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- A Essência da Civilização Islâmica -O Tauhid como Essência da Visão do Mundo -Dualidade -Conceptibilidade -Teleologia -A Capacidade do Homem e a Maleabilidade da Natureza -Responsabilidade e Arbítrio 2 - Os Princípios da Estética -A Consciência Árabe - Substrato Historico do Islam -A Primeira Obra de Arte do Islam - O Alcorão -Realização Estética nas Artes Visuais -A Caligrafia Árabe - A Arte Primordial da Consciência da Transcendência -Desenvolvimento - A Arte Fratena 1 - A Essência da Civilização Islâmica
O tauhid é uma visão geral da realidade, da verdade, do mundo, do espaço e do tempo, da história da humanidade. Como tal, compreende os seguintes princípios: A realidade tem duas naturezas genéricas: a divina e a profana; a do Criador e a da criatura. A primeira natureza tem um único constituinte, Deus, o Absoluto e Onipotente. Somente Ele é Deus, Eterno, Criador, Transcendente. Nada se Lhe assemelha; Ele permanece eterna e absolutamente Único e não tem parceiros, nem associados. A segunda natureza é a ordem do espaço-tempo, da experiência, da criação. Inclui todas as criaturas, o universo das coisas: plantas e animais, dos seres humanos, gênios e anjos, os céus e a terra, Paraíso e Inferno e todo o processo de formação disto tudo, desde que foi criado. As duas naturezas, a do Criador e a da criação, são total e completamente diferentes entre si, quanto à espécie ou ontologia, bem como no que diz respeito às suas existências e propósitos. Será sempre impossível que uma seja unida, fundida, associada ou mesclada à outra. Nem poderá o Criador ser ontologicamente transformado na criatura, nem a criatura transcender e transfigurar-se para tornar-se, de alguma forma ou sentido, no Criador. A relação entre essas duas naturezas da realidade é concepcional por natureza. O seu ponto de referência, no ser humano, é a faculdade racional. Como órgão preservador do conhecimento, a sua capacidade de raciocínio e racionalização abrange todas as funções orgânicas de memória, imaginação, dedução, observação, intuição, preocupação, e assim por diante. Todos os seres humanos são dotados de raciocínio e compreensão. Esse dom é forte o suficiente para lhes permitir a percepção da vontade de Deus de um ou ambos os modos: quando essa vontade é manifestada em palavras, diretamente, por Deus, ao homem, e quando essa vontade divina é dedutível, através da observação da criação. A natureza do universo é teleológica, isto é, determinada para servir a algum fim do seu Criador, fazendo-o de acordo com um desígnio. O mundo não foi criado em vão, nem por divertimento. Não é obra do acaso ou acidente de percurso. Ele foi criado em condições perfeitas. Tudo o que há, existe em proporção e na medida adequada, e cumpre um certo propósito universal. O mundo é, na verdade, um "cosmo", uma criação ordenada, e não um "caos". Nele, sempre se realiza a vontade do Criador. Os seus padrões são preenchidos pela necessidade da lei natural. Pois elas (as leis naturais) estão sempre inseridas na própria essência das coisas. Nenhuma criatura, além do homem, age ou existe, de forma ou modo diferente daqueles que lhe foi atribuído pelo Criador. O homem é a única criatura na qual a vontade de Deus é manifestada sem compulsão, mas sim com o consentimento individual do próprio homem. As funções físicas e psíquicas do homem são parte da sua natureza, e portanto, obedecem às leis que lhe dizem respeito, com a mesma necessidade de todas as outras criaturas. Mas, as funções espirituais, especificamente a racionalidade e a moralidade, escapam ao domínio da natureza predeterminada. Dependem do seu possuidor e seguem a sua determinação. O cumprimento da vontade divina, pelo ser humano, tem valores qualitativamente diferentes dos do cumprimento compulsório, pelas outras criaturas. O preenchimento obrigatório, no homem, se restringe aos valores elementares e utilitários, cabendo à sua moralidade o cum-primento daqueles que lhe são facultativos. Entretanto, os propósitos morais de Deus, os Seus mandamentos ao homem, possuem um fundamento no mundo físico, e, portanto, possuem também um aspecto utilitário. Mas não é isto o que lhes confere uma qualidade distinta, a de serem morais. É precisamente o