, até que chegue
o julgamento.
1006. A pergunta e a resposta sobre o tempo implicam em
duas coisas: (1) a atenção dos ímpios é chamada para o
tempo extremamente curto da vida neste mundo,
comparado com a eternidade que ora eles encaram; é-lhes
feito ver isto, para que se conscientizarem de quão errado
estavam, em sua valorização comparativa das coisas
espirituais e das materiais; (2) o tempo, como ora o
conhecemos, terá passado e parecerá quase nada. É
apenas uma questão relativa, para esta vida de provação
temporária (comparar com a experiência dos
Companheiros da Caverna, no versículo 10 da 28ª Surata).
1007. A Criação de Deus não é destituída de um elevado e
sério propósito. Ela não é em vão, ou para mero
entretenimento ou mera brincadeira. No que concerne ao
homem, as mais altruísticas prescrições estão no seu
comportamento desta vida. “A vida é real, a vida é séria, e
o túmulo não é a sua meta”, como com verdade diz
Longfellow. Nós devemos, portanto, buscar seriamente a
Verdade de Deus, encorajados pelo fato de que a Verdade
de Deus está, também, devido à sua ilimitada misericórdia,
procurando-nos, e tentando alcançar-nos.
1008. Não se deve pensar que os exames das ofensas
sexuais, ou das pequenas impropriedades que se
relacionam com o sexo ou a privacidade, seja assuntos
que não afetam a vida espiritual, no mais alto grau. Esses
assuntos estão intimamente ligados aos ensinamentos
espirituais, tais como os que Deus enviou nesta Surata. A
ênfase está no pronome “nós” (oculto): estas coisas não
são meramente questões de conveniências; outrossim,
Deus nos-las ordenou para a nossa observância na vida.
1009. A palavra Zina inclui a relação sexual entre um
homem e uma mulher que não sejam casados um com o
outro. Por conseguinte, ela se aplica tanto ao adultério (o
que quer dizer que uma ou ambas as partes são casadas
com uma pessoa ou pessoas que não aquelas referidas)
como à fornicação, o que, em sua estrita significação,
implica em que as partes não são casadas. A lei do
casamento e do divórcio, no Islam, é simples, para haver o
mínimo de tentação quanto à relação sexual fora dos
expedientes bem definidos do casamento. Isto colabora
para o maior respeito próprio, tanto do homem como da
mulher. Outras ofensas sexuais são também puníveis, mas
esta seção se aplica estritamente à Zina, acima definida.
1010. A punição deve ser pública, para que seja
dissuasiva.
1011. O Islam prescreve a pureza sexual, para o homem e
para a mulher, permanentemente – antes do casamento,
durante o casamento e após a dissolução do casamento.
As práticas culposas ou ilícitas são banidas do círculo
matrimonial dos homens castos e das mulheres castas.
1012. A mais séria atenção é voltada para as pessoas que
fazem insinuações difamatórias ou escandalosas acerca
de mulheres, sem a adequada evidência. Se algo for dito
contra a castidade de uma mulher, isso deverá ser apoiado
por um evidência duas vezes mais forte do que a requerida
em transações comerciais, ou mesmo em casos de
assassinato. Com efeito, quatro testemunhas seriam
requeridas, em vez de duas. Não havendo essa evidência
preponderante, o difamador seria tratado como um
transgressor iníquo, e seria punido com oitenta açoites.
Não apenas seria sujeito a esta ignominiosa forma de
punição, mas ficaria privado dos seus direitos de cidadão
de fornecer evidências em todos os assuntos da sua vida,
a menos que se arrependesse e se reformasse, podendo,
nesse caso, ser readmitido com uma testemunha
competente.
1013. A punição por açoites é infligida em qualquer caso
de difamação sem base. Porém, a privação do direito
cívico do indivíduo de prestar evidências poderá ser
cancelada pela subseqüente conduta dele, se ele se
arrepender, mostrar que sente o que fez, e jurar que no
futuro jamais apoiará a sua afirmação em algo do qual não
possua a mais plena evidência.
1014. O caso das pessoas casadas é diferente do dos
estranhos. Se uma delas acusar a outra de falta de
castidade, a acusação refletirá, em parte, também sobre o
acusante. Ademais, o laço que une as pessoas casadas,
mesmo quando as diferenças aparecem, com certeza atua
como uma firme influência contra a trama das falsas
acusações de falta de castidade, particularmente quando o
divórcio é permitido (como no Islam), por motivos outros
que não a falta de castidade. Suponhamos que um marido
apanhe a esposa num ato de adultério; dada a natureza do
conhecimento, quatro testemunhas – ou mesmo uma
testemunha de fora – seria coisa impossível. O assunto é,
então, deixado ao critério dos dois cônjuges. Se o marido
puder jurar solenemente quatro vezes sobre o que viu, e,
em adição, invocar uma maldição sobre si mesmo, caso
esteja mentido, isso constituirá evidência prima facie da
culpa da esposa. Porém, se a esposa puder, de igual
modo, jurar quatro vezes, e, do mesmo modo, invocar uma
maldição sobre si mesma, estará, pela lei, isenta da culpa.
Se ela não der este passo, a acusação estará provada, e
ela ficará sujeita ao castigo.
1015. O incidente, aqui citado, ocorreu no regresso da
expedição Bani Mustalic (5-6 H.). quando a marcha foi
ordenada, Aicha não estava em sua tenda, tendo saído
para procurar um valioso colar que havia deixado cair.
Como a sua liteira era protegida por véus, não foi notado
que ela não estava lá dentro, até que o exército fez a
próxima parada. Entrementes, vendo que o acampamento
havia partido, ela sentou-se, na esperança de que alguém
voltasse para a apanhar, quando a sua ausência fosse
notada. Era noite, e ela pegou no sono. Na manhã
seguinte ela foi encontrada por um migrante, que havia
sido inadvertidamente abandonado. Ele a pôs em seu
camelo e a levou, dirigindo a pé o animal. Isso
proporcionou a oportunidade para que os inimigos
suscitassem um malicioso escândalo. O cabeça, “entre tais
inimigos”, era o chefe dos hipócritas de Madina, Abdulah
Ibn Ubai, ao qual se refere a última cláusula deste
versículo. Ele foi entregue ao castigo espiritual de um
pecador impenitente, tanto que morreu nesse estado.
1016. Foi a misericórdia de Deus que os salvou de muitas
conseqüências malignas, tanto nesta vida como na Futura
– nesta vida, porque as sábias medidas do Mensageiro
cortaram pela raiz qualquer separação incipiente, entre
aqueles que lhe eram adjacentes e caros; e, no aspecto
espiritual, porque os agentes menores, que espalharam o
escândalo, arrependeram-se e foram perdoados. Dúvida
alguma ou divisões algumas, nem tampouco desconfiança
mútua alguma foi permitido que ficassem em seus
corações, depois de o assunto ser esclarecido.
1017. Há três coisas, aqui, que são reprovadas, por foça
dos ensinamentos espirituais: se outras pessoas falam
palavras más, não há razão para que devais aviltar a vossa
língua; se tiverdes um pensamento ou uma suspeita que
não sejam baseados no vosso conhecimento certo, não o
façais circular, dando-lhes expressão; e outras pessoas
poderão achar que seja um assunto de somenos
importância falar, de leve, algo que poderia arrasar o
caráter ou a reputação de uma pessoa; aos olhos de Deus
esse é um assunto sério, em qualquer caso, mas
especialmente quando estão envolvidas a honra e
reputação de uma mulher de pendores religiosos.
1018. Notemos o refrão que aparece quatro vezes nesta
passagem (“E se não fosse pela graça de Deus e pela Sua
misericórdia…”). cada vez, a expressão tem uma aplicação
diferente: no versículo 10 foi em conexão com a acusação
de infidelidade, feita por uns dos cônjuges contra o outro;
ambos foram relembrados da misericórdia de Deus, e
admoestados quanto à suspeita e à inverdade; no
versículo 14 foi dito aos crédulos que se acautelassem
quanto aos falsos rumores, senão iriam causar sofrimento
e divisão entre si próprios; é a graça de Deus que os
mantém unidos. Aqui, uma admoestação para o futuro;
pode haver conspirações e ciladas, dispostas pelo Mal,
contra as pessoas simples; é a graça de Deus que as
protege; no versículo 21 a admoestação geral é dirigida
pela a observância da pureza, em ação e em pensamento,
concernente à própria pessoa, e concernente a outros; é
apenas a graça de Deus que pode manter imaculada essa
pureza, pois Ele atende às orações, e sabe de todas as
ciladas que são postas no caminho do Bem.
1019. A referência imediata é com relação a Abu Bakr, o
pai de Aicha. Ele foi abençoado, tanto com a graça
espiritual, vinda de Deus, como com amplíssimos meios,
os quais sempre usou a serviço do Islam e dos
muçulmanos. Um dos difamadores de Aixha aconteceu ser
Mistah, um primo de Abu Bakr, que ele tinha o hábito de
sustentar. Naturalmente, Abu Bakr desejava parar com a
ajuda, mas, de acordo com os altos padrões da ética
muçulmana, foi-lhe pedido que perdoasse e esquecesse o
que ele fez, com os mais felizes resultados para a paz e
unidade da comunidade muçulmana. Contudo, a aplicação
geral contém o bem para todo o sempre. Um benfeitor
generoso não deve, em caso de zanga pessoal, retirar o
seu apoio, mesmo em faltas sérias, se o delinqüente se
arrepende e emenda o seu proceder. Se Deus nos perdoa,
quem somos nós para nos recusarmos a perdoar o nossos
semelhantes?
1020. As mulheres bondosas são, às vezes, indiscretas,
porque não têm maus pensamentos. Todavia, mesmo essa
indiscrição inocente põe-nas, e àqueles que lhes são
caros, em dificuldades. Tal foi o caso de Aicha, que ficou
em extremo sofrimento e desassossego, por todo um mês,
por causa das difamações sobre ela. Seu marido e seu pai
foram, também, colocados numa situação constrangedora,
considerando-se a sua posição, e a grandiosa obra em que
estava engajados. Porém, as pessoas sem princípios, que
dão início às difamações, e os seus irracionais
instrumentos, que ajudam a espalhar tais difamações, são
culpados da mais grave ofensa espiritual, acontecendo que
o seu maior castigo consiste na privação da graça de
Deus, coisa que significa um estado de Maldição.
1021. Quer dizer, se ninguém responder, pode ser que
haja alguém na casa que não esteja num estado
apresentável. Ou, mesmo que a casa esteja vazia, não
tendes direito de entrar, até que obtenhais a permissão do
dono, esteja ele onde estiver. O fato de não receberdes
uma resposta não vos dá o direito de entrardes sem
permissão. Deveis esperar, bater mais duas vezes ou três
vezes, e vos retirar, se não for obtida permissão. Se por
acaso vos for pedido que vos retireis, uma vez que os
moradores não se acham em condições de vos receber,
deveis fazê-lo à fortiori, por um certo tempo, ou
permanentemente, conforme os moradores desejarem que
façais. Mesmo que eles sejam vossos amigos, não tendes
o direito de os tomardes de surpresa, ou de entrardes,
contra o desejo deles. A vossa própria pureza de vida e de
conduta, bem como de motivos, é desta maneira testada.
1022. A regra das moradias é estrita, porquanto a
privacidade é preciosa e essencial para uma vida decente,
refinada e bem ordenada. Tal regra, certamente, não se
aplica às casas usadas para outros propósitos úteis, como
uma estalagem, ou uma loja ou um armazém. Contudo,
mesmo assim, certamente uma permissão implícita do
dono é necessária, por uma questão de bom-senso. A
questão, nesta passagem, é a privacidade pessoal, e não a
dos direitos de propriedade.
1023. A regra da moderação se aplica tanto aos homens
como às mulheres. Um olhar impudente de um homem
para uma mulher (ou mesmo para um homem) constitui
uma quebra das maneiras refinadas. No que se refere ao
sexo, a moderação não apenas constitui uma “boa
fórmula”, mas é também para resguardar o sexo fraco, e
também para salvaguardar o bem espiritual do sexo forte.
1024. A necessidade de moderação é a mesma, tanto para
o homem como para a mulher. Todavia, devido à
diferenciação dos sexos, dos temperamentos e da vida
social, uma maior reserva é requerida da mulher mais do
que do homem, especialmente no que diz respeito à
vestimenta e ao cobrimento do peito.
1025. Zínat significa tanto a beleza natural como os
ornamentos artificiais. Nós achamos que ambos os
significados estão implícitos aqui, mas principalmente o
primeiro. É pedido à mulher que não faça exposição da sua
figura, ou que não apareça semi-despida na frente das
pessoas, com exceção de: seu marido; seus parentes que
estejam vivendo sob o mesmo teto; suas mulheres, isto é,
suas criadas, as quais têm de estar em constante
atendimento a ela. Alguns exegetas incluem todas as
crédulas; seus criados isentos das necessidades físicas
sexuais; adolescentes e criancinhas antes de terem
qualquer senso de sexo (comparar com o versículo 59 da
33ª Surata).
1026. Constitui um dos truques de mulheres espetaculosas
ou licenciosas o ato de tilintarem os ornamentos dos seus
tornozelos, para chamarem a atenção sobre si.
1027. O assunto das éticas sexuais e das boas maneiras
leva-nos à questão do casamento. A palavra “celibatários”
(ayáma, plural ay-im), aqui, significa qualquer um que não
esteja ligado pelos laços do matrimônio, quer solteiro ou
licitante divorciado, ou viúvo. Se pudermos, deveremos
desposar em nosso próprio círculo; mas se não tivermos
os meios, não haverá mal algum se escolhermos alguém
de círculos inferiores, contanto que a nossa escolha seja
determinada pela virtude. A pobreza quanto a uma das
partes não importa, desde que haja virtude e amor. Um
homem afortunadamente casado tem maior riqueza numa
esposa virtuosa, sendo que sua felicidade fá-lo um
ganhador em potencial.
1028. O casamento entre os muçulmanos requer uma
espécie de dote para a esposa. Se o homem não dispões
disso, deve esperar, e manter-se casto. Não é certo ele
dizer que precisa satisfazer os anseios naturais, dentro ou
fora do casamento. Deve ser dentro do casamento.
1029. A lei da escravidão, no sentido legal do termo, está
agora obsoleta. Enquanto ela possuía um significado, o
Islam tornava a sorte dos escravos a mais fácil possível.
Um escravo, ou escrava, podia pedir por escrito uma
manumissão condicional, fixando a quantia requerida para
a mesma, e era permitido ao escravo, ou escrava, nesse
meio tempo, ganhar dinheiro por meios lícitos, e talvez
casar-se e constituir família. Tal ato não deveria ser
recusado, se o pedido fosse genuíno e o escravo tivesse
boa reputação. Não apenas isso, mas era prescrito que o
amo ou a ama ajudasse com dinheiro do seu próprio bolso,
para que capacitasse o escravo ou escrava a ganhar sua
própria liberdade.
1030. Quando a escravidão era lícita, o que é agora
denominado “tráfico de escravos brancos”, era praticado
por pessoas iníquas como Abdulah Ibn Ubai, um líder
hipócrita de Madina. Isto é absolutamente condenado.
Conquanto as modernas nações tenham ordinariamente
abolido a escravidão, o “tráfico de escravos brancos” ainda
continua a constituir-se num grande problema social em
certos Estados. Isso é aqui absolutamente condenado.
Não pode haver comercialização mais desprezível do que
essa.
1031. As pobres e desafortunadas garotas que forem
vítimas desse nefasto comércio encontrarão a misericórdia
de Deus, cuja generosidade se estende às mais humildes
de Suas criaturas.
1032. A luz material nada mais é do que um reflexo da
verdadeira Luz do mundo da Realidade, e essa verdadeira
Luz é Deus. Nós apenas podemos imaginar Deus em
termos das nossas experiências objetivas; e, no mundo do
fenômeno, a luz é a coisa mais pura que conhecemos.
Contudo, a luz material tem empecilhos incidentais à sua
natureza material; por exemplo, ela depende de alguma
fonte exterior; é um fenômeno passageiro; se a tomarmos
como uma forma de movimento ou energia; ela é instável,
como todos os fenômenos físicos; ela depende de espaço
e tempo; ela percorre 300.000 km por segundo, e há
estrelas cuja luz demora milhares de anos para chegar à
terra. A perfeita Luz de Deus está livre de defeitos.
1033. Os três primeiros tópicos da Parábola centralizam-se
em torno dos símbolos do nicho, da luz e da candeia. O
nicho constitui-se de uma reentrância rasa na parede de
uma casa oriental, a uma boa distância do piso, na qual
uma fonte de luz (antes do advento da eletricidade) era
costumeiramente colocada. Sua altura permitia a difusão
da luz no compartimento, e minimizava as sombras. O
fundo da parede e os lados do nicho ajudavam a jogar luz
no compartimento; e se a parede fosse caída, ainda agia
como um refletor; a abertura, na frente, dava passagem à
luz. Assim acontece com a Luz espiritual: ela está colocada
bem alto, acima das coisas terrenas; ela tem o seu próprio
nicho ou habitação, na Revelação e nos outros Sinais de
Deus; a sua aproximação dos homens é feita de uma
maneira especial, aberta a todos, todavia fechada para
aqueles que recusam os seus raios. A Luz espiritual é o
âmago da verdade espiritual, que é a verdadeira
iluminação; o nicho nada é sem ela; ele é virtualmente feito
ara ela. A candeia é o meio transparente, pelo qual a luz
passa. Por um lado, ela protege a luz das mariposas e
outras formas de vida inferior (os ínfimos motivos dos
homens) e quanto às correntes de vento (paixão); e por
outro, ela transmite a luz, através de um meio familiar às
substâncias grosseiras da terra. Assim, a Verdade
espiritual tem de ser filtrada por meio da linguagem ou da
inteligência humanas, para tornar-se inteligível à
humanidade.
1034. A candeia, por si só, não brilha. Porém, quando a luz
surge dentro dela, ela brilha como uma estrela. Assim, os
diletos de Deus, que pregam a Sua Verdade, são, por sua
vez, iluminados pela Luz de Deus, e tornam-se um
instrumento, através do qual a Luz se difunde, e permeia a
vida humana.
1035. A oliveira mística não está sujeita a localidades; não
é do Oriente, nem tampouco do Ocidente. É universal,
porquanto o é também a Luz de Deus. Aplicando-se à
oliveira, há ainda um significado mais literal, que pode ser
alegorizado de uma maneira diferente. Uma oliveira à
mostra para o Oriente, apanha apenas os raios do sol
matutino; uma à mostra para o Ocidente, apenas os raios
do sol vespertino. Porém, uma árvore situada numa
planície aberta, ou numa colina, obtém um contínuo brilho
do sol durante todo o dia; ela será mais madura, e o fruto e
o óleo de qualidades superiores. Do mesmo modo, a Luz
de Deus não está sujeita a localidades, e não é incompleta;
é perfeita e universal.
1036. Isto é, em todos os lugares de puro culto; porém,
alguns exegetas compreendem-no como sendo as
mesquitas especiais, como a da Caaba, em Makka, ou as
mesquitas de Madina e de Jerusalém, porquanto estas são
especialmente tidas em grande honra.
1037. A miragem que, nos desertos, é um estranho
fenômeno de ilusão. Constitui um engano da nossa visão.
Na linguagem de nossa parábola, a nossa visão rejeita a
Luz que nos mostra a Verdade, e nos engana com a
Falsidade. Um viajante solitário, num deserto, quase a
morrer de sede, vê uma grande represa de água; vai
naquela direção, cada vez mais atraído pela água, mas
nada encontra. E morre, em prolongada agonia.
1038. Que excelente metáfora a das trevas das
profundezas do oceano! Onda sobre onda, e, por cima de
tudo, densas nuvens escuras! Há pouca luz, mesmo nas
profundezas comuns do oceano, sendo que os peixes que
aí vivem perdem a visão, por ela se tornar órgão inútil.
1039. Os artistas, ou os amantes da natureza, ou os
observadores das nuvens, apreciarão esta descrição dos
efeitos nubígenos: finas camadas de nuvens que flutuam
com formas fantásticas, juntam-se, e tomam corpo e
substância, então aparecem como pesadas nuvens
amontoadas, que se condensam e se precipitam, como a
chuva. Então, que dizer das pesadas nuvens negras das
regiões altíssimas, que trazem o granito – quão distintas e,
contudo, quão semelhantes são! São verdadeiras massas!
E quando o granizo cai, veja-se como é local o fenômeno!
Ele atinge certas localidades e não outras, mesmo estando
muito próximas. E os relâmpagos – quão ofuscantemente
eles descem das nuvens tempestuosas! Neste Livro da
natureza não podemos acaso ver a Mão do poderoso e
beneficiente Deus?
1040. Comparar com o versículo 30 da 21ª Surata, e
respectiva nota. O protoplasma é a base de toda a matéria
vivente, e “a força vital do protoplasma parece depender
da presença da água”. Os estudos de zoologia são claros
neste ponto.
1041. As criaturas rastejantes incluem as minhocas e as
formas ínfimas de vida animal, bem como répteis (como as
serpentes), centípedes, aranhas, e insetos. Quando essas
criaturas têm pernas, elas são pequenas, e a descrição de
rastejar ou arrastar-se é mais aplicável do que a de
caminhar. Não se pode dizer que os peixes e os animais
marinhos caminham; o seu nado é como “rastejar sobre as
barrigas”. Os animais de dois pés compreendem as aves e
o homem. A maioria dos mamíferos caminha sobre quatro
patas. Isto inclui todo o mundo animal.
1042. Na Vontade e no Plano de Deus, a variedade de
formas e de hábitos, entre os animais, é adaptada aos
seus vários modos de vida e de estágios de evolução
biológica.
1043. Chegamos, agora, às normas do decoro no seio do
círculo familiar e da alta sociedade. Os serviçais e as
crianças têm bem mais liberdade de acesso, uma vez que
vêm a toda hora, e há menos cerimônia quanto a eles.
Contudo, mesmo no caso deles, há restrições. Durante a
noite e antes da oração da madrugada, eles devem
discretamente pedir permissão para entrar, em parte
porque não devem perturbar desnecessariamente as
pessoas que dormem, e em parte porque as pessoas
podem estar despidas. O mesmo se aplica à sesta do
meio-dia, e ainda à hora após a oração da noite, quando
costumeiramente as pessoas se despem para dormir. Para
os adultos, a norma é mais estrita: eles devem pedir
sempre permissão para entrar (ver o versículo 59 desta).
1044. Constitui uma marca de refinamento, para damas e
cavalheiros, o não serem relaxados ou vulgarmente
informais no vestir, no falar ou na conduta. E o Islam visa
fazer de todo muçulmano ou muçulmana, seja quão
humilde for em status, dama ou cavalheiro refinado, para
que ela ou ele subam a escada do desenvolvimento
espiritual com uma humilde confiança em Deus, e com a
cooperação dos seus irmãos e irmãs no Islam. Os
princípios aqui dispostos se aplicam – mesmo se forem
interpretados com a devida elasticidade, mesmo se os
hábitos sociais e domésticos mudarem – às mudanças de
clima ou de hábitos raciais e pessoais. O meticuloso
respeito próprio e o respeito pelos outros, tanto nas coisas
pequenas como nas grandes, é a idéia básica nestas
simples normas de etiqueta.
1045. Crianças entre vós, isto é, em vossa casa, não
necessariamente os vossos filhos. Todos os que estão na
casa, incluindo os estranhos, dentro dos seus limites,
devem-se conformar com estas normas benéficas.
1046. Seus predecessores; literalmente, aqueles antes
deles, ou seja, aqueles que já eram adultos antes que eles
chegassem à maioridade. É sugerido que cada geração, à
medida que atinja a maioridade, deva seguir as tradições
benéficas dos seus predecessores. Enquanto são crianças,
comportam-se como crianças; quando crescerem, deverão
comportar-se como adultos.
1047. Para as mulheres idosas da casa, as normas do
vestir e do decoro não são tão severas como para as
jovens; contudo, é-lhes prescrito que exercitem a
moderação, já porque isso, por si só, é bom, já porque
serve de exemplo para as pessoas jovens.
1048. Havia várias superstições e fantasias árabes, que
são combatidas e rejeitadas aqui. Supunha-se que os
cegos, ou os coxos, ou os afligidos por sérias
enfermidades, fossem alvos do desagrado divino, e, como
tais, não devessem conviver com as outras pessoas,
compartilhar das suas refeições em suas casas; não
devemos alimentar tal pensamento, porquanto não somos
juizes das causas dos infortúnios dessas pessoas, as quais
merecem a nossa simpatia e benevolência. Se algumas
pessoas alimentam a superstição no sentido de que devam
sempre comer separadamente, ou que devam sempre
comer em companhia, em ambos os casos estão erradas.
O homem é livre, e deve regular a sua vida de acordo com
as necessidades e circunstâncias.
1049. Um assunto de coletiva; qualquer coisa que afete a
Comunidade como um todo. As orações das sextas-feiras
e das comemorações religiosas são ocasiões periódicas
dessa espécie; mas o que se pretende, aqui, achamos, são
as consultas coletivas com vistas aos empreendimentos
coletivos tal como o jihad, ou alguma outra espécie de
organização de paz.
1050. Ifk, aqui traduzido por “calúnia”, deve ser distinguido
de zur, no final deste versículo, traduzido por “falsidade”. A
“impostura”, que os inimigos do dileto de Deus lhe
atribuíam, no sentido de que o Alcorão, para eles, era lago
que na realidade não existia, mas que era inventado pelo
Profeta com a ajuda de outras pessoas; a implicação era
que, (1) a Revelação não era uma revelação, mas uma
invenção, e (2) as coisas reveladas, isto é, as notícias da
Vida Futura, a Ressurreição, o julgamento, a bênção dos
virtuosos e o sofrimento dos malignos, eram fantasiosas e
não tinham base em fatos. A desilusão é também
aventada. A resposta é que, longe de ser este o caso, os
fatos eram verdadeiros e as acusações, falsas (zour) – e a
falsidade era devida aos hábitos de iniqüidade, pelos quais
a inteira atitude mental e espiritual dos incrédulos era
responsável.
1051. Em sua desordenada arrogância, eles dizem: “Nós já
ouvimos tais coisas antes; são contos bonitos, que vêm de
tempos remotos; são bons para a diversão, mas quem os
pode levar a sério?” Quanto a beleza e o poder da
Revelação são apontados, bem como os seus milagres,
vindos de um homem inculto, novamente eles citam outros
homens que os escrevem, embora não possam apresentar
ninguém que posa escrever algo como isto.
1052. A resposta é que o Alcorão ensina o conhecimento
espiritual, que é comumente oculto da visão do homem,
sendo que tal conhecimento pode tão-somente proceder
de Deus, de Quem é conhecido o Mistério de toda a
Criação. A despeito do pecado e da fraqueza do homem,
Ele perdoa, e envia a Sua mais preciosa dádiva – a
Revelação da Sua Vontade.
1053. As imputações que os inimigos do Mensageiro de
Deus fizeram a ele recaíram contra aqueles que as
fizeram. O Mensageiro foi vingado, e passou de
revigoramento a revigoramento, pois a Verdade de Deus
sempre prevalece. Os homens que perversamente
deixaram o caminho da verdade, da virtude e da
sinceridade, não apenas se desencontraram do caminho,
mas, devido à sua perversidade, jamais estarão aptos a
encontrar o caminho que os leve de volta à Verdade.
1054. No Plano universal de Deus, cada unidade, ou coisa,
serve a um propósito. Se alguém é rico, o pobre não deve
invejá-lo; pode acontecer que a proximidade do rico
constitua um teste para a sua virtude. Se alguém é pobre,
o rico virtuoso não deve desprezá-lo nem negligenciá-lo;
pode acontecer que o convívio com ele constitua um teste
para o verdadeiro sentimento de caridade e de amor
fraterno do rico. Se A é temperamental, ou persegue e
ilude B, pode acontecer que essa seja uma oportunidade
para que B demonstre sua paciência e humildade, ou sua
fé na prevalência da justiça e da verdade. Sejam quais
forem as nossas experiências como os outros seres
humanos, nós devemos fazer com que se promovam as
metas do nosso desenvolvimento espiritual, e também, a
deles.
1055. As palavras são gerais, e, para nós, o interesse é de
sentido geral. Um homem que realmente recebe a Verdade
e está no caminho certo, se se desviar desse caminho, por
causa das maquinações de um amigo terreno, é mais
culpado.
1056. “Meu povo”; trata-se, certamente, dos coraixitas
incrédulos. Todavia, eles eram um punhado de pessoas,
cujos interesses criados foram tocados pelas beneficentes
reformas, iniciadas pelo Islam. Logo eles se foram, e todo
o povo que falava ou compreendia árabe considerava o
Alcorão como um tesouro de Verdades, expresso na mais
bela linguagem possível, com um significado que se
aprofundava cada vez mais com a pesquisa.
1057. Os exegetas não são claros quanto a quem eram “os
habitantes de Arras”. O significado raiz de ras é um velho
poço ou um açude raso. Uma outra raiz liga-a ao
sepultamento dos mortos. Porém, é, provavelmente, o
nome de uma cidade ou região.
1058. Isto se refere à história da destruição de Sodoma e
Gomorra, as cidades iníquas da planície que fica próxima
ao Mar Morto, causada por uma chuva de enxofre. O local
fica na estrada entre a Arábia e a Síria ( compara com os
versículos 74 e 76 da 15ª Surata, e respectivas notas).
1059. Na nossa vida artificial, e nos nossos arredores,
deixamos de notar os magníficos mistérios da Luz e da
Sombra. Nós admiramos, (e merecidamente), as
deslumbrantes cores do pôr-do-sol. Nós vemos,
particularmente em latitudes mais setentrionais, o sutil jogo
de Luz e Sombra no lusco-fusco que sucede ao pôr-do-sol.
Se fôssemos assíduos em ver o nascer do sol, e o jogo de
Luz e Sombra que o precede, veríamos fenômenos ainda
mais impressionantes, uma vez que as manhãzinhas
parecem-nos mais sagradas do que qualquer uma das
vinte e quatro horas do dia. Há, primeiramente, a falsa
madrugada, com a sua curiosa e incerta luz, e com as
curiosamente longas e incertas sombras que lança. Então
há estrias de negro no Leste, que precedem a verdadeira
madrugada, com os seus delicados tons de cores e com
luz e sombra. A luz dessa verdadeira (ou falsa) madrugada
não é proporcionada pelos raios diretos do sol. Num
sentido, não se trata de luz, mas de sombras ou reflexos
de luz. E elas gradativamente se mesclam com o virtual
nascer do sol, com as suas sombras mais substanciais e
mais definidas, a quais podemos, definidamente, relacionar
com o sol.
1060. As sombras da madrugada são compridas e mais
definidas, e o seu comprimento e a sua direção parecem
ser definidos pelo sol. Contudo, eles mudam
insensivelmente, a cada segundo ou fração de segundo.
1061. À medida em que o sol se eleva cada vez mais, as
sombras se contraem. Nas regiões em que o sol fica
literalmente no zênite, ao meio-dia não há sombra. Aonde
ela vai? Ela nada mais é do que uma sombra, produzida
por uma substância, e foi absorvida pela substância que a
produziu. Porém, todas as substâncias materiais nada
mais são do que sombras; e a única e verdadeira
Realidade é Deus, a Quem todas as coisas retornam.
Assim são as sombras, absorvidas pela Realidade autosuficiente.

1062. As sombras estão em constante estado de fluxo;
assim todas as coisas na Criação, todas as coisas que
vemos ou cobiçamos nesta vida. Se Deus quisesse,
poderia dar a algumas delas grandes fixidade ou
comparativa estabilidade. O sol é tão-somente uma
sombra da Luz de Deus; contudo, ele ilumina todo o nosso
mundo. Assim, o grande Profeta da época derivava a sua
luz de Deus, e nós podemos acender as nossas pequenas
velas espirituais nele. Ou a Revelação é a luz do sol, e nós
podemos acender a nossa vida com ela. Uma vez que a
luz do sol é identificada com o sol, que é a fonte da vida,
também a Revelação é identificada com o Profeta, por
meio do qual ela veio.
1063. Aqui, o simbolismo apresenta um novo ponto de
vista. É ainda o contraste entre a Luz e a Sombra; porém,
a sombra da Noite é como um manto, que nos cobre e
isola, e nos dá repouso da atividade; e a luz do Dia é para
a porfia, para o trabalho, para a atividade. Ou, ainda, a
Noite é como a morte, a nossa morte temporária antes do
Julgamento, o tempo durante o qual os nossos sentidos
estão relacionados; e o Dia é como a renovação da vida na
Ressurreição.
1064. Comparar com o versículo 57 da 7ª Surata. Os
ventos são os arautos do júbilo, trazendo chuva, que é
uma das formas da Misericórdia de Deus. O simbolismo,
aqui, apresenta um novo ponto de vista. O calor (que está
ligado à luz) forma correntes na atmosfera, além de sugar
a umidade dos mares, e distribuí-la, por meio dos ventos,
por vastas superfícies da terra.
1065. Bahrain: dois mares, ou duas unidades de água
corrente; porque bahr é aplicada tanto para o mar salgado
como para os rios. No mundo, tomado como um todo, há
duas espécies de água, a saber: (1) o grande Oceano
salgado, e (2) as unidades de água potável, alimentadas
pela chuva, sejam elas rios, lagos ou mananciais
subterrâneos; a fonte pluvial dessas unidades fá-las uma, e
sua drenagem, quer na superfície, quer subterrânea, se dá
eventualmente para o Oceano, fazendo-as também uma.
Elas são livres para se misturarem, e, num sentido, elas se
misturam, pois existe um ciclo aquátil. Os rios correm
constantemente para o mar, e os rios sujeitos a marés
recebem água salgada, por vários quilômetros acima dos
seus estuários, na maré alta. Contudo, a despeito de tudo
isto, as leis da gravidade são como uma barreira ou
separação posta por Deus, pela qual os dois corpos de
água, como um todo, são mantidos separados e distintos.
1066. A base de toda a matéria vida do mundo material, o
protoplasma, é a água. (Comparar com os versículos 45 da
24ª Surata e 30 da 21ª Surata, e respectivas notas).
1067. A água é um fluído, uma coisa instável; contudo,
dela advém a mais elevada forma de vida que nos é
conhecida neste mundo: o homem. E o homem não
apenas possui funções e características dos mais nobres
animais, mas suas relações abstratas são ainda típicas da
mais elevada natureza. Ele pode traçar linhagem e estirpe,
e assim lembrar e solenizar uma longa linha de
antepassados, aos quais está ligado por laços de religião,
coisa que nenhum outro animal pode fazer. Ademais, há a
mística união do casamento; não se trata apenas da união
física dos animais, mas isso dá surgimento a relações
advindas dos sexos de indivíduos que não estavam
relacionados um com o outro. Estes são fatos físicos e
sociais. Mas por trás deles está, novamente, a lição
simbólica dos contrastes espirituais; assim como há um
longo caminho a percorrer entre a água e o homem, de
igual maneira há um longo caminho a percorrer entre o
homem comum e aqueles que se encontra iluminado pela
Luz divina. Quanto aos sexos opostos, embora diferentes
quanto a função, são um, e contribuem para a felicidade
um do outro, para que as pessoas de talentos diversos
possam se unir no mundo espiritual, para o seu próprio e
elevado bem e no serviço de Deus.
1068. Eis aqui o maior de todos os contrastes: coisas
materiais que são inertes, e Deus, cuja Benevolência e
poder são supremos; Crença e Descrença, merecendo
bons auspícios e admoestações; egocêntrico, e o dileto de
Deus, que trabalha para os outros, sem visar recompensa.
1069. A gloriosa Lâmpada do céu é o Sol; e depois dele
está a Lua, que nos dá a Luz que lhe é emprestada.
Certamente, as constelações incluem os Signos do
Zodíaco, que marcam a trilha dos planetas, nos céus.
1070. Tratando-se de gasto comum, esta é uma norma
sábia. Porém, mesmo na caridade, na qual nós damos o
melhor de nós, não se espera que sejamos extravagantes,
por exemplo que demos por espectaculosidade, ou para
impressionar a terceiros, ou que a façamos
impensadamente. Em verdade, não devemos ser
mesquinhos, mas devemos lembrar-nos dos direitos de
cada um, incluindo os nossos, e estabelecer um equilíbrio
perfeitamente justo entre eles.
1071. Aqui, três coisas são expressamente condenadas:
(1) a adoração dos ídolos, o que constitui um crime contra
Deus; (2) tirar a vida de alguém, o que constitui um crime
contra os nossos semelhantes; e (3) a fornicação, o que
constitui um crime contra o nosso respeito próprio, contra
nós mesmos. Todos os crimes são contra Deus, contra as
Suas criaturas e contra nós mesmos; mas alguns podem
ser visualizados mais em relação a um do que a outro.
1072. Esta é um combinação de três letras abreviadas.
Essa abreviação particular aparece aqui, e no começo da
28ª Surata, ao passo que a surata intermediária tem-na já
na forma sincopada, Tah Sin. O nosso posicionamento é o
de que, desde que tenhamos material, devemos prosseguir
na nossa pesquisa, mas não devemos ser dogmáticos em
tais assuntos, uma vez que alguns mistérios não podem
ser esclarecidos por meio de mera pesquisa.
1073. A parte da história de Moisés, aqui contada, é a de
como ele sentia hesitante em empreender a sua missão;
de como Deus o fez ficar seguro de si; de como ele foi ter
com o Faraó, com os “Sinais”; de como o Faraó e o seu
povo o rejeitaram; de como a blasfêmia recaiu sobre eles,
e a causa de Deus triunfou. Em outras palavras, o ponto,
aqui, é a reação do povo iníquo à Luz que lhes foi enviada,
refletindo, em sua relação, a mente do Mensageiro de
Deus.
1074. Indo mais além, o Faraó lembra a Moisés que este
matara o egípcio, e o insulta: “Tu não apenas és um
assassino; és um infeliz ingrato (usando novamente a
palavra Káfir num sentido duplo), por teres morto uma
pessoa da raça que te criou!”.
1075. Comparar com os versículos 107-108 da 7ª surata;
ver toda a passagem, bem como as notas.
1076. No versículo 109 da 7ª surata, são os chefes que
dizem isto. O fato é que houve uma consulta geral, e este
foi o sentido geral, expresso em palavras de uns para os
outros.
1077. Um dia assinalado; um solene dia de festa (ver o
versículo 59 da 20ª Surata). O objetivo era reunir o maior
número possível de pessoas. Era confiantemente esperado
que os feiticeiros egípcios, com toda a sua organização,
vencessem, com os seus truques, aqueles amadores
israelitas, para que o culto estatal da adoração ao Faraó
pudesse ser, mais firmemente do que nunca, atado aos
pescoços das pessoas.
1078. O resto da história – das pragas do Egito – é já
passado, não sendo pertinente ao presente argumento.
Chegamos agora à história dos israelitas deixando o Egito,
perseguidos pelo Faraó. Aqui, novamente, há três
contrastes: (1) a cega arrogância dos egípcios, contra o
desenvolvimento do Plano de Deus: (2) a Fé de Moisés,
em contraposição aos temores de seu povo; e (3) a
libertação final da semente da virtude, em contraposição à
destruição da força bruta.
1079. Em deferência à autoridade quase unânime,
traduzimos esta passagem (versículos 58-60), como se
fosse uma afirmação parentética do propósito de Deus.
Pessoalmente, preferimos outra construção. De acordo
com isso, os versículos 58-59 farão parte da proclamação
do Faraó: “Nós destituímos os israelitas de tudo quanto é
bom na terra, e os tornamos nossos escravos.” E somente
o versículo 60 será parentético: “Pobres ignorantes! Vós
podeis oprimir àqueles que são indefesos; porém, Nós (ou
seja, Deus) temos decretado que eles herdarão todas
essas coisas”, como certamente o fizeram (por certo
tempo), na Terra da Promissão, a Palestina.
1080. Para o argumento desta surata, os incidentes da
vida de Abraão em nada são relevantes, e não são
mencionados. O que é mencionado é: (1) a maneira pela
qual ele ensinou acerca do pecado do falso culto, na forma
de diálogo; (2) a meta do virtuoso, não apenas em sua vida
individual, mas também para com os seus antepassados e
a sua descendência, na forma de oração; e (3) o quadro do
Julgamento Futuro, na forma de visão. O tópico (1) é
coberto pelos versículos 70-82; o (2) pelos versículos 83-
87 e o (3) pelos versículos 88-102.
1081. Comparar com o versículo 50 da 19ª Surata. A
passagem, na íntegra, sobre Abraão, ali, pode ser
comparada com esta passagem.
1082. Agora temos uma visão do Dia do Julgamento. Nada
valerá então, a não ser um coração puro; todas as
espécies dos decantos “bons feitos” deste mundo, sem
intenções de pureza, serão inúteis. O contraste entre o
Jardim das Bênçãos e o Fogo da Miséria estará
patentemente visível. O Mal será mostrado em suas
verdadeiras cores – isolado, impotente, amaldiçoador e
desesperado; e todas as chances terão sido, então,
perdidas.
1083. Esta aparente ansiedade por uma chance de
regresso é desonesta. Se fossem mandados de volta, com
certeza voltariam aos seus maus propósitos (versículos 27-
28 da 6ª Surata). Ademais, eles tiveram inúmeras chances,
ainda nesta vida, e as usaram para engodos ou para o mal.
1084. A geração de Noé havia perdido toda a fé, e haviase
dado ao mal. Rejeitara as mensagens dos mensageiros
anteriormente enviados ao mundo. Noé foi enviado a eles
como um deles (“seu irmão”). Sua vida foi aberta perante
eles; ele provou ser puro de coração e de conduta reta (tal
qual o Mensageiro da Arábia, que apareceu muito tempo
depois), e digno de toda a confiança. Iriam eles temer a
Deus, e seguir o seu conselho? Eles podiam ver que ele
não tinha interesses próprios a servir. Não iriam eles ouvilo?

1085. Amin = aquele a quem um voto de confiança é dado,
com vários matizes de significado implícitos, por exemplo,
(1) digno de confiança; (2) afeito a fazer valer tal confiança,
e, como profeta, afeito a proclamar a sua Mensagem; (3)
afeito a agir inteiramente de acordo com a confiança, e,
como profeta, afeito a proclamar tão-somente a Mensagem
de Deus, e a não lhe adicionar algo da sua própria cabeça;
e (4) afeito a não procurar satisfazer qualquer interesse
próprio.
1086. Quanto aos outros casos, parece-nos tratar-se dos
profetas de Deus que foram ameaçados de morte por
apedrejamento: um deles foi Abraão (versículo 46 da 19ª
Surata), e o outro foi Xuaib (versículo 91 da 11ª Surata).
Em nenhum dos casos as ameaçados impediram de dar
prosseguimento às suas missões. Pelo contrário, as
ameaças recaíram sobre aqueles que os ameaçaram.
Assim também aconteceu no caso de Noé e do Profeta do
Islam.
1087. A história do Dilúvio de Noé é contada nos
versículos 36-48 da 11ª Surata. Aqui, o ponto a destacar é
a paciência de Noé quanto às ameaças, ao triunfo e à
preservação da Verdade de Deus, muito embora o mundo
estivesse agrupado contra isso.
1088. Este versículo e o seguinte são um refrão no
decorrer desta surata, e proporcionam a idéia básica para
o tema: como a Mensagem de Deus é pregada, como é
rejeitada em todas as eras, e como triunfa no fim, por meio
da Misericórdia de Deus. (Ver os versículos 8-9, 68-69,
102-104, 121-122, 139-140, 158-159, 174-175, e 190-191
desta Surata).
1089. Ver a nota do versículo 65 da 7ª Surata, quanto aos
povo de Ad e a sua localização. Aqui, o destaque é para o
fato de que eles eram uns materialistas que acreditavam
na força bruta, e se sentiam seguros nas suas fortalezas,
com os seus recursos, mas se encontraram bem
impotentes quando a Mensagem de Deus chegou e eles a
rejeitaram.
1090. Quanto ao povo de Tamud, ver a nota do versículo
73 da 7ª Surata. Eram magníficos construtores em
cantaria, e tinham riqueza agrícola, mas era um povo
exclusivista que oprimia os pobres. O ponto posto em
destaque, aqui, é: “Por quanto tempo durará a vossa
riqueza, especialmente quando reprimis o vosso povo, e
desonrais os Sinais de Deus, por meio do sacrilégio?”
1091. A tamareira floresce em uma longa espata; quando
as flores se transformam em frutos, os mais pesados se
dependuram num cacho curvado. O povo de Tamud,
evidentemente, era orgulhoso da sua perícia em produzir
cereais e frutos, e em esculpir finas moradias nas rochas,
como as moradias do tempo dos romanos, na cidade de
Petra.
1092. A história de Lot será encontrada nos versículos 80-
84 da 7ª Surata e respectivas notas. O ponto a destacar,
aqui, é que o povo das Cidades da Planície era
desavergonhadamente dado a vícios contrários à natureza;
e a admoestação de Lot apenas exasperou os seus
membros, resultando que eles foram destruídos por uma
chuva de enxofre.
1093. Quanto a Xuaib, ver a nota do versículo 85 da 7ª
Surata.
1094. Eles eram um povo comerciante, mas eram dados à
fraude, à injustiça e à ação nociva (intrometendo-se nos
assuntos dos outros). É-lhes pedido que temam a Deus, e
que Lhe sigam os caminhos; foi Ele Que criou também os
seus predecessores, entre a humanidade, os quais jamais
prosperaram por meio da fraude e dos desmandos
violentos, mas tão-somente pela justiça e pelo trato justo.
1095. Tendo sido mencionada a recepção hostil de que
foram vítimas os Mensageiros anteriores, as características
especiais do Alcorão são, então, mencionadas, para
mostrar: (1) que isto é a verdade; e (2) que a rejeição a
isto, feita pelos idólatras de Makka, foi uma amostra da
experiência anterior na história do homem; os interesses
criados resistem à Verdade, mas ela prevalece.