aspecto de que tais mandamentos possam ser cumpridos por opção livre, incluindo, por isso, a possibilidade de serem violados, o que proporciona a dignidade que atribuímos às coisas, que chamamos de "morais". A Capacidade do Homem e a Maleabilidade da Natureza Uma vez que todas as coisas foram criadas com um propósito, a realização desse propósito deve ser possível, no espaço e no tempo. Caso contrário, não haveria como escapar do ceticismo. A própria Criação e os processos do espaço e do tempo perderiam a sua razão e o seu significado de ser. Sem essa possibilidade, a taklif, ou obrigação moral, tudo cai por terra; e, na sua queda, destrói o determinismo de Deus ou do Seu poder. A realização do absoluto, ou seja, da razão divina de ser da criação, tem de se tornar possível historicamente, isto é, nos limites do tempo, entre a criação e o Dia do Juízo Final. Uma vez que está sujeito à ação moral, o homem deve, portanto, ser capaz de se reformular a si mesmo, os seus companheiros ou a sua comunidade, a sua natureza ou o seu ambiente, de modo a corresponder plenamente ao padrão divino, ou em conformidade com o mandamento divino, por si próprio, bem como pelos demais. Como objeto da ação moral, o homem, bem como seus semelhantes e o ambiente, devem ser capazes de receber a ação eficaz do homem, seu sujeito. Essa capacidade é o inverso da capacidade moral do homem de agir como sujeito. Sem ela, a capacidade de ação moral do homem seria impossível, e a natureza determinada do universo cairia por terra. Mais uma vez, não haveria como escapar da misantropia. Para que a criação tenha um objetivo - e isto é uma idéia necessária, se é que Deus é Deus e Sua obra não é uma obra do acaso e sem sentido -, então a criação deve ser maleável, reformável, capaz de transformar as suas substâncias, sua estrutura, suas condições e relações, de maneira a incorporar ou concretizar o padrão ou o propósito humano. Isto é igualmente verdadeiro para toda a criação, inclusive para a natureza física, psíquica e espiritual do homem. Toda a criação é capaz de alcançar aquilo que deve ser que é a vontade e o padrão de Deus, o absoluto, neste espaço e neste tempo. Se o homem
tem a obrigação de se reformular a si próprio, à
sua sociedade e ao seu meio-ambiente, de modo a corresponder ao padrão
divino, e é capaz de fazê-lo - e se tudo o que é meta
dos seus atos é maleável e capaz de se moldar a eles e incorporar
os seus objetivos - entende-se, então, que, por necessidade, ele
é responsável. A obrigação moral é
impossível, sem a responsabilidade ou o arbítrio. A não
ser que o homem seja responsável e a não ser que tenha de
prestar contas dos seus atos, o cinismo se tornará então,
inevitável. O arbítrio, ou a consumação da
responsabilidade, é a condição necessária
da obrigação moral, o imperativo da moralidade. Isto flui
da própria essência da "normatividade". Não
importa se a prestação de contas ocorre dentro dos limites
de espaço-tempo ou no seu final, ou em ambas as fases; resta o
fato de que ela deve ocorrer. Obedecermos a Deus, ou seja, cumprirmos
os Seus mandamentos e correspondermos ao Seu padrão, é alcançarmos
o faláh, ou êxito, felicidade, bem-estar. Não fazemos,
desobedecendo-Lhe, é incorrermos em castigo, sofrimento, infelicidade
e nas agonias do fracasso. O tauhid (monoteísmo), a essência da crença islâmica, significa a separação ontológica da deidade quanto a todo o reino da natureza. Tudo quanto está na criação é a criatura, não-transcendente, sujeita às leis do espaço e tempo. Nada nela pode ser Deus ou divino, em nenhum sentido, em especial no ontológico. Deus é totalmente diverso da criação, totalmente diverso na natureza e, então, transcendente. Ele é o único ser transcendente. Indo mais além, o tauhid assevera que nada é igual a Ele. Se, então, nada na criação pode ser a imagem ou símbolo de Deus, nada pode representá?Lo. De fato, Ele é, por definição, irrepresentável. Deus é Aquele do Qual nenhuma representação estética é possível - seja ela sensória ou não. A arte é o processo de se descobrir, em meio à natureza, aquela essência metanatural, e se representar nela uma forma visível. É evidente que a arte não é a imitação da natureza criada; nem a representação sensorial da natureza, dos objetos cuja "naturação" ou a realidade natural esteja completa. Uma representação fotográfica que reproduza o objeto como ele é talvez tenha o seu valor para ilustração ou documentação, para o estabelecimento da identidade. Mas como obra de arte é sem valia. Arte é a leitura, na natureza, de uma essência que é não-natureza, e o acréscimo a essa essência da forma visível que lhe é própria. O tauhid não é contra a criatividade artística; nem tampouco é contra o enleio quanto ao belo. Pelo contrário, ele bendiz o belo, e o promove. Ele vê a absoluta beleza somente em Deus, na Sua vontade e nas Suas palavras reveladas. De acordo com isso, o artista muçulmano foi prestes em criar uma nova arte que beneficiasse o seu ponto de vista. Começando da premissa de que não há outra divindade além de Deus, o artista muçulmano está convencido de que nada na natureza pode representar ou exprimir Deus. Portanto, ele estilizou todas as coisas da natureza que O representassem; ou seja, através da estilização, ele as retirou da natureza, tanto quanto possível. De fato, o objeto da natureza foi de tal modo dela retirado, que se tornou quase irreconhecível. Nas suas mãos, a estilização foi um instrumento negociativo pelo qual ele disse "Não!" a tudo que fosse natural, à própria criação. Ao negar categoricamente a sua naturalidade, o artista muçulmano exprimiu, de visível, o aspecto negativo da chaháda, isto é, nenhum outro além de Deus é Deus. Essa chaháda do artista muçulmano é deveras equivalente à negação da transcendência, na natureza. O artista muçulmano não parou aí. Sua investida criativa aconteceu quando começou a compreender que exprimir Deus numa figura da natureza é uma coisa, e exprimir?Lhe a inexpressibilidade nessa figura é outra. Conscientizar-se de que Deus é visualmente inexprimível, é o mais elevado objetivo estético possível para o homem. Deus é o absoluto, o sublime. Julgarmo?Lo irrepresentável por meio de nada existente na criação é afirmarmos seriamente a sua absoluteza e sublimidade. Contemplarmo?Lo, na nossa imaginação, como desigual a tudo o que há na criação é contemplarmo?Lo como "belo, diferentemente de qualquer outro objeto que seja belo". A inexpressibilidade divina é um atributo divino cujos significados são: infiniteza, absoluteza, ultimação ou incondicionamento, ilimitabilidade. O infinito é, em todos os sentidos, o inexprimível. Na busca desta linha de pensamento islâmico, o artista muçulmano inventou a arte da decoração, e a transformou no "arabesco", um desenho que se estende em todas as direções infinitamente. O arabesco transfigura o objeto da natureza que ele decora - seja tecido, metal, parede, vaso, teto, pilar, janela ou páginas de um livro - num padrão sem peso, transparente e flutuante, estendendo?se infinitamente em todas as direções. O objeto da natureza não é ele mesmo, mas é "transubstanciado". Tornou?se apenas um campo de visão. Esteticamente falando, o objeto da natureza tornou?se, sob o tratamento arabesco, uma janela para o infinito. Contemplarmo?lo como sugestivo de infinidade é reconhecermos um dos significados da transcendência, o único dado, embora apenas negativamente - para a representação sensorial e a intuição. Isso explica porque a maior parte das obras de arte produzidas pelos muçulmanos era abstrata. Mesmo quando as figuras de plantas, de animais ou de humanos eram utilizadas, o artista as estilizava adequadamente, para negar a sua criaturabilidade, para negar que qualquer essência sobrenatural residia nelas. Nesse trabalho, o artista muçulmano foi ajudado pelo seu legado linguístico e literário. Para o mesmo fim, ele desenvolveu a escrita árabe, para fazer dela um arabesco infinito, estendendo, inampliavelmente em qualquer direção, à escolha do calígrafo.
O principal
instrumento da consciência árabe da corporificação
de todas as suas categorias é a língua árabe. Em
essência, a língua árabe é constituída
principalmente de raízes formadas por três consoantes, sendo,
cada uma delas, suscetível de ser conjugada em mais de trezentas
formas, por meio de se mudar a vocalização, adicionar um
prefixo, um sufixo. Para qualquer uma das conjugações afetadas,
todas as palavras que tiverem a mesma forma conjugacional terão
que ter o mesmo significado modal, não importando as suas raízes.