1096. Ruh-ul-amin, o epíteto de Gabriel, o anjo que veio
com a inspirada Mensagem do Profeta, é difícil de se
reproduzir, na tradução, em um simples epíteto. Na nota do
versículo 107 desta surata, nós descrevemos alguns dos
vários matizes de significado, relacionados com o adjetivo
Amim, aplicado ao Profeta. Uma significação mais sólida,
ligada ao Espírito da Inspiração, é que ele é a própria
quinta essência da Fé e da Verdade, ao contrário dos
espíritos mentirosos que iludem os homens com a
falsidade. No todo, achamos que “o Espírito Fiel”
representaria melhor o original.
1097. Calb (Coração) significa não apenas a sede dos
sentimentos, mas também a sede da memória e da
compreensão. O processo da inspiração é indicado pela
impressão da Mensagem divina no coração, na memória e
na compreensão da pessoa inspirada, da qual foi
promulgada para o mundo na fala humana. Neste caso a
fala humana foi a perspícua língua árabe, que poderia ser
plenamente inteligível para o público imediatamente capaz
de ouvi-la e transmiti-la ao mundo.
1098. Chegada a vez da Arábia receber a Revelação de
Deus, como havia sido vaticinado nas Revelações
anteriores, era inevitável que fosse em língua árabe e por
meio da boca de um árabe. Doutra sorte, ela seria
ininteligível e os árabes não poderiam ter recebido a Fé e
se tornado os veículos para a sua promulgação, como
realmente aconteceu na história.
1099. Quando algo de extraordinário acontece, há sempre
pessoas desejosas de atribuir a esse algo o que de pior
existe, dizendo que é obra dos malignos, dos demônios.
Assim, quando o Alcorão chegou com a sua Mensagem,
em maravilhoso árabe, os inimigos dele tão-somente
puderam dar-se contra do seu poder, atribuindo-o a
espíritos malignos! Tal mensagem benéfica jamais pode
satisfazer os propósitos dos malévolos, nem tampouco
está ao alcance deles produzi-la. Com efeito, o Bem e o
Mal são pólos opostos, e o Mal nem sequer pode ouvir
palavras de Bem, de terna piedade para os pecadores, e
de perdão para os penitentes!
1100. Literalmente, o ato de ficar em pé e a prostração são
posturas da oração muçulmana; o Profeta era franco,
sincero e zeloso quanto à doação, tanto para si mesmo,
como para o seu povo. Todavia, há uma significação mais
ampla. As posturas, na oração, são simbolismos das
atitudes da mente e, em geral, do comportamento na vida;
e os “movimentos” podem referir-se, também, às várias
vicissitudes, nas quais a alma do homem é provada e
testada, assim como o corpo é exercitado ao ficar de pé,
ao se curvar, ao se ajoelhar e ao se prostrar, na oração. O
comportamento do Profeta era exemplar em todas as
instâncias, conquanto os tolos possam sofismar; sua
pureza e retidão são plenamente conhecidas por Deus.
1101. A poesia e as belas-artes recomendadas são
aquelas emanadas de mentes arraigadas na Fé, que
tentam exprimir os sentimentos refinados em sues
trabalhos artísticos, e têm como meta a glória de Deus, e
não a auto-glorificação ou a total louvação do homem feito
de barro, e tampouco (como o Jihad) a nada atacam,
exceto ao mal agressivo. Neste sentido, um perfeito artista
seria um perfeito homem, especialmente daquele que
deseja tornar-se um artista supremo, não apenas em
técnica, mas também em espírito e essência. Entre os
recomendados poetas contemporâneos do Profeta podem
ser mencionados Bassan e Labid; este último teve a honra
de ser um sete que tiveram os seus poemas selecionados
para serem expostos na Caaba (Al Mualakat), nos Dias da
Idolatria.
1102. Ver a nota do versículo 1 da 26ª Surata.
1103. Comparar com os versículos 9-24 da 20ª Surata.
Tanto lá como aqui há uma referência ao nascimentos da
Revelação no coração de Moisés. Os pontos ali postos em
destaque serão encontrados nas notas daquela passagem.
Aqui, o destaque é quanto à maravilhosa natureza do
Fogo, e à maravilhosa maneira pela qual Moisés foi
transformado, pelo toque da Luz espiritual. Ele estava
viajando pelo deserto, no Sinai, com a sua família.
Buscando a luz comum, ele se deparou com uma Luz que
o levou aos mais intrincados mistérios de Deus. Sem
dúvida alguma, sua história pessoal havia-o preparado
para o seu destino. É a história pessoal que importa, e não
o local em que o homem está ou a posição que ocupa, aos
olhos dos seus companheiros comuns.
1104. Comparar com o versículo 22 da 20ª Surata. Aí a
expressão é: “Junta a mão ao teu flanco”. Tanto quanto o
ato físico é envolvido, as expressões, lá e aqui, significam
a mesma coisa. Moisés tinham um manto folgado. Se ele
pusesse a mão entre as suas dobras, ela iria ao seu peito,
ao lado oposto do qual havia saído; por exemplo, se se
tratasse da mão direita, ela iria ter do lado esquerdo do seu
peito. A mão sai branca e radiante, imaculada.
Costumeiramente, se a pele se torna branca, isso é sinal
de enfermidade ou de lepra. Aqui acontece o oposto.
Aquilo era sinal de fulgor e da glória da mais consistente
Luz.
1105. Para “os nove sinais”, ver a nota do versículo 133 da
7ª Surata.
1106. A “sabedoria”, quer dizer aquele conhecimento que
leva às coisas altruísticas da vida, a sabedoria que foi
mostrada em suas decisões e julgamentos, e a
compreensão que os capacitou a cumprirem a sua missão
na vida. Ambos eram justos e mensageiros de Deus.
Quanto a Salomão, também, conquanto seja descrito como
um glorioso rei, há histórias da sua propensão para o
pecado e para a idolatria. Os ensinamentos muçulmanos
consideram ambos como homens religiosos e de
sabedoria, e altamente dotados de conhecimento
espiritual.
1107. A linguagem dos pássaros. A palavra, na linguagem
humana, é diferente dos meios de comunicação que os
pássaros e os animais têm entre si. No entanto, ninguém
pode duvidar de que eles tenham os seus meios de
comunicação, se se observar o ordenado vôo das aves, o
comportamento das formigas, das abelhas, e de outras
criaturas que vivem em comunidades. A sabedoria de
Salomão e de outros como ele (ele fala na 1ª pessoa do
plural) consistia em compreender estas coisas – do mundo
animal e dos limites inferiores da inteligência humana.
1108. Este versículo e o seguinte, lidos juntos, sugerem o
significado simbólico como predominante. A formiga, na
aparência exterior, é uma criatura humílima. Na grande
pompa e nas circunstâncias deste mundo, ela pode ser
negligenciada, ou mesmo pisoteada, por pessoas que não
lhe desejam mal. Contudo, devido à sua sabedoria, ela
continua a desenvolver a sua própria vida, dentro da sua
própria esfera (“habitações”), sem ser molestada, e
constitui-se numa valiosa contribuição para a economia
mundial. Assim, há lugar para as pessoas mais humildes
no mundo espiritual.
1109. Em contrapartida à posição da humilde formiga, está
a posição de um grande rei como Salomão. Ele ora para
que o seu poder e a sua sabedoria e todos os outros dotes
sejam usados em prol da virtude, e para o benefício de
todos ao seu redor. Ocupando a formiga os seus
pensamentos, podemos supor que ele não deseja,
principalmente em sua oração, pisotear desavisadamente
seres humildes, nas suas preocupações com as grandes
coisas do mundo.
1110. Sabá pode, razoavelmente, ser identificada com a
Sabá bíblica (Reis I, 10:1-10). Esse nome é mais bem
desenvolvido na surata que leva o seu nome (34ª Surata,
versículos 15-20). Tratava-se de uma cidade, no Iêmen
que se dizia ficava a três dias de viagem (digamos 80 km)
da cidade de Saná. Um explorador alemão, o Dr. Hans
Helfritz, diz tê-la localizado onde agora é o Hadramaut. A
famosa represa de Maarib tornou o país muito próspero, e
fez com que atingisse um alto grau de civilização (“provida
de tudo”, no versículo seguinte). A rainha de Sabá,
portanto, com propriedade tinha a cabeça levantava, até
que contemplou as glórias de Salomão.
1111. A Rainha de Sabá (de nome Bilquis, na tradição
árabe) veio, aparentemente, do Iêmen, mas tinha
afinidades com os abissínios, e, provavelmente também os
governava. A tribo Habacha (de onde a Abissínia tirou o
nome) viera do Iêmen. Entre a costa meridional do Iêmen e
a costa nordeste da Abissínia, há somente o Estreito de
Bab-al-Mandab, não chegando a 32 km de comprimento.
No século X ou XI a.C. houve freqüentes invasões da
Abissínia, provenientes da Arábia, sendo que o reinado de
40 anos de Salomão é costumeiramente sincronizado com
os anos 992-952 a.C. Os alfabetos sabino e himiarita, nos
quais encontramos inscrições pré-islâmicas árabes,
passaram para o etíope, a língua da Abissínia. Os
abissínios possuem uma tradicional história, intitulada “O
Livro da Glória dos Reis” (Kebra Nagast). Ele versa sobre
a Rainha de Sabá e seu único filho, Menielek I, como
fundadores da dinastia abissínia.
1112. A antiga religião do povo de Sabá (himiarita ou
sabina) consistia na adoração dos corpos celestes – sol,
planetas e atros. Provavelmente, o culto tinha conexão
com o da Caldéia, a terra natal de Abraão. O Iêmen tinha
acesso à Mesopotâmia e ao Golfo Pérsico por via
marítima, bem como à Abissínia. Isso serve também para
os cristãos de Najran e para a dinastia judaica de reis (por
exemplo, Du-Nawas)ano 524 d.C.), que perseguiu os
cristãos, um século antes do Islam – serve ainda para o
Governador cristão abissínio Abraha, e seu
desbaratamento, no ano do nascimento do Profeta (105ª
Surata), ou seja no ano 570 d.C. As influências judaica e
cristã eram poderosas na Arábia, no século VI da era
cristã. A religião desses sabeanos (em árabe, escrita com
a letra Sin) não deve ser confundida com a dos sabeus
(com a letra Sad), para os quais, ver a nota do versículo 62
da 2ª Surata.
1113. O falso culto dos sabeus é, aqui, exposto de três
maneiras: (1) eles se envaideciam com as suas aquisições
humanas, em vez de procurar por Deus; (1) a luz dos
corpos celestes, que eles adoravam, era dependente da
verdadeira Luz de Deus, que se estende pelo céu e pela
terra, o Criador deve ser adorado, e não a Sua Criação; e
(3) Deus conhece os segredos ocultos das mentes dos
homens, bem como os objetos que abertamente dizem
professar; não seria o caso de os falsos adoradores
adorarem a si próprios, ou “aos pecados em que pensam”,
e estarem temerosos de recorrer a Deus, Que de tudo
sabe?
1114. O mensageiro (a Poupa); trata-se de uma ave dócil,
como deve ser um mensageiro de Salomão. Após
mencionar o falso culto dos sabeus, ele pronuncia o Credo
da Unidade, e dá ênfase aos atributos de Deus como o
Senhor do Trono da Suprema Glória, a fim de tornar claro
que, seja qual for a magnificência de um trono humano,
como o que ele havia descrito, de maneira alguma é
desviado de sua lealdade para com Salomão, expoente
máximo da verdadeira Religião da Unidade.
1115. As características da Rainha Bilquis, reveladas aqui,
são as de uma governante que desfrutava de grande
riqueza e dignidade, e da plena confiança de seus súditos.
Ela nada faz sem consultar do seu Conselho, e este está
sempre pronto a fazer valer as ordens dela em todas as
coisas. Sua gente é viril, leal e contente, e pronta a sair a
campo contra qualquer inimigo do seu país. Porém, sua
rainha é prudente em matéria de política, e não está
disposta a envolver seu país numa guerra. Ela tem
discernimento suficiente para ver que Salomão não é como
esses reis comuns que conquistam pela violência. Talvez,
em seu coração, ela possua já um raio da luz divina,
embora o seu povo seja ainda pagão. Ela deseja que o seu
povo participe em tudo quanto faz, porque ela é leal a ele,
como ele é leal a ela. Uma troca de presentes,
provavelmente estabeleceria melhores relações entre os
dois reinos. Talvez ela também antecipasse algum
entendimento espiritual, uma esperança que foi mais tarde
realizada. Em Bilquis nós temos o retrato da mulher gentil,
prudente, e capaz de pôr um freio nas paixões selvagens
dos seus súditos.
1116. O significado simbólico leva-nos a um estágio mais
vantajoso. Mas primeiro tomemos a história literal. Bilquis,
tendo sido recebida, em sua chegada, com honraria, e
tendo aceito a transformação do seu trono,
presumivelmente colocado num edifício fora do palácio, é
solicitada a entrar no próprio palácio. O piso do grande
palácio era feito de quadrados de vidro liso e polido, que
brilhavam como água. Ela pensou tratar-se realmente de
água, e levantou a saia para atravessá-la, mostrando os
seus pés descalços, até à altura dos tornozelos. Esse ato
era pouco dignificante para a mulher, especialmente uma
que era rainha. Salomão imediatamente a esclareceu
quanto ao erro que cometera, e lhe contou do que se
tratava, ao que ela ficou grata, e se juntou a Salomão na
louvação de Deus.
1117. A história de Lot é contada em outro lugar. As
passagens, cuja referência pode ser feita aqui, são:
versículos 160-175 da 26ª Surata e 80-84 da 7ª Surata.
Porém, o ponto em destaque, aqui, é que o crime das
cidades da planície foi contra a sua própria natureza,
sendo que eles lhe viram a enormidade, e, contudo,
saciaram-se nele. Pode, acaso, a degradação tomar
corpo? A esposa dele aparentemente, não era crente. Sua
anterior simpatia para com o povo pecador “destinou-a”(ver
o versículo 57 adiante) a um fim miserável, uma vez que
ficou para trás e compartilhou da destruição dos seus
familiares.
1118. Fazer uma simples semente germinar e crescer, até
se tornar uma árvore, está além do poder do homem.
Tratando-se de um magnífico e bem ordenado jardim, de
beleza e deleite, ninguém pensaria que ele cresceu por si
mesmo, sem a consumada perícia de jardineiro. E um
pomar representa mais do que as árvores que nele se
encontram; há desígnio e beleza em seu arranjo; espaços
adequados são deixados entre elas, para a penetração do
ar e da luz do sol entre os seus galhos. Como pode
qualquer um deles pensar no maravilhoso Universo, sem
pensar na elevada Unidade de Desígnios, a evidência do
Único e Verdadeiro Deus?
1119. Comparar com o versículo 15 da 16ª Surata, e
respectiva nota. A terra firme, a água corrente, e o ciclo da
circulação da água – mar, vapor, nuvens, chuva, rio e
novamente mar -, apresentam um único e contudo distinto
obstáculo, como uma espécie de barreira entre a água
salgada e a água potável; pode o homem ver tudo isto e
ainda ignorar Deus?
1120. Comparar com o versículo 53 da 25ª Surata, e
respectiva nota.
1121. Comparar com o versículo 165 da 6ª Surata, e
respectiva nota.
1122. Comparar com o versículo 34 da 10ª Surata, e
respectiva nota.
1123. Os judeus tinham inúmeras seitas. Algumas estavam
completamente fora do âmbito deles, como por exemplo, a
dos samaritanos, que tinham um Taurat separado: eles
odiavam os outros judeus, e eram por eles odiados. Mas,
mesmo dentro do porco ortodoxo havia várias seitas,
dentre as quais as seguintes podem ser mencionadas: (1)
os fariseus, que eram literalistas, formalistas e fatalistas, e
tinham uma vasta gama de literatura tradicional, com a
qual revestiam a Lei de Moisés; (2) os saduceus, que eram
racionalistas, e pareciam pôr em dúvida a doutrina da
Ressurreição e da Vida Futura; (3) os essênios, que
praticavam uma espécie de comunismo e asceticismo, e
proibiam o casamento. Quanto a muitas de suas doutrinas,
eles tinham disputas acirradas, as quais foram
harmonizadas pelo Alcorão, que suplementou e
aperfeiçoou a Lei de Moisés. Ele também explicou
claramente a natureza de Deus e a Revelação, bem como
a doutrina da Vida Futura.
1124. O Animal constituir-se-á num dos Sinais dos Últimos
Dias, que virá antes de o presente Mundo se acabar e de o
novo Mundo surgir. Na linguagem simbólica, isso
representaria um grosseiro materialismo. Esse Animal
seria a incorporação do triunfo terreno, que se identificaria
com o mundo desvirtuado e degenerado, porque esse
mundo não teve uma fé segura nos Sinais de Deus ou na
Luz espiritual. Será, por si só, um Sinal ou Portento, que
fechará a porta ao arrependimento. Nós não sabemos se
esse Animal é qualquer referência ao simbolismo do
capítulo 12 do Apocalipse, que finaliza o Novo Testamento.
Se a palavra taklimuhum for lida em vez de tukallimuhum,
isso significa que o Animal os ferirá; simbolicamente, isso
significa que o materialismo produza a sua própria
Nêmesis.
1125. O Senhor desta Metrópole; isto foi dito em Makka,
digamos, por volta de 5ºano da Hégira, quando o Profeta e
os seus adeptos estavam sendo perseguidos como
inimigos do culto ali efetuados. Bem longe de se colocarem
contra o verdadeiro espírito da sagrada cidade de Makka,
estavam realmente a colocar-se em apoio a esse espírito,
o qual havia sido revestido das idolatrias e abominações
dos coraixitas pagãos. É-lhes dito que o novo Ensinamento
provém do Próprio Senhor de Makka, o Único e Verdadeiro
Deus, o Qual havia santificado a cidade, no tempo de
Abraão. Para que eles não pensassem que se tratava de
um culto local ou tribal ou de âmbito restrito, é adicionado
que Ele não apenas é Senhor dessa Cidade, mas o Senhor
do Universo, “a Ele tudo pertence”. Trata-se de uma
Mensagem universal; mas quão triste seria se os
maquenses, a quem ela chegou primeiro, a rejeitassem!
1126. O dever do Mensageiro e dos seus adeptos era,
principalmente, o de aceitarem o Islam, e se tornarem
brilhantes exemplos da graça e da misericórdia de Deus,
como de fato eram, e, segundo lugar, pregarem a
Mensagem, e espalharem a Luz, por todos à sua volta. A
Mensagem não deveria ser impingida sobre as pessoas de
má vontade; porque qualquer um que a rejeitasse, causaria
a sua própria perda espiritual. Contudo, ele deveria
claramente preveni-las das conseqüências.
1127. Poucos anos depois disso, muitas coisas
maravilhosas aconteceram, as quais dirimiram as dúvidas
dos que duvidaram, e confirmaram a fé dos crentes. Elas
mostraram que a lógica dos eventos provou a verdadeira
missão do Mensageiro. Outras coisas aconteceram, mas
algumas mentes não estão aptas a aprender. Porém a
lógica dos eventos aí está, para quem quiser ver.
1128. Ver a nota do versículo 1 da 26ª Surata.
1129. Haman era, evidentemente, ministro do Faraó; não
deve ser confundido com o Haman que é mencionado no
Antigo Testamento (Ester 3:1), ministro de Assuero, rei da
Pérsia, o mesmo que invadiu a Grécia, e governou de 485
a.C. a 464 a.C.
1130. As parteiras egípcias tinham ordens para matar os
bebês israelitas. Moisés foi salvo delas, e sua mãe o
amamentou. Mas quando o perigo da descoberta era
iminente, ela o pôs numa cesta, e fê-lo flutuar no Rio Nilo.
A cesta flutuou até perto do palácio do rei, e a cesta com a
criança foi apanhada, como é relatado a seguir. A mãe,
depois, não teve motivos para temer ou se entristecer, pois
o menino cresceu sob ternos cuidados, e tornou-se, mais
tarde, um dos mensageiros de Deus.
1131. Por idade adulta pode ser entendida a juventude
madura, digamos, entre 18 e os 30 anos de idade. Por
essa ocasião, a pessoa já se encontra firmemente
estabelecida na vida; sua constituição física está completa,
e seus hábitos mentais e morais estão formados. Neste
caso, como Moisés era bom de coração, veraz e leal para
com o seu povo, e obediente e justo para com aqueles
com quem vivia, foi-lhe concedido do alto conhecimento e
sabedoria, para serem usados nos tempos de conflito que
lhe haviam de chegar. Estando o seu desenvolvimento
interno completo, ele então sai para o mundo exterior, e
novamente é posto à prova, até que obtém o seu divino
comissionamento.
1132. Isso tanto pode ter sido na hora de sesta do meiodia,
quando todos os afazeres são suspensos (mesmo
agora, no Egito), ou à noite, quando as pessoas
usualmente estão dormindo. A última hipótese é mais
provável, de acordo com o versículo 18, adiante, porém, há
outra alternativa. Um convidado ao palácio não livre para
circular à vontade nas seções plebéias da cidade a todas
as horas, e isso se aplica ainda mais a um habitante do
Palácio, criado como filho. Moisés, portanto, estava a
visitar a Cidade, em segredo, despistando os guardas. Seu
objetivo talvez tivesse sido o de ir ver, por si mesmo, como
as coisas estavam indo; talvez ele tivesse ouvido dizer que
seu povo estava sendo oprimido, uma vez que, supõe-se,
mantinha contato com a sua mãe.
1133. A leste do Baixo Egito, a cerca de 482 km, fica a
Península do Sinai, limitada, ao sul, pelo Golfo de Suez, e
ao norte, pelo que era o Istmo de Suez, agora cortado pelo
Canal do mesmo nome. Sobre o Istmo fica a rodovia para
a Palestina e para a Síria; o fugitivo não poderia,
comodamente, tomar essa estrada, uma vez que os
egípcios estavam no seu encalço. Se ele pudesse, estaria
em território madianita, onde as pessoas seriam árabes, e
não egípcias. Ele foi para lá, e novamente orou a Deus
pedindo uma orientação.
1134. A primeira coisa que um errante do deserto
procuraria seria um oásis onde pudesse obter água, de um
manancial ou poço, à sobra das árvores, para se abrigar
do sol escaldante, e a companhia de algum ser humano. A
aguada dos madianitas era, provavelmente, um poço
fundo, uma vez que os mananciais de superfície são raros
nos desertos arenosos, onde o nível das águas é baixo, a
menos que haja um monte, de onde flua um regato.
1135. As moças se foram, com sorrisos nos lábios e
gratidão em seus corações. Quais foram as reflexões de
Moisés, conforme voltava para a sombra da árvore? Ele
voltou a dar graças a Deus pela brilhante e rápida visão
que tivera. Havia ele procedido bem? Preciosa fora a
oportunidade que tivera. Havia aplacado a sede. Porém
era um errante sem lar, e tinha uma ansiedade em sua
alma que não se atrevia a pôr em palavras. Aqueles
pastores não constituíam companhia para ele. Em
verdade, ele se encontrava como um mendigo em
desesperada necessidade. Por qualquer pequena coisa
boa que cruzasse seu caminho ele estaria grato. Mas, que
era aquilo? – aquela visão de uma casa confortável,
presidida por um velho rico em rebanhos, e mais rico ainda
pelas duas filhas, tão recatadas quanto belas? Talvez ele
jamais as visse novamente! Porém, a Providência estava
preparando uma outra surpresa para ele.
1136. Ele quase nem chegara a descansar, quando uma
das donzelas voltou, caminhando com modesta graça!
Timidamente, ela deu a sua mensagem: “Meu pai está
agradecido pelo que tu fizeste por nós. Ele te convida à
nossa casa, para que possa agradecer-te pessoalmente, e,
pelo menos, dar-te alguma retribuição pela tua bondade.”
1137. Nada poderia ter sido mais bem-vindo do que tal
mensagem, e por intermédio de tal “mensageiro”. Moisés
certamente foi, e viu o velho. Encontrou um bem ordenado
lar patriarcal. O ancião estava feliz com as suas filhas, e
elas com ele. Havia confiança mútua. Evidentemente elas
haviam descrito o estranho de tal modo que garantiram
boas-vindas. Por outro lado, Moisés havia dado asas à sua
imaginação, no sentido de pintar o pai com algo de cores
gloriosas, em cuja pintura as filhas apareciam junto a ele
como uma visão angelical. Os dois homens tornar-se-iam
logo amigos. Moisés contou ao ancião a sua história –
quem ele era, como fora criado, e a forma desafortunada
como tivera deixado o Egito. Talvez a família inteira,
incluindo as filhas, tivesse ficado a ouvir atentamente a sua
narrativa. Talvez o seu pasmo e a sua admiração
estivessem mesclados com uma certa dose de compaixão.
De qualquer modo, o estranho ganhara um lugar em seus
corações. O ancião, o cabeça da casa, assegurou-lhe, com
a sua hospitalidade, segurança sob o seu teto.
1138. Passou-se um pouco de tempo, e, por fim, o pai
aventou o assunto do casamento. O fugitivo não deveria
sugerir um laço permanente, especialmente quando, na
riqueza deste mundo, a família da moça era superior,
tendo uma posição estabilizada, ao passo que ele era um
mero errante. O pai pediu que, caso ele se casasse com
uma das suas filhas, ficasse com eles pelo por menos oito
anos ou, se ele quisesse, dez, ficando o termo mais longo
à sua vontade. Já que ele não trazia dote algum, seus
serviços, durante esses anos, seriam mais do que
suficientes para substituir o dote. A particular garota
pretendida estava, sem dúvida, tácita e previamente
escolhida pela própria atração mútua entre os jovens
corações. Moisés ficou contente com a proposta, e a
aceitou. Eles ratificaram o noivado da maneira mais
solene, invocando o nome de Deus. O ancião, sabendo da
valia do seu genro, solenemente lhe assegurou que de
maneira alguma tiraria vantagem da sua posição, ou
insistiria em nada contrário aos interesses de Moisés, caso
um novo futuro se abrisse para ele. E um novo e glorioso
futuro estava a esperar por ele, após o seu aprendizado.
1139. Nas sociedades patriarcais não é incomum
depararmos com casamentos acondicionados a certos
termos de serviços. Neste caso, o episódio fornece duas
lições: (1) um homem destinado a ser um mensageiro de
Deus é, sobretudo, um homem, e deve passar pelos altos
e baixos da vida, como qualquer outro; apenas ele o faz
com mais graça e distinção do que os outros homens; (2)
as magníficas relações, no amor e no casamento, podem,
por si só, constituir-se numa preparação para o elevado
destino espiritual que aguarda o Mensageiro de Deus. Uma
mulher não precisa, necessariamente, ser uma armadilha e
uma tentação: ela pode ser a companheira compreensiva e
auxiliadora, coisa que a Senhora Khadija foi para o
Mensageiro do Islam.
1140. Devemos supor a aparição de um facho, que
queimava mas não se consumia (Êxodo, 3:2), um
emblema, adotado pela Igreja Escocesa na sua heráldica
armorial. A Escócia, aparentemente, tomou esses
emblema e lema (Nec tamen consumebalur – “não
obstante não foi consumido”) do Sínodo da Igreja
Reformada da França, que os adotara em 1583. A
verdadeira explicação do Facho Ardente será encontrada
no versículo 8 da 27ª Surata, e respectivas notas; não se
tratava de fogo, mas do reflexo da Glória de Deus.
1141. Literalmente, “recolhe as tuas asas para junto de ti,
(para longe) do medo”. Quando a ave está assustava, abre
as asas e se prepara para voar; porém, quando ela se
acalma e se recompõe, repousa com as asas recolhidas,
demonstrando uma mente segura quanto ao perigo.
1142. Após a destruição da tirania faraônica e de outras
tiranias similares, antes dela, Deus começou uma nova era
de Revelação, a era de Moisés e de seu livro. A
humanidade começou novamente, por assim dizer, do
princípio. Tratou-se de uma plena Revelação (ou Chariat),
para a qual se pode olhar, partindo de três pontos de vista:
(1) como uma luz ou introspecção para os homens, para
não tatearem na escuridão; (2) como um Guia, para lhes
mostrar o Caminho, a fim de que não sejam conduzidos
pela Senda errada; e (3) como uma Misericórdia de Deus,
para que, seguindo o Caminho, eles recebam o Seu
Perdão e a Sua Graça. No versículo 91 da 6ª Surata,
temos uma referência à Luz e à Diretriz com relação à
Revelação de Moisés, e no versículo 154 da mesma surata
temos uma referência à Diretriz e à Misericórdia, na
mesma conexão. Aqui, os três pontos são combinados,
com a substituição de Basir por Nur. Basir é o plural de
Basirat, e pode também ser traduzido por provas, como
fizemos no versículo 104 da 6ª Surata.
1143. A Península do Sinai fica no quadrante noroeste da
Arábia. Mas a referência, aqui, achamos, é ao lado
ocidental do vale de Túwa. O Monte Tur, onde Moisés
recebeu a sua missão profética, fica do lado ocidental do
vale.
1144. Houve cristãos e judeus que reconheceram que o
Islam constituía um desenvolvimento lógico e natural da
Revelação de Deus, a qual foi propiciada às eras
anteriores, e não apenas deram bom acolhimento e
aceitaram o Islam, mas afirmavam, com justeza, que
sempre haviam sido muçulmanos. Nesse sentido, Adão,
Noé, Abraão, Moisés e Jesus, todos haviam sido
muçulmanos.
1145. A ocasião imediata, para isso, foi a morte de Abu
Tálib, um tio do Mensageiro, que ele amava ternamente, e
que o havia ajudado e protegido. Naturalmente, o
Mensageiro desejava ansiosamente que ele acabasse os
seus dias na profissão da verdadeira Fé, mas os líderes
pagãos coraixitas persuadiram-no a permanecer firme na
fé de seus pais. Foi uma ocasião de desapontamento e
pesar para o Mensageiro. É-nos dito que, em tais
circunstâncias, não devemos desesperar. Nem todos os
que amamos compartilham, necessariamente, dos nossos
pontos de vista ou das nossas crenças.
1146. Alguns coraixitas diziam: “Nós vemos a verdade do
Islam; mas se abandonarmos o nosso povo, perderemos a
autoridade sobre a nossa terra, e outro povo nos
absorverá”. A resposta é dupla; uma é literal e a outra é da
mais profunda importância; (1) “Vossa terra? Qual, o
santuário de Makka é sagrado e seguro porque Deus
assim o tornou. Se obedecerdes à Palavra de Deus, sereis
revigorados, e não enfraquecidos.”; (2) “Makka é símbolo
da Fortaleza do Bem-estar Espiritual. Os frutos de todos os
Feitos aparecem ou deveriam aparecer como um tributo ao
Bem-estar Espiritual. E que tendes medo? Trata-se da
Fortaleza de Deus. Quanto mais buscardes, tanto mais
fortes ficareis, nessa Fortaleza.”
1147. No versículo 71 foi mencionado o “prolongamento da
noite”, para o qual a faculdade da “compreensão” era
apropriada, uma vez que toda a luz fora retirada. Neste
versículo, o prolongamento do dia é mencionado, para o
qual a faculdade da “visão” é apropriada. Através de
muitas portas, o elevado conhecimento pode adentrar
nossas almas. Acaso não poderíamos usar cada uma
delas, conforme exigisse a ocasião?
1148. Carun é identificado como o Coré da Bíblia, em
português. Sua história é contada em Números 16:1-35.
Ele e seus seguidores, perfazendo um total de 250
homens, levantaram-se em rebelião contra Moisés e
Aarão, reivindicando que sua posição e fama na
congregação os punham em pé de igualdade com os
sacerdotes, em assuntos espirituais; diziam ser tão santos
como qualquer outro, e queriam queimar incenso no Altar
sagrado reservado aos sacerdotes. Tiveram uma punição
em regra: “E a terra abriu a sua boca, e os tragou com as
suas casas, assim como a todos os homens que
pertenciam a Coré, e todos os seus bens. E eles, e tudo o
que era seu, desceram ao abismo, e a terra os cobriu, e
pereceram, em meio à congregação.
1149. A riqueza ilimitada de Carun é descrita no Midrach,
ou as compilações baseadas nos ensinamentos orais das
Sinagogas, os quais, contudo, exageram no peso das
chaves, ou seja, o equivalente à carga de 300 mulas!
1150. Usbat: uma corporação de homens, aqui usada
indefinidamente. Usualmente significa uma corporação de
10 a 40 homens. As obsoletas chaves eram grandes e
pesadas, e, se haviam centenas de cofres, elas deveriam
perfazer um grande peso. Como eles estivessem viajando
pelo deserto, os tesouros foram presumivelmente deixados
no Egito, e somente as chaves estavam sendo carregadas.
O desleal Carun havia deixado o seu coração no Egito,
juntamente com os seus tesouros.
1151. Repatriará: a ocasião em que seremos restituídos
para a Presença do nosso Senhor. Diz-se que este
versículo foi revelado em Juhfa, na estrada de Makka para
Madina, a uma curta distância de Makka, na viagem da
Hégira. O Profeta estava triste de coração, e isso lhe foi
dado como um consolo. Se essa fosse uma ocasião
particular, o significado geral referir-se-ia à repatriação, por
ocasião da Ressurreição, quando todos os valores serão
restaurados, conquanto possam ser perturbados pela
interferência temporária do mal nesta vida.

1152. Isto sumaria a lição de toda a Surata. A única
Realidade Eterna é Deus. Todo o mundo dos fenômenos
está sujeito a fluxos e mudanças, e passará, mas Ele
perdurará para todo o sempre. Se pensarmos em um Deus
impessoal, uma força abstrata do bem, não poderemos
reconciliá-la com o Ser ou Entidade vital, do qual nós
percebemos tênue eco ou reflexo, nos momentos mais
íntimos da nossa exaltação espiritual. Ficamos sabendo,
então, que o que nós chamamos de nosso ser não tem
significado algum, pois há apenas um Ser verdadeiro, e
esse é Deus.
1153. Para as letras abreviadas, ver anota do versículo 1
da 2ª Surata. É-nos pedido que ponhamos em contraste,
em nossa vida presente, a real vida interior com a vida
exterior, que tiremos lições do passado acerca das porfias
da alma que se apega à verdade de Deus, contra a
ambiência do mal, que lhe resiste, e que voltemos os
nossos pensamentos para o Maad, ou o destino futuro do
homem, na Vida Futura.
1154. O verbo “distinguir” é aqui usado mais no sentido de
testar, do que no aquilotar o conhecimento. Deus é
Onisapiente; Ele não precisa de teste algum para aumentar
o Seu conhecimento; contudo, o teste é para queimar a
escória que há em nós.
1155. Comparar com o versículo 56 da 9ª Surata e com
outras passagens, onde a astúcia dos hipócritas é exposta.
O homem que na adversidade vira as costas à Fé, e
apenas diz ser amigo dos fiéis quando há algo a ser
lucrado, é passível de uma dupla condenação:
primeiramente, por ter rejeitado a Fé e a Verdade, e em
segundo lugar por ter falsamente pretendido ser um
daqueles que ele temia ou odiava, de coração. Mas nada,
na criação, fica oculto de Deus.
1156. A história de Noé e do Dilúvio não é contada aqui. É
contada em outros lugares (11:25-48). Há apenas uma
referência aqui, para apontar que a vida de Noé durou um
longo tempo: 950 anos (comparar com Gênesis 9:28-29,
que declara que a sua vida durou 950 anos, dos quais 350
foram vividos após o Dilúvio). A despeito da sua longa
vida, os seus contemporâneos não o ouviram, e foram
destruídos. Porém a história da Arca permanece como
símbolo permanente de escarmento para a humanidade –
um sinal de livramento para os virtuosos e de destruição,
para os iníquos.
1157. A história de Abraão tem sido contada em várias
fases, em diferentes passagens. As mais ligadas à
presente passagem são: versículos 51-72 da 21ª Surata (o
ato de ele ser tirado dentro do fogo, e deste ser salvo), e
41-49 da 19ª Surata (seu exílio, voluntário, do lar dos seus
pais). Aqui a história não é contada, mas é mencionada, a
fim de reforçar os seguintes pontos: (1) o povo de Abraão
somente respondia à pregação com a ameaça de queimá-
lo vivo (versículos 16-18 e 24 desta Surata); (2) o mal
desposa o mal, mas terá um rude despertar (versículo 25
desta Surata); (3) os bons aderem aos bons, e são
abençoados (versículos 26-27 desta Surata). Note-se que
o comentário da passagem dos versículos 19-23 desta
surata é parentético, embora alguns exegetas considerem
uma parcela dele como parte do discurso de Abraão.
1158. Percorrei a terra; outra vez, tanto literal como
simbolicamente. Se viajarmos por esta extensa terra,
veremos as coisas maravilhosas da Sua Criação – o Grand
Canyon e as Cataratas do Niágara, na América; os
maravilhosos portos como o de Sidney, na Austrália; a
Baía de Guanabara, no Brasil; montanhas, como a
Fujiyama, o Himalaia e Elbruz, na Ásia; o Nilo, com as
suas maravilhosas cataratas, na África; o Rio Amazonas;
os fiordes da Noruega, as geleiras da Islândia; a cidade do
sol da meia-noite, em Tromso, e incontáveis maravilhas,
em todo os lugares. E maravilhas sobre maravilhas são
descobertas na constituição da própria matéria, o átomo, e
a força da energia, como também nos instintos dos
animais, e nas mentes e capacidades dos homens. E não
há limites para estas coisas. Mundos e mais mundos são
criados e transformados a cada momento, dentro, e
presumivelmente, fora do campo de visão do homem. A
partir do que conhecemos, podemos julgar o que não
conhecemos.
1159. Lot era sobrinho de Abraão. Ele aderiu aos
ensinamentos e à fé de Abraão, e aceitou o exílio
voluntário, com ele, pois Abraão deixara o lar de seus pais
na Caldéia, e migrara para a Síria e Palestina, onde Deus
lhe deu um aumento em prosperidade, e uma numerosa
família, a qual ergueu a bandeira da Unidade e da Luz de
Deus.
1160. Isaac era filho de Abraão, e Jacó, seu neto; e entre a
sua progênie esteve incluído Ismael, o filho mais velho de
Abraão. Cada um destes tornou-se uma fonte de Profecia
e da Revelação – Isaac e Jacó, através de Moisés, e
Ismael, através do Profeta Mohammad.
1161. Eles infestavam as estradas e cometiam os seus
crimes horríveis, não apenas secreta, mas aberta e
publicamente, mesmo em suas assembléias. Alguns
exegetas compreendem que “impedindo assim a
continuação” se refira aos assaltos de estradas; isto é
possível, e é também possível que os crimes praticados
em suas assembléias fossem a injustiça, violência etc..
Mas o contexto refere-se em especial aos seus crimes
horrendos, e o ponto parece ser que eles não se
envergonhavam daquilo, e o praticavam publicamente. A
degradação não poderia continuar.
1162. Esta parte da história deve ser lida detalhadamente,
nos versículos 77-83 da 11ª Surata.
1163. O castigo constituiu-se de uma chuva de enxofre,
que abrangeu completamente as cidades, possivelmente
acompanhada de um terremoto e de uma erupção
vulcânica (ver o versículo 82 da 11ª Surata).
1164. Todo o trato do território do lado leste do Mar Morto (
onde as cidades estavam situadas) é coberto com sais
sulfúricos, que são mortíferos para animais e plantas. O
próprio Mar Morto é chamado, em árabe, Bahr Lut (o Mar
de Lot). Trata-se de uma cena de tremenda desolação, que
deveria ser tomada como um símbolo de destruição que
espera todo pecado.
1165. A história dos povos de Xuaib e de Madian apenas
entra em referência, aqui. Ela é contada nos versículos 84-
95 da 11ª Surata. Seus pecados costumeiros eram a
fraude e a imoralidade comercial. Sua punição constituiuse
de uma poderosa explosão, como as que acompanham
as erupções vulcânicas. O ponto de referência, aqui, é que
eles continuavam a fazer corrupção na terra, sem jamais
pensar no Maad, ou na Vida Futura, que é o tema
particular desta Surata. O mesmo ponto entra em breves
referências nos dois versículos que se seguem, acerca de
Ad, Samud, Carun, o Faraó e Haman, embora o pecado
costumeiro, em cada caso, fosse diferente. Os madianitas
formavam um povo de comerciantes que comerciavam de
terra em terra; suas fraudes são descritas como
espalhando “a corrupção na terra”.
1166. Para o povo de Ad, ver os versículos 65-72 da 7ª
Surata, e respectivas notas; e para o de Tamud, os 73-79
da 7ª Surata, e respectiva nota. Os remanescentes de
seus edifícios que mostram que (1) tinham grande
inteligência e habilidade; (2) seus construtores estavam
orgulhosos da sua civilização material; (3) sua destruição
mostra que as maiores civilizações e os recursos materiais
não podem salvar um povo que desobedece à lei moral de
Deus.
1167. Quanto a Carun, ver os versículos 76-82 da 28ª
Surata; o Faraó é freqüentemente mencionado no Alcorão,
mas é também mencionado em associação com Haman,
no versículo 6 da 28ª Surata. Eles pensavam ser muito
donos de si, mas chegaram a um triste fim.
1168. A casa da aranha é um dos maravilhosos sinais da
criação de Deus. Ela é feita de finíssimos fios que saem
das glândulas do corpo da aranha. Há muitas espécies de
aranhas e muitas espécies de casas de aranhas. Os
principais tipos de casas devem ser mencionados. Há um
ninho tubular, ou teia, uma casa ou toca forrada de seda,
com uma ou duas portas-armadilhas. Isto pode ser
chamado de residência, ou mansão familiar. Há, então, o
que é comumente denominado teia de aranha, que
consiste de um ponto central com fios radiais concêntricos
e quase circulares, que formam o corpo da teia. Este é o
seu pavilhão de caça. A estrutura inteira dá exemplo de
economia de tempo, de material e de desprendimento de
energia. Se um inseto cair na rede, a vibração que se
processa nos finos radiais logo avisa a aranha, que vem, e
mata a sua presa. No caso de a presa ser poderosa, a
aranha é provida de glândulas venenosas, com as quais
liquida a presa. A aranha tanto descansa no centro da teia,
como se esconde na parte de baixo de uma folha, ou
dentro de alguma greta, mas sempre dispõe de uma linha
que a liga à teia, que a mantém em comunicação. A fêmea
da aranha é bem maior que o macho, e em árabe o gênero
de ankabut é feminino.
1169. A maior parte dos fatos da nota anterior pode ser lida
com a Parábola. Dada a espessura, os fios da teia de
aranha são muito fortes, do ponto de vista da relatividade;
mas, no nosso mundo, são muito frágeis, especialmente os
fios de teia de aranha que flutuam no ar. Assim é também
a casa do homem que confia em recursos materiais,
conquanto finíssimos ou relativamente belos; perante a
Realidade eterna eles nada são.
1170. A enunciação do Alcorão implica em: (1) ensaiá-lo
ou recitá-lo, e publicá-lo no exterior, para o mundo; (2)
lermo-lo para nós mesmos; (3) estudá-lo e compreendê-lo,
como deve ser estudado e compreendido (versículo 121 da
2ª Surata); meditarmos sobre ele, para harmonizarmos o
nosso conhecimento, a nossa vida e os nossos desejos,
segundo ele. Isso resulta na verdadeira oração, e esta nos
purga de tudo (ação, plano, pensamento, intenção,
palavras) que nos possa causar vergonha, ou que poderia
resultar em injustiça para os outros.
1171. Os judeus cristãos sinceros encontraram no Profeta
do Islam o preenchimento da sua própria religião. Quanto
aos nomes de alguns judeus que reconheceram e
abraçaram o Islam, ver anota do versículo 197 da 26ª
Surata. Entre os cristãos, também, a Fé, aos poucos,
ganhou terreno. Diversos embaixadores foram enviados
pelo Profeta, no 6º e 7º anos da Hégira, para todos os
principais países ao redor da Arábia, a saber, a capital do
Império Bizantino (Constantinopla), a capital do Império
Persa (Madáin), a capital Sassânida, conhecida no
Ocidente pelo nome grego de Ctesphon (cerca de 480 km
ao sul da moderna Bagdá), para a Síria, Abissínia e o
Egito. Todos esses países (exceto a Pérsia) eram cristãos.
Na mesma conexão, um embaixador foi também enviado
para Yamama, a própria Arábia (a leste do Hijaz), onde a
tribo dos Bani Hanifa era cristã, assim como a tribo Haris,
do Najran, que voluntariamente enviou um embaixador a
Madina. Todos esses países, exceto a Abissínia,
finalmente tornaram-se muçulmanos, sendo que a própria
Abissínia (Etiópia) tem agora uma considerável população
muçulmana, e enviou convertidos muçulmanos para
Madina, no tempo do Profeta.
1172. O Profeta do Islam não era um homem culto. Antes
de o Alcorão lhe ser revelado, ele jamais disse ser um
Mensageiro de Deus. Ele não tinha o hábito de pregar
eloqüentes verdades, como as tiradas de livros, antes de
receber a sua Revelação, nem tampouco era capaz de
escrever ou transcrever com as suas próprias mãos. Se ele
tivesse tido essa dádiva terrena, haveria alguma
plausibilidade nas acusações dos faladores, de que falava,
não por inspiração, mas baseado nos livros de outros
povos, ou de que ele mesmo havia composto os
magníficos versículos do Alcorão, e os havia guardado de
memória, para que os recitasse para o povo. As
circunstâncias em que o Alcorão chegou prestam o seu
próprio testemunho da sua autenticidade em proceder de
Deus.
1173. “Conhecimento” tanto significa poder de julgamento,
ao discernir o valor da verdade, como a familiarização com
as revelações anteriores. Isso implica em introspecção
literária e espiritual. Para os homens assim dotados, as
revelações e os Sinais de Deus são evidentes. Eles se
recomendam aos seus corações, às suas mentes e aos
entendimentos, coisa que é evidenciada, em árabe, pela
palavra sadr, “peito”.
1174. Não há desculpa para que ninguém diga que não
pôde fazer o bem, ou que foi forçado a fazer o mal, por
causa das circunstâncias e da ambiência, ou pelo fato de
que viveu em tempos malignos. Devemos evitar o mal e
procurar o bem, porque a Criação de Deus é
suficientemente ampla, bastando somente que tenhamos a
vontade, a paciência e a constância para fazê-lo. Pode
ocorrer que tenhamos de mudar de aldeia, de cidade ou de
país; ou que tenhamos de nos afastar dos nossos vizinhos
ou dos nossos associados; ou tenhamos de mudar os
nossos hábitos ou o nosso tempo disponível, nossa
posição na vida, ou as nossas relações humanas, ou as
nossas tendências. A nossa integridade, perante Deus, é
mais importante do que essas coisas, e devemos estar
preparados para o exílio (ou Hijrat), em todos esses
sentidos. Porque os meios com os quais Deus nos dota,
para os colocarmos ao Seu serviço, são amplos, e, se
falharmos, será nossa culpa.
1175. Comparar com os versículos 185 da 3ª Surata e 35
da 21ª Surata, e respectivas notas. A morte é a separação
da alma, quando o corpo perece. Nós não devemos temer
a morte, porque ela tão-somente nos leva de volta a Deus.
As várias espécies de hijrat ou exílio, físico ou espiritual,
mencionadas na nota anterior, são também, num sentido,
modos de morte; que há, então, a temer?
1176. Se atentarmos para a criação animal, vemos que
muitas criaturas parecem quase impossibilitadas de
encontrar o seu próprio alimento ou de sustentar a sua vida
plena, cercadas que estão por muitos inimigos. Contudo,
no Plano de Deus, elas encontram todo o sustento e toda a
proteção. Tal qual o homem. As necessidades do homem –
bem como o desamparo – são de muitas maneiras maiores.
Deus ouve os pedidos e as súplicas de todas as Suas
criaturas, e sabe de todas as suas necessidades, e provê a
subsistência de todas elas. Portanto, o homem não deveria
hesitar em suportar o exílio ou a perseguição pela Causa
de Deus.
1177. Comparar com os versículos 81-89 da 23ª Surata.
“Eles”, em ambas as passagens, refere-se à espécie de
homens inconsistentes que estão conscientes do poder de
Deus, mas são levados, por falsas noções, à
desobediência à Lei de Deus e ao desrespeito pela Sua
Mensagem.
1178. Comparar com o versículo 29 da 7ª Surata, onde nós
fizemos uma pequena mudança na frase em português, de
acordo com o contexto. Foi mostrado, no versículo anterior,
que a vida neste mundo é fugidia, e que a verdadeira vida –
aquela que conta – é a vida futura. Contrastando com essa
realidade patente, mostra-se agora a visão estreita da
insensatez do homem. Quando ele enfrenta os perigos
físicos do mar, que nada são além de um incidente deste
mundo fenomenal, ele real e sinceramente procura a ajuda
de Deus; mas quando está a salvo, de volta à terra firme,
esquece-se das Realidades, volta aos prazeres e às
vaidades de fenômenos fugidios, e sua devoção, que
deveria ser exclusivamente dedicada a Deus, é repartida
entre ídolos e futilidades da sua própria imaginação.
1179. Ver a nota do versículo 1 da 2ª Surata.
1180. O Império Romano perdeu a maior parte do território
asiático, e foi encurralado por todos os lados, na sua
capital, Constantinopla. “Em terra muito próxima” deve
referir-se à Síria e à Palestina. Jerusalém foi perdida nos
anos 614-15, um pouco antes de esta surata ser revelada.
1181. Os coraixitas pagãos de Makka regozijaram-se com
a queda de Roma, causada pela Pérsia. Eles eram pró-
Pérsia, e esperavam que o nascente movimento do Islam –
que naquele tempo, de um ponto de vista terreno, era
fraquíssimo e indefeso -, entrasse em colapso com a
perseguição deles. Porém, eles não souberam ler os
verdadeiros Sinais dos tempos. É-lhes dito que logo iriam
desiludir-se em todos os seus cálculos, e isso realmente
aconteceu na batalha de Isso, no ano 622 (o ano da
Hégira), e em 624, quando Heráclitos desenvolveu a sua
campanha no coração da Pérsia, e os coraixitas de Makka
foram batidos na batalha de Badr.
1182. A batalha de Badr (ano 2H. = 624 d.C.) foi uma
verdadeira época de regozijo para os fiéis, e uma época de
desilusão para os arrogantes coraixitas, os quais
pensavam que poderiam esmagar todo o movimento
islâmico em Madina, como haviam tentado fazer em
Makka, mas foram visivelmente repelidos.
1183. Que nenhuma geração pense que é melhor do que
as que a precederam. Talvez nós sejamos “herdeiros de
todas as eras, os arquivos primordiais do tempo”. Isso não
é motivo para arrogância, mas, pelo contrário, é adicionado
à nossa responsabilidade. Quando pensamos em quantas
cidades e quantos reinos florescentes existiram antes, em
como eles floresceram, em número e prosperidade, em lei
de Deus, nós temos um senso de humildade, e vemos que
foi a rebeldia e a vontade própria que os derrubaram. Deus
foi mais do que justo. Foi também misericordioso. Eles é
que causaram a sua própria ruína.
1184. As horas especiais para a recordação de Deus são
então descritas, incluindo todas as nossas atividades na
vida – quando nos levantamos pela manhã, quando vamos
dormir à noite; quando estamos em pleno trabalho, com o
sol a pino, e no declínio do sol, à tardezinha. Note-se que
estes são estágios notáveis da passagem do sol pelo
nosso dia terrestre, bem como estágios importantes da
nossa vida de trabalho diário. Nisto estão baseados os
horários das cinco orações canônicas, mais tarde
prescritas em Madina: (1) oração da madrugada, antes do
nascer do sol (Fajr); (2) quando o dia começa a declinar,
logo depois do meio-dia (Duhr); (3) à tarde, digamos, a
meio caminho entre o meio-dia e o pôr-do-sol (Asr); (4) a
oração da tardezinha, logo depois do pôr-do-sol (Magrib); e
(5) a oração da noite, quando toda claridade do dia já
sumiu, sendo a hora indicada para o repouso e o sono
(Ichá); (comparar com os versículos 114 da 11ª Surata, e
respectiva nota, versículos 78-79 da 17ª Surata, e
respectiva nota, versículos 130 da 20ª Surata, e respectiva
nota).
1185. Comparar com o versículo 31 da 10ª Surata. De
matérias inertes, a ação criadora de Deus produz vida e
matérias viventes, sabendo-se que nem a ciência ainda foi
capaz de explicar o mistério da vida. A vida e a matéria
vivente; outra vez, parecem atingir a maturidade e
novamente morrer, como constatamos todos os dia.
Nenhuma coisa material parece ter vida eterna. Porém,
constantemente nós vemos o processo criador de Deus em
ação, e o ciclo da vida e da morte parece ter continuidade.
1186. Comparar com o versículo 164 da 2ª Surata. A
própria terra, aparentemente tão inerte, produz a vida
vegetal com uma simples precipitação de chuva, e de
várias maneiras sustenta a vida animal. Normalmente, ela
parece morrer no inverno, nos climas frios, e com a seca,
em outros lugares; mas vem a primavera, e ela revive com
toda a sua glória. Metaforicamente falando, muitos
movimentos, sempre sob a maravilhosa dispensação de
Deus. Assim também a nossa personalidade será
ressuscitada quando aparentemente tivermos morrido
nesta terra, a fim de colhermos os frutos da nossa vida de
provações.
1187. Comparar com o versículo 37 da 18ª Surata, e
respectiva nota. A despeito da origem inferior do corpo do
homem, Deus lhe deu uma mente e uma alma, com as
quais ele pode quase alcançar o mais longínquo limite do
Tempo e do Espaço. Não é isto suficiente para evidenciar
um milagre ou Sinal? Partindo de um ponto de vista físico,
vejamos como o homem, uma criatura feita do pó, se
dissemina pelos mais longínquos quadrantes da terra!
1188. Isto se refere ao maravilhoso mistério do sexo. As
crianças nascem da união dos sexos. E é sempre o sexo
feminino que dá à luz os rebentos, quer sejam meninas ou
meninos. E também o pai é tão necessário quanto a mãe,
para o nascimento das filhas ou dos filhos.
1189. As variações de linguagem e de cores podem ser
visualizadas partindo do aspecto geográfico, ou aspecto
dos períodos de tempo. Toda a humanidade foi criada de
um único par de pais; contudo, ela se espalhou por
diferentes países e climas, e desenvolveu diferentes
línguas e diferentes matizes da tez. Mesmo assim, a sua
unidade básica permaneceu inalterada. Os humanos
sentem todos da mesma maneira, e são todos iguais, sob
os cuidados de Deus. Há, contudo, as variações de tempo.
Velhas línguas morrem, e outras evoluem. Novas
condições de vida e de pensamento estão constantemente
proporcionando o aparecimento de novas palavras e
expressões, novas estruturas sintáticas, e novos modos de
pronúncia. Mesmo os velhos povos morrem, e novos povos
nascem.
1190. Do versículo 20 ao versículo 25, é mencionada uma
série de Sinais e Milagres que deveriam despertar as
nossas almas, e nos levar à verdadeira Realidade, se
quiséssemos compreender Deus: (1) há a nossa origem e
o nosso destino, os quais devem necessariamente ser o
nosso ponto de partida subjetivo; “eu penso, logo existo”;
nenhum esforço particular da nossa parte, é aqui requerido
(versículo 20); (2) o começo da vida social vem por meio
do sexo e do amor; para compreendermos isto em sues
princípios, devemos “refletir” (versículo 21); (3) o próximo
ponto é entendermos as nossas diferenças de fala, cor
etc., provenientes das diferenças de clima e de condições
exteriores; todavia, há a unidade em meio a essa
diversificação, da qual nos conscientizamos por meio do
conhecimento extensivo (versículo 22); (4) depois, nos
voltamos para as nossas condições psicológicas: sono,
descanso, visões, introspecção etc., aqui nós precisamos
de ensinamento e diretriz, para o que devemos prestar
atenção (versículo 23); (5) então, devemos nos acercar
das elevadas esferas das esperanças e dos temores
espirituais, simbolizados pelas forças sutis da natureza,
como o relâmpago e a eletricidade, os quais podem, no
seu rastro, acabar com a tolice ou trazer prosperidade, por
causa da chuva e da colheita abundante; para
compreender as mais elevadas esferas das esperanças e
dos temores espirituais, assim simbolizados, nós
precisamos da mais alta sabedoria (versículo 24); (6) e, por
fim, talvez seremos de tal modo transformados, que
estaremos acima de todas as coisas terrenas,
insignificantes e efêmeras; Deus nos chamará e nós nos
levantaremos; então, nenhum processo humano contará,
porquanto o próprio Chamamento de Deus terá chegado
(versículo 25-27).
1191. Ver a nota anterior, item (5). Comparar com o
versículo 12 da 18ª Surata. Para os covardes, o relâmpago
e o trovão aparentam ser forças terríveis da natureza; o
relâmpago lembra a morte e a destruição, onde a sua
irresistível incidência não é obstruída por pára-raios.
Porém, o relâmpago é também o arauto das nuvens
impregnadas de chuva, e de aguaceiros que, em seu
rastro, trazem a fertilidade e a prosperidade. Este duplo
aspecto é também um símbolo de temores e esperanças
espirituais – temores de não sermos receptivos ou dignos
da irresistível e perspícua Mensagem de Deus, e
esperanças de que a recebamos no espírito correto, e que
sejamos abençoados por sua força vigorosa de
transformação a fim de que alcancemos o bem-estar
espiritual. Note-se que a repetição da frase “vivifica a terra,
depois de haver sido árida” liga este versículo ao 19,
acima; em outras palavras, a Revelação, que devemos
receber com sabedoria e compreensão, é um Sinal do
próprio poder e da misericórdia de Deus, e é concedido
para salvaguardar o nosso Futuro final.
1192. No mundo físico, o céu e a terra, como os vemos,
não estão apoiados em nada, isso por causa do artesanato
de Deus. Eles prestam testemunho de Deus; a terra por
sua produção, e o céu pela chuva, pelo calor do sol, e por
outros fenômenos da natureza – trazem às nossas mentes
a nossa relação com Deus, Que os fez e Que nos fez.
Como, então, podemos ser tão duros, a ponto de não nos
conscientizarmos de que o nosso elevado Futuro – o nosso
Maad – está ligado ao chamamento e à misericórdia de
Deus?
1193. Saído da mão criadora de Deus, o homem é
inocente, puro, veraz, livre, inclinado à retidão e à virtude,
e dotado da verdadeira compreensão quanto à sua posição
no universo, e quanto à bondade, à sabedoria e ao poder
de Deus. Essa é a sua verdadeira natureza, assim como é
da natureza do cordeiro ser manso, e do cavalo, ser veloz.
Porém, o homem é apanhado pelas malhas dos costumes,
das superstições, dos desejos egoísticos e dos falsos
ensinamentos. Isto tudo torna-o beligerante, impuro, falso,
desejoso daquilo que é errado ou proibido, e desviado do
amor para com os seus semelhantes, e da pura adoração
ao Único e Verdadeiro Deus. O problema com que se
deparam os mentores espirituais consiste em curarem
essas anomalias, e restaurarem a natureza humana no
que ela deveria ser, segundo a Vontade de Deus.
1194. No versículo 36 da 9ª Surata, traduzimos Din-cai-i-im
por “cômputo exato”. Aqui o significado é mais amplo, uma
vez que inclui a vida, os pensamentos e os desejos do
homem. A “verdadeira religião”, ou o verdadeiro caminho,
é contrastado desse modo com vários sistemas humanos,
que entram em conflito uns com os outros, e se
denominam “religiões” ou “seitas” separadas (ver o
versículo 32, adiante). A verdadeira Religião de Deus é
uma, uma vez que Deus é Um.
1195. A “contrição” não quer dizer hábito de penitente, ou
assumirmos um pessimismo taciturno. Quer dizer
trocarmos a morbidez pela disposição, a aberração (que é
normal) pelo Caminho Reto; quer dizer a restauração da
nossa natureza, como Deus a criou, tirando-a da falsidade
introduzida pelos engodos do Mal.
1196. Uma boa descrição do sectarismo vaidoso, contrário
à verdadeira Religião.
1197. Riba é qualquer aumento, obtido através de meios
ilegais, tais como usura, suborno, logro, tráfico fraudulento
etc.. Ver os versículos 275-277 da 2ª Surata, e respectivas
notas. Todas as obtenções ilícitas de riqueza, às expensas
de outras pessoas, são condenadas. O egoísmo
econômico, e muitas das práticas ríspidas, individuais,
nacionais e internacionais, estão incluídas neste
banimento. O princípio é o de que qualquer lucro que
devamos procurar deverá ser através do nosso esforço
próprio e às nossas expensas, não por meio de
explorarmos outras pessoas, e às suas expensas, não
importando o quanto nos enrolemos no processo da
fraseologia da alta finança ou do jargão citadino. Porém, é-
nos pedido que passemos além desse preceito negativo de
evitarmos o que é errado. Devemos mostrar o nosso amor
ativo para com o nosso próximo, gastando a nossa própria
substância ou recurso, ou lançando mão da utilização dos
nossos talentos e nossas oportunidades, a serviço
daqueles que deles necessitam. Então, a nossa
recompensa não será meramente o que merecermos; ela
será multiplicada muitas vezes mais do que o nosso estrito
acerto de contas.
1198. Na forma, esta cláusula (aqui, como em outros
lugares) é negativa, mas tem um significado positivo: Deus
ama aqueles que têm fé e n’Ele confiam, e os
recompensará, por causa de Sua Graça e Benevolência,
quantitativa e qualitativamente.
1199. No mundo material, os ventos não apenas refrescam
e purificam o ar, trazendo a bênção da chuva que fertiliza o
solo, mas ainda auxiliam no comércio internacional e nas
relações entre os homens, nas vias marítimas (barcos a
vela), e agora nas vias aéreas. Aqueles que sabem tirar
vantagem dessas bênçãos de Deus, prosperam e se
regozijam, ao passo que aqueles que ignoram ou não
sabem entender esses Sinais, perecem nas tempestades.
Assim acontece no mundo espiritual: porta-vozes de boasnovas
foram enviados por Deus, na forma de mensageiros;
aqueles que tiraram proveito da sua Mensagem
prosperaram, em ganho espiritual, e aqueles que
ignoraram ou se opuseram aos Claros Sinais, pereceram
espiritualmente.
1200. Novamente, a Parábola dos Ventos é apresentada
sob um outro aspecto, tanto material como espiritual. No
mundo material, a gente vê como eles carregam as
nuvens; sugam a unidade da água terrestre, carregam-na
em nuvens negras como é preciso, e a fazem descer como
chuva, que é necessária. Assim, também, a maravilhosa
Graça de Deus delineia as aspirações espirituais dos
homens, e as suspende, como mistérios obscuros, de
acordo com a Sua Vontade e Seu Plano; e quando a Sua
Mensagem alcança os corações dos homens, estes se
alegram, muito embora, antes disso, estivessem em
profundo desespero.
1201. Depois das duas parábolas sobre a purificadora
ação dos ventos e da sua atuação fertilizante, temos agora
a parábola da terra, que parece morrer no inferno, ou com
a seca, e depois revive na primavera, ou com a chuva, pela
Graça de Deus; assim, também, na esfera espiritual, o
homem parece estar morto, e vive novamente, pelo alento
de Deus e por sua Misericórdia, quando se coloca em
Suas mãos.
1202. Outra parábola das forças da natureza. Já vimos o
quanto os ventos alegraram, vivificaram e enriqueceram
aqueles que deles se utilizaram, com o espírito certo.
Porém, o vento pode ser pernicioso para a lavoura, em
certas circunstâncias; assim, também, as bênçãos de Deus
– por causa da resistência e das blasfêmias dos malfeitores
– podem trazer a punição para os maldosos. Ao invés de
tomarem a punição com o espírito certo – com o espírito
com o qual os fiéis, encaram os seus infortúnios – os
incrédulos anatematizam, e se aprofundam em seus
pecados!
1203. As maravilhas da criação de Deus podem, de uma
maneira geral, ser observadas por todo aquele que tem
disposição para permitir que tal conhecimento penetre a
sua mente. Porém, se o homem, por causa da obstinação,
aniquila a própria faculdade que Deus lhe deu, como pode,
então, entender? Além disso, juntamente com homens que
aniquilam seu senso espiritual, há homens que podem ser
equiparados aos surdos, aos quais falta uma faculdade,
mas que lançam mão de outra faculdade, tal como o
sentido da visão; mas se se descuidarem, e se recusarem
a ser instruídos, como poderá a Verdade chegar até eles?
1204. Ver a nota anterior. Então, há o caso dos homens
aos quais o dizer “o maior cego é aquele que não quer ver”
se aplica. Eles preferem perambular por caminhos de erros
e de prazeres sensoriais. Como poderão , de algum modo,
ser guiados? As únicas pessoas que ganham com os
ensinamentos espirituais são aquelas que se importam
com eles – que crêem e que submetem as suas vontades à
Vontade de Deus. Esta é a doutrina central do Islam.
1205. O Profeta de Deus não esmorece em seus esforços,
nem se sente desencorajado só porque os incrédulos se
riem dele, ou o perseguem, ou, ainda, parecem ter sucesso
em bloquearem a sua Mensagem. Ele possui fé firme, e
sabe que Deus, no fim, estabelecerá a Sua Verdade. Ele
continua em sua tarefa, divinamente confiada, com
paciência e perseverança, a qual deverá prevalecer contra
a leviandade dos seus oponentes, os quais não têm fé, e
certamente nada em que se apoiar.
1206. Ver a nota do versículo 1 da 2ª Surata.
1207. Esta surata se relaciona com a Sabedoria, e o
Alcorão é chamado de o Livro Sábio, ou de o Livro da
Sabedoria. No versículo 12, adiante, há uma referência a
Lucman, o Sábio. “Sábio”, neste sentido (Hakim), não se
refere apenas a um homem versado no conhecimento
humano e divino, mas também àquele que desenvolve, na
conduta prática (‘amál), o curso certo da vida até os limites
de sua força. Seu conhecimento é correto e prático, mas
não necessariamente completo, pois o homem não é
perfeito. Esse ideal envolve a concepção de um homem de
ação heróica, bem como um profundo e laborioso
conhecimento da natureza humana e da própria natureza –
não meramente sonhos ou especulações. Esse ideal se
evidenciou em notabilíssimo grau, no Mensageiro do Islam
e no Livro Sagrado, que foi revelado por meio dele. “Livro
Sábio” (Kitab-il-hakim) é um dos títulos do Alcorão.
1208. A vida é tomada a sério por homens que se
conscientizam das injunções convenientes a ela. Mas há
homens de mentalidades frívolas, que preferem ouvir
contos ociosos, a ouvir as verdadeiras Realizações; a
estes são, com justiça, aqui censurados. No tempo do
Profeta do Islam havia um certo pagão, Nadhr Ibn Al-Haris,
que preferia ouvir os romances persas a ouvir a Mensagem
de Deus, e com isso desviava muitos ignorantes dos
ensinamentos da Palavra de Deus.
1209. Tais homens se comportam como se nada tivessem
ouvido de muita importância, e riem-se dos ensinamentos
sérios. A perda será deles. Perderão todas as cosias
elevadas da vida, e ficarão fora do alcance das bênçãos de
Deus.
1210. Note-se a mudança de pronome, neste estágio do
versículo. Antes, falou-se de Deus na 3ª pessoa, “Ele”, e
os citados atos da criação eram aqueles que, em sua
maioria, foram completados quando o universo, como o
vemos, passou a existir, embora a sua lenta evolução
continue. Depois, Deus fala na 1ª pessoa, “Nós”, o plural
de majestade, como foi explicado antes (ver a nota do
versículo 38 da 2ª Surata); e os processos citados são
aqueles que acontecerão continuamente perante nós,
como é o caso da precipitação da chuva e do crescimento
do reino vegetal. De algum modo, a criação dos céus e da
terra, e da vida animal., pode ser considerada impessoal
ao homem, ao passo que o processo da queda da chuva e
da vegetação tem uma especial relação pessoal com ele.
1211. Lucman, o Sábio, de quem esta surata tira o nome,
pertence à tradição árabe. Muito pouco é sabido de sua
vida. Ele está costumeiramente associado à vida longa,
sendo o seu tútulo Moammar (o longevo). Ele é colocado
por alguns na época do povo de Ad, para o quê ver a nota
do versículo 65 da 7ª Surata. Ele representa o tipo da
sabedoria perfeita. Diz-se que, pertencendo a uma humilde
camada da sociedade, sendo um escravo ou um
carpinteiro, recusou o poder terreno e um reino. Muitos
apólogos instrutivos, similares à Fábulas do Esopo, da
tradição grega, são creditados a ele. A identificação de
Lucman com Esopo não tem fundamento histórico, embora
seja verdade que as tradições sobre eles tenham
influenciado uma a outra.
1212. Lucman é tido como o padrão de sabedoria, porque
realizou o máximo neste mundo, com uma vida sábia,
baseada na mais alta esperança da vida íntima. Para ele,
como no Islam, a verdadeira sabedoria humana é também
sabedoria divina; as duas não podem estar separadas. O
princípio de toda a sabedoria, portanto, consiste na
conformidade com a Vontade de Deus (versículo 12 desta
surata). Isso significa que devemos entender as nossas
relações com Ele, e adorá-Lo como se deve (versículo 13).
Então, devemos ser bondosos para com a humanidade, a
começar pelos nossos pais (versículo 14). Porque os dois
deveres não são diferentes, mas um só. Quando eles
parecem estar em conflito, há algo de errado com a
vontade humana.
1213. O conjunto de dentes de elite de uma criança
humana é completado com a idade de dois anos, que é o
natural e extremo limite para a amamentação. Na nossa
vida espiritual a duração é bem maior.
1214. Os versículos 14-15 não são a fala direta de
Lucman, mas acontecem por meio do comentário dos seus
ensinamentos. Ele falava como um pai ao seu filho, e não
podia, de modo claro, pedir respeito para si mesmo, e
atrair a atenção do filho para as limitações da obediência
filial. Deve-se supor que estes versículos sejam diretrizes
gerais, advindas dos ensinamentos de Lucman aos
homens, e não dirigidos a seu filho; embora, em ambos os
casos, uma vez que Lucman adquirira de Deus a
sabedoria, sejam os princípios divinos os enunciados.
1215. A semente de mostarda é uma coisa
proverbialmente pequena, diminuta, uma coisa por cima da
qual as pessoas, costumeiramente, passam. Mas não
Deus. Dá-se muita ênfase ao fato de se supor que a
semente de mostarda esteja escondida por baixo de uma
rocha, ou esteja perdida na espaçosa imensidão da terra
ou dos céus. De Deus tudo é conhecido, e Ele dá conta
disso.
1216. O “meio-termo” ou a “moderação” é o pivô da
filosofia de Lucman, assim como o é da filosofia de
Aristóteles, e também do Islam. E isso flui, naturalmente,
de uma verdadeira compreensão da nossa relação com
Deus, com o Seu universo e com os nossos semelhantes,
especialmente o homem. Em todas as coisas, diz ele, sê
moderado. Não apertes o passo, e não sejas moroso ou
fiques estacionário. Não sejas falador, nem calado. Não
sejas espalhafatoso, nem tímido. Não sejas mui confiante,
nem te acovardes. Se tiveres paciência, ser-te-ão dadas
constância e determinação, para que bravamente
enfrentes as porfias da vida. Se tiveres humildade, isso
será para salvaguardar-te da indecorosa jactância, e não
para refrear-te o espírito correto, ou a determinação
racional.
1217. A tais homens falta conhecimento, uma vez que não
fazem uso dos seus intelectos, mas deixam-se levar por
suas paixões; falta-lhes diretriz, uma vez que são
impacientes e descontrolados; e os frutos da revelação ou
da introspeção espiritual não os alcançam, uma vez que
rejeitam a Fé e a Revelação.
1218. “Palavras de Deus”; Seus maravilhosos Sinais e
Mandamentos são infinitos, e não poderiam ser expressos,
mesmo que todas as árvores fossem transformadas em
lápis, e todos os oceanos, multiplicados por sete, fossem
transformados em tinta. Qualquer Livro da Sua Revelação
trataria de assuntos que o homem poderia entender, e usar
em sua vida; há mistérios sobre mistérios, que o homem
jamais poderá imaginar. Nem tampouco qualquer louvor
que pudéssemos escrever, com recursos infinitos, seria
adequado para descrevermos o Seu Poder, a Sua Glória e
Sabedoria.
1219. A grandiosidade e a infinitividade de Deus são tais,
que Ele pode criar não apenas toda uma massa, mas cada
alma individual, e pode-lhe seguir a história até ao Dia do
Juízo Final. Isto não apenas mostra a glória, a onisciência
e a onipotência de Deus; mostra também o valor de cada
alma individual aos Seus olhos, e eleva a responsabilidade
individual, quanto à relação com Ele.
1220. Comparar com o versículo 61 da 22ª Surata, e
respectiva nota. Mesmo que pudéssemos formar uma
concepção da infinitividade de Deus, pelos Seus tratos
com cada indivíduo da Sua criação, como no versículo 28
acima, isso seria ainda inadequado. Que é um indivíduo?
Que representa a sua relação com as Leis universais de
Deus? Na natureza exterior, nós podemos ver que não há
uma linha definida entre a noite e o dia; uma se mescla
com o outro. Todavia, o sol e a lua obedecem a leis
definidas. Embora eles pareçam eternos, saiba-se que a
sua duração e existência não são mais do que uma fração
de tempo no imenso universo de Deus. Quanto
amalgamação e imperceptível gradação há ainda no
mundo espiritual interior? Nossas próprias ações não
podem ser classificadas, etiquetadas e rotuladas, quando
examinadas em relação aos motivos e às circunstâncias.
No entanto, são um livro aberto para Deus.
1221. A questão do Conhecimento ou Mistério governa
ambas as cláusulas aqui, a saber: a chuva e os ventres.
De fato, governa as cinco coisas mencionadas neste
versículo (1) a hora; (2) a chuva; (3) o nascimento de uma
nova vida (ventres) ; (4) a nossa vida física do dia a dia; (5)
a nossa morte. Com respeito à chuva, é-nos pedido que
contemplemos como e quando ela cai. A umidade é
sugada pelo calor do sol no Mar Arábico, ou no Mar
Vermelho ou no Oceano Índico, perto da África Oriental, ou
na região lacustre, na África Central. Os ventos a levam
para aqui e para ali, por entre milhares de quilômetros, ou
pode ser que se trate de uma curta distância. “O vento
sobre onde quer”. Sem dúvida, ele obedece a certas Leis
físicas estabelecidas por Deus; mas veja-se como essas
Leis estão entrelaçadas, umas com as outras! A
meteorologia, a gravidade, a hidrostática e a dinâmica, a
climatologia, a higrometria, e uma dezena de outras
ciências e outros fenômenos são empregados, e ninguém
pode, completamente, ser senhor de todos eles; e,
contudo, isto se relaciona apenas a uma dos milhões de
facetas da natureza física, que são governadas pelo
Conhecimento e pela Lei de Deus. Todo o reino vegetal é
primordialmente afetado pela chuva. A menção do ventre
nos traz o mistério da vida animal, a embriologia, o sexo, e
um milhão de outras coisas. Quem pode dizer – tãosomente
no caso do homem – se a criança concebida é
menino ou menina, por quanto tempo permanecerá no
ventre, se nascerá viva, que espécie de indivíduo será –
uma bênção ou uma maldição par aos pais e, para a
sociedade?
1222. “Ganhar”, aqui, como em outros lugares, não apenas
significa “ganhar a vida”, no sentido material, mas também
colher as conseqüências (boas ou más) da conduta, de um
modo geral. A sentença inteira, praticamente significa:
“Ninguém sabe o que o amanhã lhe trará”.
1223. Ver a nota do versículo 1 da 2ª Surata.
1224. No templo do Profeta do Islam, os primeiros Livros
da Revelação haviam sido corrompidos pela ignorância,
fraude ou pelo egoísmo dos humanos, ou mal
interpretados, ou completamente perdidos. Havia seitas
que disputavam violentamente umas com as outras quanto
ao seu verdadeiro significado. Tais dúvidas teriam de ser
postas de lado, e foram postas de lado com a Revelação
do Alcorão. A inspiração alcorânica vinha diretamente de
Deus, o Senhor do Universo, e não consistia meramente
de conjecturas humanas, ou de uma filosofia reconstruída,
na qual sempre há lugar para dúvidas ou disputas.
1225. Seis dias: Esse “Dia” não é o dia como o
conhecemos, ou seja, uma volta aparente do sol em volta
da terra, pois refere-se a condições que começaram antes
de o sol e a terra serem criados.
1226. De que maneira poderia ser melhor inculcado em
nossas mentes o imenso mistério do tempo? O nosso dia
pode ter a duração de mil ou cinqüenta mil anos, e o nosso
ano, a mesma proporção. No remoto passado deu-se o ato
de Deus da criação; e ainda continua, pois Ele guia,
governa, e controla todos os assuntos; e, no imenso futuro,
todos os assuntos irão para Ele, pois Ele será o Juiz, e Sua
restauração de todos os valores durará um dia, ou uma
hora, ou um piscar de olhos; e isto, contudo, será , para a
nossa imaginação, o equivalente a mil anos!
1227. Pede-se ao homem que contemple o seu próprio
começo humilde. Seu corpo material (à parte da vida) é um
pedaço de terra ou barro, o que é um outro termo para a
matéria primeva. A matéria é, portanto, o primeiro estágio,
mas mesmo a matéria não se criou. Foi criada por Deus.
1228. Então vem a vida e a reprodução da vida. Estamos
ainda olhando para o aspecto puramente físico, mas agora
num estágio mais elevado; trata-se de um animal. Sua
reprodução se dá por meio do esperma ou sêmen, que é a
quinta-essência de todas as partes do corpo do homem.
No entanto, ele sai do mesmo lugar que a urina, e por isso
torna-se desprezível aos olhos do homem. Trata-se de
célula ou células vivas, a recapitularem muito da vida
histórica ancestral (comparar com o versículo 12 da 23ª
Surata, e respectiva nota).
1229. O terceiro estágio é indicado por “o modelou” nas
devidas proporções. Comparar com o versículo 29 da 15ª
Surata. Após a fecundação do óvulo pelo esperma, uma
vida individual passa a existir, e é gradativamente
modelada; seus membros são formados; sua vida animal
começa a funcionar; todas as magníficas adaptações
entram em atividade. O quarto estágio, aqui mencionado, é
o do Homem distinto, que é alentado com o Espírito de
Deus. Então ele se eleva acima dos animais.
1230. Como um homem completo, ele adquire faculdades
muito elevadas. Entendemos que os cinco sentidos
animais estejam incluídos no terceiro estágio. Mas é no
quarto estágio que ele se eleva, e é tratado na 2ª pessoa,
“tu”, em vez de o ser na 3ª, “ele”. Ele tem, então, a
contraparte espiritual da audição (a capacidade de ouvir a
Mensagem de Deus), da visão (visão interior), e dos
sentimentos dos nobres ideais do amor e da compreensão
quanto ao comportamento da vida interior (ambos
tipificados pelo coração). Todavia, com todas essas
dádivas, que agradecimento dá ao homem irregenerado ou
corrupto a Deus?
1231. Alusão feita ao livre-arbítrio.
1232. “Em adoração” (Sujudan), ou numa postura de
prostração, demonstrativa de profunda humildade e fé.
Esta é a palavra-chave da surata, que tem o nome de
Sajda. Todos os Sinais de Deus elevam os nossos
pensamentos até Ele; e sempre que eles são explanados,
a nossa atitude deverá ser de gratidão humilde para com
Deus. Nesta passagem é costumeiro curvarmo-nos em
adoração.
1233. Junub, literalmente os lados do corpo, sobre os
quais as pessoas dormem ou se viram, no seu sono.
Traduzimo-la por “corpos”, por brevidade. Os virtuosos e
as virtuosas procuram evitar as camas macias e
confortáveis, e o sono profundo e prolongado. Os lados
dos seus corpos estão melhor exercitados na devoção,
especialmente durante a noite.
1234. Um lar traz às nossas mentes um quadro de paz e
felicidade. Quando a ele são adicionadas honra e
hospitalidade, o quadro é ampliado para a idéia da
felicidade.
1235. A expressão “o Livro” não é, aqui, co-extensiva com
a Revelação. Moisés teve, revelada a ele, uma Lei, chariat,
que iria guiar o seu povo em todos os assuntos práticos da
vida. Jesus, após ele, foi também inspirado por Deus;
porém, seu Injil ou Evangelho continha apenas princípios
gerais, e não um Código ou chariat. O Profeta do Islam foi
o próximo a apresentar uma lei ou um “Livro” nesse
sentido; porque o Alcorão contém tanto um Código como
princípios gerais. Esta surata foi revelada em Makka. O
Código veio mais tarde, em Madina. Porém, foi assegurado
ao Profeta que ele teria, também, um Código, que
suplantaria a Lei anterior, e completaria a Revelação de
Deus.
1236. Quando ele chegar a ti; lika-i-hi. Os exegetas
diferem, quanto à construção do pronome hi, que pode
tanto ser traduzido por “seu” (neutro, de qualquer coisa),
como “dele” (pessoal). Nós o interpretamos como que se
refere a “o Livro”, uma vez que dá um significado mais
natural, como é explicado na nota anterior.
1237. A série de juizes, profetas e reis, em Israel,
continuava a proporcionar uma boa diretriz, de acordo com
a lei de Deus, desde que o povo continuasse na Fé e na
Constância (cultuando a paciência). Quando essa condição
cessou, a graça de Deus foi retirada, e o povo se dividiu
em seitas conflitantes, e praticamente sofreu uma
aniquilação de âmbito nacional.
1238. Ah, se as nações que se extraviam pudessem
aprender a sua lição com as nações anteriores, que foram
destruídas por causa dos seus males! Poderiam ver
vestígios, em seus vaivéns diários. Os judeus poderiam ver
vestígios dos filisteus, dos amalecitas etc., na Palestina, e
os árabes pagãos, vestígios dos povos de Ad e de Samud,
na Arábia.
1239. “Ouvem”; ouvir as admoestações evidenciadas pelos
Sinais de Deus. Note-se quão naturalmente a transição, do
material para o espiritual, é efetuada – dos vestígios
materiais das ruínas das nações ímpias desta terra, aos
mais intangíveis Sinais, evidenciados pela história e pela
Revelação. Aqui, o sentido da audição é mencionado, tanto
no seu aspecto material como no espiritual ou metafísico.
No versículo seguinte, o sentido da visão é mencionado,
nos dois aspectos.
1240. Novamente, como no versículo anterior, há uma fácil
transição do aspecto material para o espiritual. Na
natureza física pode haver solos esturricados que são
como que mortos para todos os propósitos. Deus envia a
chuva, e eis que o solo morto é convertido em solo vivente,
que produz ricas espigas de milho ou trigo, bagos e frutos,
para matarem a fome do homem e dos animais. Assim
acontece, também, no mundo espiritual. O homem morto é
revivificado pela graça e misericórdia de Deus, por
intermédio da Sua Revelação. Ele se torna útil, não apenas
para si próprio, mas também para os seus dependentes e
para os que estão ao seu redor.
1241. O versículo começa com “Não reparam?” (aua lam
yarau) – uma ação física. Termina com “Não vêem?” (afa la
yubsirun) – uma questão de discernimento espiritual.
1242. O quinto ano da Hégira foi um ano crítico na história
externa do começo do Islam, e esta surata deve ser lida à
luz dos eventos que então tiveram lugar. A grande
Confederação contra o Islam investiu contra Madina, e
fracassou fragorosamente. Ela consistia dos maquenses
incrédulos, beduínos da Arábia Central, dos judeus
anteriormente expulsos de Madina, por traição, e dos
hipócritas conduzidos por Abdulah Ibn Ubai, que já foram
descritos nos versículos 43-110 da 19ª Surata. Seu traço
de união era o ódio comum que nutriam pelo Islam, e esse
traço se rompeu sob os reveses que encontraram.
1243. “Dois corações no peito do homem”; duas atitudes
inconsistentes, ou seja, ele servir a Deus e a Mammon; ou
submeter-se tanto à Verdade como à Superstição; ou
pretender hipocritamente uma coisa e fazer outra. Tal coisa
é contrária à Lei e à Vontade de Deus. À parte da
condenação da hipocrisia generalizada, dois costumes
pagãos dos Tempos da Ignorância são mencionados, e
sua iniqüidade apontada. Nem tampouco o homem pode
amar duas mulheres com amor eqüitativo.
1244. Trata-se de um mau costume árabe, pelo qual o
marido egoisticamente privava a esposa de seus direitos
conjugais, e contudo a mantinha para si qual escrava, sem
que ela ficasse livre para se casar novamente. Ele dizia
palavras no sentido de que ela era como sua mãe. Após
isso, ela não poderia fazer valer os seus direitos conjugais,
mas não ficava livre do controle dele, para que pudesse
contrair novas núpcias. Ver também os versículos 1-5 da
58ª Surata, onde isso é condenado no mais veemente dos
termos, apontando para tanto o castigo. Um homem
algumas vezes dizia tais palavras num acesso de raiva;
elas não o afetavam, mas degradavam a posição da
mulher.
1245. Se um homem chamasse um filho de outro de “seu
filho”, isso poderia criar complicações entre relações
naturais e normais, se tomando mui literalmente. É
mostrado que se trata apenas de uma maneira de falar, da
parte dos homens, e não deve ser tomado ao pé da letra.
Verdade é verdade, e não pode ser alterada pelo fato de
os homens adotarem “filhos”. A “adoção”, no sentido
técnico, não é permitida pela Lei muçulmana. Aquelas que
foram “esposas de vossos filhos” estão entre os Graus
Proibidos de casamento (versículo 23 da 4ª Surata); mas
isso não se aplica aos filhos “adotados”.
1246. Os homens que eram libertados freqüentemente
levavam os nomes de seus amos – “filho de fulano”.
Quando eram escravos, talvez os nomes de seus pais
tivessem ficado completamente perdidos. É mais correto
falarmos deles como os Maula de fulano. Porém, Maula,
em árabe, também pode implicar uma relação íntima de
amizade; nesse caso, ainda é melhor o termo correto, em
vez do termo “filho”. “Irmão” não é objetável, porque a
palavra “irmandade” é usada num sentido mais amplo do
que “paternidade”, e está menos sujeita a mal-entendidos.
1247. O que se tem em mira é destruir a superstição de se
levantarem falsas relações, em detrimento ou perda das
verdadeiras relações consangüíneas. Não se tem intenção
de penalizar um desliza involuntário sobre o assunto,
mesmo no caso em que um homem trate outro por seu
filho ou pai, que não seja seu filho ou pai, por polidez ou
afeição.
1248. Com respeito à relação espiritual, o Profeta é tratado
com ais respeito e consideração do que nas relações
consangüíneas. Os fiéis devem segui-lo mais do que a
seus pais ou mães ou irmãos, quanto à questão dos
deveres. Ele está até mais perto – mais próximo de nossos
reais interesses – de nós do que nós mesmos. Em algumas
narrativas, como as de Ubai Ibn Kab, ocorrem ainda as
palavras “e ele é um pai para eles”, coisa que implica em
suas relações espirituais, e que se liga com as palavras “e
suas esposas são suas mães”.
1249. Esta surata estabelece a dignidade das esposas do
Profeta, que tinham uma missão e responsabilidade
especiais, como mães dos fiéis. Elas não iriam ser como
as mulheres comuns; elas haveriam de instruir as outras
mulheres em assuntos espirituais, visitar e assistir os
enfermos e desesperados, e fazer outras tarefas benignas,
em ajuda à missão do Profeta.
1250. Ninguém deve privar seus parentes consangüíneos
desses direitos de manutenção e de propriedade, como
eles talvez tivessem feito. A comunidade dos fiéis,
habitantes de Madina, e aqueles que haviam emigrado de
Makka para aquela cidade, tinham também seus direitos
mútuos, mas este não deveriam constituir-se numa
desculpa para o descaso em relação aos direitos
primordiais das relações naturais. Nos primeiros dias em
Madina , os Ânsar deveriam herdar dos Muhajrin, cujos
parentes naturais não haviam migrado; contudo, tal prática
não teve continuidade quando as relações normais foram
restabelecidas entre Makka e Madina.
1251. Neste versículo estão sumariados o começo e o fim
do esforço fatídico do sítio de Madina, no ano 5 da Hégira.
Havia a composição de uma Confederação de idólatras,
que chegara para destruir o Islam. Eles chegaram com
uma força compreendendo de dez a doze mil combatentes
– um exército jamais visto naquele tempo e naquele país. A
batalha ficou conhecida como a Batalha da Trincheira.
Após uma cerrada investida, que durou de duas a quatro
semanas, durante as quais o inimigo ficou desencorajado
devido aos sucessivos fracassos, houve uma dilacerante
rajada de vento frio, vinda do leste. Aquele foi um inverno
rigoroso, pois o mês de fevereiro pode ser um mês
muitíssimo frio em Madina, que fica a 750 m acima do nível
do mar. As tendas do inimigo foram rasgadas, suas
fogueiras apagadas e a areia e a chuva fustigaram-lhes os
rostos, e eles ficaram aterrorizados com os portentos que
se abatiam contra eles. Decidindo, entre si, empreender
uma retirada apressada, foram embora.
1252. A psicologia dos combatentes é descrita com vigor
incomparável, no texto sagrado. A investida do inimigo foi
realmente tremenda. A trincheira, ao redor de Madina,
encontrava-se entre os defensores e a enorme força
atacante, com uma elevação atrás: quando apareciam,
através do vale ou por sobre a trincheira, parecia que
vinham de baixo. As chuvas de flechas e pedras, de ambos
os lados, pareciam também vir do ar.
1253. Antes do ataque a Madina, naquele ano, os
muçulmanos haviam alcançado, com sucesso, a fronteira
com a Síria, pelo norte, e havia esperanças de alcançarem
o Iêmen, pelo sul. O Profeta do Islam via sinais claros de
vitória para os muçulmanos. Na ocasião em que eles se
encontravam fechados na trincheira, e na defensiva, os
hipócritas os escarneciam, por se terem deixado levar por
esperanças enganosas. Porém, os eventos encarregaramse
de mostrar que as esperanças não eram enganosas.
Elas estaria realizadas, além da expectativa, em poucos
anos.
1254. Que passou a se chamar Madinat An-Nabi, ou
simplesmente Madina.
1255. Todos os combatentes de Madina haviam saído da
cidade e acampado nos espaços abertos, ente a cidade e
a trincheira que havia sido cavada ao redor da mesma. Os
inamistosos hipócritas, dentre os fiéis passaram a semear
rumores derrotistas, e fizeram de conta que se retiravam
em defesa de seus lares, embora estes não estivessem
expostos, e foram totalmente cobertos pela vigilante força
defensiva que se encontrava dentro da trincheira.
1256. O ímpeto da luta estava no lado norte, mas toda a
trincheira estava guardada. Em um ou dois pontos os
guerreiros inimigos apresentaram investidas no circuito da
trincheira, mas foram logo dispersados. Ali distinguiu-se
particularmente em muitos combates, usando a própria
espada e armadura do Profeta. Caso alguém do inimigo
fosse capaz de penetrar na cidade, o elemento surpresa –
o que apenas estava sentado no parapeito -, levantar-se-ia
de pronto contra os muçulmanos – sem nenhuma delonga,
exceto a que era necessária para se equipar da armadura
e das armas.
1257. Aparentemente, após a batalha de Uhud, certos
homens que haviam mostrado covardia, foram perdoados
sob a condição de se comportarem melhor da próxima vez.