O significado da raiz permanecerá; mas ligado a ele há um
outro significado, um significado modal, dado a ele pela conjugação,
permanecendo sempre e em todo lugar, o mesmo. A língua tem, então,
uma estrutura lógica, clara, completa e compreensível. Uma
vez apreendida essa estrutura, o indivíduo torna?se senhor da língua,
sendo, o conhecimento do significado das raízes, de importância
secundária. A arte literária consiste na construção
de um sistema de conceitos relacionados uns com os outros, de tal modo
que ponha em ação os paralelismos e contrastes engendrados
pela conjugação das raízes verbais, sendo que isso
propicia, ao entendimento, mover?se através de uma teia, em linhas
contínuas ou ininterruptas. Um arabesco em que milhares de triângulos,
quadrados, círculos, pentágonos, hexágonos são
todos pintados com diferentes cores, e se entrelaçam uns com os
outros, deslumbram os olhos, mas não a mente. Reconhecendo cada
figura pelo que é, a mente pode mover?se de um pentágono
para outro, a despeito da sua variação de cor, e percorrer
a tela de extremo a extremo, experimentando algum deleite a cada parada,
com a conscientização do paralelismo proporcionado pelas
formas idênticas, isto é, pelas modalidades idênticas
dos vários significados?raízes, e do contraste proporcionado
pelos próprios significados raízes. A poesia árabe
consiste de versos autônomos, completos e independentes, sendo,
cada um dos quais, uma idêntica realização de um e
mesmo padrão métrico. O poeta é livre para escolher
qualquer um dos vários padrões conhecidos. Porém,
uma vez escolhido, todo o seu poema deve estar conforme, em cada parte,
a esse padrão. Ouvirmos e apreciarmos poesia árabe é
apreendermos esse padrão, conforme o poema está sendo recitado;
e nos movermos com o fluxo métrico, é esperarmos para receber
aquilo que o padrão antecipou. Com certeza as palavras, os conceitos
e as construções são diferentes em cada verso. Isto
é o que proporciona a variação de cores. Mas a forma
estrutural é aquela completa. Sendo o padrão métrico
dos versos constitutivo, não importa, para os versos de um poema,
se são lidos na ordem em que o poeta os escreveu, ou em qualquer
outra ordem. Lido de trás para diante ou de diante para trás,
o poema é igualmente suave, pois o poeta nos leva através
do padrão, com cada verso; e a repetição nos deleita,
por meio de disciplinar a nossa faculdade intuitiva a esperar e a realizar
aquilo que ela esperava na variedade dos fatos, dos significados e das
percepções. Por definição, portanto, nenhum
poema árabe é acabado, fechado e, de modo algum, completado
de maneira que nenhuma adição a ele ou continuação
dele possa ser efetuada ou concebida. De fato, o poema árabe pode
ser alongado em ambas as direções, ao seu começo
e ao seu fim, sem a mais leve adulteração da sua estética,
seja ela feita por qualquer homem, por causa do seu estilo pessoal, ou
então pelo próprio autor. A Primeira Obra de Arte do Islam - Al Quram Al Carim (O Alcorão Sagrado) Se é que alguma coisa é arte, certamente o Alcorão o é. Se a mente do muçulmano tem sido afetada por algo, certamente o tem pelo Alcorão. Não há muçulmano algum a quem a cadência, as rimas e as aujuh al balágha (requintes de eloqüência) não tenham calado, no mais íntimo do seu ser; não há muçulmano algum ao qual as normas e fontes de beleza do Alcorão não tenham remodelado e tornado a sua própria imagem. Todos reconhecem que, embora os versículos alcorânicos não tivessem conformidade com qualquer um dos conhecidos padrões de poesia, produzem o mesmo efeito da poesia, aliás, num grau superlativo. Cada versículo é, por si só, completo e perfeito. Freqüentemente ele rima com o versículo ou versículos precedentes, e contém um ou mais significados religiosos, contidos em expressões ou articulações literárias de sublime beleza. Tão poderoso é o ímpeto por ele produzido, que a recitação impele irresistivelmente a audiência a se mover com ele, a esperar o próximo versículo e a alcançar a mais intensa quietude, ao ouvi?lo. Então o processo começa novamente com o próximo, ou com dois ou três grupos de versículos.