Uma promessa solene, feita ao Mensageiro de Deus,
representa uma promessa a Deus, e não pode ser
quebrava impunemente.
1258. Na luta pela Verdade houve (e há) muitos que
sacrificaram tudo – recursos, conhecimento, influência, a
própria vida – pela causa, e jamais titubearam. Tal foi o
caso de Saad Ibn Moaz, o chefe da tribo Aus, o portaestandarte
do Islam, que morreu vítima de um ferimento
que recebeu na Batalha da Trincheira. Outros heróis
lutaram valentemente e viveram, sempre prontos a dar as
suas vidas pela causa. Ambas as classes foram
constantes: jamais mudaram ou vacilaram.
1259. A despeito das intensivas preparações e das
grandes forças com que os maquenses – em harmonia com
os beduínos da Arábia Central, com os judeus
descontentes, e com os traiçoeiros hipócritas – sitiaram
Madina, todos os seus planos se frustraram. Sua fúria de
nada lhes valeu. Fugiram, com acalorada pressa. Esse foi
o seu último e mortífero esforço. A iniciativa, depois
daquilo, estava com as forças do Islam.
1260. Isto é com referência à tribo judaica dos Banu
Curaiza. Eles contavam-se entre os cidadãos de Madina e
estavam obrigados, por solenes promessas, a ajudar na
defesa da cidade. Porém, na ocasião do sítio confederado,
feito pelos coraixitas e seus aliados, eles se congraçaram
com os inimigos, e traiçoeiramente os ajudaram.
Imediatamente após o sítio terminar, e os confederados
fugirem com calorosa pressa, o Profeta voltou a sua
atenção para aqueles “amigos” traidores, que haviam
traído a sua cidade, na hora do perigo.
1261. Os Banu Curaiza ficaram aterrorizados quando a
cidade de Madina ficou livre do perito coraixita. Eles se
enclausuraram em seus castelos, cerca de 4 ou 5 km a
leste de Madina, e agüentaram um cerco, que durou 25
dias, após o que se renderam, estipulando que se
entregariam, pela decisão de seu destino, mas mãos de
Saad Ibn Moaz, chefe da tribo Aus, com o qual haviam
estado em aliança. Saad julgou segundo o que está
descrito na Lei Judaica: “O Senhor, teu Deus, a dará na
tua mão; e todo o macho que houver nela passarás ao fio
da espada, salvo somente as mulheres, e as crianças, e os
animais; e tudo o que houver na cidade, todos os seus
despojos, tomarás para ti; e comerás os despojos dos teus
inimigos os que te deu a Senhor teu Deus” (Deuteronômio
20:13-14). Os homens Curaiza foram executados, mas
mulheres foram vendidas como cativas de guerra, e suas
terras e propriedades foram divididas entre os Muhajirin.
1262. Chegamos, agora, ao assunto da posição dos
Consortes da Pureza, azuaj mutahharat, ou seja, das
esposas do Profeta do Islam. O único casamento jovem do
Profeta do Islam foi o seu primeiro, com Khadija. Ele a
desposou 15 anos antes de receber a revelação; a vida
matrimonial deles durou 25 anos, e sua devoção mútua foi
a mais nobre, a julgar tanto pelos padrões espirituais,
como pelos sociais. Durante a vida dela, ele não teve
nenhuma outra esposa, coisa que era incomum para um
homem de suas condições, entre o seu povo. Quando ela
morreu, a idade dele era de 50 anos; se não fosse por
duas considerações, ele provavelmente jamais teria se
casado novamente. As duas considerações que
propiciaram os seus casamentos posteriores fora: (1)
compaixão e clemência, como querendo amenizar o
sofrimento das viúvas que, doutra sorte não se poderiam
manter em qualquer outro estágio da sociedade; algumas
delas, como Sauda, tinham rebentos de seus anteriores
matrimônios, rebentos esses que se requeriam proteção;
(2) a ajuda delas quanto ao seu dever de liderança junto às
mulheres, que deveriam ser instruídas e conservadas
unidas na imensa família muçulmana, onde homens e
mulheres tinham direitos sociais similares. Aicha, filha de
Abu Bakr, era inteligente e culta, sendo que nos Hadisses
constitui uma importante autoridade sobre a vida do
Profeta. Zainab, filha de Cuzaima, era especialmente
devotada aos pobres; era denominada “a Mãe dos
Pobres”. A outra Zainab, filha essa de Jahch, também
trabalhava junto aos pobres, aos quais ensinava os
segredos de seu trabalho manual, pois era perita em
trabalhar o couro.
1263. Uma comprovada má conduta; isto é, por oposição
aos falsos mexericos dos inimigos. Tais mexericos não
deveriam contar, mas se qualquer uma delas se
comportasse de maneira imprópria, as suas más ações
contar-se-iam como ofensas piores do que no caso das
mulheres comuns, por causa da sua posição especial.
Certamente, nenhuma delas foi, na mínima coisa, culpada.
1264. A punição, nesta vida, para a falta de castidade de
uma mulher casa é muito severa: para adultério,
açoitamento em público de cem açoites, segundo o
versículo 2 da 24ª Surata; ou para impudícia, a prisão (ver
o versículo 15 da 4ª Surata); ou o apedrejamento até à
morte, para o adultério, de acordo com certos precedentes
estabelecidos no Direto Canônico. Porém, a questão, aqui,
não versa sobre esta espécie de punição ou aquela
espécie de ofensa. Mesmo as melhores indiscrições, como
nos casos das mulheres que deveriam constituir-se em
padrões de decoro, seriam passíveis de repreensão; e a
punição, na Vida Futura, é, num plano mais elevado, coisa
que podemos dificilmente compreender. Porém, Deus pode
apreciar cada indício de intenção em nós. Então, o mais e
o menos são possíveis, não o podendo ser na rudimentar
lei que administramos aqui.
1265. Isto constitui o núcleo da passagem inteira. As
Consortes do Profeta não eram como as mulheres
comuns, nem tampouco seus matrimônios foram
matrimônios comuns, nos quais apenas as considerações
sociais e pessoais contavam. Elas tinham uma posição
especial e responsabilidades especiais, no sentido de
guiarem e instruírem as mulheres que entravam para as
fileiras do Islam. O Islam têm espaço tanto quanto os
homens, e a instrução íntima delas obviamente tem de ser
feita por meio de outras mulheres.
1266. Conquanto elas tivessem de ser bondosas e gentis
com todos, tinham d ser protegidas, por causa de sua
posição especial, senão a gente grosseira poderia
interpretá-las mal e tirar vantagem da bondade delas. Elas
não deveriam proporcionar espetaculosidades mundanas
vulgares, como nos tempos da idolatria.
1267. Um número de virtudes muçulmanas é aqui
especificado, mas a ênfase principal é dada ao fato de que
essas virtudes são necessárias tanto à mulher como ao
homem. Ambos os sexos têm direitos e deveres espirituais
e humanos em igual grau, e a “recompensa” da Vida
Futura, ou seja, a Bênção Espiritual, é proporcionada tanto
para uma, como para o outro.
1268. As virtudes a que se refere o versículo, são: (1) fé,
esperança e confiança em Deus e em Seu benevolente
governo do mundo; (2) devoção e prestação de serviços,
quanto à vida prática; (3) amor à verdade e prática da
mesma, em pensamento, intenção, palavra e ação; (4)
paciência e constância, no sofrimento e na porfia; (5)
humildade e esquivança, quanto a uma atitude de
arrogância e superioridade; (6) caridade, isto é, ajudar os
pobres e desafortunados, uma virtude que advém do dever
geral de prestação de serviço; (7) moderação, não só na
alimentação, mas também em todos os apetites; (8)
castidade, pureza na vida sexual, pureza de intenção, de
pensamento, de palavra e de ação; e (9) atenção
constante à Mensagem de Deus, e o cultivo do desejo da
estada cada vez mais perto d’Ele.
1269. Este era Zaid, filho de Hariça, um dos primeiros a
aceitarem a fé do Islam. Ele foi libertado pelo Profeta, que
o amava como a um filho e lhe deu, em casamento, a sua
própria prima, Zainab. O matrimônio, contudo, foi infeliz.
1270. O casamento de Zaid com a prima do Profeta,
Zainab, filha de Jahch, foi celebrado em Makka, oito anos
antes da Hégira, mas tornou-se um casamento infeliz.
Zainab, bem nascida, olhava com altivez para Zaid, o
liberto, que havia sido escravo. E ele tampouco era
agradável de se olhar. Ambos eram gente boa à sua
maneira, e ambos amavam o Profeta, mas havia
incompatibilidade de gênio, e isso é fatal para a vida
conjugal. Zaid queria divorciar-se dela, mas o Profeta
pediu-lhe que se contivesse, e ele obedeceu. Ela era
intimamente relacionada com o Profeta; ele lhe havia dado
um lindo presente de casamento, em seu matrimônio com
Zaid. O povo certamente começaria a falar, se tal
casamento fosse desfeito, e a reputação do pobre Zaid
ficaria arruinada. Esse era o temor, na mente do Profeta.
Porém, casamentos são feitos na terra, não no céu, e não
faz parte do Plano de Deus torturar as pessoas com um
laço que deveria constituir a fonte da felicidade, mas
virtualmente constitui a fonte da miséria. O desejo de Zaid –
aliás, o desejo mútuo do casal – foi por algum tempo posto
de lado, mas tornou-se finalmente um fato estabelecido, do
qual todos chegaram a saber.
1271. Quando um casamento é infeliz, o Islam permite e
espera que o laço seja dissolvido, contanto que todos os
interesses concernentes a ele sejam salvaguardados.
Aparentemente não havia herdeiros, então, a serem
considerados. Zainab viu realizado o mais caro desejo de
seu coração, ao ser elevada à condição de Mãe dos Fiéis –
com toda a dignidade e responsabilidade dessa posição.
1272. O Iddat, ou o período de espera após o divórcio
(versículo 228 da 2ª Surata, e respectiva nota) foi
devidamente completado.
1273. A superstição e o tabu idólatras sobre os filhos
adotivos tinham de ser destruídos (ver os versículos 4-5
desta Surata).
1274. A cláusula seguinte é parentética. Estas palavras,
então, ligam-se com o versículo 39. Entre os adeptos do
Livro não havia tabu algum sobre os filhos adotivos, como
havia na Arábia pagã.
1275. O Profeta foi enviado por Deus com cinco injunções.
Três delas são mencionadas neste versículo, e as outras
duas no versículo seguinte: (1) ele veio a todos os homens
como testemunha de todas as verdades espirituais que
haviam sido obscurecidas pela ignorância ou superstição,
ou pela poeira da controvérsia sectária. Ele não veio para
estabelecer uma nova religião ou seita; veio, outrossim,
ensinar a Religião. É também testemunha, junto a Deus,
dos feitos dos homens, e de como eles recebem a
Mensagem de Deus; (2) veio como portador de BoasNovas
da Misericórdia de Deus. Não importando o quanto
os homens tenham transgredido, eles poderão ter
esperança se acreditarem, se arrependerem, e levarem
uma vida pura; (3) veio como admoestador, para os que
estão desatentos.
1276. Ver a nota do versículo 228 da 2ª Surata. O Iddat
contra por três menstruações, ou, se não houver
menstruações, por três meses.
1277. Este presente é considerado por alguns um
acréscimo à metade do dote que lhes é devido,
especificado no versículo 237 da 2ª Surata.
1278. O presente deve ser dado de coração, e a liberdade
da mulher não deve de maneira alguma ser prejudicada.
Se ela escolher casar-se outra vez, e imediatamente,
nenhum obstáculo deverá ser posto em seu caminho. Sob
nenhum pretexto deverá ser permitido que ela tenha
dúvida quanto à sua liberdade.
1279. Isto introduz uma nova isenção ou um novo
privilégio,. Os versículos 50-52 meramente declaram os
pontos nos quais os casamentos do Profeta, por causa das
circunstâncias especiais (ver nota 1262, atrás), diferiam do
dos muçulmanos comuns. Isto é considerado sob quatro
tópicos, os quais examinaremos nas quatro notas que se
seguem.
1280. Tópico 1. Casamento com dote (versículo 4 da 4ª
Surata) – este é o casamento universal muçulmano. A
diferença, no caso do Profeta, era que não havia a
limitação de quatro esposas (versículo 3 da 4ª Surata), e
que as mulheres do povo do Livro não se contavam entre
suas esposas, mas tão-somente as fiéis. Esses pontos não
são expressamente mencionados aqui, mas são inferidos
pela prática. Obviamente, as mulheres que se esperava
devessem instruir outras mulheres tinham de ser
muçulmanas.
1281. Tópico 2. Prisioneiras de Guerra. O ponto não vem
ao caso agora, uma vez que todos os incidentes e as
condições de guerra foram alterados, e a escravidão foi
abolida, por meio de acordos internacionais.
1282. Tópico 3. Trata-se de primas em primeiro grau, que
não estão entre os Graus Proibitivos de Casamento (ver os
versículos 23-24 da 4ª Surata). Estas encontram-se
especialmente mencionadas aqui, por causa da limitação.
Nenhuma delas poderia casar-se com o Profeta, a menos
que tivesse realizado a Hégira com ele. Se ela não a
tivesse realizado, a despeito de suas relações íntimas, não
poderia ser creditada com grande fervor pelo Islam, ou ser
considerada qualificada para instruir as outras mulheres do
Islam.
1283. Tópico 4. Uma fiel que se dedica ao Profeta – isto é
restringido pela contingência de que o Profeta o considera
um adequado e apropriado caso de verdadeiro serviço à
comunidade, e não meramente uma excentricidade
sentimental de mulher. Alguns exegetas acham que não
houve tal caso. Outros, porém, com os quais nós
concordamos, acham que isto se aplica a Zainab Bint
Khuzaima, que se havia dedicado aos pobres, e era
denominada Mãe dos Pobres (Umm-ul-masákin).
Similarmente, este último tópico talvez se refira a Zainab
Bint Jahch, que era filha da tia paterna do Profeta, ela
mesma filha de Abdul Mutalib.
1284. A lei comum do casamento, entre os muçulmanos,
será encontrada principalmente nos versículos 221-235 da
2ª Surata, 3-4 da 4ª Surata, 34-35 da 4ª Surata, 6 da 5ª
Surata.
1285. O casamento é uma relação importante, não apenas
para a nossa vida material, mas também para a nossa vida
moral e espiritual, sendo que seus efeitos se estendem não
somente às próprias partes, mas ainda aos filhos e às
gerações futuras. Um grande número de problemas é
levantado, de acordo com circunstâncias especiais. Todo
homem e toda mulher deve considerar seriamente os lados
da questão, e ambos devem fazer o que puderem para
temperarem os instintos e as inclinações, com sabedoria e
com a diretriz de Deus. Deus deseja tornar fácil o caminho
de todos, pois Ele é deveras “Indulgente,
Misericordiosíssimo”.
1286. No versículo 3 da 4ª Surata, fica estabelecido que
mais de uma esposa não é permissível, “…se temerdes
não poder se eqüitativos para com elas…” No lar
muçulmano não há lugar para uma “esposa favorita”. Nas
circunstâncias especiais do Profeta havia mais de uma,
sendo que ele costumeiramente observava a norma de
eqüidade para com elas, tanto nas demais coisas como na
rotatividade dos direitos conjugais. Todavia, considerandose
o fato de que seus casamentos, depois que ele foi
investido da missão profética, eram ditados por razões
outras que não as considerações conjugais ou pessoais
(ver a nota do versículo 28 desta surata), a rotatividade
não poder ser sempre observada, embora ele o fizesse na
medida do possível. Este versículo isenta da absoluta
aderência da rotatividade fixa. Há outras interpretações,
mas nós concordamos com a maioria dos exegetas, em
vista do que temos explicado.
1287. Refrescar os olhos: uma expressão idiomática árabe,
que quer dizer pôr ânimo e conforto nos olhos que anseiam
por ver aqueles que amam. Não havia muito, no tocante a
satisfações bens e terrenos, que o Profeta lhes pudesse
dar (ver o versículo 28, atrás). Contudo, ele era bondoso,
justo e veraz – o melhor dos homens para a sua família, e
todos se apegavam a ele.
1288. Isto foi revelado no ano 7 da Hégira. Depois disso o
Profeta não mais se casou, a não ser pela aceitação de
Maria, a Copta, que lhe foi dada como presente, pelo
cristão Mucaucas, do Egito. Ela se tornou a mãe de
Ibrahim, que morreu na infância.
1289. As normas das refinadas éticas sociais devem
igualmente ser alcançadas hoje, como o eram pelos rudes
árabes, aos quais o Profeta foi enviado para ensinar, em
seus dias. As normas mencionadas neste versículo podem
ser recapituladas, deste modo: (1) não entreis na casa de
um amigo sem permissão; (2) se fordes convidados para
jantar, não deveis ir muito cedo – fostes convidados para o
jantar, não para o preparo da comida; (3) estai lá presentes
na hora apontada, para que entreis na casa na hora quem
que sereis esperados; (4) após a refeição, não entreis em
familiaridades com o anfitrião, especialmente se houver
uma grande distância entre ele e vós; (5) não desperdiceis
tempo com vãs tagarelices, que causam inconveniência e
talvez aborrecimento ao anfitrião; (6) compreendei qual é o
comportamento adequado a vós; pode ocorrer que o
anfitrião seja mui delicado, para vos pedir que saiais. Tudo
isto tem um aspecto tanto espiritual como social; o respeito
e a consideração, para com os outros, estão entre as mais
elevadas virtudes.
1290. Isto se reporta à parte do Hijab (véu) do versículo 53,
acima. A lista daqueles perante os quais as esposas do
Profeta poderiam informalmente aparecer, sem véu,
consistia de: seus pais, seus filhos, seus irmãos, seus
sobrinhos, suas criadas e seus servos domésticos. Os
exegetas incluem os tios (paternos e maternos), sob a
denominação de “pais”. “Suas mulheres” é tido como
sendo todas as mulheres que pertencem à comunidade
muçulmana.
1291. Comparar com o versículo 112 da 4ª Surata.
Naquela passagem é-nos dito que todo o culpado que
acusar pessoas inocentes da culpa dele estará obviamente
colocando-se numa posição de duplo risco; primeiramente,
por causa da própria e original culpa e, segundo, por causa
da culpa de falsa acusação. Aqui, nós temos duas
espécies de homens, em vez de dois indivíduos. Os
homens e as mulheres de fé, fazendo o que podem para
servir a deus e à Humanidade. Se eles forem insulados,
injuriados ou aborrecidos, por aqueles que cujos próprios
pecados deles culpam, estes sofrerão as penalidades de
uma dupla culpa: seus próprios pecados, mais os insultos
ou as injúrias que cometem contra aqueles que tentam
corrigi-los. Ao invés de se ressentirem com a pregação da
Verdade, deveriam recebê-la bem e tirar proveito dela.
1292. Isto é para todas as muçulmanas, tanto para aquelas
do lar do Profeta, como para as outras. Os tempos eram de
insegurança (ver o versículo seguinte), por isso era-lhes
pedido que se cobrissem com roupagem exterior, quando
saíssem. Jamais foi adotado o ponto de vista de que elas
deveriam ficar confinadas em suas casas, como
prisioneiras.
1293. Jilbab, plural jalabib; uma roupagem exterior, uma
longa toga, que cobria todo o corpo, ou um capote que
cobria o pescoço e o busto.
1294. O objetivo não era restringir a liberdade das
mulheres, mas sim protegê-las dos danos e dos
molestamentos que propiciavam as condições então
existentes em Madina. Tanto no Oriente como no Ocidente
uma roupa conspícua, para se usar em público, de uma
forma ou de outra, sempre tem sido uma marca de
distinção, tanto entre os homens como entre as mulheres.
Isto pode ser constatado, mesmo quando nos reportamos
as civilizações mais antigas.
1295. A Lei Judaica era muito mais severa (ver as notas do
versículo 26 desta surata). Essa severidade é abrandada
no Islam. Contudo, constitui um princípio universal o fato
de que qualquer elemento que deliberadamente se recusa
a obedecer à lei e, de modo agressivo, secreta e
abertamente tenta subverter a ordem na sociedade, deve
ser efetivamente suprimido, para a preservação da vida e
do bem-estar geral da comunidade.
1296. O povo de Moisés freqüentes vezes o vexou, e se
rebelou contra ele e contra a Lei de Deus. Aqui, a
referência parece ser a Números 12:1-13. É dito, aí, que a
irmã de Moisés, Miriam, e seu irmão, Aarão, falavam
contra Moisés, porque este se casou com uma etíope.
Deus isentou Moisés da acusação de ter feito algo errado:
“Meu servo, Moisés, não é desse feitio, e, além do mais, é
fiél em toda a Minha Casa”. Miriam contraiu lepra por sete
dias, como castigo, depois do que foi perdoada, assim
acontecendo também com Aarão. Este é a história do
Antigo Testamento. O Profeta do Islam foi também atacado
por casa do seu casamento com Zainab Bint Jahch, mas
não em seu próprio círculo; suas intenções eram as mais
nobres; e foram completamente vindicadas, como vimos
anteriormente.
1297. Qual é o significado da oferta do encargo aos céus,
à terra e às montanhas? Isso é mencionado para que tais
parábolas ajudem os homens a refletir. Podemos, portanto,
tomar as montanhas, a Terra e os Céus como simbólicos.
As montanhas significam firmeza e estabilidade; elas foram
criadas para essa finalidade; e permanecem sempre fiéis a
ela. Um terremoto ou um vulcão tem a ver com os
movimentos dentro da crosta terrestre, mas nada tem a ver
com a “vontade” da montanha. Com efeito, ela não possui
livre-arbítrio de espécie alguma; não há a questão da
confiança, aqui. Se tomarmos a terra como um todo, como
parte do sistema solar ou um extrato da natureza terrestre,
veremos que ela obedece às leis fixas de Deus, e não há a
questão de vontade ou confiança. Se tomarmos os céus,
tanto como o espaço abobadado, ou como um simbolismo
dos anjos, veremos que eles obedecem absolutamente à
Vontade e à Lei de Deus; não têm vontade própria.
1298. Os céus, a terra e as montanhas, outras criaturas de
Deus além do homem, recusaram-se a tomar o encargo ou
responsabilidade, e poderiam ter-se dado felizes, por a
imputação do bem e do mal que lhes foi dada por meio de
sua vontade. Ao dizer que eles recusaram, nós lhes
imputamos uma vontade; porém a limitamos, pela
afirmação de que eles não tomaram o encargo de lhes ser
dada uma chance entre o bem e o mal. Eles preferiram
submeter a sua vontade inteiramente à Vontade de Deus,
o Qual é Onisciente e Perfeito, e lhes dá felicidade bem
maior do que a faculdade de escolha, com seu imperfeito
conhecimento. O homem foi muito audacioso e ignorante
para se conscientizar disto, e o resultado foi que o homem,
como raça, tem estado separado; os malignos têm traído a
confiança e trazido o castigo para si mesmos, ao passo
que o bom tem sido capaz de se elevar bem acima da
Criação, para se tornar o próximo de Deus. Segue-se disto,
incidentalmente, que os céus e a terra foram criados antes
do homem, sendo que isso está de acordo com o que
conhecemos do mundo material, na ciência: o homem
entrou em cena num estágio comparativamente recente.
1299. Aqueles que permanecem firmes em sua fé e
cumprem com seus pactos receberão o auxílio da Graça
de Deus; suas faltas e fraquezas serão curadas; e serão
dignos de seu exaltado destino, porque Deus é Indulgente,
Misericordiosíssimo.
1300. A declaração do louvor a Deus tem um significado
um tanto místico. Toda a Criação declara os seus louvores,
isto é, manifesta a Misericórdia, o Poder, a Benevolência e
a Verdade d’Ele – todos os sublimes atributo estão
sumariados nos Seus Magníficos Nome (ver os versículos
180 da 7ª Surata e 110 da 17ª Surata, e respectivas
notas). Para o homem, contemplá-los, por si só já constitui
uma revelação. Esta atitude mental dá abertura a cinco
Suratas do Alcorão, igualmente distintas, a saber, a 1ª, 6ª,
18ª, 34ª, 35ª Suratas. Aqui, o ponto mais bem posto em
destaque é que a Sua sapiência e misericórdia, que
compreendem todas as coisas, avaliadas no tempo e no
espaço – aqui, em todo lugar, agora e sempre.
1301. Um ignorante talvez pense que a água absorvida
pelo solo ou que a semente semeada sob um torrão está
perdida; contudo, a água forma incontáveis córregos e
regatos, e alimente e sustenta um sem-número de raízes e
de formas de vida, e faz com que surjam todas as espécies
de vida vegetal. Assim acontece com as coisas que saem
da terra: quem pode contar as miríades de formas de ervas
e de árvores, que crescem e perecem, e, contudo,
sustentam uma vida contínua, por eras e eras? Todavia,
isto constitui simbolismo de outras coisas ou entidades que
estão além do tempo e espaço, e além da forma material.
Nós vemos o nascimento e a morte da parte animal do
homem: quando ele está sepultado sob o solo, os
ignorantes talvez pensem que é o fim dele. Porém, que
incontáveis estágios ainda jazem à frente dele, quanto à
vida interior e espiritual? E assim acontece com as formas
platônicas das coisas: benevolência, virtude, misericórdia e
as várias funções da alma. Estas jamais se perdem, mas
elevam-se a Deus.
1302. O ferro, ou o aço é um material duro; no entanto, nas
mãos de um artífice, se torna mole e maleável, sendo que
com ele podem ser feitos instrumentos para a defesa da
virtude. Estes, no sentido lato, são as cotas de malha e
armaduras defensivas; e a confecção delas é
tradicionalmente atribuída a Davi. Porém, para a guerra,
tanto no mundo material como no mundo espiritual, a
armadura é necessária, sendo que ela pode ser feita de
alguns dos mais duros materiais da vida.
1303. No Antigo Testamento, Crônicas – II, Capítulos 3 e 4
-, estão descritos os vários materiais custosos, com os
quais o Templo de Salomão foi erigido, sendo que foi
ornado com vasos, candelabros, candeias, turíbulos etc..
“E fez Salomão todos estes vasos em grande quantidade,
porque o peso do cobre não podia ser encontrado
(Crônicas – II, 4:18).
1304. Mahráb (plural Máharib); traduzido por “arco”, pode
ser aplicado a qualquer estrutura arquitetônica fina,
elevada e espaçosa. Como a referência aqui é ao Templo
de Salomão, achamos que a palavra “arcos” fosse a mais
apropriada. “Arcos” seriam os ornamentos estruturais do
Templo. E as estátuas seriam como as imagens de bois e
de querubins, mencionadas em Crônicas – II 4:3 e 3:14; as
vasilhas (Crônicas – II 4:22) eram, talvez, os grandes
pratos redondos, em torno dos quais os homens podiam
sentar-se e comer, de acordo com um antigo costume
oriental, enquanto as caldeiras ou potes (Crônicas – II 4:16)
estavam fixadas num só lugar, sendo de capacidade tal,
que não podiam ser removidas facilmente.
1305. A construção do templo constitui um grande evento
para a história israelita. O lema aqui fornecido é
“Trabalha!”, porque somente assim poder-se-ia justificar a
manutenção do Reino de Davi, que alcançou o seu fastígio
sob o governo de Salomão. Sem trabalho, tanto literal
como figurativamente, para os “efeitos virtuosos”, todo
aquele poder e toda aquela glória estariam fora de lugar,
desapareceriam em poucas geração, juntamente com o
declínio do espírito moral que estava por trás daquilo tudo.
1306. Este é o mesmo território e a mesma cidade, no
Iêmen, mencionado no versículo 22 da 27ª Surata; ver a
nota, aí, quanto à localização. Lá, o período foi o tempo de
Salomão e da Rainha Bilquis. Aqui, trata-se de alguns
séculos mais tarde. Era ainda um país próspero e feliz,
amplamente irrigado pela represa de Marib. Suas estradas,
e talvez os seus canais, eram marginados por jardins, de
ambos os lados; em qualquer ponto dado, viam-se sempre
dois jardins. O país produzia frutas, especiarias e olíbanos.
1307. Naquele feliz Jardim do Éden, que era a Arábia
Feliz, entrou a insidiosa serpente da Descrença e da
Injustiça. Talvez o povo se tornasse arrogante por causa
da sua prosperidade, ou da sua ciência, ou da sua
habilidade quanto à engenharia de irrigação, ou por causa
das magníficas obras da barragem que seus antepassados
construíram. Talvez se tivessem dividido em ricos e
pobres, privilegiados e destituídos, gente fina e gente
ínfima desconsiderando as dádivas, e fechando a porta às
oportunidades, dadas por Deus, e todas as suas criaturas.
Talvez tivessem desrespeitado as leis da própria natureza
que os alimentava e sustentava. Então veio a Nêmesis;
talvez viesse repentinamente, talvez vagarosamente. As
águas contidas no lado oriental do planalto do Iêmen foram
coletadas e confinadas pela Barragem de Maarib. Uma
grande enchente aconteceu e a represa arrebentou e
desde então nunca mais foi consertada. Essa foi uma
colossal calamidade; isso talvez tenha sido precedido de e
seguido por uma lenta seca no país.
1308. “Arim” (diques ou barragens) talvez tenha sido um
substantivo próprio, ou talvez simplesmente signifique o
grande trabalho de argila e pedras que formou a represa
de Maarib, da qual traços ainda existem. O viajante francês
T.J. Arnaud, em 1843, viu a cidade e as ruínas da
Barragem de Maarib, e descreveu as obras gigantescas da
barragem e das suas inscrições. A barragem, aquilatada
por Arnaud, tinha 3 km e meio de comprimento e 36 m de
altura. A data de sua destruição está estimada por volta do
ano 120 d.C.
1309. o florescente “Jardim da Arábia” transformou-se num
deserto. As exuberantes árvores frutíferas tornaram-se
selváticas, ou cederam lugar a plantas selvagens de frutos
amargos. As tamargueiras, levemente folhadas, que
servem apenas para fazer varas e trabalhos de estaca,
tomaram o lugar das plantas e flores fragrantes. Espécies
raquíticas e agrestes de arbustos espinhentos, como o loto
silvestre, que não serviam para dar frutos nem fazer
sombra, cresciam, em lugar das romãzeiras, das
tamareiras e dos vinhedos. O loto pertence à família
Rhammacea Zizyphus Spina Christi, da qual (é suposto) a
coroa de espinhos de Cristo foi feita. Agreste, ele é
arbustiforme, espinhento e inútil; cultivado, produz bons
frutos, alguma sombra, e pode ficar sem espinhos,
tornando-se desse modo um símbolo da bênção celestial
(versículo 28 da 56ª Surata).
1310. Um exemplo agora é dado da espécie de cobiça da
parte do povo de Sabá, que arruinou a sua prosperidade e
o seu comércio, e cortou as suas próprias gargantas. A
velha rota do incenso era a grande Estrada (sabil muquim –
76 da 15ª Surata) entre a Arábia e a Síria. Através da Síria
ela se comunicava aos grandes e florescentes reinos dos
vales do Eufrates e do Tigre, de um lado, e ao Egito de
outro, e ao grande Império Romano, em torno do
Mediterrâneo. No outro extremo, através da costa do
Iêmen, a estrada se comunicava, por transporte marítimo,
com a Índia, Malásia e China. A estrada Iêmen-Síria era
muitíssimo movimentada, e Madain Salih era uma das
estações da rota, depois na rota dos peregrinos. A Síria
era a terra na qual Deus “derramara as Suas bênçãos”,
pois era um país rico e fértil, onde Abraão vivera; inclui a
Terra Santa da Palestina.
1311. Há seis proposições, aqui introduzidas pela palavra
“Dize”, nos versículos 22, 24, 25, 26, 27, e 30. Elas
claramente explicam a doutrina da Unidade (versículo 22),
da Misericórdia de Deus (versículo 24), da
Responsabilidade Pessoal do homem (versículo 25), da
Justiça Final (versículo 26), do Poder e da Sabedoria de
Deus (versículo 27) e da Inevitabilidade do Julgamento,
pelo qual os verdadeiros valores serão restabelecidos
(versículo 30).
1312. Para os idólatras todas as escrituras constituem
tabus, quer se trate do Alcorão ou de qualquer Revelação
que veio antes dele. O povo do Livro desprezava os
idólatras; porém, na sua arrogante presunção de
superioridade, não permitia, por seu exemplo, que fosse
aceita a derradeira e universalíssima Escritura que veio na
forma de Alcorão. Esta posição de homens que se jactam
do seu conhecimento, e dos homens que eles espezinham,
exploram e desviam, sempre existiu na terra.
Mencionamos o povo do Livro e os árabes pagãos, por
questão de mera ilustração.
1313. Trata-se dos mais inteligentes, que exploram os
mais fracos, e estão constantemente maquinando, noite e
dia, no sentido de manter os últimos ignorantes, sob o seu
jugo. Os primeiros que mostram os caminhos do mal,
porque, por esse meio, os segundos estão mais em sue
poder.
1314. Wali, em árabe, pode significar amigo, tanto no
sentido de protetor e benfeitor, como no sentido de bemamado.
Os laços de benevolência, de confiança e de
amizade estão implícitos, tanto ativa como passivamente.
Os anjos primeiramente proclamaram a sua dependência
quanto a Deus, e a necessidade da Sua proteção, e então
desmentem qualquer idéia de terem protegido ou
encorajado os falsos adoradores a adorarem outros seres,
que não Deus. Eles vão além, e dizem que quando os
homens pretendiam adorar os anjos, eles adoraram, não
anjos, mas gênios (ver a nota seguinte).
1315. Para gênios, ver o versículo 100 da 6ª Surata, e
respectiva nota. Os falsos adoradores pretendiam adorar
os brilhantes e radiantes anjos do bem, mas na realidade,
adoravam as escuras e ocultas forças do mal – os
demônios escondidos neles mesmos, ou na vida em torno
deles. Eles confiavam e acreditavam nas tais forças do
mal, embora essas forças não tivessem realmente poder
algum.
1316. Passando dos povos anteriores aos antepassados
imediatos, o Povo do Livro, ou Povo de Sabá, e o Povo de
Ad, e o Povo de Samud, todos haviam recebido favores e
dádivas, poderes e riquezas, dez vezes maiores do que os
que eram desfrutados pelos coraixitas pagãos. Contudo,
quando eles deram as costas a eles; e que terríveis
conseqüências se desencadearam sobre eles, quando eles
perderam a Graça de Deus! Isto deve fazer com que todos
abram os olhos, e não menos a posteridade do Mensageiro
Mohammad, caso se esqueçam da Verdade de Deus,
porquanto tal posteridade tem recebido um elevado
Ensinamento!
1317. Note-se que nos versículos 46,47, 48, 49 e 50, os
argumentos são sugeridos ao Profeta, dizendo que com
eles ele poderia convencer qualquer homem bem
intencionado, quanto à sua sinceridade e veracidade. Aqui
o argumento é que ele não está possesso ou louco. Se ele
é diferente dos homens comuns é porque ele tem de
apresentar um escarmento do terrível perigo espiritual às
pessoas que ama, mas que não entende a sua Mensagem.
1318. Professarão então a sua fé na verdade, mas que
valor terá tal profissão? A fé é uma crença no
incognoscível. Então tudo estará claro e em aberto perante
eles. A posição na qual poderiam ter recebido a fé é
deixada distante, atrás deles, sendo que a Verdade lutava
e pedia ajuda ou asilo, e eles cruel, arrogante e
insultantemente a repudiaram.
1319. Não rejeitaram apenas a Verdade do Incognoscível
(a verdade Realidade), mas espalharam todo o tipo de
falsas e maliciosas insinuações contra os divulgadores da
verdade, chamando-os de pessoas desonestas,
mentirosas, hipócritas etc. fizeram o papel do covarde que,
de uma posição sorrateira, distante da luta, arremessa
flechas em direção a um alvo distante.
1320. Note-se que os versículos 51-54 constituem uma
poderosa descrição do conflito entre o certo e o errado, e
podem ser entendidos como possuindo muitos
significados: (1) a descrição se aplica à posição na Vida
Futura, comparando-se com a posição nesta vida; (2)
aplica-se à posição do triunfal Islam em Madina, e mais
tarde, em comparação à posição do perseguido Islam dos
primeiros dias, em Makka; (3) aplica-se, ainda, à
reversibilidade da posição do certo e do errado, em várias
fases da história do mundo, ou (4) da história individual.
1321. À medida em que o conhecimento do homem,
quanto aos processos da natureza, avança, ele vê quão
complexa é a evolução da própria matéria, deixando de
lado a questão da origem da vida e das forças espirituais,
questão essa que está além da argúcia da ciência
experimental. Contudo, esse próprio conhecimento tornase
uma espécie de “véu de luz”; o homem se torna cônscio
das suas causas próximas, e fica afeito, em seu orgulho, a
se esquecer da Causa primeva, a Causa das Causas, a
primordial mão de Deus na Criação. E então a criação se
torna um processo complexo. A palavra fatara, aqui usada,
significa a criação da matéria primeva à qual ulteriores
processos criadores têm de ser acrescentados pela mão
de Deus, pois Deus “aumenta a criação conforme Lhe
apraz”, não apenas em quantidade, mas em qualidade,
funções, relações e variações, de infinitos modos.
1322. A alegoria, aqui, é dupla: (1) o adusto e nãopromissor
solo talvez pareça, para todos os intentos e
propósitos, morto; não há manancial de água por perto; a
umidade é sugada pelo calor do sol, num oceano
longínquo, e as nuvens são formadas; os ventos
aparecem; mas é realmente a providência de Deus que
dirigem os ventos para a terra morta; a chuva cai, e eis que
há vida e movimento e beleza por todo lado! Assim
também, no mundo espiritual, a Revelação de Deus e a
Sua Misericórdia são a Sua Chuva; pode ser que haja a
ressurreição individual (Nuxur), ou o desabrochamento da
alma; (2) assim, outra vez, poderá dar-se à Ressurreição
geral (Nuxur), o desabrochar de um novo Mundo no Porvir,
tirado de um velho Mundo, que foi envolvido e morto
(Takwir, Surata 81ª).
1323. Comparar com o versículo 37 da 18ª Surata, e
respectiva nota. Aqui o argumento é de que a origem
material do homem é reles; seu corpo físico nada mais é
do que pó; seu esperma sai de uma parte do seu corpo, a
qual ele esconde, considerando-a um lugar de vergonha; e
o mistério do sexo mostra que nenhum indivíduo, em toda
a humanidade, é por si só suficiente. A glória, o poder e o
conhecimento não estão com ele, mas com Deus tãosomente,
do Qual ele tira qualquer glória, ou poder, ou
conhecimento que possui.
1324. “Então”, nesta e na cláusula seguinte, refere-se, não
aos estágios do tempo, mas aos estágios do argumento. É
quase equivalente a “ainda mais”, “também” e “em adição”.
1325. O grande oceano salgado, com seus mares e golfos,
é um só; e as grandes massas de água potável dos rios,
dos lagos, das lagoas e dos veios subterrâneos, são
também uma só; e uma é ligada à outra pela constante
circulação que se dá, com o sol a provocar os vapores, e
os ventos a carregarem-nos para as nuvens que então
fazem descer a chuva, ou a neve ou o granizo, que se
misturam com os rios, com os regatos, e voltam ao
Oceano.
1326. Tais como pérolas e corais, vindos do mar, e pedras
delicadamente coloridas, como a coralina, a ágata, a
pepita, ou outras variedades de seixos de quartzo
encontrados nos leitos dos rios. A areia de alguns rios
apresenta, ainda, quantidades diminutas de ouro. Nos rios
largos e navegáveis e nos grandes lagos, como aqueles da
América do Norte, bem como no mar, estão as rotas para
os navios mercantes.
1327. Comparar com o versículo 2 da 13ª Surata. A
posição da Terra, em relação ao Sol, determina as
estações, e o Sol constitui a fonte de energia e de vida
material para todo o sistema solar. O sol e a lua se movem
segundo leis estabelecidas, e assim continuarão, não para
sempre, mas por um período apontado por Deus, para a
sua duração.
1328. Kitmir: a pele fina e branca, que cobre o caroço da
tâmara. Não tem consistência, nem textura, e também não
tem valor algum. Qualquer um que se apoie em outro
poder que não o de Deus, apoia-se em nada. O Kitmir vale
monos do que o proverbial “vintém furado”. Comparar com
os versículos 53 e 124 da 4ª Surata, onde a palavra nakir
(a ranhura de um caroço de tâmara) é similarmente usada
para especificar uma coisa de nenhum valor ou
significância.
1329. Pecador: Hámilatun: feminino, em árabe, referindose
à alma (nafs), como no versículo 164 da 6ª Surata.
1330. O relacionamento natural pode ser considerado uma
causa razoável, ou uma oportunidade para as pessoas
carregarem os fardos umas das outras. Por exemplo, uma
mãe ou um pai poderá oferecer-se para morrer por seu
filho, e vice-versa. Porém, isso não se aplica aos assuntos
espirituais. Aqui, a responsabilidade é estritamente
pessoal, e não pode ser transferida para outra pessoa.
1331. Todos podem ver o espírito artístico de Deus a
produzir, com a chuva, a maravilhosa variedade de cereais
e frutos – dourados, verdes, vermelhos e amarelos -,
mostrando todas as maravilhosas cores em que podemos
pensar. E todos eles passam, na natureza, por uma ligeira
variação de cores em sua transformação do estado
embrionário para o estado de amadurecimento.
1332. Essas maravilhosas cores e matizes de cores podem
ser encontrados não apenas na vegetação, mas também
em rochas e em extratos minerais. Há os brancos veios do
mármore, do quartzo e do gesso, a bauxita que se extrai
da vermelha laterita, as rochas basálticas azuis, e todas as
variedades, matizes e gradações de cores. Quanto às
montanhas, nós as vemos com um “matiz azulado”, à
distância devido aos efeitos atmosféricos, que levam os
nossos pensamentos à glória das nuvens, do pôr-do-sol,
da luz zodiacal, da aurora boreal, e de todos os
espetáculos exuberantes da natureza.
1333. Nas formas físicas da vida humana e animal, nós
também constatamos variações de matizes e graduações
de cores de toda a espécie. Porém, conquanto essas
variações e graduações possam ser maravilhosas, nada
são, comparadas com as variações e diferenças que
existem no mundo interior ou espiritual.
1334. Os custódios do Alcorão, após o Mensageiro, foram
os povos do Islam. Eles foram escolhidos para o Livro, não
num sentido restrito, mas no sentido de que o Livro lhes foi
dado, para que eles ficassem encarregados de preservá-lo
e propagá-lo, para que toda a humanidade o recebesse.
Mas isso não quer dizer que eles foram e são todos fiéis ao
seu encargo, como deveras vemos mui lamentavelmente,
em nosso meio, hoje. Assim como os humanos foram
coletivamente escolhidos para serem “os legatários de
Deus” – e alguns se deram ao mal -, também alguns, na
casa do Islam, deixaram de seguir a Luz que lhes foi dada
e, desse modo, “se condenaram”; porém, alguns seguem
um curso intermediário; no caso destes, “o espírito está
inclinado, mas a carne é fraca”; suas intenções são as
melhores, mas têm de aprender, ainda, com os
verdadeiros muçulmanos e com as virtudes muçulmanas.
Há ainda uma terceira classe: podem não ser perfeitos,
mas tanto suas intenções como suas condutas são
irrepreensíveis, e eles constituem um exemplo para os
outros homens; eles “se emulam na beneficência”. São
assim, não por seus próprios méritos, mas pela Graça de
Deus. E eles alcançaram o mais alto desiderato – a
salvação, que é tipificada pelas várias metáforas que se
seguem.
1335. Comparar com os versículos 31 da 18ª Surata e 23
da 22ª Surata.
1336. Em primeira instância, isto se refere aos coraixitas.
Suas atitudes para com o Povo do Livro eram de
empertigada superioridade e de desculpas insinceras. Eles
criticavam os judeus e os cristãos, por estes se terem
desviado da sua própria luz e das suas próprias
revelações; e quanto a eles mesmos, disseram que não
haviam recebido nenhuma revelação direta de Deus, ou
ter-se-iam mostrado os mais moldáveis à disciplina, os
mais prontos a seguirem a lei de Deus. Isto aconteceu
antes de o Profeta do Islam receber de Deus a sua missão.
Quando ele a recebeu, e a anunciou, eles lhe voltaram as
costas. Fugiram dela e estabeleceram uma distância cada
vez maior entre eles e ela. Mas é esta a maneira dos
pecadores. Eles têm muito o que criticar nos outros, e
muito o que desculpar em si mesmos. Porém, quando
todos os termos de desculpas estão esgotados, eles se
encontram cada vez mais longe da verdade e da virtude.
1337. As leis de Deus são fixas e Sua maneira de tratar
aqueles que seguem a iniqüidade é a mesma, em todas as
épocas. Nossa vontade humana pode sair do seu curso,
mas a Vontade de Deus seguirá sempre o seu curso, e não
poderá ser desviada por nenhuma causa.
138. Se nenhum outro argumento convencer os que
seguem o mal, que eles percorram a terra por algum tempo
e aprendam com a experiência dos outros. O mal sempre
terá um final maldoso. Que nenhum indivíduo ou geração
pense que poderá escapar, utilizando-se de algum
estratagema. Pessoas bem mais sábias e mais poderosas
foram chamadas a prestarem contas pelas suas
iniqüidades.
1339. Um só ser; isto talvez se refira ao homem, criatura
viva, que caminha com tantas possibilidade e, contudo,
com tamanha fraqueza. Porém pode significar,
literalmente, todas as criaturas, uma vez que a vida neste
planeta gira mais ou menos em torno da vida do homem.
Tem-lhe sido conferido o domínio, nesta terra e, em estado
de pureza, ele é legatário de Deus.
1340. Alguns exegetas acham que Ya seja a partícula
vocativa, e Sin a abreviação de Insan (homem), sendo,
Sin, a única “letra firme” da palavra. Nesse caso, isso seria
dirigido ao homem: “Ó homem!” Porém, “homem”, aqui, é
compreendido como querendo dizer o líder dos homens, o
mais nobre entre a humanidade, Mohammad, o Profeta de
Deus, porque esta surata trata principalmente do Profeta
do Islam e de sua Mensagem. Contudo, nenhuma
asserção dogmática pode ser feita sobre as letras do início
das suratas. Ya Sin é usualmente tido como um título do
Profeta do Islam.
1341. Muitos dos exegetas clássicos supõem que a cidade
a que se refere o texto fosse Antióquia. Segundo Ibn
Alcatir, rejeitamos decisivamente a identificação com
Antióquia. Nome algum, ou período, ou local, é
mencionado no texto. A significância da história está nas
lições a serem aprendidas da parábola. Isso é
independente de nome, tempo, ou local.
1342. Comparar com Atos, 14:15, onde Paulo e Barnabas
dizem, na cidade de Listra, próxima à moderna Cônia:
“Nós também somos homens como vós, sujeitos às
mesmas paixões, e vos pedimos que fujais dessas
vaidades…”
1343. Tair significa pássaro. Como os augúrios romanos,
os árabes tinham a superstição de deduzir essa crendice
dos pássaros. Comparar com a palavra portuguesa
“auspiciosos”, do latim avis (ave) e specio (vejo). De tair
(pássaro) veio ta-taiyara (tirar maus augúrios). Porque os
diletos de Deus denunciavam o mal, que lhes acontecia
provinha dos seus próprios malefícios. Comparar com o
versículo 131 da 7ª Surata, onde os egípcios atribuíam as
suas calamidades à má sorte trazida por Moisés, e com o
versículo 47 da 27ª Surata, onde o povo de Samud atribuía
a má sorte à pregação de Sáleh.
1344. As tamareiras e as videiras constituem símbolos de
árvores frutíferas de todas as espécies, sendo a tâmara e a
uva, as frutas características da Arábia. Os cereais foram
mencionados no versículo anterior; as frutas são
mencionadas agora. Tudo quanto é necessário para a
alimentação, do mais fino paladar, é produzido do que
parece ser um solo inerte, fertilizado pela chuva e pelos
córregos. Eis aqui a maravilhosa evidência do talento
artístico e da providência de Deus.
1345. O mistério do sexo está presente em toda a criação –
no homem, na vida animal, na vida vegetal, e
possivelmente, em outras coisas das quais não temos
conhecimento. Há, então, os pares de forças opostas na
natureza, como por exemplo, a eletricidade negativa e a
eletricidade positiva etc.. O próprio átomo consiste de um
núcleo, com prótons positivamente carregados, rodeado de
elétrons, negativamente carregados. A constituição da
própria matéria é desse modo apresentada, em pares de
energias opostas.
1346. As casas lunares são as 28 divisões do Zodíaco, que
se supõe sirvam para marcar o curso diário da lua no céu,
desde o tempo da lua nova até ao seu desaparecimento
para nós (fim do quarto minguante).
1347. Urjun: um cacho de tâmaras ou da tamareira; ou a
base ou a parte de baixo do cacho. Quando ele fica velho,
torna-se amarelado, seco e murcho, e curva-se qual foice.
Daí a comparação com a aparência de foice da lua nova. A
lua passa por todas as fases, aumentando e diminuindo a
intensidade da claridade, até que desaparece, para depois
aparecer, na forma de uma fina curva.
1348. Embora o sol e a luz atravessem a zona do Zodíaco,
e seus movimentos sejam diferentes, não há possibilidade
de colidirem. Quando o sol e a lua estão num mesmo lado
e formam, com a terra, uma linha reta, há o eclipse solar
(que pode ser total, parcial ou anelar), e quando estão de
lados opostos, formando também uma minha reta, há o
eclipse lunar (que pode ser total ou parcial), mas não há
colisão. Suas Leis são determinadas por Deus, e
constituem motivo de estudo para a astronomia.
1349. Tradicionalmente, o anjo que fará soar a trombeta
será Israfil, embora o nome não apareça no Alcorão. A
trombeta é mencionada em muitos lugares, como, por
exemplo nos versículos 73 da 6ª Surata e 18 da 78ª Surata
etc..
1350. Há alguma diferença de opinião, entre alguns
exegetas, quanto ao exato significado a ser atribuído a
esta cláusula. Como a entendemos, o significado para ser
este: o homem é capaz de se esquecer do verdadeiro
Deus ou voltar as costas s Ele, Que é a fonte de todo o
bem de que ele desfruta, e correr atrás de poderes
imaginários, em forma de deuses, de heróis, ou de coisas
abstratas, como a ciência, a natureza, a filosofia, ou coisas
supersticiosas, como a magia, a boa sorte, a má sorte, ou
da incorporação dos seus próprios desejos egoísticos. Ele
acha que essas coisas poderão ajudá-lo, nesta Vida ou na
Vida Futura (se é que ele acredita na Vida Futura). Porém,
elas não podem ajudar; pelo contrário, todas as coisas
falsas serão trazidas e condenadas perante o Trono do
Julgamento, e os que cultuam as falsidades serão também
tratados como uma tropa que favorece as falsidades, e,
portanto, dignos de condenação. As falsidades, portanto,
ao invés de os ajudarem, contribuirão para a sua
condenação.
1351. Os três atos, nos versículos 1-3, são consecutivos,
como é mostrado pela partícula fa. Nós os
compreendemos como querendo dizer que os anjos e os
bondosos estão prontos a se alinhar nas fileiras, para o
serviço de Deus, e atuam em perfeita disciplina, e de
acordo com todos os tempos; que eles interceptam e
frustam o mal onde quer que o encontrem, e, ao fazê-lo,
são revigorados pela sua disciplina e pelo fato de se
alinharem em fileiras, e que tal serviço faz propaganda do
Reino de Deus e proclama a Sua Mensagem e a Sua glória
para toda a criação.
1352. A Mensagem divina é sumariada no evangelho da
Unidade Divina, no qual a maior ênfase é dada: “Em
verdade, vosso Deus é Único”. Esse é um fato que está
intimamente ligado à nossa própria vida e ao nosso próprio
destino. “Vosso Senhor é aquele Que vela por vós; sois
caros a Ele. E Ele é o Único; é tão-somente Ele que deveis
procurar, pois Ele é a fonte de todo o bem, de todo o amor
e de todo o poder. Vós não sois companheiros de tantos
que lutam contra as forças ou contra chances cegas. Há
uma completa harmonia e unidade no céu, e vós vos
deveis colocar em uníssono com ela, isso por meio da
disciplina nas fileiras, por meio da unidade de plano e
propósito, repelindo o mal, encetando uma ação que
promova o Reino de Deus. “Eis aqui o mistério da múltipla
variedade da criação, que converge para a Unidade
absoluta do Criador.
1353. Essa Unidade compreende tudo quanto existe – os
céus e a terra, e tudo quanto há entre ambos. Porque Ele é
o Senhor dessas coisas. Ele é o Senhor dos Macháric (de
todos os pontos em que o sol se levanta). Como os
cientistas nos contam, há , no ano, apelas dois equinócios,
dias em que o sol se levanta no leste; em cada um dos
outros dias o sol nasce numa posição cambiante, quer
mais a nordeste, quer mais a sudeste.
1354. Esse está situado abaixo do céu elevado, o Empíreo
– a esfera de foto (Gurrat-un-nar), o assento, supomos, dos
celícolas (de anjos), mencionados no versículo 8, diante.
Nas imaginações poéticas do Oriente e do Ocidente, há os
sete céus dos planetas do sistema solar; acima deles está
a esfera de estrelas fixas; acima desta está a esfera
cristalina, equilibrando outros movimentos; mais acima,
ainda, está o premum-mobile (o primeiro a se mover), a
fonte dos movimentos celestiais; e acima de tudo, o
Empíreo. Os atros e os planetas, por conseguinte,
encontram-se nos céus inferiores. A mesma imaginação
será encontrada em Dante.
1355. “Estrelas”, pode ser tomado aqui no sentido popular,
como referindo-se às estrelas fixas, aos planetas, aos
cometas, às estrelas cadentes etc. Numa noite límpida, a
beleza de um céu estrelado é proverbial. Eis que as
estrelas podem ilustrar dois pontos: (1) sua maravilhosa
beleza, seu agrupamento e movimento (aparente ou real),
manifestando e tipificando o Desígnio e a Harmonia do
Único e Verdadeiro Criador; e (2) o poder e a glória, atrás
delas, especificam que há uma salvaguarda contra as
investidas do Mal.
1356. Isto é, se suas esposas também eram iníquas. Elas
são mencionadas em separado, porquanto o termo árabe
para “iníquo” é do gênero masculino. Todos os associados
na iniqüidade serão mesclados. Haverá a responsabilidade
pessoal, nem o marido, nem a esposa, poderão pôr a culpa
um no outro.
1357. Frutos: comparar com o versículo 57 da 36ª Surata.
Os prazeres espirituais estão delineados seguindo as
experiências paralelas na nossa vida presente, e seguem
uma ordem ascendente: alimento se frutas; jardins da bemaventurança;
o lar da felicidade e dignidade, com
companhia apropriada, bebidas deliciosas, de fontes
cristalinas, para o prazer social; e a companhia do sexo
oposto, com beleza e charme, mas sem nenhuma
grosseria, muitas vezes incidentais a tais companhias
nesta vida.
1358. No emblema usado aqui, então, o tipo puro do sexo
feminino casto é configurado. Elas são castas, tímidas em
seus olhares; contudo, seus olhos são grandes,
portentosos e belos, prefigurando graça, inocência e uma
refinada capacidade de apreciação e admiração.
1359. Isto é costumeiramente entendido como referindo-se
à delicada tez de uma mulher bela, a qual é comparada à
transparente concha de ovos de um ninho, guardada de
perto pelo pássaro-mãe, a concha é cálida e limpa. No
versículo 58 da 55ª Surata, a frase usada é “Parecem-se
com o rubi e com o coral”, referindo-se ao vermelho ou corde-rosa
de uma bela cútis.
1360. O companheiro era um cético, quereria da religião e
do outro mundo. Como tudo muda!, o devoto tempera a
sua fé com uma bela vida e está agora em bemaventurança.
O outro era cínico e estragou a sua e está
agora queimando no fogo do inferno.
1361. O Dilúvio, a Inundação de Noé. A história principal
será encontrada nos versículos 25-48 da 11ª Surata.
1362. Seu nome é sempre lembrado; ele deu início a uma
nova era na história religiosa! Nota-se que as palavras dos
versículos 78-81, com pequenas modificações, formam
uma espécie de refrão aos parágrafos que se seguem,
sobre Abraão, Moisés e Elias, mas não sobre Lot e Jonas.
Lot era sobrinho de Abraão, e supõe-se que faça parte da
história de Abraão. A carreira de Jonas quase terminou em
tragédia para ele, e, ao seu povo, foi dada uma concessão
de poder “por algum tempo” (versículo 148 desta surata). E
tanto Lot como Jonas pertencem a uma limitada tradição
local.
1363. A história do Dilúvio é encontra, de uma forma ou de
outra, em todas as nações, e não apenas entre aquelas
que seguem a tradição mosaica. Na tradição grega, o herói
do Dilúvio é Deucalião, com sua esposa Pirra. Na tradição
hindu (Chatapaça Brahmana e Mahabhrata), há a saga de
Manu e do Peixe. A tradição chinesa de uma grande
inundação é registrada em Chu-King. Entre os índios
americanos, a tradição era comum a muitas tribos.
1364. Esta foi a hégira de Abraão. Ele abandonou seu
povo e a sua terra, porque a verdade lhe era mais cara do
que as falsidades ancestrais de seu povo. Ele se confiou a
Deus e, sob a Sua diretriz, lançou as fundações de
grandes povos (ver a nota do versículo 69 da 21ª Surata).
1365. Isto ocorreu no solo fértil da Síria e da Palestina. O
menino, dessa forma nascido, era, de acordo com a
tradição muçulmana, o primogênito de Abraão, a saber,
Ismael. O nome provém da raiz Samiá (ouvir), porque
Deus havia ouvido a súplica de Abraão (versículo 100). A
idade de Abraão, quando Ismael nasceu, era 86 anos
(Gênesis, 16:16).
1366. Onde ocorreu esta visão? O ponto de vista
muçulmana é que foi em Makka ou perto dela. Alguns
identificariam o local como sendo o vale de Mi na, cerca de
9 km ao norte de Makka, onde um sacrifício comemorativo
é anualmente levado a efeito, como um ritual do Hajj, no
décimo dia de Dul-Hijja, o dia do Sacrifício, o Eid (festa) do
sacrifício de Abraão e Ismael. Outros dizem que o local
original do sacrifício foi perto do monte Almarwa o qual
está associado à infância de Ismael.
1367. A nossa versão pode ser comparada com a versão
judaico-cristã do Antigo Testamento vigente. A tradição
judaica, a fim de glorificar o ramo mais jovem da família,
que descendia de Ismael, ancestral dos árabes, atribui
esse sacrifício como sendo de Isaac (Gênesis, 22:9 e 10).
Ora, Isaac nasce quando Abraão tinha 100 anos (Gênesis
21:5), ao passo que Ismael nasceu quando Abraão
contava 86 anos de idade (Gênesis 16:16). Ismael era,
portanto, 14 anos mais velho do que Isaac. Durante os
seus primeiros 14 anos de vida, Ismael foi o único filho de
Abraão: em tempo algum foi Isaac filho único de Abraão.
No entanto, falando do sacrifício, o Antigo Testamento diz
(Gênesis 22:2): “E disse: Toma agora o teu filho, o teu
único filho, Isaac, a quem amas, e vai-te para a terra de
Moriá, e oferece-o em holocausto sobre uma das
montanhas…” Este desliza mostra, de qualquer forma, qual
era a versão mais velha, e como foi elaborada nos
presentes registros judaicos, e nos interesses de uma
religião tribal. O termo “terra de Moriá” não está claro; ela
ficava a três dias de viagem do local onde estava Abraão
(Gênesis 22:4). Há menos justificava em ela identificar-se
com o Monte de Moriá, sobre o qual Jerusalém foi depois
erguida, do que com o monte de Márwa, que é identificado
com a tradição árabe acerca de Ismael.
1368. O adjetivo que qualifica “sacrifício”, aqui, azim
(grande, importante), pode ser entendido, tanto no sentido
literal, como no figurado. No sentido literal, compreende-se
que uma ovelha ou um carneiro de boa qualidade foi
simbolicamente posto em substituição. O sentido figurado
é ainda mais importante. Foi deveras uma grande e
importante ocasião, em que dois homens, de comum
acordo, “alinharam-se nas fileiras” daqueles para os quais
a dedicação a serviço de Deus era a coisa suprema da
vida. Porém, note-se que o resgate e a consumação do
sacrifício não foram realizados pelos homens, mas por
Deus. Deus quer a nossa boa vontade e devoção, não
necessariamente as nossas vidas, num sacrifícios físico.
Ele encontrará meio, se nos oferecermos a Ele, de nos
usar, não para a nossa destruição, mas para o nosso
avanço adicional.
1369. A história de Moisés é narrada em numerosas
passagens do Alcorão. As passagens mais ilustrativas da
presente passagem poderão ser encontradas no versículo
4 da 28ª Surata (a opressão do povo egípcio) e nos
versículos 77-79 da 20ª Surata (o triunfo dos israelitas
sobre os seus inimigos, quando os últimos foram afogados
no Mar Vermelho).
1370. Os israelitas foram agraciados, em três etapas,
como é mencionado nos versículos 114, 115 e 116,
respectivamente. Mas a consumação da graça de Deus foi
(versículos 117-118) a Revelação dada a eles, que os
guiou pela senda reta, Revelação que preservaram intacta
e lhes seguiram os preceitos. As três etapas eram: a Divina
Missão de Moisés e Aarão, a libertação do cativeiro; o
triunfo de cruzarem o Mar Vermelho e a destruição do
exército do Faraó.
1371. Ver a nota do versículo 85 da 6ª Surata. Elias é o
mesmo que Elijá, cuja história pode ser encontrada no
Antigo Testamento, em I Reis, 17-19, e II Reis, 1:2. Elijá
viveu no reino de Ahab (896-874 a.C.) e Ahaziah (874-872
a.C.), reis do reino (setentrional) desde Israel ou Samaria.
Ele era um profeta do deserto, tal e qual João Batista –
diferente do nosso Profeta do Islam, que tomou parte,
controlou e guiou todos os assuntos do seu povo.
1372. Baal, o deus-sol, cultuado na Síria. O culto incluía a
adoração das forças da natureza e dos poderes
procriadores, dando margem a que seus seguidores
cometessem muitos abusos.
1373. Eles o perseguiram, e ele teve de fugir para salvar a
vida. Finalmente, ele desapareceu de modo misterioso.
1374. Iliasin talvez seja uma forma alternativa de Ilias
(versículo 20 da 23ª Surata) e de Sinin (versículo 2 da 95ª
Surata). Ou pode ainda ser o plural de Ilias, significando
“pessoas como Ilias”.
1375. Comparar com o versículo 76 da 15ª Surata, e
respectiva nota. O trato do território, onde eles se situavam
é na estrava para a Síria, onde as caravanas árabes
passavam regularmente “ao amanhecer e ao anoitecer”.
Não poderiam, as gerações futuras, aprender a lição da
destruição daqueles que procederam erroneamente?
1376. Para passagens mais ilustrativas, ver os versículos
87-88 da 21ª Surata, e respectiva nota, e 48-50 da 68ª
Surata. A missão de Jonas era com respeito à cidade de
Nínive, então afundada em corrupção. Ele foi rejeitado,
pois anunciou a ira de Deus sobre eles; mas eles se
arrependeram e obtiveram o perdão de Deus. Jonas,
porém, “partiu, bravo” (versículo 87 da 21ª Surata),
esquecendo-se de que Deus possui misericórdia, bem
como perdão. Ver as notas seguintes (comparar com o
versículo 98 da 10ª Surata, e respectiva nota).
1377. Jonas fugiu para Nínive. Ele poderia ter ficado em
seu posto, e fundido sua vontade com a Vontade de Deus.
Ele se apressou em sair e tomar uma embarcação, como
se pudesse escapar o Plano de Deus!
1378. A embarcação estava lotada e encontrou mau
tempo. Os marujos, de acordo com a sua superstição,
queriam encontrar aquele que seria responsável pela má
sorte; um escravo fugitivo causaria tal má sorte. A sorte
caiu em Jonas, e ele foi atirado para fora.
1379. Os rios da Mesopotâmia têm alguns peixes grandes.
A palavra, aqui usada, é Hut, que pode ser um peixe ou um
crocodilo. Caso se tratasse de mar aberto, poderia ser uma
baleia. A localidade não é mencionada; no Antigo
Testamento é dito que ele tomou uma embarcação no
porto de Jope (agora Jafa), no Mediterrâneo (Jonas, 1:3),
que não distaria menos de 900 km de Nínive. O rio Tigre,
mencionado por alguns dos nossos exegetas, é o mais
provável, e contém peixes de extraordinário porte.
1380. Comparar com o versículo 89 desta surata. Sua
estranha situação talvez tivesse feito com que ficasse
doente. Ele queria ar fresco e solidão. Ele conseguiu
ambos na planície aberta; e a copuda cabaceira, ou
alguma árvore frutífera, como ela, forneceu-lhe tanto sobre
como sustento. A cabaceira é uma plante trepadeira, que
pode espalhar-se sobre qualquer telhado ou estrutura em
ruínas.
1381. A cidade de Nínive era muito grande. O Antigo
Testamento diz: “Era pois Nínive uma grande cidade de
deus, a três dias de caminho”(Jonas, 3:3), em que estão
mais de 120 mil homens…” (Jonas, 4:11). Em outras
palavras, seu perímetro era de cerca de 73,5 km, e sua
população era de mais de 120 mil habitantes.
1382. Eles se arrependeram e creram, e Nínive adquiriu
uma nova fase de vida. Quanto às datas que podem ser
postas em relação com Jonas, e às vicissitudes da história
da cidade, como sede do Império Assírio, ver as notas do
versículo 98 da 10ª Surata. As lições tiradas da história de
Jonas são: (1) que homem algum pode arrogar-se o direito
de julgar a ira ou a misericórdia de Deus; (2) que, não
obstante, Deus perdoa o verdadeiro arrependimento, seja
num homem virtuoso, seja numa cidade iníqua e (3) que o
Plano de Deus sempre prevalecerá, e jamais poderá ser
derrotado.
1383. Iniciamos um novo argumento aqui. Os árabes
pagãos chamavam os anjos de “filhas de Deus”. Eles
próprios ficavam envergonhados de ter filhas, preferindo
ter filhos, os quais lhes acrescentariam poder e dignidade
(ver os versículos 57-59 da 16ª Surata, e respectiva nota).
No entanto, inventaram filhas para Deus!
1384. Os anjos são, pelo menos, seres puros que estão a
serviço de Deus. As superstições idólatras, porém, não
apenas os ligavam a Deus, dizendo que eram Suas filhas,
mas ainda relacionavam Deus com todas as espécies de
espíritos, bons ou maus! Em algumas mitologias, os
poderes mais malignos são deuses ou deusas, como se
eles pertencessem à família de Deus, o Criador, e
tivessem alguma semelhança com Ele. Isto também é
repudiado, nos mais enérgicos termos.
1385. Para rematarmos o argumento da surata, voltamos à
idéia com a qual ela começou. Os enfileirados, para a
prática unida do serviço de Deus (ver o versículo 1, desta
surata) – quer sejam anjos ou homens -, estão felizes em
conservarem a sua posição e executarem tudo o que lhes
é ordenado. Não é da sua conta questionarem o Plano de
Deus, porque sabem que é bom, e que no fim triunfará.
Qualquer demora aparente não os preocupa, e nunca
falsearão na sua posição.
1386. Este versículo e o seguinte são repetições dos
versículo 174-175, com uma pequena alteração verbal. O
argumento, nos versículos 176-177, conduziu a um novo
ponto. Quando termina, a repetição nos leva de volta ao
argumento principal, e remata toda a surata.
1377-x. Sad é uma letra do alfabeto árabe. Quanto a esta
letra particular, ver o segundo parágrafo da nota do
versículo 1 da 7ª Surata. Dogmatismo algum nos é
permitido, ao tentarmos interpretar as letras abreviadas.
Mas é aventado que ela possa substituir a palavra quissas
(Histórias), na qual a consoante dominante é S. porque
esta surata é, principalmente, relacionada com as histórias
de Davi e Salomão, ilustrativas das relativas posições dos
poderes espirituais e terreno. A nota de George Sale, diz
que ela pode representar “Salomão”, constitui erro
clamoroso, uma vez que a letra árabe Sad não aparece no
nome Salomão.
1378-x. Quando no início do Islam, a sua mensagem
estava sendo pregada, e o Pregador e seus seguidores
estavam sendo perseguidos pelos pagãos, um dos
expedientes adotados pelos líderes pagãos consistia em
fazer com que o tio do Profeta, Abu Tálib, denunciasse ou
renunciasse ao seu querido sobrinho. Uma conferência
com Abu Tálib foi realizada, para tal propósito. Com o
fracasso dessa empresa, os líderes foram embora e
começaram a fazer desacreditar o grande movimento,
anunciando falsamente que ele era contrário à influência
pessoa, e estava fadado a pôr o poder nas mãos do
Profeta. A conversão de Ômar ocorreu no sexto ano da
Missão (sete anos antes da Hégira). As circunstâncias,
ligadas a isso, alarmaram grandemente os chefes
coraixitas, os quais, ávidos por autocracia, procuraram
confundir a ocorrência, acusando o Pregador Virtuoso de
conspirar contra o poder deles.
1379-x. O título do Faraó (Senhor das Estacas) denota
poder e arrogância, das seguintes maneiras: (1) a estaca
faz com que a tenda fique firme e estável, e é um símbolo
de firmeza e estabilidade; (2) muitas estavas significam um
campo e um numeroso exército para lugar; (3) espetar com
estacas era uma punição cruel, imposta pelos Faraós, no
seu arrogante orgulho e poder.
1380-x. Esta história ou parábola não é encontrada na
Bíblia, a menos que a visão, aqui descrita, seja
considerada equivalente à parábola de Natan, em Samuel
11 e 12. O exegeta Baidhawi parece ser a favor desse
ponto de vista, mas outros o rejeitam. Davi era um homem
religioso, e tinha uma câmara privada (mihrab), bem
guardada para a oração e o louvor.
1381-x. Como foi afirmado na nota 1380-x, essa visão,
com a sua moral, não é encontrada em lugar algum da
Bíblia. Aqueles que acham que vêem uma semelhança
com a parábola do Profeta Natan (Samuel, 12:1-17) nada
têm em que se apoiar, a não ser na menção de “uma só”
cordeira, aqui, e a “única cordeirinha”, na parábola de
Natan. Toda a história, aqui, é diferente, e toda a
atmosfera é diferente. O título bíblico de “homem segundo
o próprio coração de Deus”, dado a Davi, é refutado pela
própria Bíblia, no escandaloso conto dos crimes hediondos
atribuídos a Davi nos capítulos 11 e 12 de Samuel II, a
saber, adultério, trato fraudulento quanto a um de seus
servos, a consumação do seu crime. Depois, no capítulo
13, temos a história concernente a estupros, incesto e
fratricídio, na própria família de Davi! O fato é que
passagens como essas constituem meras narrativas
escandalosas, de crimes do mais horrendo caráter. A idéia
muçulmana de Davi é a de um homem justo e reto, dotado
de todas as virtudes, sobre quem o menor pensamento de
auto-exaltação tem de ser banido, e trocado para o de
arrependimento e perdão.
1382-x. A história não é encontrada no Antigo Testamento.
Interpretamo-la de modo a significar que, como seu pai,
Davi, Salomão era muito meticuloso, para não permitir que
o menor motivo egoístico se misturasse com as suas
virtudes espirituais. Ele adorava cavalos; possuía grandes
exércitos e riqueza; mas usava-os para o serviço de Deus
(comparar com os versículos 19 e 49 da 27ª Surata, e
respectivas notas). Suas batalhas não eram travadas por
sede de sangue, mas como Jihad, pela causa dos
virtuosos. Seu amor pelos cavalos não era como um amor
de um aperfeiçoado a corridas ou de um guerreiro; havia
um elemento espiritual nisso. Ele tinha uma espécie de
amor que era espiritual – o amor do mais alto bem.
1383-x. O “corpo sem vida”, em seu trono, tem sido
diversamente interpretado. A interpretação que mais nos
parece razoável é que o seu poder terreno, apenas de
grande, era como um corpo sem alma, a menos que fosse
vivificado pelo Espírito de Deus. Porém, Salomão, voltouse
realmente a Deus, em verdadeira devoção, e o seu
verdadeiro poder repousa nisso. Ele fez o melhor que pôde
para cercear a idolatria, e completou o Templo de
Jerusalém para o culto do Único e Verdadeiro Deus (ver a
conversão, feita por ele, de Bilquis, a Rainha de Sabá –
versículo 40 da 27ª Surata, e respectiva nota). Ver também
o versículo 148 da 7ª Surata, onde a mesma palavra,
Jassad, é usada em conexão com a imagem de um
bezerro, que os israelitas fizeram para a adoração, na
ausência de Moisés. Os homens podem adorar o poder
terreno, como podem adorar um ídolo, pois há grande
tentação em tal poder; porém, Salomão soube resistir a
essas tentações.
1384-x. A aflição era de muitas espécies: física, mental e
espiritual (ver a nota do versículo 83 da 21ª Surata). Ele
tinha chagas asquerosas; havia perdido seu lar, suas
posses e sua família; e quase perdeu o seu equilíbrio
mental. Porém, não perdeu a Fé, mas voltou-se a Deus
(ver o versículo 44, acima), e o processo recuperativo teve
início.
1385-x. Com o processo recuperativo iniciado, foi-lhe
ordenado que golpeasse a terra ou a rocha com os seus
pés, para que uma fonte ou fontes surgissem, a fim de que
ele tomasse banho e limpasse o seu corpo, para que
refrescasse o seu espírito; e para que bebesse e se
saciasse. Isto constitui um novo traço, que não é
mencionado na 21ª Surata, nem no Livro de Jó, mas que
engrandece magnificamente a nossa realização da
imagem.
1386-x. Em sua pior aflição, Jó foi paciente e constante na
fé, mas aparentemente, sua esposa não o foi. De acordo
com o Livro de Jó (Jó, 2:9-10): “Então sua mulher disse:
Ainda reténs a tua sinceridade? Amaldiçoa a Deus e
morre. Porém, ele lhe disse: Como fala qualquer das
doidas, falas tu; recebemos o bem de Deus, e por que não
receberíamos o mal? Em tudo isto não pecou Jó com os
seus lábios.” Ele deve ter dito à mulher, em sua
precipitação, que bateria nela; é-lhe pedido, então, que a
corrija apenas com um feixe de capim, para mostrar-lhe
que ele é gentil e humilde, bem como paciente e constante.
1387. Isto mostra que o mundo material, me torno de nós,
foi criado antes que Deus criasse o homem, e o alentasse
com o Seu Espírito. A antropologia também mostra que o
homem entrou em cena num estágio muitíssimo tardio da
história deste planeta.
1388. Mutakalif: o homem que se atém a coisas que não
são verdadeiras, ou que declara como verídicas coisas que
não existem; aquele que toma sobre si tarefas que não lhe
são devidas. Os verdadeiros profetas não são pessoas
dessa espécie.
1389. Constitui blasfêmia dizer-se que Deus gerou um
filho. Se isso fosse verdade, Deus teria de ter tido uma
esposa (versículo 101 da 6ª Surata), e Seu filho teria de
ser da mesma espécie d’Ele; no entanto, Deus é Único,
sem ninguém que se Lhe assemelhe (versículo 4 da 112ª
Surata). Gerar é um ato animal, que corre paralelamente
com o sexo. Como pode isso coadunar-se com a nossa
concepção d’Aquele Que está acima de todas as criaturas?
Se tal idéia blasfema fosse possível, ou seja, a de que
Deus queria alguém para O ajudar, Ele certamente teria
escolhido a melhor das Suas criaturas, em vez de Se
rebaixar a um ato animal. Porém, glória a Deus! Ele está
acima de tais coisas! Ele é Onipotente, não requer criatura
nenhuma para O ajudar, ou para lhe trazer outras criaturas.
1390. Ver os versículos 143-144 da 6ª Surata, onde quatro
espécies de gado são mencionadas, em pares, em
conexão com certas superstições árabes, que são ali
condenadas. Aqui, as mesmas quatro espécies são
mencionadas, como representativas do gado domesticado,
dado por Deus para ser útil ao homem. Trata-se das
ovelhas, das cabras, dos camelos, dos bois. No idioma
árabe, os cavalos não estão incluídos entre o “gado”.
1391. Os três véus das trevas que cobrem a criança não
nascida são o âmnio ou membrana, o útero e o ventre,
onde se encontra o útero. Porém, devemos entender o
numeral “três” no sentido cumulativo, e não no sentido
numérico.
1392. A pior penalidade, no sentido espiritual, é causarmos
o desprazer de Deus, da mesma forma que a mais alta
façanha, a realização de todos os desejos, é a obtenção do
aprazimento de Deus.
1393. Os exegetas constróem esta cláusula de duas
maneiras alternativas: (1) se o termo “palavra” for tomado
como qualquer palavra, a cláusula significará que os
bondosos ouvem tudo o que lhe é dito, e escolhem o
melhor; (2) se o termo “palavra” for tomado como sendo a
palavra de Deus, significará que devem ouvi-la
reverentemente, e, enquanto cursos permissivos e
alternativos são permitidos para aqueles que não são
suficientemente fortes para seguir o curso mais elevado,
aqueles dotados de entendimento preferirão seguir o curso
mais elevado de conduta. Por exemplo, é permitido que
punamos (dentro dos limites) aqueles que nos fazem mal,
embora a atitude mais nobre seja pagar o mal com o bem
(versículo 96 da 23ª Surata); deveríamos seguir o curso
mais nobre.
1394. Mi’ad: o tempo, o local e a maneira de se cumprir a
promessa. A promessa de Deus será cumprida, em todos
os seus pormenores, melhor do que possamos imaginar.
1395. O ciclo da água – pelo qual a chuva cai das nuvens,
é absorvida pela terra, corre através de rios ou córregos
subterrâneos para o mar, e novamente se eleva como
vapor, e forma nuvens – já foi explicado nas notas do
versículo 53 da 25ª Surata. Aqui, a nossa atenção é
dirigida para uma parte do processo. A chuva fertiliza o
solo e faz frutificar as sementes. Produtos de várias
espécies aparecem. A safra amadurece e é colhida. As
plantas murcham, secam e se desfazem. Homens e
animais são alimentados. E o ciclo inicia-se novamente,
em uma outra estação. Eis aí um Sinal da Graça e da
Benevolência de Deus, claríssimo para aqueles que têm
entendimento.
1396. Será que a palavra mutachabih deve ser entendida
com o mesmo sentido do versículo 7 da 3ª Surata, onde
nós a traduzimos por “alegóricos”? A melhor opinião é a de
que há uma pequena diferença de significado aqui, como é
sugerido pelo contexto da passagem anterior, onde a
palavra era o oposto de Muh-kam;; aqui ela é contrastada
ou comparada a Matani. O significado-raiz é: “que tem algo
em comum, que funciona por analogia ou alegoria ou
parábola; que tem as suas partes consistentes umas com
as outras”. Adotamos, aqui, o último significado. O Alcorão
foi revelado em partes, em tempos diferentes. E, contudo,
suas partes estão em conformidade umas com as outras.
Não há contradição ou inconsistência em nenhum lugar.
1397. A pele constitui o revestimento externo do corpo. Ela
recebe o primeiro choque, causando por qualquer coisa
incomum, e treme, e, por fim, o pêlo se eriça, sob o
excitamento. Assim, também, nos assuntos espirituais, o
primeiro estímulo, causado pela Mensagem de Deus, é
externo. Aqueles que recebem a Fé fazem-no com
excitação, não com apatia. Porém, no estágio seguinte, ela
penetra as naturezas externas deles, e vai diretamente aos
corações. As suas naturezas são “abrandadas”, para que
recebam a Mensagem beneficente, transformando-os
completamente.
1398. O pecado sempre traz desgraça e humilhação nesta
vida, mas a verdadeira punição será na vida futura. Mas o
homem não compreende a espiritualidade desse assunto.
Se prosperar aqui, por algum tempo, pensa que poderá
escapar da conseqüência real, na Vida Futura. Ou se
sofrer uma pequena injúria, aqui, pensa que isso suprirá a
penalidade, e que escapará à Vida Futura. Ambas as
idéias estão erradas.
1399. A diferença entre o credo do politeísmo e o
Evangelho da unidade é explicada com a alegoria de dois
homens. Um pertence a muitos amos; este discordam
entre si, e o pobre homem de muitos amos tem de sofrer,
por causa das brigas dos muitos amos; essa é uma
posição intolerável e insustentável. O outro homem serve a
apenas um amo; este é bondoso, e faz tudo quanto pode
pelo seu servo; o servo pode concentrar a sua atenção no
seu serviço; ele é feliz, e o seu serviço é feito com
eficiência. Pode, acaso, haver dúvida quanto a (1) qual dos
dois é o mais feliz, e (2) qual dos dois ocupa uma posição
mais natural? Ninguém pode servir a dois amos, muito
menos a numerosos amos.
1400. O mistério da vida e da morte, do sono e do sonho,
constitui um fascinante enigma cuja solução talvez esteja
além da argúcia do homem. Uma vasta massa de
superstição e de literatura psicológica cresceu com ele.
Porém, a mais simples e verdadeira doutrina religiosa é
apresentada aqui, em poucas palavras. Na morte, nós
entregamos à nossa vida física, mas a nossa alma não
morre; ela volta para um plano de existência, no qual fica
mais cônscia das realidades do mundo espiritual: “Deus
recolhe as almas”.
1401. Comparar com o versículo 60 da 6ª Surata. Que é
sono? No que concerne à vida animal, é a cessação do
trabalho do sistema nervoso, embora as outras funções
tais como a digestão, o crescimento e a circulação do
sangue continuem, possivelmente num ritmo diferente. É o
repouso do sistema nervoso, e, neste particular, isso é
comum a homens e animais e, talvez, às plantas, se é que
as plantas possuem um sistema nervoso. O processo
mental (e certamente a volição) é também suspenso no
sono, exceto pelo fato de que nos sonhos comuns há uma
miscelânea de recordação, a qual freqüentemente
apresenta vividamente às nossas consciências coisas que
não acontecem ou não podem acontecer na natureza,
como a conhecemos, com as nossas mentes coordenadas.
Porém, há uma outra espécie de sonho que é mais rara:
aquela em que o sonhador vê coisas como realmente
acontecem, avançada ou recuadamente no tempo, ou em
que indivíduos dotados vêem verdades espirituais, doutra
forma imperceptíveis a eles. Como podemos explicar isso?
É aventado que a nossa alma ou personalidade – aquele
algo que está acima da nossa vida animal – está num plano
de existência espiritual, que é parecido com a morte física
(ver a nota anterior), onde estamos mais perto de Deus. Na
imaginação poética, o sono é o “irmão gêmeo da morte”.
1402. Sendo o sono o irmão gêmeo da morte, as nossas
almas ficam por um tempo libertas do cativeiro da carne.
Deus as recolhe por um tempo. Se, como acontece com
alguns, viermos a morrer pacificamente durante o sono, a
nossa lama não regressa ao corpo físico, e este se
deteriora e morre. Se, como só acontecer, nós ainda
tivermos um período de vida a cumprir, de acordo com o
decreto de Deus, a nossa alma regressa ao corpo, e nós
reassumimos as nossas funções desta vida.
1403. Ninguém poderá interceder por nós junto a Deus,
exceto (1) com a Sua permissão, e (2) aqueles que se
prepararam, através da penitência, par a aceitação de
Deus. Mesmo nas cortes terrenas a intercessão não é
permitida a qualquer um; o advogado deve se apresentar
como tal, antes de poder parlamentar perante o juiz.
1404. Os mistérios da vida e da morte, da adoração, e do
crescimento espiritual, são assuntos de alta importância, o
que deve ser difícil de compreender nesta vida. É inútil
argüirmos a respeito disso e mergulharmos em infinitas
controvérsias. A atitude apropriada é apelarmos,
humildemente, a Deus, para que aceite os nossos
purificados corações e a nossa Fé, na firme esperança de
qualquer coisa, atualmente vaga para nós, agora, seja
esclarecida na Outra Vida.
1405. Mafazat: Lugar ou estado de segurança ou salvação,
lugar ou estado de vitória ou realização. Isto é contrastado
com a frustração, o fracasso e a perdição dos filhos do
mal, o que se pode chamar de maldição, em frase
teológica.
1406. A mensagem da Unicidade, renovada pelo Islam,
tem sido a Mensagem de Deus, desde o início do Mundo.
1407. Sa’ica implica na idéia de desfalecimento ou perda
de toda a consciência; implica na paralisação das funções
normais da vida ou do sentimento. A metáfora significa que
ao primeiro toque da trombeta da ressurreição, o mundo
todo cessará de estar na forma e na relação que vemos
agora; haverá um novo firmamento e uma nova terra; ver o
versículo 48 da 14ª Surata; as almas humanas, naquele
momento, ficarão atordoadas e perderão a memória ou a
consciência de tempo, lugar e personalidade. Com o
segundo toque, levantar-se-ão, num mundo novo; verão,
com visão claríssima, e o julgamento começará.
1408. “Grupos”, palavra-chave que fornece o nome desta
surata.
1409. Estas são as palavras de abertura da 1ª Surata, e
descrevem a atmosfera das benesses finais no Paraíso, à
luz do Semblante do vosso Senhor, o Senhor do Universo.
1410. Esta é a primeira de uma série de sete suratas, que
se iniciam com as letras Há, Mim. Cronologicamente, elas
pertencem ao mesmo período, o derradeiro período
maquense, e sucedem à última surata. Quanto às letras,
ver o versículo 1 da 2ª Surata.
1411. Comparar com o versículo 75 da 39ª Surata. Como o
Trono de Deus é metafórico, assim o é também o ato de
carregá-lo ou sustentá-lo.
1412. Destro, possui vários significados: (1) o tempo da
vida presente ou do intervalo – antes do Julgamento, ou
seja, antes da restauração dos valores verdadeiros – é tão
curto, comparado com a eternidade, que pode ser
considerado insignificante; no versículo seguinte, o Dia é
caracterizado como “o dia iminente”; (2) a despeito da
grande afluência das almas para serem julgadas, o
processo do Julgamento será quase instantâneo, “num
piscar de olhos”, porque tudo é conhecido por Deus, e
então nenhuma injustiça será feita.
1413. Os corações lhes subirão às gargantas: um modo de
falar que implica em que todas as funções da vida deles
serão angustiantes. Mas um significado mais sutil emerge
de uma análise adicional. O coração (ou o peito) é a base
da aflição, emoção, e de toda espécie de sentimentos, tal
como terror, dor, angústia, desespero etc.. Essas coisas, à
medida que vão subindo às gargantas, angustiam-nos. A
garganta é o veículo da voz; a voz deles serão de angústia,
e nada poderão dizer. A garganta é o canal dos alimentos,
por meio da qual estes vão ao estômago e mantêm as
funções salutares da vida; a angústia significa que as
funções salutares paralisar-se-ão e nada haverá, além de
lamentos.
1414. Ver o versículo 9 da 3ª Surata. Podemos tirar lições
das histórias de nações anteriores. Muitas delas eram mais
poderosas, ou deixaram mais vestígios ou monumentos e
causaram impressões mais profundas no mundo ao seu
redor, do que qualquer outra geração. “Traços”, no texto,
pode ser tomado em seu senso extensivo. E tudo isso não
os salvará das conseqüências dos seus pecados.
1415. Esta não é a própria história de Moisés. Ela é tãosomente
uma introdução à história do homem fiel, da
família do Faraó (ver o versículo 28).
1416. Nada há para justificar a identificação deste homem
com aquele mencionado na 28ª Surata, versículo 20, que
preveniu Moisés, antes de este receber a sua missão. Ao
contrário, nesta passagem, o homem fala após Moisés ter
recebido a sua missão, pregando ao Faraó, e conseguindo
uma certa dose de sucesso, pelo que o Faraó e o seu povo
estavam tentando matá-lo.
1417. Este dia pode ser o Dia do Julgamento, cujas
características são aqui mencionadas.
1418. O Dia do Julgamento é descrito como “O Dia em que
se declararem as testemunhas”. Este descrição implica em
duas coisas: que lá os homens serão julgados com justiça;
suas ações passadas e suas faculdades e oportunidades
serão testemunhas do uso a que foram submetidas (24ª
Surata, versículo 24); como de fato, o próprio homem será
testemunha contra si próprio (6ª Surata, versículo 130); e
que os profetas e os justos testemunharão que pregaram e
admoestaram os homens (39ª Surata, versículo 69; 2ª
Surata, versículo 133.
1419. A alternância do dia e da noite, na nossa vida física,
freqüentemente mencionada, está como um símbolo para
chamar a nossa atenção para as mercês de Deus. Se
observarmos bem estas coisas, poderemos servir e pedir
orientação a Ele.
1420. O argumento, nos dois últimos versículos, era o da
experiência pessoal da vida física do homem. Neste e no
versículo seguinte, um argumento paralelo é endereçado
ao homem, num plano mais elevado: Olhai para a terra e
par o céu; olhai para a posição especial que ocupais, sobre
os outros animais que vós conheceis, em forma de
configuração, em capacidades espirituais e morais;
considerai o vosso refinamento, em alimentos e frutos, e o
elevado sustento espiritual, do qual o vosso alimento físico
é um tipo; não deveis glorificar Deus, o Único?
1421. Comparar com a 7ª Surata, versículo 11.
1422. “O Livro” pode referir-se ao Alcorão ou às revelações
fundamentais, “O Livro Matriz”, porquanto os livros
revelados aos mensageiros são as revelações definitivas,
que são reveladas aos homens de tempos em tempos.
1423. Os Sinais de Deus estão em toda a parte, e podem
ser vistos pelos olhos dos discernentes, a todo o instante.
Mas se Sinais extraordinários são exigidos pelos cínicos ou
incrédulos, não serão atendidos pelo simples fato de os
exigirem. É a Vontade de Deus que os distribui, e não o
mero desejo do homem, mesmo que se trate de um
Mensageiro de Deus.
1424. O fato de que os animais selvagens, tão nocivos em
seu estado selvático, sejam, quando domesticadas, tão
úteis ao homem, é por si um dos grandes sinais de Deus.
A grande utilidade do gado é muito instrutiva. Ele serve
para ser cavalgado, e muitos deles são destinados à
alimentação. Ainda são utilizados para a agricultura, e para
a produção de leite, ou da lã, ou para se lhes extrair a pele;
e de suas carcaças o homem extrai ossos e chifres para
muitos usos industriais; mas passando para os elevados
aspectos da vida, eles constituem usos sociais, morais e
espirituais, como animais de tração, no transporte, que
serve aos propósitos fundamentais da civilização, sendo, a
esse respeito, como navios para o comércio internacional;
(30ª Surata, versículo 46).
1425. Comparar com o versículo 69 da 9ª Surata. Se uma
geração qualquer se orgulha excessivamente de suas
simples realizações em ciência ou arte, torna-se ridícula,
se levarmos em consideração a larga sucessão da história.
Em primeiro lugar, o homem descobrirá que uma grande
parte daquilo que ele atribui aos seus próprios méritos
tornou-se possível, devido aos trabalhos dos seus
predecessores. Em segundo lugar, muitos dos seus
predecessores eram mais numerosos e mais poderosos do
que ele, apenas de a perspectiva do tempo ter reduzido a
aparente profundidade da sua influência, e de os
monumentos, que deixaram, terem sofrido na mão
destruidora do tempo. Em terceiro lugar – e o mais
importante de tudo – quando eles se esqueceram de Deus
e da Sua Lei inexorável, nenhum dos seus trabalhos
manuais lhes foi proveitoso; eles pereceram como
perecem todas as vaidades. Comparar também como o
versículo 21 desta surata.