A história pré-islâmica conheceu a estética da palavra, na prosa e na poesia. Embora ela não tivesse sido tão desenvolvida nas mãos de ninguém como o foi nas mãos dos árabes, nas vésperas do Islam, os mesopotâmios e os hebreus, os gregos, os romanos, e os hindus, haviam impulsionado as fronteiras da estética da palavra para graus razoáveis. Em caso algum, todavia, houve, em lugar algum - inclusive na Arábia - qualquer estética da palavra visual. A escrita era rude e esteticamente desinteressante, por todo o mundo, e, na maior parte, ainda o é. Com o advento do Islam e o seu avanço em direção à transcendência nas artes visuais, um novo horizonte esperava para ser explorado; e os artistas muçulmanos ergueram?se para o desafio. Gradativamente, mas num espaço de duas gerações, o artista muçulmano transformou a palavra árabe numa obra de arte visual, portando consigo a significação estética concedida à intuição sensorial. Igual ao resto das artes, essa nova arte ficou submetida ao propósito global da consciência islâmica. Suas capacidades visuais foram desenvolvidas a ponto de constituirem arabescos. Nas escritas nabatéias e siríacas, as letras eram destacadas umas das outras, como nas escritas gregas e latinas. O artista árabe juntou?as, tanto que, ao invés de ver a letra, o olho podia, com um único vislumbre e com uma única intuição sensorial, ver toda a palavra e, de fato, toda a frase ou linha. Em segundo lugar, o artista árabe elastificou as letras, a ponto de poder então esticá?las, prolongá?las, contraí?las, incliná?las, estirá?las, endireitá?las, curvá?las, dividí?las, engrossá?las, estreitá?las, alargá?las, em parte ou no todo, como lhe aprouvesse. O alfabeto torna?se um obediente material artístico, pronto para corporificar e executar qualquer idéia ou esquema estéticos que o calígrafo tivesse em mente. Em terceiro, ele põe em funcionamento tudo aquilo já aprendido na arte do arabesco, especialmente no campo da floração e geometrização, não apenas para melhor decorar a escrita, mas para fazer da própria escrita um arabesco no seu próprio direito. A escrita árabe tornou?se uma linha livremente ondulatória, capaz de se interromper em dado momento e novamente se completar, quer simetricamente arranjada, ou largamente espalhada. A elasticidade introduzida ao alfabeto faculta ao calígrafo fazer isso de qualquer maneira ou de ambas as maneiras, seguindo o sobre?plano estético que procurou desenvolver. Por fim, ele "abriu" o alfabeto para não apenas receber as decorações arabescas, mas para mesclar?se com ele, para constituir um grande arabesco. Ele tornou possível que um outro arabesco se sobressaisse da escrita, ou que a escrita se sobressaisse aos arabescos. O caráter essencial da letra, que lhes deu a legibilidade, foi preservado, e isso constituiu, na escrita, aquilo que os padrões métricos constituem na poesia, sendo que as formas geométricas e florais constituem os arabescos mais planos. A representação artística dos formatos legíveis deu?lhes o seu impulso. Como um arabesco que é, a escrita árabe simplesmente transformou o primordial meio?termo do entendimento discursivo, o alfabeto ou símbolo lógico, num material artístico sensório e numa substância envolvente e estética, produtora de uma sui generis intuição estética. Isto foi um triunfo para a arte humana, para que conquistasse o último reduto da razão discursiva, para que a anexasse e a integrasse ao reino da estética sensorial. Isso constituiu a mais elevada e definitiva vitória artística do Islam. Foi Abu Haiyan al Tauhidi, na sua obra ilm al Quitába (A Ciência da Escrita), quem disse: "Geralmente, a escrita é o planeamento espiritual com os meios materiais." Através das eras, os muçulmanos têm recitado os dizeres de sagas anônimas, tais como: "As mentes dos homens encontram?se sob as pontas das suas penas"; "A escrita é a irrigação do pensamento"; "A bela escrita mitiga o pobre pensar, e beneficia a idéia sadia com o poder da vida." Tasauwof
(Sufismo) Literatura
Samir El Hayek |
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