1426. Ver a nota do Versículo 1 da 2ª Surata.
1427. Esta passagem ou é um complexo de superioridade,
adotando um tom sarcástico de um complexo de
inferioridade, ou expressando uma indiferença calculada a
um ensinamento espiritual. Com eleito, ela diz: “Nossos
corações e nossas mentes não são suficientemente
inteligentes para compreenderem as vossas idéias nobres,
nem nossos ouvidos são tão acurado para ouvirem a vossa
explicação; nós e vós somos diferentes; há um abismo
entre nós. Por que estais preocupados conosco? Segui o
vosso caminho, que seguiremos o nosso!”
1428. A resposta, realmente, é: que o portador da
Mensagem não é um anjo, nem é um deus e, por isso, não
há nenhuma barreira entre ele e o seus ouvintes. Ele foi
escolhido, apenas para transmitir a Mensagem da verdade
e proporcionar-lhes esperança. Eles devem aceitar a
Unicidade indiscutível e, através do arrependimento,
obterem a graça e o perdão de Deus.
1429. Não haverá nada além da pena, para aqueles que
rejeitam a Verdade; correm atrás das falsas adorações,
não sentem nenhuma simpatia por seus semelhantes, e
negam até que haja uma Vida Futura.
1430. Esta é uma passagem difícil, descrevendo a criação
primária da nossa terra física e dos céus físicos, que nos
rodeiam. Se contarmos os dois dias mencionados neste
versículo, os quatro, mencionados no versículo 10 e os
dois, mencionados no versículo 12, teremos um total de 8
dias, enquanto em muitas passagens a criação é
estabelecida em seis dias. Os exegetas compreendem que
os “quatro dias” do versículo 10 incluem os dois do
versículo 9, e assim o total permanece em 6 dias.
1431. As montanhas mais altas estão a 8.750 m acima do
nível do mar e as maiores profundezas do oceano achamse
a 9.500 m. Assim, a diferença entre o ponto mais alto e
o mais baixo, na crosta sólida terrestre é de
aproximadamente 18.250 m. As partes mais altas são as
fontes principais de fornecimento de água, em todas as
regiões da terra, e a vida animal e vegetal depende desse
fornecimento.
1432. Segundo o versículo 30 da 79ª Surata, poderia
parecer que a terra surgiu depois da criação dos céus. Na
presente passagem, a criação da terra e a evolução da
vida, em nosso globo, são mencionadas primeiro; a criação
dos céus, em sete firmamentos, é mencionada depois. As
duas exposições não são inconsistentes. É manifestado,
aqui, que quanto os céus foram feitos em sete
firmamentos, eles existiam previamente como fumaça, ou
vapor, ou gases. A idéia que se deriva de uma comparação
das relevantes passagens alcorânicas é que Deus primeiro
criou a matéria primeva, sem ordem, forma ou simetria.
Este estado é chamado de caos, em oposição ao cosmo,
na cosmogonia grega. O estágio seguinte seria a
condensação dessa matéria primeva em gases, líquidos ou
sólidos. Neste sentido, não nos é dada nenhuma
informação precisa; isso pertence ao domínio da física.
Quanto à terra, somos informados sobre quatro estágios
ou dias.
1433. Tomamos isso como significando que o desígnio de
Deus, na criação, não foi para conservar separados o céu
e a terra, mas juntos, como de fato estão, fazendo, ambos,
parte do sistema solar, e viajando pelo espaço. E toda a
matéria criada por Deus obedece às leis atribuídas a ela.
1434. “Dias” pode incluir milhares de anos. Referem-se
aos estágios, na evolução da natureza física. Na
cosmogonia bíblica (Gênesis I e II: 1-7), que reflete a
cosmogonia babilônica, o esquema deve aparentemente
ser tomado literalmente, no que concerne a dias, e é como
segue: no primeiro dia, Deus criou a luz; no segundo, o
firmamento; no terceiro, a terra e a vegetação; no quarto,
as estrelas e os planetas; no quinto, os peixes e as aves
marinhas; no sexto, o gado, as coisas rastejantes, os
animais selvagens e o homem; no sétimo, ele terminou e
descansou. O nosso esquema é totalmente diferente: (1)
Deus não descansou e nunca descansa; (2) a obra de
Deus não terminou; Sua atividade continua (32ª Surata,
versículo 5; 7ª Surata, versículo 54); (3) o homem, em
nosso esquema, não surgiu com os animais da terra; seu
advento foi bem posterior; (4) os nossos estágios não são
rigorosamente separados um do outro, como no esquema
acima, onde as estrelas e os planetas foram criados no
quarto dia; não é inteligível como os primeiros três dias
foram contados, nem como a vegetação cresceu, no
terceiro dia. Nossos estágios para o céu e a terra não
estão em seqüência de tempo. Eles são amplamente
explicativos: (1) a fissão do nosso planeta da matéria
cósmica; (2) seu resfriamento e condensação; (3 e 4) o
crescimento dos vegetais e animais; (5 e 6) o crescimento
paralelo do mundo estelar e o do nosso sistema solar.
1435. Literalmente: pela frente e por trás, ou, de todos os
pontos de vista.
1436. Deus não será afetado, de nenhuma forma, se o
homem se rebelar contra Ele. O próprio homem é que sai
perdendo. A glória de Deus é celebrada noite e dia pelos
anjos e pelos homens que recebem o privilégio de se
aproximarem d’Ele. Para eles, é um prazer e uma honra
estarem à sombra da Verdade e da Felicidade.
1437. Comparar com os versículos 104-105 da 16ª Surata
e com o versículo 2 da 12ª Surata. Era mais racional e
natural que o Mensageiro, sendo árabe, recebesse a
mensagem em seu próprio idioma, podendo, assim, expô-
la com todos os detalhes, com maior força e eloqüência.
Mesmo sendo endereçada à humanidade, a sua exposição
inicial devia ser em árabe. Mas se o povo não possuísse fé
e estivesse espiritualmente surdo ou cego, não importaria
em que idioma viesse.
1438. Insensibilidade e auto-suficiência, em religião, são
freqüentemente ilustradas por seitas como a dos fariseus e
saduceus, entre os judeus. Quando há honestas diferenças
de opinião, elas podem, no Plano de Deus, conduzir para
maior indagação e emulação. Quando as diferenças são
irascíveis, há freqüentemente mais tempo deixado para o
arrependimento. De qualquer modo, a Palavra ou o
Decreto de Deus é para as melhores obras, e não pode
perturbar a fé. Comparar com o versículo 19 da 10ª Surata.
1439. Ver a nota da 2ª Surata, versículo 1.
1440. Esta Surata possui dois conjuntos de letras
abreviadas, um no versículo 1 e o outro no 2. Não existe
uma explicação autorizada sobre este 2º conjunto, e nós
nos abstemos de especular a respeito.
1441. A cidade de Makka. Ver o versículo 92 da 6ª Surata.
Este é indubitavelmente um versículo revelado em Makka.
Além de ser a Alquibla, Makka é o centro do Islam e, em
todo o seu redor, está o mundo.
1442. O mistério do sexo não possui apenas os seus
aspectos físicos, mas também os morais e espirituais, e,
portanto, a humanidade, neste respeito, é diferenciada dos
animais inferiores; e entre a humanidade os graus e
qualidades são sugeridos pela frase “de vossas espécies”.
No que diz respeito ao gado, ele é especialmente
mencionado entre os animais, como tendo relações
especiais com o homem, especialmente servindo às suas
necessidades, não apenas na esfera física, mas também
em matéria de transporte, chave de toda a civilização e
cultura; ver a 36ª Surata, versículos 71-73, e 23ª Surata,
versículos 21-22, onde o gado é comparado ao navio, o
símbolo do intercâmbio internacional.
1443. A Religião de Deus é a mesma em essência, quer
tenha sido dada, por exemplo, a Noé, a Abraão, a Moisés,
a Jesus ou a Mohammad. A fonte da unidade é a
revelação de Deus. No Islam ela é estabelecida como uma
instituição e não permanece como uma vaga sugestão.
1444. Fé, dever, ou religião, não são matérias sobre as
quais se dispute. A formação de seitas é contra o próprio
princípio da Religião e da Unidade. O que devemos fazer é
lutar pela constância no dever, na fé e na Unidade, entre a
humanidade.
1445. A missão do Islam é descrita mais adiante: (1) o
Deus que ele prega não é exclusivista. Ele é o Senhor do
Universo, para qualquer pessoa, de qualquer credo; Ele é
o seu Deus, como é o meu; (2) nossa fé não é uma
questão de palavras; são os atos que contam; cada um de
nós tem responsabilidade pessoal para com a sua própria
conduta; (3) não há causa de disputa, qualquer que seja,
quando pregamos a Unidade, a Fé e a Vida Futura; (4) se
tivermos dúvida, o Árbitro final será Deus, e o Seu Trono é
a nossa meta.
1446. Dáb-batun: seres viventes, de todas as espécies; ver
o versículo 164 da 2ª Surata. Similarmente, no versículo 45
da 24ª Surata, e em outras passagens, a palavra é usada
para criaturas viventes de todas as espécies. A vida,
geralmente, é aquela misteriosa matéria básica que a
ciência chama de protoplasma. Quanto mais aumenta o
nosso conhecimento biológico, mais nos maravilhamos
perante a unidade da vida e a sua diversidade.
1447. A vida não está confinada ao nosso pequeno
planeta. É uma velha especulação imaginarmos alguma
vida semelhante à nossa no planeta Marte. Já que
nenhuma prova científica há, é racional supormos que a
vida, de alguma forma, está disseminada em alguns dos
milhões de corpos celestes do espaço.
1448. Consulta: esta é a palavra-chave da surata, e sugere
o ideal de como um homem de bem deve conduzir os seus
assuntos. Este princípio era aplicado, em todos os
sentidos, pelo Profeta, em sua vida particular e pública.
1449. Antes de receber a sua missão, aos 40 anos de
idade, o Profeta, apesar de ser um homem de virtude e
pureza inabaláveis, resoluto na sua busca da Verdade (ver
versículos 22-23 da 100ª Surata), não estava ainda
familiarizado com a Revelação, em seu mais alto senso.
Alguns exegetas compreendem que Ruh, que traduzimos
por Espírito, refere-se ao Anjo Gabriel.
1450. Ver a nota do versículo 1 da 2ª Surata.
1451. Comparar com o versículo 7 da 3ª Surata e com
versículo 39 da 13ª Surata. A mãe do Livro, a base da
Revelação, tábua reservada (Lauh Mahfuz, 85ª Surata,
versículo 22), é o âmago ou a essência da revelação, o
princípio original, ou a fonte principal da Lei Eterna e
Universal de Deus. Desta fonte brotam todas as correntes
do conhecimento e da sabedoria, que fluem através do
tempo, e alimentam as inteligências das criaturas.
1452. Comparar com o versículo 53 da 20ª Surata. Mihad –
um tapete ou leito – não implica apenas em liberdade de
movimento, mas também em descanso.
1453. Por analogia, todos os meios de transporte, incluindo
cavalos, camelos, navios, trens, aeroplanos etc.. A
domesticação os animais, bem como a invenção da
máquina, requerem habilidade e empenho do homem, que
lhe são concedidos por Deus como mercês.
1454. Imaginar deusas ou mães ou filhas de Deus era
blasfêmia, na boa de um povo que tratava o sexo feminino
com desprezo. Tais eram os árabes idólatras e tais são
alguns dos atuais. Eles estremecem quando uma filha lhes
nasce e desejam ardentemente ter filhos varões. Como,
com essa mentalidade, atribuem filhas a Deus?
1455. Nota-se a 1ª pessoa do singular, mostrando a
solicitude pessoal de Deus aos descendentes de Abraão,
em ambos os ramos. O contexto, aqui, se refere à
prosperidade, desfrutada por Makka e seus habitantes, até
que rejeitaram a verdade do Islam, pregado em seu seio
por um Mensageiro, cuja mensagem era tão clara quanto a
luz do sol.
1456. Ornamentos: palavra-chave desta surata. Todos os
fatos resplendores e ornamentos deste mundo nada são.
Eles mais atrapalham do que ajudam.
1457. A distância entre o Oriente e o Ocidente;
literalmente, “a distância entre os dois Orientes”. A maior
parte dos exegetas o compreendem neste sentido, mas
alguns interpretam a frase como significando a distância
entre os dois pontos do nascer do sol, entre o solstício de
verão e o solstício de inverno. Comparar com o versículo 5
da 37ª Surata.
1458. Os galardões e as correntes de ouro estavam,
possivelmente, entre os sinais da realeza. De qualquer
modo, eles denotavam riqueza, e os materialistas julgam
um homem pela riqueza, pelos seus seguidores e pelos
seus equipamentos. Assim o Faraó desejava ver Moisés.
1459. Jesus era um homem e um profeta para os israelitas,
apesar de não ter sido aceito por eles. Algumas das
igrejas, fundadas depois dele, adoraram-no como “Deus” e
como “o filho de Deus”, a exemplo da igreja trinitária dos
nossos dias. As igrejas ortodoxas fizeram o mesmo
durante o tempo do Profeta Mohammad. Quando a
doutrina da Unidade foi renovada e a falsa adoração de
outros, ao lado de Deus, foi estritamente proibida, todos os
falsos deuses foram condenados (ver versículo 98 da 21ª
Surata). Jesus foi um dos maiores profetas; não era um
deus, nem foi responsável pelas evasivas sutis do Credo
Atanasiano.
1460. Se se disser que o nascimento de Jesus sem pai
coloca-o acima dos outros profetas e que a criação dos
anjos sem o concurso de pai e mãe, isso os colocará mais
alto ainda, especialmente porque os anjos não necessitam
de alimentos e não estão sujeitos às leis físicas. Todavia,
os anjos não são superiores.
1461. Isto é compreendido como se referindo à segundo
vinda de Jesus, nos Últimos Dias, logo antes da
ressurreição, quando ele destruirá as falsas doutrinas que
usam o seu nome, e preparará o caminho para a aceitação
Universal do Islam.
1462. Nos versículos 26-28 é feito um apelo aos árabes
idólatras, no sentido de que o Islam é a sua própria
religião, a religião de Abraão, seu antecessor; nos
versículos 46-54, é feito um apelo aos judeus, no sentido
de que o Islam é a mesma religião que fora ensinada por
Moisés; nos versículos 57-65 é feito um apelo aos cristãos,
mostrando que o Islam é a mesma religião que fora
ensinada por Jesus.
1463. “Frutos” e “alimentos” são metáforas. Mesmo como
símbolos, o comer e o beber foram sugeridos por
“bandejas e copos de ouro”, no versículo 71, acima. Os
“frutos”, aqui, estão ligados às últimas palavras do
versículo 72: “que herdastes por vossas boas ações?” Não
é a doutrina de “recompensas”, assim estritamente
chamada. Uma recompensa é medida por mérito, mas aqui
a bênção está além dos méritos ou merecimentos. É uma
doutrina de trabalhos com seus frutos. Cada ato deve Ter a
sua inevitável conseqüência.
1464. A palavra acala é usada em muitas passagens, no
sentido de “desfrutar”, “ter satisfação”; ver o versículo 69
da 5ª Surata e o versículo 19 da 7ª Surata.
1465. Málik: literalmente, senhor ou proprietário; aplicado
ao anjo guardião do inferno.
1466. Os exegetas clássicos constróem esta cláusula de
modo diferente. De acordo com a sua construção, poderia
ser: “Com exceção daqueles que declaram a verdade, e
com pleno conhecimento.”
1467. Os exegetas têm opinião dividida quanto à
construção. Alguns acham que o termo Quílihi é um
genitivo, governado pelo termo ‘Ilm, do versículo 85. Outra
construção seria considerar o wau como de juramento, e
nesse caso haveria necessidade de outras cláusulas para
se completar o sentido.
1468. Ver a nota do 1º versículo da 2ª Surata.
1469. Geralmente considerada uma noite do mês de
Ramadan, a 23ª, 25ª ou 27ª noite desse mês. É
denominada a Noite do Poder, nos versículos 1-2 da 97ª
Surata. A noite em que a Mensagem de Deus é enviada é
deveras uma noite abençoada.
1470. Que dia é este? Ele se refere, obviamente, a uma
grande calamidade e, pelas explicações, deve ser uma
grande calamidade futura, vista com o olho profético. A
palavra yaghcha, no versículo 11, deve ser comparada à
palavra gháchya, do versículo 1 da 88ª Surata, a qual se
refere ao Dia do Julgamento. Porém, o versículo 15,
abaixo, “ainda que vos atenuássemos transitoriamente o
castigo”, mostra que é alguma calamidade que está por
acontecer.
1471. A fumaça é interpretada, baseando-nos em
fidedignas autoridade, como se referindo a uma severa
fome em Makka, durante a qual os homens estavam tão
marcados pela mesma, que viam uma névoa na frente dos
olhos, quando olhavam para o céu. Abu Sufian (8 anos
após a Hégira) foi ter com o Profeta, para que ele
intercedesse e orasse pela cessação da mesma, posto que
os idólatras atribuíam-na à praga do Profeta.
1472. Esta passagem refere-se mais à queda do orgulhoso
Faraó e do seu povo, do que à história de Moisés.
Também os versículos 30-33 desta se referem às mercês
sobre os israelitas, contrastando com o seu orgulho,
descrença e queda; e o versículo 37 refere-se ao antigo
reino de Himiar, no Iêmen, no qual, por sua vez, ruiu por
seus pecados.
1473. Tuba é compreendida como um título ou nome de
família dos reis de Himiar, no Iêmen, da tribo de Hamdan.
Os himiaritas formavam um antigo povo. Em certo tempo
parece que estenderam a sua hegemonia a toda a Arábia,
e talvez para além, até à costa Oriental africana. Sua
religião parece ter sido o sabeísmo, ou a adoração por
corpos celestes. Parece também que, em épocas
diferentes, professaram o judaísmo e o cristianismo. Entre
os embaixadores enviados pelo Profeta nos anos 9-10 da
Hégira, um fora enviado ao povo de Himiar o que causou o
seu ingresso no Islam. Isto ocorreu, certamente, bem
depois da revelação desta surata.
1474. Ver a 37ª Surata, versículo 12.
1475. Os companheiros, como o cenário, as vestimentas,
as perspectivas e as frutas serão belos. Estas palavras
simbólicas não devem ser tomadas como significando que
haverá comidas, bebidas, vestimentas ou casamentos, ou
qualquer coisa física dessa espécie. Haverá vida, mas livre
de todas as coisas terrenas. As mulheres, assim como os
homens desta vida, alcançarão esta indescritível bênção;
19ª Surata, versículo 72; e os objetos de beleza, graça e
satisfação, descritos simbolicamente, devem aplicar-se a
ambos.
1476. Hur implica as seguintes idéias: pureza;
possivelmente a palavra, Hawarium, aplicada aos primeiros
discípulos de Jesus, esteja ligada a esta raiz; beleza,
especialmente dos olhos, onde aparece o branco intenso
do globo ocular, em contraste com o imenso negro das
pupilas, dando assim a aparência de lustre, e sentimento
intenso, em contraste à inércia de expressão; verdade e
boa vontade.
1477. Seu significado metafórico está explicado na nota do
versículo 73 da 43ª Surata.
1478. Ver a nota do versículo 1 da 2ª Surata.
1479. Comparar com o versículo 14 da 16ª Surata. O
oceano, que quase cobre a totalidade do nosso globo,
constitui um dos fatos mais significantes da nossa
geografia física. Sua água salgada é um agente de higiene
do globo. Os efeitos do ar salubre do mar, com o seu
ozônio, são bem conhecidos por todos que recuperaram a
sua saúde graças a ele. Os navios são meios de
comunicação e de intercâmbio entre a humanidade.
1480. Comparar com o versículo 54 da 7ª Surata.
Interpretamos “o dia de Deus” não como períodos de 24
horas, mas como estágios, durante os quais os propósitos
de Deus agem sobre nós, mostrando-nos o sentido do
pecado e o significado das suas mercês. Devemos ser
pacientes com aqueles que ainda não alcançaram tal
significado. “Os dias de Deus” podem, também, significar
os Dias do Reino de Deus, quando o mal será destruído e
a autoridade de Deus reinará inquestionavelmente.
1481. “Povo”, aqui, deve ser entendido como um grupo
com características comuns, os virtuosos, em contraste
com os perversos, os oprimidos, em contraste com os
opressores, e assim por diante.
1482. Chari’at: Achamos por bem traduzir por “caminho
reto da religião”, por ser mais amplo do que as meras
formalidade rituais e legais, reveladas em Madina, em
período bem posterior a este versículo, revelado em
Makka.
1483. Comparar como versículo 37 da 23ª Surata. O toque
adicional, aqui “E não nos aniquilará senão o tempo”,
denota a filosofia materialista para a qual a matéria e o
tempo são eternos e, apesar de as pessoas perecerem, a
raça permanece, até que o tempo a destrua. Isto não
passa de conjectura.
1484. A palavra-chave deste Surata.
1485. Comparar com o versículo 51 da 7ª Surata. O termo
“esquecer” é, certamente, metafórico, para significar
“ignorar deliberadamente”.
1486. Tendo sido completado o argumento sobre os frutos
desta vida, e sendo eles colhidos, na vida futura, quando o
perfeito equilíbrio será restaurado e a justiça reinará, a
Surata termina com louvores e glórias a Deus. Note-se
como o argumento é completado pela permanência da
última cláusula do versículo 2 da mesma.
1487. Ver a nota da 2ª Surata, versículo 1.
1488. Houve sábios judeus e cristãos que viram no Profeta
o Mensageiro de Deus, predito nas revelações anteriores
e, por isso, aceitaram o Islam. Como esta Surata foi
revelada em Makka, não precisamos considerar isto como
referente a Abdullah Ibn Salam, cuja conversão se deu em
Madina, dois anos antes da morte do Profeta, a menos que
entendamos este versículo como revelado em época
posterior.
1489. Uma grande parte dos primeiros muçulmanos
ocupava posições humildes e era menosprezada pelos
líderes coraixitas. Eles diziam, sarcasticamente: “se tais
homens pudessem ver qualquer bem no Islam, não poderia
haver nenhum bem nele; e se houvesse algum bem,
seríamos os primeiros a percebê-lo!”
1490. Na 31ª Surata, versículo 14, o tempo de desmama
foi estabelecido em dois anos, ou seja, 24 meses. Isto
deixa seis meses como um período mínimo de gestação,
depois do qual sabe-se que a criança está formada. E isto
está de acordo com as mais recentes descobertas
científicas. O tempo médio é de 280 dias, ou dez vezes o
período menstrual. O tempo máximo de amamentação
(dois anos) está novamente de acordo com o tempo de
complementação da primeira dentição. Os incisivos
inferiores centrais de leite aparecem entre o sexto e o nono
meses; então aparecem os de leite intervalos, até ao
aparecimento dos caninos. Os segundos molares
aparecem aos 24 meses, e com eles a criança tem a
dentição de leite completa. A natureza, nesta altura, espera
que ela mastigue e seja independente do leite da mãe. Por
outro lado, amamentar uma criança com a dentição de leite
completa machucaria a mãe. Os dentes permanentes
começam a aparecer aos seis anos de idade, e os
segundos molares aparecem aos 12. Os terceiros molares,
ou dentes de siso, aparecerão aos 18 ou 20 anos, ou
nunca.
1491. A idade da puberdade é estabelecida entre os 18 e
30 anos. Entre os 30 e 40 anos o homem está na sua
maturidade. Depois disso, ele começa a se preocupar com
os filhos e a instruir a nova geração. Talvez as suas
faculdades espirituais, após os 40 anos, alcancem o mais
alto nível.
1492. Dunas “Ahcaf”. São as longas extensões de montes
de areia, características do país do povo de Ad, unido o
Hadramaut e o Iêmen. Ver o versículo 65 da 7ª Surata.
1492-a. Todo o trabalho espiritual se processa no devido
tempo. Não devemos nunca ser impacientes, tanto acerca
do seu sucesso, como da punição, que na certa virá para
aqueles que se opõem a ele, ou o suprimem. A punição
inevitável é relatada como a Punição Prometida. Ela
acontecerá tão pronta e repentinamente, que parecerá não
haver o retardamento de uma simples hora, num simples
dia! O tempo constitui um grande fator, nos nossos
afazeres deste mundo, mas ele quase não conta, no Reino
espiritual.
1493. Uma vez a luta iniciada, participai dela como todo o
vigor e desferi os vossos golpes nos pontos mais vitais.
Não podeis manipular a guerra com luvas de pelica.
1494. No primeiro ataque haverá, necessariamente,
grandes perdas de vidas; mas quando o inimigo estiver
completamente batido, não mais estando apto a investir
contra a verdade, firmes arranjos devem ser efetuados,
para colocá-lo sob controle. Comparar com o versículo 67
da 8ª Surata.
1495. Quando o inimigo estiver sob controle, a libertação
dos prisioneiros, com ou sem resgate, é recomendada.
1496. Há duas alternativas de leitura: Cátalu (lutaram) e
cútilu (foram mortos). O significado da primeira alternativa
é mais amplo e inclui a Segunda. Traduzimo-la de acordo
com a segunda alternativa, baseados no texto da edição
egípcia de Alazhar.
1497. Uma referência aos idólatras de Makka, que
expulsaram o Profeta pela retidão deste e por ele pregar o
arrependimento. A data da revelação desta surata deve ser
posterior à Hégira.
1498. Neste simbolismo há quatro espécies de bebidas e
toda a espécie de frutos. As quatro espécies de bebidas
são: água impoluível; leite de sabor inalterável; vinho
deleitante e mel. Metaforicamente, estas bebidas
refrescarão o espírito, alimentarão o coração, amainarão
as aflições e adoçarão a vida.
1499. Comparar com o versículo 42 da 10ª Surata e com
os versículos 25 e 36 da 6ª Surata. O caso, aqui, se refere
aos hipócritas, que compareciam às assembléias do Islam
em Madina e fingiam ouvir os ensinamentos e as
pregações do Profeta. Porém, seus corações e suas
mentes não ocupavam em aprender, mas em criticar as
coisas que viam e ouviam. Quando saíam, nada sabiam
dos ensinamentos, e formulavam perguntas néscias, para
levantarem dúvidas.
1500. Rostos e dorsos: há uma sutil metáfora, aqui. Os
rostos são os que olham para a frente, para o mundo
exterior; o dorso é o oculto do mundo. Os hipócritas serão
golpeados em ambos os pontos. Comparar com o
versículo 50 da 8ª Surata.
1500-a. A dedicação completa, se voluntariamente
oferecida, significa que a devoção da pessoa é exclusiva e
completamente para a Causa. Porém, lei ou norma alguma
poderá demandá-lo. E a mera proposta de a pessoa se
matar não tem significado. Deveis estar prontos a arriscar
as suas vidas, lutando pela Causa, mas deveis ter como
meta a vida, não a morte. Se viverdes, devereis estar
prontos para colocar a vossa substância e a vossa
aquisição à disposição da Causa. Contudo, não é racional
que torneis pobres e dependentes, pela Causa.
1501. refere-se ao Tratado de Al Hudaibiya. Por este
tratado, os coraixitas de Makka, depois de muitos anos de
conflitos inflexíveis com o Islam, por fim reconheciam a
força do mesmo como igual à deles. Na realidade, a porta
foi, então, aberta, para a livre expansão do Islam através
da Arábia, e depois, para o mundo.
1502. Nas negociações do Tratado de Al Hudaibiya,
quando não se sabia se a delegação do Profeta seria bem
ou mal recebida pelos coraixitas, havia uma grande
expectativa, no campo muçulmano, composto de 1.400 a
1.500 homens. Eles vieram com grande entusiasmo e
juraram fidelidade ao Profeta, colocando as suas mãos em
conjunto, uma em cima da outra, de acordo com o costume
árabe. Isto, por si só, já era uma fabulosa demonstração de
força física e moral, uma verdadeira vitória. É chamado “O
Juramento de Fidelidade de Comprazer a Deus” (bai’at ur
radwan) na história islâmica.
1503. Quando o Profeta iniciou a sua jornada em direção a
Makka, terminando em Hudaibiya, ele pediu que todos os
muçulmanos se juntassem a ele, e teve um esplêndido
atendimento. Porém, algumas tribos do deserto
apresentaram desculpas para não se juntarem a ele. Suas
desculpas eram que estavam ocupados em proteger as
suas famílias, os seus rebanhos e a sua gente.
1504. A grande cerimônia do Juramento de Fidelidade
aconteceu debaixo de uma árvore, na planície de
Hudaibiya. Essa árvore tornou-se objeto de muitas
superstições e venerações por parte das gerações
posteriores, e teve de ser cortada.
1505. Pequenos acidentes aconteceram, quase
envolvendo muçulmanos e coraixitas em uma luta. Por um
lado, os coraixitas estavam determinados a conservar os
muçulmanos fora da cidade, sem que tivessem direito a
isso. Por outro, os muçulmanos, apesar de desarmados,
estavam determinados a permanecer juntos e, se fossem
atacados, a forçar a sua entrada na Caaba, no centro de
Makka. Porém, Deus impediu ambos os lados de qualquer
coisa que pudesse violar a paz do Santuário. Depois da
assinatura do tratado, todo o perigo cessou.
1506. Os muçulmanos de Madina haviam trazido animais
para o sacrifício e haviam vestido o Ihram, a vestimenta da
peregrinação (ver versículo 197 da 2ª Surata). Eles não
foram apenas proibidos de entrar em Makka, mas também
lhes foi proibido levar os animais para o local de sacrifício.
Este foi efetuado, então, em Hudaibiya.
1507. Na época, havia em Makka muçulmanos de ambos
os sexos, e a crença de alguns deles era desconhecida
dos seus irmãos de Madina. Se a luta tivesse sido iniciada
em Makka, mesmo os muçulmanos tendo tido sucesso,
poderiam inadvertidamente matar alguns desses
muçulmanos desconhecidos, e assim cometeriam o
pecado de derramar sangue de muçulmanos. Isto foi
evitado pelo tratado.
1508. O Profeta havia tido um sonho, no qual ele
adentrava a Mesquita Sagrada de Makka, pouco antes de
se decidir pela viagem, que resultou no Tratado de Al
Hudaibiya. Por aquele tratado, ele e os seus seguidores
puderam, no ano seguinte, sem qualquer molestamento,
cumprir os rituais da peregrinação, com as vestimentas
apropriadas e com os cabelos cortados.
1509. A similaridade no Evangelho, é a respeito de como a
boa semente brota e cresce gradualmente, mesmo acima
da expectativa do semeador: “…e a semente brotaria e
cresceria, não sabendo ele como. Porque a terra por si
mesma frutifica, primeiro a erva, depois a espiga, por
último o grão na espiga” (Marcos 4:27-28).
1510. Tudo são tagarelices e relatos – especialmente se
oriundos de pessoas desconhecidas – e tudo deve ser
testado e a verdade verificada. Se fossem acreditados
causariam muitas injúrias, pelo que depois disso, vos
arrependeríeis. O escândalo e a calúnia de toda a espécie
são, aqui, condenados.
1511. As querelas individuais são mais fáceis de ser
resolvidas do que as dos grupos, ou, no mundo moderno,
as querelas de âmbito nacional. A coletividade islâmica,
porém, deveria ser a mais importante, entre os grupos ou
as nações. Seria de se esperar que agisse com justiça e
tratasse de resolver as querelas, pois a paz é melhor do
que guerra. Se uma parte, porém, estiver determinada a
ser agressora, toda a força da comunidade deverá
combatê-la. A condição essencial, certamente, é que haja
perfeita eqüidade, justiça e consideração aos princípios
superiores.
1412. A observância da Irmandade Islâmica é o maior ideal
social do Islam. Nele foi baseado o sermão do Profeta, na
Peregrinação de Despedida, e o Islam não poderá ser
completamente executado sem que esse ideal tenha sido
alcançado.
1513. A ridicularização mútua deixa de ser divertida
quando há nela arrogância ou egoísmo ou malícia.
Podemos rir com as pessoas para compartilhar da sua
alegria de vida; nunca ri das pessoas, pois elas podem ser
melhores do que nós em muitas coisas.
1514. A difamação pode consistir em falar mal dos outros,
por meio de palavras ou atos, de tal modo que sugira uma
acusação contra alguma pessoa que não estejamos em
condições de julgar. Observação mordaz, injuriante ou
sarcástica está incluída na palavra lamaza. Um apelido
ofensivo pode acarretar difamação, mas em todo caso, não
se deve usar apelidos ou nomes que sugiram algum
defeito real ou imaginário. Por exemplo, mesmo se um
homem é coxo, é condenável chamá-lo “ó coxo!”, isto
causar-lhe-ia dor, além de constituir péssimas maneiras. O
mesmo caso aplica ao homem de cor.
1515. Muitas espécies de suspeitas são infundadas e
devem ser evitadas, e algumas são, por si, crimes, pois
causam injustiça cruel a inocentes. Espionar ou questionar
curiosamente sobre os assuntos de outrem, significa ou
curiosidade inútil – e isto é futilidade – ou expediente levado
a um estágio que se torna pecado.
1516. Ninguém poderia nem mesmo pensar em tal
abominação, como a de comer a carne do seu irmão. Mas
quando o irmão morre, a carne torna-se carniça, e à
abominação é acrescentada abominação. Da mesma
maneira somos advertidos a nos refrear de ferir os
sentimentos dos outros quando estão presentes; bem pior
seria se disséssemos coisas verdadeiras ou falsas sobre
eles, quando estão ausentes.
1517. Isto é dirigido a toda a humanidade e não apenas
aos muçulmanos, já que é compreendido quem em um
mundo perfeito os dois poderiam ser sinônimos. Como foi
formada, a humanidade descende de um casal de
progenitores. Suas tribos, raças e nacionalidades são
rótulos convencionais, através dos quais podemos
distinguir certas características diferentes. Perante Deus,
são iguais, e ele agracia mais o mais virtuoso.
1518. Os beduínos estavam indecisos em sua fé. Seus
corações e mentes eram mesquinhos, e eles pensavam
em coisas mesquinhas, enquanto o Islam requeria a
completa submissão do ser a Deus. Alguns defeitos dos
beduínos são descritos nos versículos 11-15 da 48ª
Surata. A referência, aqui, porém, é dirigida aos Banu
Asad, que passaram a professar o Islam, a fim de
conseguirem caridade durante um período de fome.
1519. Ver a nota do versículo 1 da 2ª Surata.
1520. Os maiores filósofos encontraram dificuldade em
compreenderem a posição cética quando contemplavam a
maravilha e o mistério dos céus, com todos os incontáveis
astros e estrelas, e a luz que se desprende deles, as leis
de ordem, o movimento e a simetria que correspondem às
mais elevadas abstrações matemáticas, sem uma falha.
Poderia a mudança cega criar tais condições?
1521. Comparar com o versículo 3 da 13ª Surata e com o
versículo 19 da 15ª Surata. A terra é redonda e, no
entanto, parece estirada, como uma vasta expansão,
semelhante a um tapete, conservado firme com o peso das
montanhas.
1522. Ver a nota do versículo 38 da 25ª Surata.
1523. Ver o versículo 37 da 44ª Surata.
1524. Isto deve ser tomado em sentido figurado. Dois anjos
estarão constantemente perto dele, para anotarem seus
pensamentos, palavras e ações.
1525. Então, cada “palavra” pronunciada é anotada pelo
observador (raquib). Isto significa que o observador apenas
registrará palavras, e não pensamentos que não tenham
sido exteriorizados. Os pensamentos podem ser
perdoados, se não forem exteriorizados e se não forem
colocados em ação.
1526. Como Cristo disse: “Quem tem ouvidos para ouvir,
ouça”. (Mateus 11:15). Muitas lições espirituais podem ser
aprendidas por qualquer um que tenha o coração e a
compreensão para pôr em prática os ensinamentos de
Deus e possa formar pensamentos genuínos daquilo que
vê.
1527. Quatro agentes são mencionados nos versículos de
1 a 4, como evidências, ou tipos, ou símbolos da precisão
e da unidade da verdade, descritos nos versículos 5 e 6. O
que são esses agentes é descrito por certos particípios
adjetivos, como o substantivo no plural usualmente
compreendido como “ventos”. O termo para vento, “Rih”, é
feminino em árabe. Alguns exegetas, todavia,
compreendem que outros substantivos estão implicados,
ou seja, anjos, nos quatro versículos, ou coisas diferentes,
em cada um dos quatro.
1528. Estes devem ser os ventos que sopram as velas dos
navios com suaves e favoráveis brisas, e que levam
homens e mercadorias aos seus destinos.
1529. Estes devem ser os ventos (ou outros agentes) que
distribuem as chuvas, de acordo com as ordens de Deus.
1530. O estudo das numerosas órbitas regulares dos
planetas e das órbitas irregulares dos cometas, e os vários
movimentos, visíveis e invisíveis, das estrelas em
gravitação, forma por si, uma rede de conhecimentos ou
ciência, de uma natureza elevadíssima.
1531. Alguns exegetas inferem deste versículo uma rígida
doutrina da Predestinação ou Determinismo, não
claramente deduzível das palavras. A palavra Úfica
(desencaminhar, desviar) ocorre em muitos lugares, no
Alcorão. Ver o versículo 75 da 5ª Surata ou o versículo 30
da 9ª Surata.
1532. A verdadeira caridade não se lembra apenas
daqueles necessitados que pedem, mas também daqueles
que são impedidos por alguma razão, de pedir. O homem
de verdadeira caridade busca este último. A caridade, no
seu elevado sentido, inclui todo o tipo de ajuda, de alguém
mais agraciado para o menos agraciado. Comparar com o
versículo 177 e com os versículos 273-274 da 2ª Surata.
1533. A evocação é sobre cinco coisas que explicaremos
agora. Uma exortação é feita àqueles cinco sinais, nos
versículos 1 a 6, onde a certeza de futuros eventos é
asseverada, nos mais enfáticos termos, nos versículos 7 a
28, em três partes, ou seja: a chegada do Dia do
Julgamento e o desaparecimento deste mundo dos
fenômenos (versículos 7 a 10): os males futuros,
conseqüência dos maus atos (versículos 11 a 16); e o
alcance das bênçãos e completa realização do amor e das
mercês de Deus (versículos 17 a 28).
1534. Os cinco sinais, aos quais a exortação é feita, são:
(1) o monte (da revelação) – versículo 1; (2) o livro escrito
(versículos 2-3); (3) o templo freqüentado (versículo 4); (4)
o céu elevado (versículo 5); (5) os oceanos abundantes de
água (versículo 6).
1535. O templo freqüentado é usualmente compreendido
como a Caaba, porém, pode significar qualquer templo, ou
casa de oração, dedicado ao Deus verdadeiro.
1536. O céu elevado é o céu cujos limites não podem ser
alcançados pela mente humana. E o Templo da Natureza,
no qual todas as criaturas adoram a Deus – o símbolo em
que o material é o visível se fundem no espiritual e
intuitivo.
1537. O oceano – o vasto e ilimitado oceano – é o símbolo
material da natureza universal, ilimitada e compreensiva,
do mundo espiritual e invisível. É designado como
transbordante, cheio de poder, inundando toda a terra.
Comparar com o versículo 6 da 81ª Surata. É uma
descrição perfeita do desaparecimento final do nosso
mundo transitório e do estabelecimento supremo da
realidade, depois disso.
1538. Isto completa os cinco sinais ou símbolos, por
intermédio dos quais o homem tem a certeza de que o
julgamento virá. Note-se que eles foram mencionados em
ordem decrescente; o mais elevado, ou o mais remoto na
consciência humana, em primeiro, e o mais próximo, por
último.
1539. O dia do Julgamento é caracterizado por duas
figuras: “O firmamento oscilará energicamente”. O céu,
como o vemos, sugere-nos paz e tranqüilidade, e o poder
das leis fixas, as quais todos os corpos celestes
obedecem. Isto será sacudido no despertar do novo mundo
espiritual. (Para a segunda figura, ver a nota seguinte.)
1540. As montanhas são um símbolo de firmeza e
estabilidade. Porém, as coisas que consideramos firmes e
estáveis, nesta vida material, são desintegradas, e não
serão mais substanciais do que uma miragem no deserto.
1541. Taças para beber; em nossa vida, neste mundo,
podem ser mal usadas, em duas oportunidades: (1) podem
ser ocasiões de meras frivolidades ou perda de tempo; (2)
podem acarretar maus pensamentos, más sugestões, más
palavras ou más ações. Para salvaguardar a alegoria,
adicionamos que o cálice estará livre de qualquer
incitamento ao pecado. Será puro, em qualquer grosseria.
1542. A alegoria continua. Não há problemas de sexo nos
céus. Porém, a característica de graça e gentileza da
feminilidade implicada na palavra Hur (companheiras,
versículo 20, acima), é mencionada, bem como a
característica da simpatia e força da masculinidade, na
alegoria das pérolas.
1543. Foram eles criados do nada? Três significados
alternativos são sugeridos pelos exegetas, de acordo com
o significado que damos à preposição árabe min: de, por,
com, para: (1) Foram eles criados por nada? ou seja,
vieram a existir por si próprios? Foi mera coincidência a de
se tornarem seres? (2) foram eles criados de nada? ou
seja, não houve uma maravilhosa semente, da qual pode
ser traçado o crescimento de sua matéria como o trabalho
de um Criador Onisciente? (3) foram eles criados para
nada? Se eles fossem criados para um propósito, não
deveriam eles tentar aprender tal propósito,
compreendendo as Revelações de Deus?
1544. Uma referência a um credo idólatra, que dizia que
por intermédio de uma escada material, o homem pode
galgar até ao céu e estudar os seus segredos!
1545. Comparar com os versículos 57-59 da 16ª Surata.
De acordo com o Evangelho da Unidade, é repugnante
atribuir as gerações de filhos ou filhas a Deus. Mas as
superstições árabes, de os anjos serem filhas de Deus, era
blasfêmia, já que os próprios árabes detestavam ter filhas
e consideravam um símbolo de humilhação.
1546. Praticamente todos os tradutores e exegetas
compreendem tacumu, no sentido de acordar do sono. No
versículo 218 da 29ª Surata, temos as mesmas duas
palavras, hina tacumu, com o significado de se erguer
(para orar). No versículo 25 da 57ª Surata, temos “liacumu
an-nasu bilquisti”, com o significado de observar a justiça.
No versículo 38 da 78ª Surata, temos yacumu, usada para
os anjos no sentido de comparecerem enfileirados.
1547. Não é necessário compreender isto como uma
oração carônica especial. É bom passar um parte da noite
em oração. Comparar com o versículo 6 da 78ª Surata e
com os versículos 78-79 da 17ª Surata.
1548. Najm é interpretada de várias maneiras. Como é
mais comumente aceito, significa ou uma estrela genérica
ou o agrupamento de sete estrelas, conhecidas como as
plêiades da Constelação de Touro.
1549. Camarada: trata-se do Profeta Mohammad que viveu
entre os coraixitas durante toda a sua vida.
1550. Refere-se ao Anjo Gabriel, por intermédio do qual a
revelação foi feita.
1551. Dois arcos, formando um círculo completo de união.
1552. A palavra “coração”, em árabe, inclui a faculdade da
inteligência, bem como a do sentimento.
1553. A primeira ocasião em que Gabriel apareceu, numa
forma visível, foi no Monte Hirá, quando trouxe a primeira
revelação, que se inicia com a palavra: “Lê” (ver os
versículos 29-35 da 100ª Surata). A segunda vez foi na
“Viagem Noturna” (ver a 17ª Surata). Estas foram as duas
únicas vezes em que Gabriel apareceu, em sua forma
visível.
1554. Para o significado literal da árvore de Lótus, ver a
nota do versículo 16 da 24ª Surata).
1555. A morada eterna deve sempre estar em nossos
pensamentos. Ela e alcançada quando o conhecimento
espiritual do homem não mais consegue alcançar um
conhecimento mais elevado.
1556. Os três principais ídolos do idólatras árabes eram:
Lat, Uzza e Manata. Há opiniões divergentes, quanto à sua
forma. Uma versão diz que Lat possuía a forma humana,
Uzza tinha a sua origem numa árvore sagrada, e Manata
numa pedra branca. Todos representavam Deus numa
forma feminina.
1557. Comparar com os versículos 57-59 da 16ª Surata e
com o versículo 39 da 52ª Surata.
1558. O homem, com a sua mente materialista, cujos
desejos estão ligados ao sexo e às coisas materiais, nunca
irá além dessas coisas. Seu conhecimento será limitado ao
estreito círculo em que os seus pensamentos se movem. O
mundo espiritual está além da sua percepção.
1559. Livros de Moisés: aparentemente não se trata de
Pentateuco ou da Tora, mas de outros livros, agora
perdidos. Por exemplo, o Livro das Guerras de Jeová,
mencionado no Antigo Testamento (Números 21:14), eu
ora está perdido. O Pentateuco presente não possui uma
mensagem clara sobre a vida futura.
1560. Não existe nenhum livro original de Abraão. Mas um
livro, chamado “O Testamento de Abraão”, chegou até nós,
e parece ser uma tradução grega do hebraico.
1561. Aqui se segue uma série de onze aforismos da
sabedoria antiga, incorporados aparentemente no folclore
semita vigente. O primeiro é sobre a carga espiritual do
homem – a responsabilidade por seus pecados – que deve
ser arcada por ele próprio e não por outra pessoa. Não
poderá haver expiação vicária.
1562. O segundo e o terceiro aforismo são aqueles de que
o homem devem lutar, ou nada obterá. Se ele lutar, o
resultado aparecerá brevemente, e ele encontrará a sua
recompensa na medida exata.
1563. O quarto, o quinto e o sexto aforismos dizem que
todas as coisas retornarão a Deus. Que todas as nossas
esperanças devem estar depositadas n’Ele.
1564. O sétimo aforismo relaciona-se com o mistério do
sexo: todas as coisas são criadas em pares; casa sexo
cumpre a sua própria função.
1565. A Sua promessa de que ressuscitará os mortos,
dando-lhes uma nova vida no outro mundo, é maravilhosa.
Este é o tema do oitavo aforismo.
1566. Riqueza e lucros materiais são desejados pela maior
parte dos homens. Esta esperança, porém, não é sempre
alcançada. Há um lado físico e outro espiritual, para isso.
Mas ambos os lados, o material e o espiritual, dependem
do Plano de Deus. Isto é mencionado no nono aforismo.
1567. O décimo aforismo refere-se a um poderoso
fenômeno da natureza, o magnífico astro Sírio, que
aparece proeminente nos céus, em algumas épocas do
ano. É a estrela mais brilhante do firmamento. Os árabes o
adoravam como divindades.
1568. O décimo primeiro aforismo refere-se à punição dos
povos mais antigos, por seus pecados.
1569. Dois significados as o inferidos, e talvez ambos
sejam aplicados aqui: que o profético passado indica o
futuro; a fenda da lua indica o sinal da aproximação do
Julgamento; que a frase é metafórica, significando que o
assunto torna-se claro como a lua. O primeiro pode ser a
ruptura do sistema solar na nova criação. Comparar com
os versículos 8-9 da 75ª Surata. O segundo poderá ser
uma alegoria oriental, baseada no primeiro significado.
1570. Um refrão, que ocorre seis vezes nesta surata.
1571. O povo egípcio é o último mencionado nesta surata,
como exemplo de iniqüidade. Os egípcios tiveram muitos
sinais. Era um povo agraciado, que alcançou tantos
progressos na ciência e na arte. Ele deveria ter tirado
lições da história, no sentido de que quando as altas
virtudes desaparecem, a nação decai. Ver os versículos
75-90 da 10ª Surata.
1572. Os cálculos dos injustos na ciência, nas pesquisas,
nos números, etc., serão adulterados, mesmo neste
mundo, como é estabelecido nos dois últimos versículos.
Mas a sua punição real virá no Dia do Julgamento, quando
encontrarão o seu lugar real no mun
Fonte de toda a Luz, e a Sua Luz é difundida por todo o
Universo.
1575. Najm pode significar, tanto ervas como estrelas, ou
ambas as coisas.
1576. Deve ser considerado, tanto literalmente como em
sentido figurado. Um homem deve ser honesto e reto em
todos os assuntos cotidianos, tais como pesar coisas que
ele estiver vendendo; ele deve ser reto, justo e honesto,
em todos os altos negócios, não apenas para com as
outras pessoas, mas para consigo próprio, em obediência
às leis de Deus. A justiça e a virtude central e o evitar tanto
os excessos como os defeitos, na conduta, conservam o
mundo humano contrabalançado, tal como o mundo
celestial é conservado contrabalançado, por ordem
matemática.
1577. Literalmente, os dois orientes e os dois ocidentes.
São os dois pontos separados, onde o sol nasce durante o
ano, e inclui todos os pontos intermediários. Similarmente,
quanto aos dois ocidentes, são os dois pontos separados
do pôr-do-sol e todos os pontos intermediários. O número
dual está de acordo com a atmosfera geral de dualidade
deste surata.
1578. As pérolas são produzidas por ostras, e o coral pelo
pólipo, uma diminuta criatura marinha que, aos milhões,
através de secreções, produz recifes, ilhas e bancos, em
ambos os lados do Mar Vermelho e em outras partes do
mundo. Ambos, pérolas e corais, são usados como gemas.
As ostras, que produzem as pérolas, são também
encontradas em alguns rios. Consideradas alegoricamente,
as duas espécies de gemas podem denotar as jóias desta
vida e as do mundo espiritual. As jóias deste mundo –
como o coral – são duras, vastamente espalhadas no
mundo, comparativamente baratas e opacas à luz. As jóias
espirituais – como as pérolas – são macias, raras, caras e
translúcidas. A analogia pode ser dos dois tipos de
conhecimento, humano e divino, mencionados na história
de Moisés e Khidhr, porém, a inteligência e a ciência, que
tornaram isto possível, foram concedidas pelo Criador do
homem.
1579. Os navios – navios, trens (e por analogia, aviões e
aeronaves, que navegam majestosamente pelo espaço) –
são feitos pelo homem. Porém, a inteligência e a ciência,
que tornaram isso possível, são dádivas do Criador do
homem e, portanto, os navios são dádivas de Deus.
1580. Como montanhas, devido às altas velas ou mastros,
e à altura dos navios acima da superfície do mar.
1581. Takal: peso, algo pesado. Os dois mundos: trata-se
de gênios e humanos, que foram sobrecarregados som a
responsabilidade ou, como alguns exegetas opinam, com o
pecado. Ambos estão perante Deus, e os assuntos são
conduzidos sob o Seu comando. Se há desigualdade ou
rupturas aparentes do equilíbrio, é só por um período.
Deus deu aos bons e aos maus uma chance, nesse
período de provação; mas esse período cessará
brevemente, e o julgamento será estabelecido.
1582. Ou seja, rosados.
1583. Macsurat (recolhidas), aqui, é o particípio passivo do
mesmo verbo do particípio ativo Cássirat nos versículos 48
da 37ª Surata e outros. Este é o único lugar, no Alcorão,
em que a forma passiva ocorre.
1584. Comparar com o versículo 27 da 55ª Surata. Este
eco menor completa a simetria das duas idéias dominantes
desta Surata: A Honorabilidade e a Majestade de Deus, e o
dever do homem de se fazer merecedor de estar próximo
d’Ele.
1585. O Evento inevitável é a Hora do Juízo Final. As
pessoas, hoje, podem ter dúvidas a respeito da sua
chegada. Porém, quando chegar, repentinamente, chegará
com tão tremenda realidade, que arderá profundamente
em cada alma. Ninguém, então, terá falsas noções a seu
respeito.
1586. Haverá a classificação do Bem e do Mal, ou melhor,
de acordo com o versículo 7, haverá três classes
principais: haverá a classe dos especialmente exultantes,
aqueles que estiveram mais próximos de Deus
(Mucarrabin, versículo 11), os virtuosos, geralmente
chamados de Companheiros da Direita (Ashab-ul
maimana, versículo 27). Haverá, ainda, aqueles que
estarão em agonia, os Companheiros da Esquerda (Ashabulmach-ama,
versículo 41).
1587. Os primeiros crentes: há dois sentidos implícitos:
daqueles que alcançaram os graus mais elevados na
compreensão espiritual, tais como os profetas e os
mentores da humanidade; aqueles que foram os primeiros
a aceitar a mensagem de Deus.
1588. A juventude e a imortalidade dos ajudantes é o
símbolo de uma assistência verdadeira, tal como
esperamos que seja, no mundo espiritual.
1589. Talh, em árabe. Alguns opinam que seja a
bananeira, cujos frutos são sobrepostos. Porém, a
bananeira não nasce na Arábia, e seu nome comum, em
árabe, é mauz. Talvez seja uma espécie de acácia, cujas
flores aparecem sobrepostas.
1590. O pronome, em árabe, está no gênero feminino, mas
para que não surjam idéias vulgares de sexo, é esclarecido
que essas companheiras serão uma criação especial, de
virgindade pura, de graça e beleza, inspirando e inspiradas
no amor, com a eliminação dos problemas da idade e do
tempo.
1591. Ver o versículo 62 da 37ª Surata e o versículo 43 da
44ª Surata.
1592. Tendo apelado para a nossa natureza interior, Ele
apela agora para a exterior, que é evidente para nós. Três
exemplos são dados: a semente que espalhamos no solo;
a água, que bebemos; e o fogo, que ateamos.
1593. Há um hiato, após “Por que, então”, e duas
cláusulas parentéticas, e então o “por que, então” se
repete, com o seu complemento no versículo 87. É
permitido, ao tradutor, acrescentar algumas palavras, aqui,
para tornar a tradução compreensível.
1594. Uma conexão entre este e a última surata. Ver o
versículo 96 da 56ª Surata.
1595. Comparar com o versículo 3 da 10ª Surata. Isto não
significa que Deus completou a criação em seis dias e
descansou no sétimo. Certas formas externas do universo
foram completadas pela ordem de Deus, em seis períodos
de evolução. Mas o Seu processo criativo continua,
estando Ele para sempre em Seu Trono, Onisciente e
Regente de todos os assuntos.
1596. O Profeta Mohammad. Os sinais revelados e ele
são: os versículos do Alcorão, a sua vida e as suas obras,
nos quais o Plano e o Propósito de Deus estão
depositados.
1597. Isto é compreendido como referindo-se à conquista
de Makka, depois da qual os muçulmanos sucederam, no
poder e na posição, aos coraixitas, que deles faziam mau
uso. Depois, os muçulmanos tiveram a hegemonia sobre a
Arábia e, em poucos séculos, tiveram a hegemonia sobre o
mundo. Todavia, as palavras são totalmente genéricas e
devemos compreendê-las no seu sentido genérico,
também: que os povos que oferecem o melhor de si e
lutam pela causa de Deus, a qualquer hora, são louváveis:
porém, merecem distinção especial aqueles que o fazem,
quando a causa está sendo ameaçada e tendo maior
necessidade de assistência, antes de chegarem à vitória.
1598. Uma cuidadosa preparação na vida, e a luz da fé
que reflete a luz divina, são questões de vida pessoal e
não podem ser emprestadas a outro. Assim acontece na
parábola cristã das dez virgens, onde as incautas deixaram
as suas candeias se apagarem por falta de azeite.
Pediram, então, azeite emprestado às prudentes, porém
estas responderam: “Não… ide antes aos que o vendem, e
comprai-os para vós” (Mateus 45:1-13).
1599. A referência aos judeus e aos cristãos
contemporâneos. Para cada uma dessas comunidades foi
dada a revelação de Deus, mas à medida que o tempo
passou, eles a corromperam, tornaram-se arrogantes e de
corações endurecidos, subvertendo a justiça, a verdade e
a pureza da vida. Porém, as lições gerais são bem mais
amplas. Ninguém é favorecido por Deus, a não ser por
motivos de retidão. A não ser nesse caso, não há
referência por indivíduo ou raça. Não há boa ou má sorte;
tudo acontece de acordo com leis justas e a Vontade de
Deus.
1600. Cuffár é usada, aqui, no sentido incomum de
“cultivadores”, porque eles plantam as sementes e as
cobrem com terra. Mas o sentido comum de “pecadores”
também pode ser incluído.
1601. Ferro: o metal mais útil, conhecido pelo homem.
Dele se faz o aço e de ambos são feitos implementos de
guerra, tais como espadas, lanças, armas de fogo, etc.,
bem como instrumentos pacíficos, tais como arados,
instrumentos de pedreiro, de arquiteto, de engenheiro, etc..
o ferro é o símbolo da força, do poder, da disciplina, das
sanções, etc.. as indústrias de ferro e de aço são as bases
da prosperidade e do poder das nações modernas.
1602. A característica principal dos ensinamentos dos
Evangelhos é a humildade. A primeira bênção do Sermão
da Montanha é para “os pobres de espírito”: “Bemaventurados
os pobres de espírito, porque é deles o reino
dos céus”. A mesma frase se aplica aos “que choram” e
aos “mansos”; e foi dito: “Basta a cada dia o seu mal”
(Mateus 6:33). É-lhes recomendado, também: “Não
resistais ao mal; mas se qualquer um te bater na face
direita, oferece-lhe também a outra” (Mateus 5:39).
Conquanto estes atos representem piedade, simpatia para
com o sofrimento e atos de compaixão, tal proceder
representa o espírito de Cristo.
1603. A corrupção na Igreja Cristã, as disputas minuciosas
e o ódio mútuo, entre as seitas, tornaram-se um escândalo,
no tempo em que a luz do Islam apareceu no mundo. As
páginas da história testemunham isso. A religião tornou-se
vazia de sentido, e a vida do povo, dos sacerdotes e da
laicidade, caiu num grande precipício de degradação.
1604. De acordo com o contexto anterior (ver o versículo
27) e posterior (ver a nota seguinte), isto se refere aos
cristãos e aos adeptos do Livro que conservaram sua
verdadeira fé imaculada.
1605. A dupla porção refere-se ao passado e ao futuro.
Como é mencionado na nota anterior, esta passagem é
dirigida aos cristãos e aos adeptos do Livro que, quando
encararam honestamente a questão da nova revelação do
Islam, encontraram nela o preenchimento das revelações
anteriores, e assim creram em Mohammad, o Mensageiro
de Deus. Seus méritos prévios serão duplamente
reconhecidos, e serão tratados em igualdade de condições
na nova comunidade.
1606. Como isto é dirigido aos cristãos e aos adeptos do
Livro, as seguintes palavras de Cristo, em seus últimos
dias, devem interessá-los: “A luz ainda está convosco por
um pouco de tempo; andai, quanto tendes luz, para que as
trevas não vos apanhem; pois quem anda nas trevas não
sabe para onde vai. Enquanto tendes luz, crede na luz,
para que sejais filhos da luz. Estas coisas disse Jesus; e,
retirando-se escondeu-se, deles”(João 12:35-36).
Comparar com o versículo 12 desta surata.
1607. Que nenhuma raça ou comunidade, que nenhum
povo ou grupo creia que possui a exclusiva graça de Deus,
ou que pode influenciar nas Suas dádivas. A graça de
Deus é livre e controlada inteiramente por Ele,
independentemente de qualquer sacerdote ou povo
privilegiado. Ele a dispensa, de acordo com as Suas
Própria Sabedoria e Vontade, e a Sua Graça é ilimitada.
1608. É o que aconteceu com Khaula, filha de Ta’alaba,
esposa de Auss Ibn Assámet. Apesar de Auss ser
muçulmano, ele divorciou-se de sua esposa seguindo um
costume idólatra. O expediente era conhecido como zihar,
e consistia das seguintes palavras: “Doravante serás tão
ilícita para mim quanto a minha mãe”. Este era um
costume idólatra para indicar um divórcio e libertar o
marido de qualquer responsabilidade para com os deveres
conjugais, sem dar liberdade, porém, à esposa, para
abandonar o lar do marido ou para contrair outro
matrimônio. Tal costume era degradante para a mulher.
1609. Ver a nota anterior.
1610. Se o zihar fosse ser ignorado, como se as palavras
nunca tivessem sido proferidas, significava que os homens
poderiam, estupidamente, recorrer a tal expediente sem
penalidades. É aqui estabelecida a penalidade,
conservando-se os direitos da mulher. Ela pode usufruir da
sua manutenção bem como da de seus filhos, sem que o
seu marido possa reclamar os seus direitos conjugais.
1611. A penalidade é manumitir um escravo, quer seja o
dele próprio ou o de outra pessoa. Se não houve escravo,
que jejue por dois meses consecutivos (a exemplo do
jejum de Ramadan). Se não puder, que alimente 60
pessoas pobres.
1612. Há uma grande quantidade de argumentos eruditos,
entre os juristas muçulmanos, quanto aos requisitos
preciso da lei sobre o termo “alimentar” o necessitado. Por
exemplo, é estipulado que 1 kg de trigo ou 2 kg de
tâmaras, ou o seu equivalente em dinheiro podem
preencher os requisitos. Outros estipula que 0,50 kg é o
suficiente. Isto é, aproximadamente, a ração diária de um
homem. É melhor considerar o espírito do texto na sua
simplicidade total e dizer que se deve dar a um
necessitado o suficiente para se alimentar duas vezes por
dia.
1613. Quando a comunidade muçulmana estava
adquirindo força em Madina, e as forças da desunião
estavam sendo desbaratadas, em luta aberta contra o
Profeta, os iníquos recorreram à duplicidade e às intrigas
secretas, nas quais os líderes eram os judeus
descontentes e os hipócritas, cujas maquinações são
freqüentemente mencionadas no Alcorão. Ver o versículo
8-16 da 2ª Surata e os versículos 142-145 da 4ª Surata.
1614. A saudação de Deus era e continha sendo “paz!”
Mas os inimigos, que não possuíam a coragem de lutar
abertamente, freqüentemente distorciam as palavras, e
usando uma palavra como “sam”, que significa “morte”, em
vez de “Salam” (paz), eles pensavam que estavam
expressando o seu ódio e, aparentemente, usando uma
saudação polida. Comparar com o versículo 106 da 2ª
Surata, onde está exporto a um outro artifício semelhante.
1615. O zakat, que traduzimos por tributo, foi instituído no
ano 2 da Hégira, aproximadamente.
1616. Isto se refere aos hipócritas de Madina, que
alegaram ser muçulmanos, mas faziam intrigas,
juntamente com os judeus.
1617. Neste tempo, os judeus de Madina e as tribos
judaicas dos arredores da cidade se haviam tornado
ativamente hostis ao Islam.
1618. Comparar com o versículo 87 da 2ª Surata, onde é
mencionado que Deus fortaleceu Jesus com o Espírito da
Santidade. Aqui, lemos que todos os virtuosos foram
fortalecidos, por Deus, como o Espírito da Santidade.
1619. Este versículo introdutório da surata é idêntico ao
versículo introdutório da 57ª Surata. O tema de ambas as
suratas versa sobre o maravilhoso Plano de Deus e a Sua
Providência. A 57ª Surata refere-se à conquista de Makka
e fornece lições de humildade. Esta, se refere ao
desalojamento dos traiçoeiros judeus (os Banu Annadhir),
do seu ninho de intrigas, na vizinhança de Madina,
praticamente sem luta.
1620. Isto se refere aos Banu Annadhir, cujas intrigas e
traições quase aniquilaram a causa islâmica, durante os
perigosos dias da batalha de Uhud, no mês de Chawal, do
ano 3 da Hégira. Quatro meses depois, foram tomadas
medidas contra eles. Foi-lhe ordenado que abandonassem
a posição estratégica que ocupavam, a aproximadamente
5 km de Madina, pondo em perigo a própria existência da
comunidade local. No início eles se recusaram, confiando
em suas fortalezas, em sua alianças secretas com os
idólatras de Makka e nos hipócritas de Madina. Mas
quando o exército muçulmano se concentrou para
combatê-los, cercando-os por alguns dias, os seus aliados
não levantaram um dedo para auxiliá-los e eles foram
bastante inteligentes em partir. A maior parte deles se
juntou aos seus irmãos na Síria, com a permissão dos
muçulmanos. Outros se juntaram aos seus irmãos em
Khaibar.
1621. Eles haviam feito um jogo duplo. Originariamente,
eram aliados dos muçulmanos de Madina, mas
secretamente participavam de intrigas juntamente com os
idólatras de Makka e os hipócritas de Madina. Tentaram
mesmo assassinar traiçoeiramente o Profeta, enquanto
este lhes fazia uma visita, quebrando assim as leis da
hospitalidade e do seu próprio juramento de aliança.
Pensavam eles que os coraixitas de Makka e os hipócritas
de Madina os ajudariam. Porém, não o fizeram. Pelo
contrário, os onze dias de cerco mostraram-lhes a sua
própria fraqueza. Seus suprimentos haviam sido cortados;
e as exigências do cerco obrigaram à destruição dos seus
pomares, e a reviravolta da sua sorte desanimou-os. Seus
corações ficaram abatidos, pelo terror, e eles tiveram de
capitular. E além de tudo, destruíram as suas próprias
casas, antes de abandoná-las. Ver a nota seguinte.
1622. Suas vidas foram poupadas e foi-lhes dado um
prazo de dez dias para se mudarem juntamente com suas
famílias, podendo levar todos os apetrechos que
pudessem carregar. Determinados a não deixar habitações
para os muçulmanos, demoliram suas próprias casas e
destruíram suas propriedades para completarem a
devassa que as operações de guerra haviam causado
pelas mãos das forças sitiantes muçulmanas.
1623. A punição dos Banu Annadhir foi devida à sua
quebra de palavra dada ao Mensageiro, por terem resistido
à aceitação da Mensagem de Deus, apoiado os inimigos
desta Mensagem e se rebelado contra Sua Vontade
Sagrada. Por tais razões a punição foi severa, apesar de,
nesse caso, ter sido abrandada com misericórdia.
1624. O corte desnecessário de árvores frutíferas ou a
destruição dos campos agrícolas, ou qualquer ato de
devassidão, mesmo na guerra, é proibido pela lei e pelas
práticas islâmicas. Todavia, alguma destruição se faz
necessária para se pressionar o inimigo, e por isso é
permitida. Porém, tanto quanto possível, mesmo com
objetivos militares, tais árvores não devem ser cortadas.
Ambos os princípios estão de acordo com a Vontade
Divina e foram seguidos pelos muçulmanos em suas
expedições.
1625. Os judeus vieram originariamente de fora da Arábia
e se fixaram na terra próxima a Madina. Eles recusaram
adaptar-se aos costumes dos povos da região, e foram, de
fato, um espinho no flanco dos árabes de Madina. Sua
disposição consistia na restauração das terras de seu povo
original. Porém, a palavra “Fái” é aqui compreendida em
seu sentido técnico, significando propriedade abandonada
pelo inimigo, ou tomada dele sem uma guerra formal.
Nesse sentido distingue-se de “Anfal”, ou espólios,
tomados depois de uma luta. Quanto a estes, ver os
versículos 1 e 41 da 8ª Surata.
1626. Os moradores da cidades: As cidades eram as
habitações dos judeus ao redor de Madina, e
possivelmente de outras tribos, além da tribo de Banu
Annadhir. A referência não deve ser sobre Wádi-il-Curá
(Vale das Cidades), agora chamado de Madáin Saleh, que
foi subjugado após Kaibar e Fadak, no ano 7 da Hégira, a
menos que este versículo seja posterior ao resto da surata.
1627. Os migrantes são aqueles que abandonaram os
seus lares e propriedades em Makka, com o intuito de
darem assistência ao Profeta, na sua migração para
Madina (Hijrat).
1628. Isto se refere aos Ansar (Socorredores), os
habitantes de Madina que aceitaram o Islam, quando eles
era perseguido, em Makka, e que convidaram o Profeta a
juntar-se a eles, tornando-o o seu líder em Madina.
1629. Aqueles que os seguiram: o significado imediato
pode ser “os que chegaram posteriormente a Madina”, ou
que aderiram posteriormente ao Islam, comparados com
os primeiros migrantes. O significado geral, porém, poderia
incluir todos os futuros adeptos do Islam.
1630. Os judeus de Banu Annadhir tinham a promessa dos
hipócritas de Madina de que estes os apoiariam em sua
causa. Eles pensavam eu a sua deserção da causa do
Profeta poderia enfraquecer aquela causa, e que eles
poderiam salvar os seus amigos. Porém, estes nunca
tencionaram fazer nada que significasse um sacrifício para
eles. Se eles tivessem auxiliado os seus amigos judeus,
não havia certeza que estes fossem bem sucedidos; e
mesmo se tivessem tido à luta com eles, não teriam nem
valor, nem fervor para apoiá-los, e teriam fugido
ignominiosamente, ante a disciplina, a seriedade e a fé dos
muçulmanos.
1631. A referência é (talvez) aos judeus da tribo de
Cainucá, que também habitavam uma cidade fortificada,
perto de Madina. Eles também foram punidos com o
banimento, pelas suas traições, aproximadamente um mês
após a batalha de Badr, na qual os idólatras coraixitas
haviam sofrido uma derrota significativa.
1632. Há duas idéias, associadas nas mentes humanas, a
respeito de uma montanha: uma é a sua altura, e a outra
são as suas rochas, pedras e a sua dureza. Daí a
metáfora. A Revelação de Deus é tão sublime, que mesmo
as montanhas mais altas se humilham perante ela. A
Revelação é tão poderosa e convincente, que mesmo as
rochas mais duras se desintegram perante ela.
1633. Aqui se segue uma passagem de grande
sublimidade, recapitulando os atributos. Começamos com
a proposição de que não há palavras adequadas para
descrevê-Lo, e que só podemos chamá-Lo de “Ele” pois
nada há que possa igualá-Lo. Pensamos em Sua
Unicidade; todas as variadas e conflitantes forças na
Criação são controladas por Ele, e não poderemos nunca
captar uma verdadeira idéia d’Ele, a menos que
compreendamos o significado místico da Unicidade. Sua
onisciência se estende a tudo o que é visível e invisível,
presente e futuro, próximo e distante, ser e não ser; de
fato, estes contrastes, que se aplicam ao nosso
conhecimento, não se aplicam a Ele. Sua clemência e
misericórdia são ilimitadas. A menos que compreendamos
isso, não teremos uma verdadeira concepção da nossa
posição na atividade da Sua Vontade.
1634. Esta frase é uma repetição do versículo anterior para
nos conduzir à complementação de alguns outros atributos
de Deus.
1635. Como pode um tradutor reproduzir a sublimidade e
compreensibilidade das magnificentes palavras árabes? “O
Soberano”, na nossa linguagem humana, implica na única
autoridade inconteste; o poder que executa a lei e a justiça.
A autoridade humana pode ser mal usada, mas o título “o
Augusto” nós postulamos a um Ser livre de toda mácula ou
maldade, e repleto de elevadíssima Pureza. Salam
(Pacífico) não tem apenas a idéia de paz em oposição a
conflito, mas de integridade em oposição a defeitos. Mumin
(Salvador), ou Aquele que considera a fé, que sustenta
esta fé e por isso Ele salva a Seus servos.
1636. Sendo esses os atributos de Deus de divindade e
Poder, quão tolo é o homem, em adorar outra coisa além
d’Ele.
1637. Depois da referência aos atributos de benevolência e
poder de Deus, temos agora os da Sua energia criativa,
dos quais três aspectos são aqui mencionados. O ponto
principal é que Ele não cria e abandona. Ele continua,
evolvendo novas formas e cores, e sustentando todas as
energias e capacidades, as quais Ele colocou em Sua
criação, de acordo com várias leis, que estabeleceu.
1638. O ato ou os atos da criação têm vários aspectos e a
várias pessoas palavras usadas nesta conexão são
mencionadas nos versículos 117 da 2ª Surata, 94 da 6ª
Surata, 98 da 6ª Surata. Khalaca é o termo geral para a
criação e o Autor de toda a Criação é Khálic. Baraa implica
um processo de evolução de uma matéria, ou estado,
previamente criado. O Autor deste processo é Bári-u
(Onifeitor). Sauara implica em dar forma definitiva ou cor,
fazendo com que uma coisa se harmonize com um fim ou
objetivo dado; daí o atributo Musauer (Formador).
1639. Assim, o argumento da surata retorna ao mesmo
diapasão que ocorre no primeiro versículo da mesma. O
primeiro versículo e o último são os mesmos, exceto no
que diz respeito ao tempo do verbo sabbaha.
1640. A revelação ocorreu por ocasião de uma carta
secreta remetida por um tal de Hatib, um imigrante de
Madina, aos idólatras de Makka, nos termos mais
amigáveis, pedindo a proteção para os seus filhos e
parentes, deixados em Makka. A carta foi interceptada e
ele confessou a verdade. Ele foi perdoado por ter dito a
verdade e pelo seu motivo não parecer abominável, porém
esta instrução foi dada, para futuras orientações. Isto
aconteceu um pouco antes da conquista de Makka, mas o
princípio é de aplicação universal.
1641. Pelo Tratado de Hudaibia, as mulheres sob tutela
(incluindo mulheres casadas), que fugiam dos coraixitas de
Makka para a proteção do Profeta, em Madina, eram
mandadas de volta. Mas antes de este versículo ser
revelado, os coraixitas haviam quebrado o tratado, e eram
necessárias algumas instruções quanto ao que os
muçulmanos de Madina deveriam fazer, nestas
circunstâncias. Mulheres muçulmanas, casadas com
idólatras, em Makka, estavam sendo oprimidas, devido à
sua fé, e algumas delas vieram para Madina como
refugiadas. Depois disso, elas não eram devolvidas ao
custódio dos seus maridos idólatras, em Makka, já que os
casamentos de mulheres crentes com não-muçulmanos
eram dissolvidos, se os maridos não aceitassem o Islam. E
para evitar a reclamação dos idólatras, de que eles
estavam sendo tratados injustamente, já que perderiam o
dote que haviam dado em casamento, tal dote era
devolvido aos maridos. Assim, as refugiadas
desamparadas eram protegidas, à custa dos muçulmanos.
1642. A condição era que fossem muçulmanas. Como
poderiam os muçulmanos saber? Uma mulher nãomuçulmana,
tem intenção de fugir do seu guardião legal de
Makka, poderia alegar que era muçulmana. A sua
verdadeira intenção só poderia ser do conhecimento de
Deus. Mas se os muçulmanos, testando a mulher,
concluíssem que ela professava o Islam, ela tinha o direito
à proteção. O teste consistia dos pontos mencionados no
versículo 12, adiante.
1643. Já que o casamento podia ser dissolvido, não havia
barreira para um novo casamento com refugiadas das
refugiadas muçulmanas com os muçulmanos, que lhes
pagassem o dote devido.
1644. As não-muçulmanas, numa sociedade muçulmana,
só poderiam servir de empecilho e desvantagem. Não
poderia ter nem felicidade, nem poderiam se conduzir-se
de nenhuma forma para uma vida saudável, na sociedade
na qual viviam como estranhas. Teriam de ser devolvidas.
1645. Uma contingência improvável, considerando-se a
melhor posição que a mulher ocupava sob o Islam do que
sob a idolatria. Mas todas as contingências devem ser
consideradas pela eqüidade da legislação.
1646. Estes são os pontos que a mulher que aderisse ao
Islam deveria comprometer-se a preencher. Pontos
similares aplicam-se aos homens, mas a questão aqui é
sobre as mulheres, e especialmente naqueles dias
primitivos do Islam, e no caso de passarem de uma
sociedade idólatra para uma sociedade muçulmana, nas
condições discutidas nas notas 1641 e 1642. É chamado
juramento de lealdade das mulheres. Foi também o
juramento os homens, até ao segundo pacto da ‘Acaba
quando o dever de defesa foi adicionado ao juramento dos
homens.
1647. Assim, voltamos ao tema com que esta surata
começou: que não tenhamos vínculos com povos que
quebraram a lei de Deus. As várias frases desta questão, e
as legítimas qualificações foram mencionadas, e o
argumento aqui é repetitivo. Ver também o versículo 14 da
58ª Surata.
1648. Este versículo é idêntico ao versículo 1 da 59ª
Surata. Esta última ilustrava o tema da maravilhosa obra
de Deus, na frustração dos estratagemas do Seus
inimigos. Aqui é ilustrado o mesmo tema, mostrando-se a
necessidade de uma disciplina rígida, se esperamos o
auxílio de Deus.
1649. Em Uhud houve alguma desobediência, e, portanto,
a quebra da disciplina. O povo falou muito, mas falhou em
pôr em prática as suas resoluções em palavras com
firmeza na ação. Ver o versículo 121 da 3ª Surata, e
respectiva nota. Mas, em toas as ocasiões, quando os atos
dos homens não eqüivalem às suas palavras, a sua
conduta torna-se odiosa perante Deus, e só se salvam dos
desastre devido à misericórdia d’Ele.

1650. Uma disposição para a batalha, na qual um grande
número de pessoas resiste, marcha ou se mantém junto,
contra um assalto, como se fosse uma sólida muralha, é
um extraordinário exemplo de ordem, disciplina, coesão e
coragem.
1651. A missão de Jesus era para o seu próprio povo, os
judeus. Ver Mateus 10:5-6 e Mateus 15:24. “Não fui
enviado, senão às ovelhas desgarradas da Casa de
Israel”. Ver também Mateus 15:26: “Não é dado tomar o
pão filhos e jogá-lo aos cachorrinhos”.
1652. Comparar com Mateus 5:17: “Não cuideis que vim
destruir a lei ou os profetas: não vim ab-rogar, mas
cumprir.”
1653. “Ahmad” ou “Mohammad”, o louvado, é quase a
tradução da palavra grega Paracleto. No Evangelho de
João 14:16, 15: 26 e 16:7, a palavra “Consolador”, na
versão portuguesa, refere-se a Paracleto, que significa
“Intercessor”, “alguém chamado em auxílio de outro, um
amigo generoso”; é melhor do que “Consolador”. Os
nossos doutos afirmam que Paracleto é uma corruptela de
Periclytos, e que no dito original de Jesus havia uma
profecia sobre um Profeta, chamado Ahmad. Mesmo se
lermos Paraclete, isto poderia ser aplicado ao Profeta
Mohammad, que foi “uma misericórdia para a humanidade”
(21ª Surata, versículo 107).
1654. “Sobre toda a religião”: no singular, e não sobre
todas as outras religiões, no plural. Há, na verdade, uma
só Religião verdadeira, a Mensagem de Deus e a
submissão à Sua Vontade, e isto é chamado de Islam. Foi
a religião pregada por Moisés e Jesus; foi a religião de
Abraão, de Noé e de todos os profetas, qualquer que seja
o nome que lhe demos. Se as pessoas corrompem essa
luz pura, e denominam as suas religiões com nomes
diferentes, devemos tolerá-las e devemos admitir os
nomes por conveniência. Ver também o versículo 33 da 9ª
Surata e o versículo 28 da 68ª Surata.
1655. Se nós pedimos o auxílio de Deus, devemos,
primeiro, auxiliar na Causa d’Ele, ou seja, dedicarmo-nos a
Ele, inteiramente e sem reservas. Este também foi o
ensinamento de Jesus, como é mencionado neste
versículo. Quanto ao que é encontra no Novo Testamento,
a metáfora usada é a da luz. “Se alguém quiser vir após
mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me”.
(Mateus 16:24).
1656. Ver o versículo 52 da 3ª Surata. Os nomes dos
discípulos são encontrados em Mateus 10:2-4.
1657. “Tudo quando existe nos céus e na terra glorifica
Deus”, porque as Suas mercês se estendem e são
extensivas a todas as Suas criaturas.
1658. Iletrados: como é aplicado a um povo, refere-se aos
árabes, em comparação com os adeptos do Livro, que
possuíam uma tradição mais erudita, cujo fracasso é
mencionado no versículo 5, abaixo. Aplicado a indivíduos,
significa que a Revelação de deus é para o benefício de
todos os homens, quer tenham sabedoria terrena ou não.
1659. Judeus: ser judeus é muito diferente de seguir a Lei
da Vontade de Deus. A reivindicação arrogante de serem
um povo escolhido, de serem os únicos possuidores dos
ensinamentos divinos, de estarem isentos de qualquer
punição pela quebra das leis divinas (ver versículo 88 da 2ª
Surata), constitui blasfêmia. Isso pode ser judaísmo, mas
no sentido do de Moisés.
1660. Sexta-feira: é o Domingo dos muçulmanos.
Primeiramente, é o Dia da Assembléia, o dia do encontro
semanal para a Oração em Congregação, precedida de um
Sermão (Khutba), no qual o Imam examina a esfera
espiritual semanal da comunidade e apresenta avisos e
exortações sobre a vida. Comenta aos muçulmanos as
séries de o contato social se eles seguem os rituais de sua
fé: cada membro recorda Deus, por si só, cinco ou mais
vezes por dia, em casa, no lugar de serviço, na mesquita,
ou ao ar livre; às sextas-feiras há um encontro local, na
mesquita central de casa localidade; nas duas
comemorações anuais “Eid” há uma grande reunião local
em um centro; uma vez na vida, quando possível, um
muçulmano participa de uma vasta assembléia
internacional, no centro do Islam, na peregrinação a
Makka. Uma feliz combinação de descentralização e
centralização da liberdade individual e encontro coletivo e
contato em vários estágios ou graus. A parte mecânica
desta prática é fácil de se executar.
1661. A idéia referente ao do dia semanal muçulmano de
congregação é diferente daquela do sábado judeu ou do
domingo cristão. O sábado judeu é uma comemoração do
término das obras de Deus e o descanso do sétimo dia
(Gênesis 2:2; Êxodo 20:11). Nós aprendemos que Deus
não necessita de descanso, nem sente fadiga (versículo
255 da 2ª Surata). A ordem judaica proíbe o trabalho
naquele dia, mas nada diz a respeito da adoração ou
oração (Êxodo 20:10). A nossa prática dá uma grande
ênfase à recordação de Deus. O formalismo judaico foi
longe, a ponto de matar o espírito do sábado, e provocou o
protesto de Jesus: “O sábado foi feito por causa do
homem, e noa o homem por causa do sábado.” A Igreja
Cristã, apesar de ter mudado o dia da congregação de
sábado para domingo, herdou o espírito judaico. Os
nossos ensinamentos dizem: “Ó fiéis, quando fordes
convocados para a oração de sexta-feira, apressai-vos à
recordação de Deus e abandonai os vossos negócios; isso
será preferível, se quereis saber. Porém, uma vez
observada a oração, dispersai-vos pela terra e procurai as
dádivas de Deus…”
1662. O elemento hipócrita. Se existir um, numa
sociedade, se torna uma fonte de fraqueza e um perigo
para a sanidade e para a própria existência dela. Quando o
Profeta migrou para Madina, na sua chegada foi acolhido
por todos os cidadãos patrióticos. Isso não apenas os uniu
em vida comum e eliminou as suas velhas diferenças, mas
também lhes trouxe luz e honra, na pessoa do maior
mestre da verdade. Todavia, havia alguns elementos
desprezíveis e cheios de inveja. Suas esperanças de
conseguir poder e liderança, tirando vantagem das
inimizades entre as facções, haviam caído por terra.
Começaram, então, a maquinar secretamente. Por
temerem a maioria, não ousaram opor-se à nova
comunidade, crescente, de virtuosos. Eles tentaram miná-
la através de intrigas secretas com os seus inimigos,
enquanto juravam abertamente a sua lealdade ao Profeta.
Foram completamente desmascarados e desacreditados
na Batalha de Uhud. Ver o versículo 167 da 3ª Surata.
1663. A boa madeira é resistente e pode suportar tetos e
prédios. A madeira oca é inútil e tem de ser apoiada contra
outras coisas. Os hipócritas são como a madeira podre.
Não possuem um caráter firme, e para os outros são apoio
inseguro em que confiar.
1664. Os migrantes, que foram ter com o Profeta e
acorreram em seu exílio, foram recebidos, auxiliados e
sustentados pelos Ansar (Socorredores). Os hipócritas de
Madina não gostaram disso e tentaram, por meios
clandestinos, dissuadir o povo de Madina de auxiliar os
exilados. Suas maquinações, porém, não vingaram. A
pequena comunidade islâmica cresceu de força em força,
até chegar ao ponto de se sustentar com os seus próprios
recursos e de aumentar, ao mesmo tempo, os recursos
dos seus acolhedores hospitaleiros.
1665. Palavras deste porte eram proferidas por Abdullah
Ibn Ubai, o líder dos hipócritas de Madina, quanto aos
exilados, quando da expedição contra os Banu Almustalic,
no quarto ou quinto ano da Hégira. Ele tinha esperanças
de liderança, que se desvaneceram com a chegada de um
homem bem mais importante do que ele. Assim, ele se
cognominou, arrogante, “o mais honorável (elemento)”.
1666. Comparar com o versículo 1 da 62ª Surata. Todas as
coisas, por sua mera existência, proclamam louvores a
Deus. Ele possui domínio sobre tudo, mas usa este
domínio para fins justos e louváveis. Ele possui poder
sobre tudo; logo, pode combinar a justiça com a graça, e
os Seus Plano e Propósito não podem ser frustrados pela
existência do mal, misturado com o bem, em Seu Reino.
1667. Comparar com o versículo 64 da 40ª Surata e com o
versículo 11 da 7ª Surata. Em adição à beleza e ao
esplendor da criação de Deus, Ele dotou o homem com
aptidões especiais, com faculdades e capacidades, e com
dignidades especiais que o elevam à condição de legatário
de Deus na terra. “Com a melhor forma” também inclui a
idéia de “adaptação ao fim para o qual os homens foram
criados”.
1668. Isto está mais bem explicado nos versículos 9-11 da
14ª Surata.
1669. O Mensageiro veio para guiar e ensinar, e não para
forçar ou compelir. Os ensinamentos do Mensageiro são
claros, livres de ambigüidades e estão à disposição de
todos. Comparar com o versículo 95 da 5ª Surata.
1670. Em alguns casos, as exigências da família (esposa e
filhos), podem estar em conflito com as convicções e
obrigações morais e espirituais do homem. Em tais casos,
ele talvez deva prevenir-se quanto ao abandono das suas
convicções, obrigações e ideais por causa das exigências
ou dos desejos dela. Todavia, não deve maltratá-los. Deve
garantir-lhes uma nova provisão razoável, e se persistirem
em se opor abertamente a ele, deverá perdoá-los e não o
expor à vergonha ou ao ridículo. Ao mesmo tempo, deve
permanecer firme nas suas obrigações. Tais casos
ocorreram com alguns muçulmanos, que se exilaram em
Madina, para serem fiéis à sua fé.
1671. Nota-se que, em primeira instância, o Profeta é
tratado individualmente, como o mentor e o representante
da comunidade. Então, as injunções são dirigidas a toda a
comunidade.
1672. “De todas as coisas lícitas, o divórcio é a mais
odiosa aos olhos de Deus” é uma tradição do Profeta. As
instruções gerais e as limitações a respeito do divórcio
podem ser estudadas nos versículos 228, 232, 236, 237 e
241 da 2ª Surata e no versículo 35 da 4ª Surata.
1673. O Iddat, um termo técnico na lei do divórcio, está
explicado na nota do versículo 228 da 2ª Surata. Seu
significado geral é o de “um período prescrito”. Neste
sentido, ele é usado no versículo 185 da 2ª Surata, para o
período prescrito do jejum.
1674. O período prescrito está de acordo com os
interesses da esposa, do marido, de uma criança gerada –
e não nascida – (se houver uma) e das leis do sexo na
natureza, e por isso, nos ditames elementares de uma
sociedade refinada. Es exegetas sugerem que o divórcio
não deve ser efetuado durante o período menstrual. Isso
implica em que quaisquer que sejam as diferenças entre
marido e mulher, isto não leve a um ponto de debate, num
tempo em que o sexo é menos atraente e quase repulsivo.
Tudo deve ser feito para o fortalecimento dos aspectos
espirituais e sociais do casamento, reprimindo os impulsos
desenfreados do instinto animal. As partes devem pensar
seriamente, num ambiente de benevolência, conservando,
em suas mentes o temor a Deus.
1675. Como o Islam trata a mulher casada como uma
completa personalidade jurídica, em todos os sentidos do
termo, uma mulher casada tem o direito, no seu status de
casada, a uma casa. Isto implica em gastos razoáveis,
para a conservação da casa e para a sua manutenção,
para a manutenção da mulher e dos seus filhos. Isto não é
apenas obrigatório, durante o status matrimonial, mas
durante o Iddat, por tratar-se de um período mais
probatório para a mulher. Durante este período, ela tanto
não deve ser expulsa, como também não será decente, da
parte dela, que saia por sua própria vontade, para que não
diminuam as chances de reconciliação.
1676. A reconciliação é possível, e deveras recomendada,
em qualquer estágio. As primeiras diferenças, entre as
partes, devem ser submetidas a um conselho familiar, no
qual ambas as partes devem estar representadas (ver o
versículo 35 da 4ª Surata); o divórcio não deverá ser
formulado quando a atração física mútua estiver arrefecida;
quando o divórcio for formulado, deverá haver um período
de provação; o dote deve ser pago, e fornecidas provisões
adequadas, em termos eqüitativos. Todos os meios devem
ser fornecidos para a reconciliação, até ao último
momento.
1677. As nossas raiva e impaciência devem ser refreadas.
Os nossos amigos podem parecer-nos fracos e pouco
razoáveis; as circunstâncias podem parecer-nos
desencorajadoras; contudo, devemos confiar em Deus.
Como podemos medir as nossas fraquezas e a nossa
cegueira? Deus é Onisciente. Seu Propósito Universal é
sempre benéfico. Sua ordenação no universo observa uma
justa, perfeita e devida proporção.
1678. Comparar com o versículo 228 da 2ª Surata. Para
uma mulher normal, o Iddat é de três períodos menstruais,
após a separação. Se ela não mais tiver os períodos ou se
estes forem irregulares, serão três meses do calendário.
Este tempo é suficiente para se saber se ela está grávida
ou não. Se estiver, o tempo de espera será até dar à luz.
1679. Um homem egoísta, aproveitando-se do divórcio,
pode, no período probatório, tornar miserável a vida da
mulher. Isto é proibido. Ela deve ser provisionada no
mesmo nível dele, de acordo com o seu status de vida.
1680. Se a mulher estiver grávida, uma terceira vida entra
em cena, por causa da qual é acrescentada a
responsabilidade de ambos os pais. De qualquer modo,
não pode haver separação, antes da criança nascer.
Mesmo depois do nascimento, es a reconciliação entre os
pais não for possível, o pai tem o dever de cuidar da
criança e da mãe, e deve haver consentimento mútuo entre
eles.
1681. “Se encontrardes constrangimento”, ou seja, se o
leite da mãe cessar, ou se a sua saúde não ajudar, ou se
surgir qualquer circunstância que impeça o procedimento
natural da mãe de alimentar o seu próprio filho.
1682. O pai deve arcar com todas as despesas, com a
pensão razoável e necessária para a mãe.
1683. A família do Profeta não era igual às outras famílias.
Esperava-se que as suas esposas tivessem um padrão de
vida mais elevado, quanto ao comportamento, do que as
outras mulheres, já que elas tinham uma importantíssima
tarefa a realizar (ver o versículo 28 da 33ª Surata).
Contudo, elas eram seres humanos, acima de tudo, e
estavam sujeitas às fraquezas do seu sexo, e por vezes
cometiam erros. A mente do Profeta estava aflita, e ele
renunciou à companhia de suas esposas por algum tempo.
Parece que esta renúncia é referida, aqui. A situação,
todavia, era difícil para ele, porque ela era a filha de Abu
Bakr, um dos mais fiéis e íntimos, dentre os seus
Companheiros, e seu lugar-tenente. A filha de Ômar,
Hafsa, também ocupava uma posição de destaque.
Quando as duas combinaram, em reunião secreta, e
discutiram certos assuntos, revelando segredos à outra,
elas causaram muita tristeza ao Profeta, cujo coração era
sensível, e que tratava toda a sua família com paciência e
afeto exemplares.
1684. As palavras afetuosas de admoestação, dirigidas às
esposas do Profeta, nos versículos 28-34 da 33ª Surata,
explicam melhor a situação do que qualquer comentário.
1685. Quem eram essas duas esposas e qual era o
assunto confidencial, que foram revelado, não nos é dito. O
fato, mencionado na nota 1683, dito acima, porém, ajudarnos-á
a compreender esta passagem. Não é necessário
nos aprofundarmos em todas as insignificantes tagarelices,
que alguns exegetas coletaram, ou nas insinuações
maliciosas daquelas que não compreenderam a grandeza
do Profeta. As palavras sagradas indicam que o assunto foi
de grande importância; todavia, os detalhes não tinham
importância suficiente para serem permanentemente
registrados.
1686. “Sá-ihát”, significa, literalmente, “aquelas que viajam
pela fé, renunciando a desejos e residências”, ou seja,
aquelas que peregrinam, que jejuam, que negam a si
próprias os prazeres ordinários da vida. Isto se aplica a
todas as mulheres, moças ou idosas, quer sejam viúvas ou
divorciadas.
1687. Tradicionalmente conhecida com o nome de Ásia,
uma das quatro mulheres perfeitas. As outras três são:
Maria, mãe de Jesus, Khadija, a esposa do Profeta, e
Fátima, sua filha.
1688. Imran é, tradicionalmente o nome do pai de Maria,
mãe de Jesus. Ver o versículo 35 da 3ª Surata.
1689. Comparar com o versículo 91 da 21ª Surata. Como
virgem, ela deu à luz Jesus (ver os versículos 16-29 da 19ª
Surata). No versículo 9 da 32ª Surata, o relato é sobre o
nascimento de Adão, onde se diz que Deus “o modelou,
então, alentou-o com o Seu Espírito”. No versículo 29 da
15ª Surata, são usadas palavras semelhantes, com
referência a Adão. O nascimento de uma pessoa, por parte
de uma virgem, não deve, portanto, implicar em que Deus
foi o Pai de Jesus, no sentido que a mitologia grega dava a
Zeus, o pai de Apolo, por intermédio de Latona, ou de Nino
por intermédio de Europa.
1690. “Mulk”: soberania, domínio, o direito de exercer a
Sua Vontade ou de fazer o que deseja. A onipotência,
mencionada na cláusula seguinte, é a Capacidade de
exercer a Sua Vontade, de modo que nada possa resistir a
ela ou neutralizá-la. Aqui, a beneficência é totalmente
identificada com o domínio e com a onipotência,
exemplificados nos versículos seguintes. Nota-se que
Mulk, aqui, tem um perfil diferente da palavra Malakut.
Ambas as palavras são da mesma raiz e as traduzimos, a
ambas, pela palavra “soberania”. Malakut, porém refere-se
à soberania do mundo incognoscível, enquanto Mulk se
refere à soberania do mundo cognoscível. Deus é o
Senhor de ambos os mundos.
1691. Os céus, como aparecem às nossas vistas, parecem
estar arranjados em camadas sobrepostas, e a astronomia
antiga considerava os movimentos dos corpos celestes
como um esquema elaborado de esferas. O que nos
interessa, aqui, é a ordem e a beleza do espaço
incomensurável e os maravilhosos corpos, que seguem
leis regulares de movimento, no vasto espaço do mundo
visível. Disto podemos formar uma concepção do mundo
incognoscível, muitíssimo maior, para o qual necessitamos
de uma especial visão espiritual.
1692. Retornando ao simbolismo do mundo exterior ou
visível, somos impelidos a estudá-lo acuradamente e tão
minuciosamente quanto possamos. Por mais perto que o
observemos, não encontraremos fenda algum. Deveras, a
região de averiguação é tão vasta, e se estende para tão
longe da nossa percepção, que os nossos olhos, mesmo
auxiliados pelos mais poderosos telescópios, se
confessam incapazes, ao tentarem penetrar os seus mais
profundos mistérios. Não encontramos defeitos na criação
de Deus; encontramos, sim, falhas no nosso próprio poder
de irmos além de um certo limite.
1693. A fantasia simbólica da perseguição das estrelas foi
explicada em outros versículos. O simbolismo, aqui, nos
conduz a um passo a mais. Vemos nos céus aparentes,
perfeição e beleza. As luzes e o fogo, que vemos, são
sagrados e benéficos. Mas se forem usados em magia, ou
em superstições da nossa própria imaginação, não
estaremos brincando com fogo?
1694. Os sinais de Deus não eram rejeitados ou
desafiados, apenas; eram, negados categoricamente.
Ainda mais, mesmo a sua possibilidade era negada. As
pessoas de bem e os mentores espirituais eram
perseguidos, ou eram objeto de zombaria. Eram chamados
de malucos e acusados de estarem em um grave erro.
1695. É dado ao próprio homem o poder de distinguir entre
o bem e o mal. Além disso, ele é auxiliado pelos
ensinamentos dos grandes mensageiros ou mestres do
mundo. Quando tais mestres não têm contatos pessoais
com algum indivíduo ou com uma geração, o significado
verdadeiro dos seus ensinamentos pode ser compreendido
através da razão, com a qual Deus agraciou todos os seres
humanos.
1696. O homem tem construído caminhos através dos
desertos e das montanhas, através de rios e mares,
utilizando os navios, e através dos ares, por meio de
aeroplanos; tem construído pontes e túneis, bem como
outros meios de comunicação. Ele foi capaz de tais
empreendimentos graças à inteligência que Deus lhe deu.
1697. O vôo dos pássaros é a coisa mais bela e
maravilhosa da natureza. A criação e o arranjo das suas
penas e dos seus ossos, o seu formato, do bico ao rabo,
são exemplos de adaptação. Eles pairam, com as asas
estiradas; arremessam-se, com as asas retraídas; o seu
movimento ondulatório, a sua estabilidade no ar e o seu
descanso sobre as patas dão muitas idéias ao homem na
ciência e na arte da aeronáutica.
1698. No árabe há um toque artístico, impossível de se
produzir na tradução.
1699. O sustento, aqui, refere-se a tudo o que é necessário
para o sustento e para o desenvolvimento da vida, em
todas as suas facetas, espiritual, mental e física.
1700. Os céticos dizem aos crentes: “Bem, se a
calamidade recair sobre nós, ela envolverá o bom e o mau,
da mesma forma como dizeis que Deus cumula, com as
Suas mercês, os bons e os maus!” A resposta é: “Não
deveis vos preocupar conosco! Mesmo supondo que
seremos destruídos, juntamente com os crentes, há acaso
um consolo para vós? Os vossos pecados causar-vos-ão
os sofrimentos e nada vos livrará deles. Se formos
atingidos por algumas tristezas ou sofrimentos, nós os
consideraremos como provas, para temperar o nosso
caráter, já que cremos nas mercês de Deus e n’Ele
confiamos”.
1701. A surata termina com uma parábola, tomada de um
fato vital da nossa vida física, e nos orienta, para que
compreendamos a nossa vida espiritual. Na nossa vida
cotidiana, o que aconteceria, se acordássemos, em alguma
manhã, e verificássemos que as fontes e os reservatórios,
nosso suprimento de água, tinham desaparecido, tragados
pelas profundezas da terra? Nada poderia salvas as
nossas vidas. Sem água não podemos viver, e a água não
pode subir acima do seu nível. Outrossim, procura níveis
mais baixos. O mesmo acontece com a vida espiritual.
Suas fontes estão na sabedoria divina, que flui das alturas.
Deus é a fonte real da vida, e Ele é todas as formas de
vida.
1702. Nun, pode significar um peixe ou um tinteiro, ou
pode ser a letra n, do alfabeto árabe. No último caso, deve
referir-se a um ou a ambos os significados. Note-se que a
rima árabe, em toda a surata, termina em n.
1703. O cálamo e a escrita são as bases simbólicas da
revelação para o homem. O juramento, pelo cálamo,
descarta a irreverente acusação de que o Mensageiro de
Deus estava possesso. Pois ele pronunciou palavras de
poder, sem incoerência, cheias de significado e, por
intermédio da escrita do cálamo, esse significado revelouse
em inumeráveis aspectos para incontáveis gerações.
1704. As pessoas chamam de louco todo o indivíduo cujos
padrões de vida sejam diferentes dos deles. A loucura, na
crença de algumas pessoas supersticiosas, é causada por
possessão demoníaca, uma clara idéia na mente dos
escritores do Novo Testamento, pois Lucas fala de um
homem do qual os “demônios” foram arrancados, estando
então “vestido, e em seu juízo” (Lucas 8:35).
1705. Literalmente, a parte mais sensível da tromba do
elefante.
1706. Devemos sempre nos lembrar, em todos os nossos
planos, de que todos eles dependem, para o seu sucesso,
do quanto estão de acordo coma Vontade de Deus. Sua
Vontade Universal está acima de qualquer
empreendimento. Os idiotas possuíam um plano secreto
para fraudarem o pobre nos seus direitos; foram
colocados, porém, numa posição em que não poderiam
levá-lo a cabo. Ao tentarem frustrar aos outros, eles
próprios foram frustrados.
1707. No Oriente, o pobre tem direito a uma parte da
colheita, quer seja como recolhedor, ou artífice, ou como
criado. Os proprietários ricos do pomar, na parábola,
desejavam fraudar este direito. Mas a avareza foi punida,
acarretando-lhes uma grande perda.
1708. Quando a cupizes ou a injustiça é punida, as
pessoas estão prontas para jogar a culpa nos outros.
Neste caso, uma pessoa em particular pode ter percebido
a culpa moral de opor-se à Vontade de Deus e ao direito
do homem. Se ele, porém, participar da empresa na
esperança de auferir lucros, não poderá eximir-se de toda
a responsabilidade.
1709. Se o arrependimento for verdadeiro, então haverá
esperança. Se não for, eles adicionarão a hipocrisia aos
seus outros pecados.
1710. É claramente contra a lógica e a justiça supormos
que as pessoas de bem tenham o mesmo fim que os
pecadores. Mesmo nesta vida o homem não pode obter o
que escolhe, embora tenha uma limitada liberdade de
escolha. Como ele espera conseguir tal cosia, sob um
perfeito reino de justiça e verdade?
1711. Isto é, quando todo o mistério desaparecer.
1712. Note-se a transição de “Me” para “Nós” (oculto)
neste versículo e, de novo, para “Eu” (oculto) e “Meu”, no
versículo seguinte. A 1ª pessoa do plural, normalmente
usada no Alcorão como a palavra de Deus, é o tratamento
de respeito. Em decretos régios, a 1ª pessoa do plural é
sempre usada. Quando a 1ª pessoa do singular é usada,
ela diz respeito a alguma relação especial, quer seja de
mercês ou graças, quer seja de punição, como é o caso,
aqui.
1713. Esta é a análise extrema da loucura ou da
possessão demoníaca. Ver o versículo 2, desta surata e
respectiva nota.
1714. A realidade: o evento que inevitavelmente
acontecerá, o estado em que toda a falsidade e toda a
pretensão desaparecerão e a verdade absoluta revelar-se-
á. As questões, nos três versículos, levaram uma espécie
de mistério. A solução é sugerida ao que aconteceu ao
povo de Tamud, ao povo de Ad e a outros povos da
antigüidade. Simbolicamente, sugere o grande cataclismo
do Dia do Juízo Final.
1715. Se seguirmos a seqüência dos povos, que foram
destruídos, devido aos seus pecados, começaremos com o
povo de Noé; então, virão os povos de Ad e de Samud,
depois os coraixitas, aos quais foi enviado o postremo dos
profetas, o Profeta Mohammad. Esta é a seqüência
cronológica. Aqui não há este detalhe e nem mesmo todos
foram mencionados.
1716. Comparar com a frase bíblica: “Quem tiver ouvidos
para ouvir, ouvirá” (Mateus 11:15). A frase, usada aqui,
porém, tem uma significação mais complexa. Um ouvido
pode ouvir, mas o ouvinte não pode reter para sempre as
lições que ouviu, ainda que, quando as ouvisse se tivesse
impressionado com elas. A penetração da verdade é mais
profunda e sutil. Este é o objetivo, aqui.
1717. Chegamos agora ao Evento Inevitável, o Dia do
Juízo, o tema desta surata.
1718. Todo o quadro é pintado com imagens poéticas para
indicar o que não pode ser adequadamente descrito com
palavras que, na verdade, nossas faculdades humanas,
com seu limitado poder, não estão aptas a compreender.
1719. Os anjos representam as manifestações da glória
divina. O número oito talvez não tenha nenhum significado
especial, a menos que seja com referência ao formato do
Trono, ou ao número de anjos. O trono oriental é sempre
octogonal e os seus carregadores se posicionam nos
cantos, para carregá-lo. Toda a descrição é simbólica,
representando a Majestade de Deus, o Altíssimo.
1720. A metáfora é de saborosas uvas maduras,
penduradas em cachos pesados, tão baixos que podem
ser colhidos e consumidos com toda a facilidade.
1721. Talvez a palavra “manietar” pudesse ser interpretada
no sentido de “manietai suas mãos ao redor de seu
pescoço, para lembrá-lo que elas, quando livres, se
fecharam para todos os atos de caridade”.
1722. Os efeitos do pecado estão descritos com palavras
de brilhante imaginação: (1) “Pegai-o”- a primeira coisa
que acontecerá ao pecador será a perda da sua liberdade
espiritual, tornando-se escravo da paixão, do preconceito,
da inveja, do ódio e de toda a espécie de mal; (2)
“manietai-o”- suas mãos serão atadas ao redor do seu
pescoço e todas as suas forças e todos seus impulsos
serão restringidos; (3) “introduzi-o na fogueira”- hei-lo,
então consumido, pelas chamas da destruição que ele
próprio procurou; (4) “fazei-o carregar uma corrente”- as
conseqüências do pecado se ramificarão e se estenderão,
tornando-se uma longa corrente de setenta cúbitos.
1723. Um poeta dá asas à sua imaginação, e o fator
subjetivo é tão forte que, apesar de podermos aprender
muito com ele, não podemos crer como fatos as belas
histórias que ele tem para dizer. E o poeta, que não é
vidente, é um partidário vulgar do exagero e da falsidade.
1724. Um adivinho pretende, simplesmente, prever
eventos futuros, de profundas conseqüências espirituais. A
maior parte destas profecias são fraudes, e nenhuma delas
está apta a dar lições de admoestação real. Estas lições
são trabalho de um mensageiro honorável.
1725. A destra é a mão da ação e do poder. Todo aquele
que for preso pela mão direita fica desprovido de ação. O
argumento é que, na eventualidade de um impostor
aparecer, logo seria descoberto. Não poderia permanecer
com a sua fraude, indefinidamente. Os homens de Deus,
porém, por mais perseguições que sofram, ganham maior
poder a cada dia que passa como aconteceu com o
Profeta Mohammad, cuja veracidade, sinceridade e amor
para com todos foram reconhecidos, como a sua própria
vida mostra.
1726. Toda a verdade é, por si só, certa. Recebida pelos
homens, porém, e compreendida do ponto de vista da
psicologia humana, pode ter certos graus. Há a
probabilidade ou a certeza, resultantes da aplicação do
poder de julgamento do homem e da sua avaliação da
evidência, isto é, “llm-ul-yaquin” (Ciência da Verdade), por
raciocínio lógico ou inferência. Então, há a certeza de que
ver alguma coisa com os próprios olhos. “Ver é crer”, isto é
“Ain-ul-yaquin”. Então, como é o caso aqui, há a verdade
absoluta, sem possibilidade de erro de julgamento ou
engano do olho. Esta verdade absoluta é a “hac-ul-yaquin”
(verdade convicta), aqui mencionada.
1727. Ma’arej: vias de ascensão. Aqui há um profundo
significado espiritual. Podemos, acaso, alcançar as alturas
de Deus, o Altíssimo? Em Sua graça infinita, Ele dá este
privilégio aos anjos e aos seres espirituais, considerando o
ser humano neste aspecto. Mas o caminho não é fácil,
nem pode ser percorrido em um só dia.
1728. Porém, tal gloriosa transformação não pode ser
alcançada sem o mais alto exercício espiritual. Se
medirmos o tempo, como o fazermos no plano desta vida,
levará milhares de anos. No plano espiritual deve ser
apenas um dia ou um momento.
1729. As montanhas, que parecem tão sólidas, ficarão
como flocos de lã, manipulados pelo cardador.
1730. A análise do pecado é feita em quatro etapas, das
quais as duas primeiras se referem à vontade ou à
psicologia do pecador, e as duas últimas ao uso que ele
faz das boas coisas da sua vida.
1731. A descrição dos devotos da oração é dada em uma
série de cláusulas, que são introduzidas pela palavra
“aqueles”.
1732. As cativas de guerra podiam ser tomadas em
matrimônio, porém o seu status era inferior ao das livres,
até que se tornassem livres. Esta instituição das cativas de
guerra é, agora, obsoleta. Tal inferioridade de status,
estava no status de cativa e não no status de cansada, no
qual não há graus, exceto por costumes locais que o Islam
não reconhece.
1733. Se conhecermos alguma verdade, de qualquer
espécie, deveremos declará-la, mesmo que isso afete as
vidas ou os interesses dos nossos semelhantes, isto com
firmeza, e não titubeantes, sem medo ou favoritismo,
mesmo que isto nos cause perdas ou problemas.
1734. A parte animal do homem não é algo para ele se
orgulhar, e ele sabe disso. É por intermédio de esforços
espirituais e através de longa preparação que o homem
pode elevar a sua parte animal a altas dignidades
espirituais.
1735. O testemunho, aqui colocado ante nós, por Deus, é
o Seu Próprio Poder e Sua própria Glória, manifestados no
esplendor do nascer e do pôr-do-sol em pontos diferentes,
no decorrer do ano solar.
1736. Se Deus possui tal poder quanto ao maravilhoso
fenômeno do nascer do sol, em pontos variados, repetidas
vezes, ano após ano, não é para verdes, ó incrédulos e
blasfemos que Ele pode facilmente substituir-vos por seres
melhores?
1737. Note-se a transição do singular “eu” para o plural
“nós”.
1738. A sua conversa e o seu ceticismo são em vão,
porque toda a evidência espiritual está contra ele.
1739. Então haverá uma meta definida ou um estandarte
da verdade inexorável, que todos deverão reconhecer.
Eles a reconhecerão, na vergonha e no desânimo, e o
tempo para o seu arrependimento e a sua correção terá,
então, passado.
1740. A missão de Noé é mencionada em muitas
passagens do Alcorão.
1741. Três aspectos do dever do homem são postos em
destaque: (1) a adoração verdadeira, com o coração e a
alma; (2) confissão, por temor a Deus, de que toda a
maldade levará à deterioração e ao julgamento; (3) então,
virão o arrependimento, a correção da vida e a obediência
aos conselhos dos homens de bem.
1742. Quando os argumentos convincentes e as
admoestações são colocados diante dos pecadores, há
duas espécies de reações. Os inteligentes recebem a
admoestação, arrependem-se e produzem frutos,
corrigindo a sua vida e retornando a Deus. Por outro lado,
aqueles que são insensíveis a qualquer advertência,
tomam-na como reprovação, afastam-se cada vez mais da
retidão e fecham os canais através dos quais poderiam
alcançar a graça curativa de Deus.
1743. O significado literal poderia ser este: assim como
enfiam os dedos nos ouvidos, para evitar que a voz do
admoestador os alcance, eles cobrem os corpos com as
suas vestimentas, para que a luz da verdade não penetre
neles e para que não sejam vistos pelo pregador. Porém,
há um significado simbólico mais profundo. “Suas
vestimentas” são os adornos das vaidades, os maus
hábitos, costumes e tradições, bem como seus padrões e
interesses efêmeros.
1744. Em outro versículo, o sol é mencionado como a
lâmpada dos céus: “Bendito seja Quem colocou
constelações no firmamento e pôs, nele, uma lâmpada e
uma luz refletidora”.
1745. Em outro versículo, o crescimento de Maria, mãe de
Jesus, é descrito pela mesma palavra “nabat”, comumente
denotando o crescimento das plantas e das árvores. A
similaridade é a da uma semente que germina, cresce e
morre, e volta para a terra.
1746. Nomes dos ídolos, adorados pelo povo de Noé.
1747. Tais superstições e cultos pagãos nada
acrescentaram ao conhecimento ou ao bem-estar humano.
Só acrescentaram erros maléficos. Por exemplo, quanta
devassidão resultou das bacanais greco-romanas? Quanta
lascívia resultou das sagradas canções da ribalta? Este é o
resultado natural, e Noé, em seu amargor de espírito, orou
para que a graça de Deus fosse cortada aos iníquos. Eles
extraviam os outro: que eles próprios se extraviem!
1748. A punição do pecado cerca a alma por todos os
lados e de todas as formas. A água indica morte por
afogamento, através do nariz, dos olhos, da boca, da
garganta e dos pulmões. O fogo tem efeitos opostos. Ele
queima a pele, os membros, a carne, o cérebro, os ossos e
todas as partes do corpo. Assim, a destruição, deflagrada
pelo pecado, é completa sob todos os pontos de vista.
1749. A revelação pode ser feita através de vários canais,
e um deles é o da visão, por intermédio das quais o Profeta
vê e ouve eventos, que passam claramente, perante ele.
1750. O Alcorão Sagrado poderia ser, para eles, um recital
maravilhoso, tento em assuntos subjetivos, como nas
circunstâncias em que chegou à Arábia, em meio a uma
nação de pagãos e ignorantes.
1751. Eles repudiam a idolatria e a suposição do filho de
Deus, que implica numa esposa, da qual ele nasceria.
1752. Os que falam, aqui, se arrependeram do pecado e
do mal; mas eles reconhecem que há ainda maldosos,
entre eles; as suas tramas serão desbaratadas pela
vigilância dos guardiães do bem, simbolizados pelos feixes
de luz meteórica, no céu.
1753. A água representa toda a espécie de bênçãos
materiais, morais e espirituais.
1754. Este é uma surata revelada em Makka, a palavra
Álmasjad deve ser compreendida no sentido literal, como
uma mesquita. Mas no sentido fundamental, significa
qualquer lugar de adoração ou prostração humilde, a
serviço de Deus, ou qualquer faculdade ou acessório,
usado em tal adoração.
1755. A referência é aos coraixitas idólatras que, na época,
estavam de posse da Caaba, e puseram toda a sorte de
obstáculos no caminho do Profeta, por ele pregar o culto
ao Único Deus Verdadeiro, e por ser contrário à adoração
dos ídolos.
1756. “Mistérios”, ou o incognoscível; aqui há dois
aspectos. (1) o incognoscível relativo, com referência a
uma pessoa em particular, por causa da intervenção do
tempo, espaço ou circunstância particulares. Por exemplo:
não podemos, hoje, ver uma casa que vimos no ano
passado, por ter sido derrubada. Ou não podemos ver os
satélites de Júpiter a olho nu, apesar de podermos fazê-lo
por intermédio de um telescópio; (2) o incognoscível
absoluto, porém, o mistério absoluto, ou o mistério de
Deus, é algo que nenhuma criatura pode conhecer ou ver,
a menos que Deus lho revele.
1757. A revelação não é uma coisa mecânica ou material.
Ela deve ser salvaguardada de ser distorcida pela
ignorância, pelo egoísmo, ou pelos poderes do mal.
1758. No reino espiritual, como de fato, em todas as
instâncias, o conhecimento, a sabedoria e o plano de Deus
compreendem todas as coisas, grandes e pequenas. Nada
fazemos e nada acontece sem o conhecimento de Deus.
1759. Muzzammil. Alguns exegetas compreendem isto
como “vestido apropriadamente para a oração”, ou
“enrolado” num lençol, a exemplo de alguns que renunciam
às vaidades deste mundo. O termo é usado como um dos
títulos do Profeta. Todavia, há um significado místico mais
profundo nesta passagem, que continua com o primeiro
versículo da próxima surata. A natureza humana requer
vestimentas quentes, para proteger o corpo do sol, da
chuva e do frio. No mundo espiritual, porém, estas
vestimentas são inúteis. A alma deve apresentar-se nua e
aberta perante Deus, no silêncio da noite, mas não tão
austeramente, como mostram os versículos seguintes.
1760. O Profeta era inclinado a práticas rigorosas, na
caverna de Hirá, antes e depois de receber a missão,
passando dias e noites em oração e contemplação. As
orações e contemplações, à meia-noite e após a meianoite,
receberam o nome de Tahjjud. Ver também o
versículo 20, adiante.
1761. Neste tempo, havia apenas 96ª Suratas, a 68ª
Surata, possivelmente a 74ª Surata e a Surata da Abertura.
Mas o coração do Mensageiro tinha recebido iluminação e
essa luz estava, gradualmente, encontrando expressão
nos versículos do Alcorão. Para nós, agra, com todo o
texto do Alcorão à nossa frente, a injunção é necessária.
As palavras do Alcorão não devem ser lidas
apressadamente. Elas devem ser estudadas e deve-se
ponderar sobre o seu significado profundo. São, por si, tão
belas, que devem ser afetuosamente pronunciadas, em
tons de música rítmica.
1762. Deus é Tudo em todos, e Ele é o Senhor de todos os
lugares. Ele governa o universo. Portanto, não fique
desencorajado com a trama ou com a inimizade dos
fracos. Deixe todas as coisas a cargo de Deus; confie
n’Ele. Ele é Justo e fará justiça. Afaste-se, apenas, do
injusto, mas de uma forma digna e nobre, ou seja, para
mostrar-lhe claramente que não o teme, mas deixa os seus
assuntos nas mãos de Deus. Se dividirmos o mundo em
hemisférios, Norte e Sul, “Oriente e Ocidente” cobrirão
todos as direções.
1763. Em termos gerais, a penalidade, pelo pecado, deve
ser descrita como uma penalidade grave, uma agonia. Ela
poderá ou não acontecer nesta vida, porém na próxima
será inexorável. Podemos, também, considerar a punição
sob um outro aspecto. O primeiro objetivo da punição é
proteger o inocente das devastações do criminoso; temos
de coibir isso. O objetivo seguinte é acender em seu
coração a chama do arrependimento, para consumir as
suas más inclinações e para iluminar a sua consciência em
fazermos algo que lhes cause dor, privando-os de coisas
que normalmente lhes causam prazer, tais como alimento,
bebidas, e satisfação das necessidades físicas. As
pessoas em que as altas faculdades espirituais estão
dormentes podem, talvez, ser acordadas através dos mais
baixos traços físicos de sua vida. Quando também isto
falha, há, finalmente, a agonia completa, um tipo ou
símbolo muito terrível para contemplar.
1764. O nosso Mensageiro tinha de avisar a sua geração,
regenerá-la, quanto ao pecado, e ser testemunha, a favor
dos virtuosos, e contra os maus, como o fez Moisés, na
sua geração.
1765. Isto não é uma ameaça vazia. É uma admoestação,
para o vosso bem. O arrependimento e a emenda são o
caminho reto, para a vossa aproximação de Deus.
1766. O Profeta e um grupo zeloso dos seus
Companheiros ficavam acordados aproximadamente dois
terços ou metade da noite, permanecendo em oração e
recitando o Alcorão. É-lhes dito ser isto muito severo,
especialmente se a sua saúde for afetada, ou se estiverem
lutando denodadamente pela causa de Deus.
1767. A duração da noite e do dia solar, e a hora precisa
da metade da noite só podem ser determinadas por
observações precisas de um céu claro ou por intermédio
de cronômetros, o que não é possível a qualquer um
realizar. Deus fixou a noite e o dia em devidas proporções,
para o descanso e para o trabalho do homem. Para se
efetuarem as orações não há necessidade de observações
meticulosas daquele tipo, e nem elas são possíveis. As
orações podem ser efetuadas de várias maneiras, como é
explicado abaixo.
1768. A leitura do Alcorão, aqui, é quase equivalente à
oração e às evocações religiosas. Isto não deve ser
transformado numa obsessão cega ou numa carga.
Devemos fazê-lo atentamente e não de forma mecânica.
1769. Isto se refere ao Jihad (a luta pela causa de Deus).
1770. Comparar com a frase bíblica: “Ajuntai tesouros no
céu” (Mateus 6:20).
1771. Como é comum, nestes maravilhosos versículos
místicos, há uma dupla corrente de pensamento: (1) uma
ocasião ou pessoa particular é mencionada; (2) uma lição
geral e espiritualizada é ensinada. Quanto à primeira, o
Profeta ultrapassava o estágio de contemplação pessoal,
deitado ou sentado, com o seu manto; devia então
corajosamente sair e proclamar, publicamente, a sua
mensagem. O seu coração fora sempre puro, mas então
os seus feitos exteriores deveriam ser dedicados a Deus, e
o respeito convencional aos costumes antigos devia ser
posto de lado. O trabalho, como mensageiro, era a mais
generosa dádiva que poderia brotar de sua personalidade;
não devia, contudo, esperar nenhuma recompensa ou
reconhecimento do seu povo. Ao contrário, haveria maior
exigência da sua paciência, o seu contentamento surgiria
do fato de aprazer a Deus.
1772. A fórmula legal e comercial é dar para receber.
Geralmente, esperamos receber algo melhor do que aquilo
que demos. A consideração espiritual é dar e nada esperar
em troca. Nós servimos a Deus e às Suas criaturas.
1773. Os exegetas consideram que esta passagem se
refira a Ualid Ibn Mughia, um sibarita rico, idólatra ao
extremo, e um inveterado inimigo do Profeta. El e Abu Jahl
fizeram tudo o que estava ao seu alcance, desde o início
da pregação do Islam, para injuriarem e perseguirem o
pregador, e para destruírem a sua doutrina e injuriarem
também aqueles que nela acreditavam. Mas o significado,
para nós, é a inspiração divina. Eles procuram explicar a
sua maravilhosa influência sobre as vidas humanas por
uma fórmula insignificante, como “mágica”. A esperança
eterna, para eles, é mera ilusão humana.
1774. É um estado em que nem se vive, nem se morre.
1775. Quem são os dezenove? E por que este número?
Os 19 guardiões do inferno são compreendidos,
simbolicamente, como anjos ou faculdades humanas. O
Imam Fakhurddin Razi os classifica como 19 faculdades ou
poderes humanos, os quais, quando devidamente usados,
levam o homem ao avanço espiritual. Se mal usados,
porém, levam-no à perdição. Essas faculdades ou esses
poderes podem ser comparados com os anjos, pois estes
são poderes ou instrumentos de algo do mundo espiritual.
1776. O significado místico dos números é um ema favorito
de alguns escritores, mas nós não damos ênfase a isso.
Na teologia cristã, o número da Besta, 666, em
Revelações, 13:18, levantou muita controvérsia, e pode
referir-se apenas ao valor numérico das letras do nome do
imperador romano Nero.
1777. Um juramento, na língua humana, invoca algo
sagrado, no coração do homem. Na mensagem de Deus,
também, quando revelada em linguagem humana, a
ênfase solene é indicada por um apelo a algo formidável,
entre os sinais d’Ele, indo diretamente para o coração do
homem, ao qual está endereçado. De qualquer maneira, o
apelo refere-se ao ponto em particular, reforçado no
argumento.
1778. A noite, quando iluminada pelo luar, é clara, num
sentido, mas na realidade é escura e deve dar lugar à
aurora, quando aparece como arauta do sol. O mesmo se
dá nos assuntos espirituais; quando cada alma se der
conta da sua própria responsabilidade, parecerá cada vez
menos capacitada a refletir a luz, e através da beleza de
um despertar, estará preparada, cada vez mais, para o
esplendor da luz divina, a meta dos céus dos nossos
sonhos.
1779. Três interpretações são possíveis: (1) aqueles que
se antecipam devem ser os virtuosos, e os que se atrasam,
devem ser os preguiçosos, os incrédulos, que rejeitam o
amor, o zelo e a graça de Deus; (2) pode-se atribuir o texto
a homens de duas espécies de temperamento: aqueles
que estão sempre na vanguarda e aqueles que sempre
estão na retaguarda:; (3) ou pode-se concluir que as
advertências são efetivas, apenas para aqueles que
almejam mover-se para a frente e para trás, conforme o
caso, mas estão perdidos, no estado letárgico.
1780. O próprio Alcorão é uma admoestação – o
derradeiro, entre os livros revelados por Deus. Se o
homem tiver vontade de aprender, ele poderá conservar a
mensagem sempre à sua frente, e a graça de Deus irá
auxiliá-lo a realizá-la, na sua conduta.
1781. Os nossos doutos postulam três estágios de
desenvolvimento da alma: Am-mara, ou propensa ao mal,
que se não for modificada e controlada, pode levar à
perdição; Lau-uama, como aqui, que reprova a si mesma,
que tem consciência do mal e resiste a ele, pede pela
graça de Deus e pelo perdão, após o arrependimento, e
trata de emendar-se; Mutma-inna, o estado mais elevado
de todos, quando encontrará o descanso eterno e
alcançará e felicidade.
1782. Uma referência à parte mais delicada do seu corpo.
1783. A lua, com a sua atual refletida, cessará de brilhar.
Toda a verdade refletida ou relativa transformar-se-á em
nada, perante a Única Realidade.
1784. Em relação à lua, o sol é a fonte de luz, mas o
próprio sol é uma luz criada e transformar-se-á em nada,
juntamente com a lua. Ambos parecerão conchas vazias,
porque o Protótipo de toda a Luz estará brilhando, com
todo o esplendor, num mundo novo.
1785. O significado imediato era para que o Profeta
permitisse que a revelação lhe fosse transmitida
penetrassem em sua mente e em seu coração, e que não
fosse impaciente, a respeito disso; Deus certamente a
completaria, de acordo com o Seu plano, e veria que seria
recolhida e preservada pelos homens, sem nenhuma
perda. O significado geral segue a mesma linha: não
devemos ser impacientes, a respeito da Palavra inspirada,
devemos segui-la, à medida que se esclarece a nós, pelas
faculdades que nos foram concedidas por Deus.
1786. Esta passagem (especialmente com referência aos
versículos 26-28) parece tratar do que os nossos doutos
chamam de julgamento menor (Quiamatus Sughra), que se
dará logo após a morte, e não do julgamento final.
1787. Um quadro simbólico da agonia da morte.
1788. Quando a alma parte, as pernas são colocadas
juntas, em preparação aos rituais preliminares do
sepultamento. “Sác”, literalmente perna, pode também
significar, metaforicamente, uma calamidade.
1789. O argumento, aqui, deve ser exposto da seguinte
forma: a sua origem animal torna-o não mais do que um
bruto; o seu desenvolvimento fetal continua como o de um
animal; então, em algum estágio, aparecem os membros e
a forma humana; o espírito divino é-lhe insuflado; é-lhes
aperfeiçoada a forma, para o seu alto destino. A despeito
disso, o mistério do sexo continua na sua natureza: somos
almas viventes, mas homens e mulheres. Deus, que criou
estas maravilhas, não teria, acaso, poder para ressuscitar
os mortos?
1790. É certo que o mundo físico exista bem antes de o
homem ter sido mencionado, como os registros geológicos
provam. É também verdade que o mundo espiritual exista
bem antes de o homem entrar em cena. O homem, aqui, é
tomado num sentido genérico.
1791. Misturado: o óvulo feminino tem de ser fertilizado
com o esperma masculino, antes que o novo animal nasça.
O homem, como animal, possui esta humilde origem. Mas
foram-lhe dadas certas faculdades, para receber instruções
e possuir discernimento, espiritual e intelectual. Por isso, a
sua vida tem um significado: com uma certa dose de livrearbítrio,
é legatário de Deus na terra. Ele deve ser, porém,
treinado e testado, e este é todo o problema da vida
humana.
1792. O cativo: quando tomado literalmente, refere-se ao
antigo estado de coisas, em que os cativos de guerra
tinham de conseguir o seu próprio alimento ou a sua
libertação; mesmo prisioneiros criminosos passavam fome,
até que alguns amigos lhes fornecessem alimentos. Mas
há um significado simbólico a mais, que se aplica aos
indigentes, aos órfãos e aos cativos, ou seja, àqueles que
se encontram neste estado, no sentido espiritual; aqueles
que não possuem recursos mentais ou morais, ou que não
têm ninguém que cuide deles, estando num cativeiro
social, moral ou econômico.
1793. O sol e a lua, como os conhecemos, não mais
estarão ali. Haverá um novo mundo, num plano diferente.
Mas para darmos uma idéia de conforto, lembramos o
calor excessivo do sol, especialmente em climas tropicais,
e o frio excessivo da lua, especialmente em climas do
norte, e somos contrários a ambas as hipóteses. A lua não
e mencionada no versículo, mas a palavra zamharir (frio
excessivo) é algumas vezes usada para designar a lua.
1794. Sem o sol e sem a lua não haverá, certamente,
sombra, no sentido literal da palavra. Mas, para o conforto
completo, na metáfora, haverá sombras protetoras para o
descanso, com luz diferente da que há aqui. A idéia toda,
na metáfora, porém, é de humildade. Mesmo as sombras
mostram humildade. As “bandejas e copos de ouro” são
mencionados em outra passagem. Como tudo o que é
simbólico, o ouro ou a prata ou o cristal não importam. A
idéia comunicada é de raridade, preciosidade e esplendor
imaculado.
1795. Comparar com os versículos 5-6 desta surata, onde
o copo de cáfur (cânfora) foi mencionado, para o frescor
dos virtuosos, que já tiverem sido julgados. O segundo
estágio é simbolizado pelos versículos 12-14, quando eles
adentrarem o Paraíso com vestimentas de seda, e
verificarem que a sua humildade anterior, na vida
probatória, é recompensada com honra elevada, no mundo
novo que adentraram. O terceiro estágio está nos
versículos 15-21, onde estabelecer-se-ão bênçãos, com
vestimentas de seda e brocado, com ornamentos e jóias,
com um banquete e copo de zanjabil (gengibre).
1796. Esta fonte, Salsabil, nos traz outra idéia metafórica.
A palavra significa literalmente “solicitar o Caminho”. O
caminho está, agora, aberto para a presença do Altíssimo.
1797. Os braceletes são descritos como sendo de ouro,
em outra passagem. Mas como tudo é simbólico, para dar
a idéia de raridade e suntuosidade, ou o ouro ou a prata
servem ao propósito do simbolismo.
1798. O Alcorão fora revelado por etapas, à medida em
que a ocasião as requeria. A revelação desta surata foi
uma das primeiras. Perseguições, abusos e falsas
acusações estavam sendo levadas a efeito contra o
Profeta. Mas é-lhes ordenado permanecer firme na sua
missão. Esta surata se aplica a todos os que sofrem pela
causa da verdade.
1799. São mencionados três métodos de oração e
devoção: lembrar e celebrar sempre o nome de Deus;
permanecer uma parte da noite em humildade prostração;
e glorificar a Deus, em longas horas de vigília.
1800. Esta surata, altamente mística, começa com um
apelo a cinco coisas, à media que vai apontando para a
manifestação essencial no versículo 7, dizendo que o Dia
da Justiça e do Julgamento está para vir e devemos nos
preparar para isso. É difícil traduzir, mas fácil de
compreender, se nos lembrarmos de que uma corrente
tripla de alegoria se depreende desta passagem
(versículos 1-7). As cinco cosias ou fases que serão agora
consideradas em detalhe, referem-se aos ventos, no
mundo físico, aos anjos, no mundo espiritual e aos
Profetas, no mundo humano, ligando-o ao mundo
espiritual.
1801. Se compreendermos a passagem como se referindo
aos ventos, podemos ver que são fatores poderosos, no
governo do mundo físico. Ele vêm, suavemente, como
precursores das bênçãos da chuva e da fertilidade. Mas
podem vir violentamente, em forma de furacão, destruindo
tudo. Podem dispersar as sementes e podem separar a
casca do grão, ou limpar o ar das epidemias; e podem,
liberalmente, conduzir o som e, portanto as mensagens, e,
metaforicamente, são instrumentos para tornar a revelação
de Deus acessível aos que a ouvem. Todas estas coisas
apontam para o poder e para a benevolência de Deus, e é-
nos pedido que creiamos que sua promessa de graça e de
justiça no além é, deveras, verídica.
1802. Se considerarmos que a passagem não se refere
aos ventos, mas aos anjos, estes são os agentes do
mundo espiritual e desempenham funções similares,
mudando e revolucionando a face do mundo. Eles vêm
suavemente, como portadores de beneficência e de graça;
são encarregados de punir e destruir pelo pecado, como é
o caso dos dois anjos que apareceram a Lot. Eles
distribuem as graças de Deus, como os ventos distribuem
as boas sementes: eles separam o bem do mal, entre os
homens e são os agentes, por intermédio dos quais, as
mensagens e as revelações são conduzidas aos profetas.
1803. Se compreendermos a passagem com referência
aos profetas ou mensageiros de Deus, ou aos versículos
de Revelação, o que seria apropriado nos versículos 5-6,
nós também conseguiremos uma solução satisfatória da
alegoria. Os profetas se sucederam, em uma série; os
versículos do Alcorão foram revelados sucessivamente, à
medida em que eram necessários. Em ambos os casos,
isto ocorreu para o proveito espiritual do homem. Eles
causaram grandes mudanças, num mundo espiritualmente
decadente; arrancaram as raízes e os ramos das
instituições malignas e os substituíram por outros, novos.
Proclamaram as suas verdades em todas as direções, sem
receio, nem favoritismo. Por seu intermédio, foram
separados os homens de fé dos rebeldes contra as leis de
Deus. Eles transmitiram uma mensagem, por intermédio da
qual os justos foram inocentados pelo arrependimento, e
os maus foram admoestados pelos seus pecados. Alguns
exegetas consideram uma ou outra dessas alegorias e
outros aplicam uma alegoria a uns poucos desses
versículos e outros a outros poucos. Na nossa opinião, a
alegoria é suficientemente ampla para dar a entender
todos os significados que expusermos.
1804. Agora, em quatro versículos (8-11), somos
informados, novamente em alegoria, apesar de podermos
considerá-los literalmente, se o desejarmos, com
referência às coisas que acontecerão naqueles dias
derradeiros. O brilho das estrelas tornar-se-á escuro; de
fato, elas desaparecerão. A abóbada celeste se fenderá.
As montanhas serão desintegradas e voarão, como se
fossem pó. Todos os marcos do mundo físico, como os
conhecemos, serão varridos para longe.
1805. O crescimento silencioso, no ventre da mãe, e a
proteção e o sustento que a criança recebe, da vida da
mãe, são, por si, maravilhas da criação.
1806. O período aproximado de nove messes e dez dias
está sujeito a muitos ajustes. De fato, por toda a vida pré-
natal, bem como pela pós-natal, há maravilhosos e bem
ponderados ajustamentos, os quais passam
inconscientemente.
1807. Talvez a vida no ventre, em relação à vida após o
nascimento, seja uma alegoria da nossa vida probatória na
terra, em relação à vida eterna, que virá. Talvez, também,
o nosso estado, quando somos sepultados na cova, sugira
uma alegoria da vida no ventre, em relação à vida no outro
mundo.
1808. Que parábola maravilhosa! A terra é um lugar onde a
morte e a vida decaem e crescem e decaem; erva verde,
restolho e combustível, corrupção e purificação andam
juntos, um sempre levando o outro expediente. O drama
que vemos com os nossos olhos, neste mundo, poderá
capacitar-nos a apreciarmos as maravilhas do mundo
espiritual, onde os despregados e rejeitados receberão as
mais elevadas honrarias.
1809. Casr: castelo, grande construção, palácio.
1810. As chispas amarelas, voando rapidamente, uma
após a outra, sugerem uma fileira de camelos, marchando
rapidamente, tal como os do Najd e da Arábia Central, dos
quais os árabes tanto se orgulham há uma dupla alegoria.
A passagem não se refere apenas à cor e à rápida
sucessão de chispas, mas à vaidade do orgulho terreno,
como se dissesse: “Vossos camelos amarelos, dos quais
tendes tanto orgulho nesta vida, não são mais do que
chispas, voando para longe, que vos atormentarão no
outro mundo”.
1811. Podemos supor que isto foi dirigido, primeiramente,
aos coraixitas, que conspiravam contra o Profeta. Podeis
usar toda a vossa sabedoria e a dos vossos ancestrais,
mas não sereis capazes de derrotar Deus ou os Seus
planos.
1812. Isto, em contraste com a tripla sombra de fumaça e
pecado, para os pecadores, que nem lhes dá frescor, nem
os protege do fogo. Em linguagem mística, as sombras e
as fontes do Paraíso são interpretadas alegoricamente.
1813. “Comei” é, certamente, o símbolo de se ter as boas
coisas da vida, neste mundo. Talvez elas nos sejam dadas
somente como prova. Porque as mentes e os desejos
correm para as coisas errôneas; as oportunidades para o
erro são múltiplas, já que o ímpeto para o bem ou para o
mal aumenta progressivamente. É-lhes dito que se
arrependam e se emendem. Se não o fizerem, serão alvo
de compaixão, mesmo pelas coisas boas desta vida, pois
terão um péssimo fim, na próxima vida.
1814. A grande notícia. Nesse caso, refere-se ao Alcorão,
ou à Mensagem da Revelação, ou à Mensagem do
Profeta.
1815. A extensão espaçosa da terra é um dos dez
portentos de Deus, enumerados até ao versículo 16: o
grande panorama da nossa natureza exterior (versículos 6-
7); a criação dos humanos em casais, com a sucessão do
descanso e do trabalho, adaptando-se à alternância da
noite e do dia (versículos 8-11); o firmamento, em cima,
com as suas esplêndidas luzes (versículos 12-13); e as
nuvens e a chuva, e abundantes colheitas, que mantêm o
céu, a terra e os homens juntos (versículos 14-16). Estas
coisas apontam para Deus, e a Mensagem de Deus aponta
para a vida futura.
1816. As t